JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Conto completo extraído do livro "FIGURAS DE GESSO"
Histórias contemporâneas - 4ª Edição (on-line)

A Filha do Santeiro

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Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011

I

Lucas era um baboso pelos filhos. Há mais de uma hora que está em pé, além, no limiar da porta, encostado à ombreira, a contemplar a pequenada que brinca.
Como é tarde calmosa de estio, tem a cabeça nua, mangas arregaçadas, pés descalços; sente-se bem a tomar o fresco, à sombra da parreira, remirando-se nos pequenos, enquanto a mãe anda por fora na labutação do costume.
No meio da criançada que chilreia, levantando a poeira da rua, anda um diabrete mais pequeno, arrastando um papagaio enorme, a saltar e a correr desesperadamente, como se realmente tivesse o demónio no corpo. Não parece irmão dos outros porque é mais débil, mais franzino e mais escuro, sobretudo mais escuro.
Não é preto retinto, mas tem os beiços grossos, o nariz chato, o cabelo crespo e essas feições características que denunciam o mulato.

É para ele que se dirigem, com insistência, os mais enternecidos olhares de Lucas. Se a criança é tão delicada e tão pequenina, será seu filho como os outros? Não é, mas quer-lhe como se o fora; e quando, ao descair da tarde, o senta nos joelhos, envolvendo-o numa carícia prolongada e ensinando-lhe a erguer as palmas para o pai dos deserdados, o bondoso Lucas passa as costas da mão pelos olhos humedecidos e sente na garganta um nó que o sufoca.

II

Lucas, sem ser um Praxíteles[1] nem um Scopas[2], era contudo um estatuário de grandes créditos. Nunca frequentou academias nem museus, nunca ouviu falar em artes plásticas; mas nenhum artista dispunha como ele, do desembaraço, do condão, da facilidade de transformar um tosco pedaço de barro numa formosa imagem, capaz de figurar num andor.
Dessem-lhe uma colher, uma espátula, dois quilos de gesso, um pincel e uma pitada de almagre[3] e veriam como ele, num abrir e fechar de olhos, a sorrir e a brincar com os dedos, como quem não quer a coisa, improvisava um Santo António de Pádua com bambino e tudo, faltando-lhe apenas o falar.
É por isso que os santos fabricados por suas mãos habilidosas são disputados nas feiras, com inveja, e atraem a devota cobiça do beatério[4].
Nem admira, os seus artefactos têm a dupla vantagem da barateza e do milagre. Cura que os santos de Lucas não produzam, é escusado chamar a mestrança, que nenhum Esculápio[5] a faz com as suas drogas e mezinhas.
Especialmente o S. José, com a vara de açucenas floridas e a Virgem com as espadas de zinco embebidas no peito, são de um efeito seguro, para maleitas e rupturas.

Daqui resulta que nas feiras onde o Lucas aparece com as suas imagens, ninguém mais vende um menino Jesus de três vinténs, nem um reles S.Francisco de meio tostão.

É desta indústria que lhe nasce nas arcas o pão dos filhos. Abençoada indústria!

Ora o ofício rende bastante, não há dúvida; mas, não tanto que lhe garanta uma existência desafogada. Como todos os talentos anónimos, o artista arrasta-se na obscuridade e na pobreza; mas, Lucas, não é homem para sucumbir aos primeiros reveses. Trabalha noite e dia, sem descanso nem desfalecimentos, porque os filhos são muitos e o pão está pela hora da morte.

Entretanto nem tudo são espinhos no seu horto. Que deliciosa coisa não é para a sua alma de lutador, o sair de casa, ao romper da alva, com o seu grande tabuleiro à cabeça, bem provido de santos e santas de toda a espécie - uma corte celestial completa - e regressar à noite, depois da feira, cantarolando pelas estradas, tabuleiro vazio à tiracolo, os bolsos falsos da blusa derreados de patacaria[6], entrar em casa como um triunfador, espapar-se[7] na tripeça[8], à lareira, satisfeito como um abade farto e sentir-se, de repente, abraçado por todos os lados, nas pernas, nos braços, no pescoço, pela garotada festil[9], pelos filhos do seu amor!

