JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Conto completo extraído do livro "FIGURAS DE GESSO"
Histórias contemporâneas - 4ª Edição (on-line)

O Vaso de Cristal

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Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011

I

Alto, pálido e seco, ligeiramente corcovado como todos os míopes, o famoso Tristão aparece em toda a parte a farejar o escândalo e a explorar a anedota. É um ardilão[1].

Quando vai passeio fora, sereno e ligeiro, de mãos discretamente metidas nos bolsos do jaquetão felpudo, nas manhãs frias de Inverno, a sua atitude descuidada e feliz é a de um conselheiro que traz o ordenado pago em dia.

Não é positivamente um casquilho[2] nem um jarreta[3], não traz o hábito de Cristo, nem possui cartas de bacharel; vive dos seus rendimentos e dispõe de propriedades no Ribatejo. Sem ser um vadio, mete, contudo, o nariz nas lojas de modas, nas cervejarias e nos camarins das actrizes baratas.

A sua popularidade ficou feita, desde certo dia em que foi chamado ao tribunal para depor como testemunha.
- O seu nome? - perguntou-lhe o juiz.
- António Alves Tristão.
- O seu estado?
- Não percebo...
- Pergunto à testemunha - redarguiu o magistrado - se é solteiro, casado ou viúvo?
- Ah! - replicou o Tristão imperturbável - Nem solteiro, nem casado, nem viúvo; pertenço aos neutros.

Desde esse dia, o nome de Tristão ficou legendário.

Quando nos encontrámos pela primeira vez na província, Tristão era um imberbe, muito branco de carnes e ameninado; usava luneta com aros de oiro e queixava-se de dispepsia[4].

Quis o acaso que ele se sentasse ao meu lado, em certa noite, na plateia do Teatro Académico. Íamos ver a Dama das Camélias[5], por uma companhia lisbonense de que faziam parte a Emília das Neves[6] e o Tasso[7].

A sala transbordava, nos camarotes não havia lugar para um alfinete. O meu vizinho estava radiante na sua sobrecasaca lustrosa e rodando a sua pequenina cabeça penteada, em todas as direcções, parecia procurar com os olhos no vasto semicírculo alguma pessoa querida.

Mas a orquestra dava as últimas notas, e o pano, ringindo nas roldanas, subia lentamente, ao passo que da ribalta irradiava uma intensa luz festiva.

Após breves momentos de silêncio, principiou o espectáculo. Logo às primeiras confissões amorosas, soluçadas por Tasso naquela sua melopeia[8] tão sentimental e tão carinhosa, Tristão não pôde conter-se e, voltado para mim, murmurou em surdina: - Que beleza!

Depois, a paixão vai crescendo, crescendo, como a onda que sobe; as impurezas da libertina começam a esbater-se nas virtudes da amante; a distância entre o alcouce[9] e o lar desaparece gradualmente até que o vencido Armando[10] chega a encontrar, nos tesouros da sua generosidade heróica, o esquecimento e o perdão para as antigas culpas da mundana Gautier.

Daqui por diante as cenas atropelam-se, arrastando os acontecimentos na vaga de uma fatalidade crescente. A entrevista do pai de Armando com Margarida, as cenas do ciúme brutal, a devoção mal compreendida, os punhados de oiro arremessado à cara da vítima, a aproximação da catástrofe, todos os lances deste trágico poema de lágrimas, que é a glorificação do lupanar[11], comovem profundamente os espectadores e arrancam lágrimas a Tristão que, em pé, junto de mim, grita e aplaude como um doido.

E quando o pano desceu, pela última vez, o meu vizinho, arquejante, com os olhos inchados, agarrava-se a mim nervoso e tétrico, e dizia-me: - Que desgraça, meu Deus!

A desgraça era a morte de Margarida.

II

À saída do teatro, quando acendíamos os nossos charutos e levantávamos as golas dos nossos casacos, Tristão, que me trazia filado pelo braço, adiantou-se para cumprimentar um grupo que vinha arrastado na onda, ao nosso lado. Era a família Torres, duas senhoras e um cavalheiro. Dª.Maria, a viúva do major Torres, era um tipo vulgar: cara larga e vermelha, sobrancelhas espessas e duras, o buço pendente ao canto da boca. A filha, porém, era outra casta de mulher: alta, direita, flexível, sorridente e explicando-se bem; impunha-se pela elegância simples do trajo e pela distinção estudada das maneiras. Costureira ou cortesã, Dª. Rosália era, em todo o caso, um belo tipo de mulher.
Junto delas estava o primo Gaspar, cheio de importância e de almíscar[12], cofiando as suíças raras, compondo as guias do bigodinho encerado – dicaz[13], prazenteiro e mexendo-se muito.