Nestes momentos, a tripeça afigura-se-lhe um trono e as carícias dos pequenos diabretes indemnizam-no, à farta, das longas caminhadas por ásperas veredas e, sobretudo, dos apuros em que se encontrara para se desfazer do último Santo Amaro - um mísero S.Amaro que, por ter sofrido o revés de esmurrar o nariz contra o rabo do cavalo de S. Jorge, padeceu a vergonha de ser vendido com 50 por cento de abatimento.

Mas, passadas as primeiras comoções do júbilo paterno, o artista atravessava o tabuleiro nos joelhos, relanceava os olhos pelos andrajos da mulher e dos pequenos e cismava dolorosamente na pobreza, que o cercava.

Ruínas por toda a parte: as janelas sem vidros, o soalho esburacado, as portas a ruir de podres, o tecto a desabar, o vento assobiando por todas as frinchas! Há casas de malta[10] mais confortáveis. Isto confrangia-o.

O Cabinda, que era um generoso rapaz seu vizinho, criado do brasileiro e assíduo frequentador da oficina, tinha-lhe por vezes oferecido dinheiro para montar o estabelecimento em bases mais largas, num edifício espaçoso, onde pudessem fulgir com mais brilho os seus talentos de estatuário; mas, o Lucas, que em matéria de finanças campava[11] de Colbert[12], tinha um horror inato aos empréstimos e declarou peremptoriamente que não estava disposto a envolver-se em camisa de onze varas. Os santos andavam de rastos pelas feiras, a devoção decrescia a olhos vistos e o gesso tinha subido no mercado.
- Veremos lá mais para diante - rematava o santeiro, sacudindo o pó da blusa.

III

Mas os tempos não melhoravam, os pequenos cresciam sem licença de Deus, o negócio não dava para larguezas e, por tudo isto, o Lucas andava descontente.
Acrescia que a filha mais velha, a sua Luísa, o descanso da mãe e o amparo dos irmãos, uns dezasseis anos tão garridos e invejados, andava agora tão abatida, tão alheada, tão diversa do que sempre fora, que o pobre pai, deveras intrigado com o que via, não cessava de perguntar:
- Que tens tu, rapariga? Que te dói, filha? Desconheço-te, há tempos a esta parte...

Mas a Luísa não tinha nada. Era a sua resposta invariável.

Não tinha nada e, contudo, sofria evidentemente. Bastava reparar-lhe nas olheiras fundas, nos modos bruscos e violentos e no atormentado das feições.
Não tinha nada e, todavia, passava as noites sem pregar olho, num frenesi que a mortificava, ora a tremer de frio, ora a arder em febre, aninhada como um gato ao canto da oficina, sentindo-se abafar no cheiro acre das tintas e do gesso.

Ao pé da oficina, na saleta contígua, dormiam felizes os irmãos e ressonava a mãe, enquanto que ela, sem poder conciliar o sono, relanceava melancolicamente os olhos pelo estreito recinto como quem procura a imagem de algum ente querido, ou repassava na memória os dias findos, dias de ontem mas já tão distantes, comparando a sua situação à de outras, que ela conhecia, menos formosas mas muito mais felizes, pois que tinham no mundo alguém, que as amava...

Também ela já tivera alguém no mundo; mas tudo isso fugiu como um sonho. Fora o Valverde o seu primeiro e o seu amor derradeiro. Que formosura de rapaz! Ninguém como ele dedilhava na guitarra melodias de enternecer; ninguém enleava na cinta a faixa com mais primor. A casa dele era chegada à dela. Foram criados juntos e viveram paredes-meias. Todos os dias se viam e brincavam no terreiro; às vezes beijavam-se quando eram mais pequenos. Um dia, no caminho da fonte, quando eram já crescidos, pararam a olhar um para o outro e ele disse-lhe ao ouvido:
- Ou morro solteiro ou hei-de casar contigo.

Bonitas palavras! Bonitas mentiras!

Mas tudo tinha acabado de chofre. O pai de Valverde, que é um unhas-de-fome[13] e um homem sem alma, avisado das intenções do filho, chamou-o a contas e disse-lhe:
- Antes de consentir em tal casamento, hei-de esmagar-te a cabeça com um maço rodeiro[14]!

Desde esse dia acabou tudo. Podia ser uma rapariga feliz, como as outras, e não passava de uma desventurada que o próprio Valverde rejeitava! Formosa, nova, cheia de virtude, capaz das maiores dedicações e ninguém a queria!...
- Ninguém! - rugiu a triste, sentando-se na cama e arrepelando os cabelos. - Ninguém! Pois vamos a ver isso!

E levantando-se de um pulo correu à janela do quarto, deliberada e terrível.

Vinha a aclarar a manhã e as últimas estrelas do céu desmaiavam no azul purpureado.

***

Antes que os irmãos se levantassem e o pai a fosse acordar, como costumava, a rapariga vestiu-se à pressa, abriu a porta da rua e, como se tivesse mudado de tenção, estacou, de repente, no limiar com os olhos pregados na casa fronteira.
Lá estava agora, como sempre, afrontando a mesquinhez das construções vizinhas, esburacadas e deselegantes, o soberbo prédio monumental do brasileiro, essa rica fábrica de vistosos lavores e amplos portões verdes, refulgente de vidros, de azulejos e cores.

Estranho contraste! Dentro daquele sumptuoso edifício, que parecia uma catedral, alguém apodrecia de rico e de ocioso na molidão[15] dos confortos, ao passo que a filha do santeiro, a enjeitada de todos, tiritava de frio na algidez do seu antro, e ainda por cima havia de sofrer, resignada, as chufas[16] das suas conhecidas e o desprezo da família Valverde!
- Oh! Desprezada é que não!

E, rangendo os dentes de cólera, a filha de Lucas atravessou a rua de um salto, empurrou com violência os batentes da cavalariça do brasileiro, entrou de afogadilho e, com os olhos espantados, procurou descobrir o Cabinda.

O Cabinda já estava a pé, de escova na mão, ao fundo da cavalariça, blusa riscada e ao pescoço a manta escarlate do costume.

Na sua cara de africano retinto luziam apenas os dentes brancos, muito saídos, e os olhos ardentes, assarapantados.
- Cabinda! - disse a filha do santeiro, correndo para ele e tomando-lhe os braços - Desprezei-te e odiei-te... Falaste-me de amor e eu voltei-te as costas. Horrorizava-me a tua cor e escarneci da tua fealdade. Tu eras um monstro e eu uma tola. Estou arrependida do que fiz e venho pedir-te perdão. Queres casar comigo?
Responde... mas já...

O Cabinda deixou cair a escova da mão e, sem responder, abraçou-a pela cintura estreitamente, longamente, babado de comoção.
Depois, olhou para ela estarrecido e parvo, e notou com espanto que nos olhos de Luísa borbulhavam lágrimas...

Não chegou a compreender aquilo, mas, desde essa manhã, o Cabinda era infalível, todas as noites, em casa do santeiro e como andava expansivo contava, para entreter o Lucas, interessantes histórias do Brasil; referia em português chacoco[17] o modo como fora comprado pelo seu senhor a bordo de um navio de piratas; a cena comovente do embarque para a Europa; a boa vida que levava em casa do brasileiro ricaço; as economias que trazia a ganho em boas mãos; enfim, todos os pormenores da sua existência laboriosa, económica e feliz.

Luísa, que passara a ouvi-lo com particular atenção, achava-o agora eloquente. Esta circunstância, porém, não escapava à perspicácia da mãe que, todavia, simulava de beócia[18], a ver em que paravam as modas.
- Se vierem a casar - notava a abelha mestra, referindo ao santeiro as suas apreensões - será uma fortuna para todos nós. É menos uma boca em casa. Preto como é, sempre afinal de contas é um homem e os homens não andam por aí aos pontapés. Que importa a cor?
- Eu - replicava o Lucas - estimava por certas coisas, só para ver a cara à banda do Valverde, aquele patife.

IV

Desde que entrou no cálculo de Luísa a ideia de casar com o preto, à falta de branco, a sua vida tomou novo rumo. O seu empenho era não dar parte de fraca aos olhos de Valverde, pelo qual tanto sofrera; mas esmagá-lo com o desprezo.
Fingindo-se alegre e feliz, o seu regalo e também a sua desforra era passear a toda a hora o caminho da fonte, cantarolando de cântaro à cabeça, frequentar romarias e serões, dar longas caminhadas pelos campos vizinhos a espairecer.
Alegravam-na, sobretudo, os vastos horizontes batidos do Sol, observados do alto, a perspectiva das extensas sementeiras que se desdobram nas várzeas como um tapete infindo, o céu puro e dormente das tardes de Verão e os descantes[19] poéticos das lavadeiras à borda do rio.
A desgraça tinha despertado na sua natureza selvagem, o sentimento artístico das coisas belas e magnificentes.
Foi num desses passeios ao campo que Luísa encontrou casualmente o seu antigo amante.

Caía a tarde serena e perfumada, ao cabo de um formoso dia de Julho e os últimos raios do Sol despegavam-se dos galhos das árvores, como farrapos de púrpura.
Ele regressava ao povoado, preludiando uma canção popular, alegre e descuidado como um homem feliz, de enxada ao ombro e em mangas de camisa. Luísa descobriu-o à distância, lá ao fundo do estreito atalho que serpeia[20] entre dois cômoros de sebe viva.
A principio quis recuar, mas não pôde. Talvez ele a tivesse visto e depois carecia de verificar pelos seus próprios olhos como aquele descarado teria alma de passar por ela, sem estremecer de remorsos, sem se lembrar do passado, sem cair redondo no chão.
Por isso, foi andando seu caminho, atalho fora, até chegar perto dele. O Valverde descuidado como vinha, só deu por ela à distância de dois passos, quando já não podia fugir.
Parou de súbito; não havia outro remédio. O atalho era tão estreito que seria necessário que um deles se desviasse para que o outro pudesse passar. Luísa parou também.
Era o acaso que os aproximava. A enxada de Valverde jazia por terra, tinha-lhe caído do ombro e a vítima estava ali defronte do algoz, inerme[21], entregue à mercê do seu destino e às recriminações que viessem.
Luísa, porém, terrível de imobilidade, limitava-se a cravar nele os seus grandes olhos serenos e aveludados, ao mesmo tempo amoráveis e repreensivos.
O rapaz tremia como varas verdes e só ambicionava que a terra se abrisse e o devorasse; mas depressa, depressa, porque semelhante situação era superior às suas forças.
Que tempos estiveram assim a medir-se com os olhos, atraídos e mudos? Que significavam esses mudos olhares penetrantes que se cruzavam nos ares como as balas de um tiroteio? Desafio de morte ou apelo de vida? Ressurgimento de um passado feliz ou desenlace de uma tragédia de sangue?
O coração humano tem segredos imperscrutáveis. Num relance, o Valverde abriu os braços e Luísa caiu-lhe sobre o peito, soluçante, em cheio, como se morresse.

Aquele abraço foi, com efeito, uma reconciliação e devia ter sido muito prolongado, pois que as primeiras sombras começavam a desfazer a imagem das coisas, envolvendo toda a paisagem, e já os passaritos, pipilando nas moitas floridas que marginam o atalho, noivavam trémulos de amor, saudando a noite, no fofo aconchego dos ninhos flutuantes. Valverde estava rendido. Pelas suas faces em brasa roçavam os cabelos de Luísa, como nos dias da infância e o hálito quente da respiração dela infiltrava-lhe na pele um milhão de carícias e de filtros, que o prostravam, diluindo-o.
Foi ele o primeiro a ceder.
- Não, Luísa, não posso mais com isto. Ou meu pai queira ou não queira, no Domingo, vão os papéis à igreja.

Nessa noite Luísa ceou alegremente e, depois dos pequenos adormecidos, foi para a oficina dar dois dedos de cavaco ao pai. Lucas retocava as faces de um menino Jesus de encomenda e não estranhou a garrulice[22] da filha.

Depois apareceu o Cabinda com a sua manta escarlate que parecia uma chaga em carne viva, de carapinha untada e dentes brancos muito saídos, a contar velhas anedotas e a falar no seu dinheiro; mas a filha do santeiro não achava graça nenhuma às anedotas daquela noite...

A seguir, entrou o Valverde. Trazia a faixa nova posta à cinta com todo o primor e vinha muito expansivo. O Lucas olhou para ele com espanto, pois que o Valverde de há muito deixara de frequentar a casa. O preto mirou-o com desconfiança, de alto abaixo, e só a rapariga pareceu não dar sinais de estranheza.

O serão desta vez prolongou-se por noite velha[23] e, quando por volta das duas a mãe de Luísa foi fechar a porta, chamou a filha a um canto e inquiriu com meiguice:
- Olha lá, rapariga, o Valverde por cá é novidade. O rapaz tornou?...
- E agora é de vez. No Domingo vão os papéis à igreja.
- Que me dizes, filha?
- Digo-lhe que é certo; tão certo como estarmos nós aqui.

A esposa de Lucas não fez mais que juntar as mãos e pôr os olhos em alvo[24]:
- Bendito seja o Santíssimo Sacramento que se dignou ouvir as súplicas desta grande pecadora!

V

O primeiro ano de casados foi um idílio. O Valverde arrendou uma casita nos arrabaldes e para ali foi com a mulher. A casa não era precisamente um ninho de pombos, porque os meios não sobejavam, mas suficientemente limpa e capaz; era isolada e tinha boas vistas, ao gosto de Luísa. De dia, o Valverde trabalhava numa pequena granja que tomou de renda, enquanto a mulher mourejava nos arranjos domésticos, mas à noite... meu Deus! Que deliciosas noites naquele primeiro ano tão pobre e tão feliz!

Uma vez por outra a mulher saía, também, com o marido logo de manhã e passava com ele todo o dia na granja. Nestes dias o Valverde trabalhava pouco, deixava o sacho enterrado na gleba, lavava as mãos e os braços na represa e vinha sentar-se na relva aos pés de Luísa.

E assim passavam os noivos horas esquecidas, a olhar um para o outro, formando castelos de esperanças e ideando o modo de se reconciliarem com o teimoso do velho.
O velho era o pai de Valverde, aquele unhas-de-fome que pôs o filho à porta da rua no dia do casamento, jurando deserdá-lo.

Ora o amor é efectivamente uma bela coisa; mas, não substitui o pão. Este defeito do amor, que é o seu aspecto pior, começava a reflectir-se de um modo bem cruel na tranquilidade dos noivos.

O que valia era a generosidade do Cabinda, a quem o Valverde recorria nas ocasiões de apuro. O cavalariço[25] emprestara-lhe dez moedas para o casamento, e pusera-lhe logo a bolsa à sua disposição. Era o seu melhor amigo, e o mais assíduo frequentador da casa.

Um dia na granja o preto chegara a dizer:
- Gosto desta quintarola e não se me dava de a comprar, se ma dessem em conta. Comprava-a para a dar de presente...
- A quem? - perguntou a Luísa.
- Ao primeiro filho que vocês tiverem.

Esta nova generosidade disparada à queima-roupa enterneceu Valverde que correu para ele de braços abertos.
- O dito, dito - confirmava o Cabinda. - Se tua mulher vier um dia a ter um filho, a granja é dele, porque, custe o que custar, compro-a eu para vocês.
- A dificuldade não está na compra da granja, mas no herdeiro - retrucou o Valverde, olhando voluptuosamente para a mulher.
- Arranja-o - tornou o preto, revolvendo as bugalhas dos olhos de um modo particular.

E assim se passavam as tardes na granja entre risotas e pilhérias, o Valverde sentado à beira de Luísa e o Cabinda, em pé, a chupar no cigarro e a pensar no filho que Deus havia de dar ao seu amigo.

VI

Mas Deus, que é pai dos pobres, compadeceu-se afinal das súplicas do Valverde, dando-lhe um alegrão. Dentro de poucos meses a filha do santeiro seria mãe. A notícia foi logo comunicada ao Cabinda e aos avós maternos do futuro herdeiro, que a receberam com mostras de contentamento, ajustando-se que a mãe de Luísa seria a madrinha e o Cabinda, padrinho.

O Valverde andava como louco, falando a toda a gente no gigante que estava para chegar e saboreando antecipadamente o grande prazer que sentiria quando o seu filho nascesse.

Meses antes, andava o Valverde pouco satisfeito com a sua vida, visto que o teimoso do pai continuava a desprezá-lo; chegara até a fazer tenção de embarcar para o Brasil, na esperança de melhor fortuna, e tirara o passaporte; mas, tal projecto caía agora pela base, nem tinha razão de ser.
E, amarfanhando o passaporte nas mãos cabeludas, o ditoso pai só lamentava o dinheiro mal empregado naquele papel inútil.

Luísa, por sua parte, não parecia compartilhar os júbilos do marido. Desde o principio andava cheia de pesares e apreensões, o que, aliás, se explicava pela situação delicada em que se via.
Não logravam dar-lhe coragem, nem as pilhérias do Cabinda, nem as palavras animadoras do marido.
É que Luísa sofria, muito especialmente no último período, que foi deveras aflitivo. Quando percebeu pelos rebates amiudados que estava chegada a hora terrível, mandou chamar a mãe e caindo-lhe nos braços disse:
- Porque me não mata, minha mãe?

A mãe, porém, amimou-a com palavras de consolação e lançou-lhe ao pescoço um grande rosário bento. O Valverde estava a postos para o que fosse preciso.

Era de noite e as janelas estavam fechadas. Luísa continuava a debater-se no interior da alcova, rebolando no chão e soltando gritos de dor. A mãe rezava em voz alta e o Valverde, encostado às paredes, arrepelava-se e cambaleava como um ébrio.
Esta agonia prolongou-se pela noite adiante até que, sobre a madrugada, após um grito lancinante, soou um vagido... Era o hóspede que chegava.
Valverde precipitou-se na alcova e viu a mulher estendida no chão, a boca descaída, os olhos imóveis como se estivesse morta.
A sogra tinha uma criança nos braços.
- É um menino.

Valverde assarapantado e trémulo de comoção, travou[26] daquele tenro e pequenino ser, que mal lhe enchia a palma da mão, devagar, docemente, com receio de o magoar e aproximou-o cautelosamente da luz do candeeiro para lhe ver as feições.

Horror! O seu filho era um mulato!
Num relance compreendeu tudo. A vaga e antiga suspeita de uma traição tomou, de repente, a forma nítida e irrefragável[27] de um crime atroz.

Não podia já restar dúvida no seu espírito. Aquele filho não era seu!
- Cabinda! Onde esta esse ladrão? - trovejou o Valverde. E largando a criança no regaço da sogra, correu alucinado pela casa fora em procura do que quer que fosse. Havia de abrir de meio a meio, como se faz aos porcos, essa fêmea, que gera monstros - rugia o infeliz, farejando todos os cantos.

- Aqui d'el-rei! - clamava a sogra entalada na porta, com a criança nos braços, impedindo a passagem ao Valverde que, de machado no ar, investia contra ela. - Aqui d'el-rei!

Mas debalde gritava, porque o Valverde, perdido de cabeça, nada via e nada ouvia e já se dispunha a forçar a entrada quando, felizmente, apareceu o santeiro, que se agarrou com todas as forças ao tronco do alucinado, bradando:
- Que fazes, homem? Queres assassinar tua mulher? Queres matar o teu filho? Queres a tua desgraça?
- Qual filho, nem meio filho! Brancos não geram pretos. Deixe-me pelo amor de Deus! - rugia ameaçador o infeliz, brandindo o machado.

Entretanto a sogra que se abeirara de Luísa, erguia um clamor horrível.
- Morta, morta a minha rica filha!...

A estas vozes lúgubres, o Valverde atirou o machado para longe, aproximou-se do cadáver da mulher e, depois de o fitar longamente, meneou a cabeça e disse:
- Poupaste-me o trabalho.

Depois afastou-se lentamente, como um sonâmbulo; dirigiu-se ao armário onde tinha as suas coisas preciosas, tirou de dentro de uma caixa alguns papéis selados e meteu-os no bolso da jaqueta, murmurando:
- Tinha de ser. Eu sempre disse que a minha sina era malhar com os ossos no Brasil. Levo o Cabinda atravessado na garganta. Deixá-lo. Digam-lhe cá, se o virem, que já pode comprar a granja para o filho.

E partiu para sempre!

Aqui está a razão, porque o santeiro, sempre que vem a noite, senta nos joelhos o pequenino mulato, ensinando-lhe a erguer as palmas para Deus, passa as costas da mão pelos olhos humedecidos e sente na garganta um nó que o sufoca.

FIM
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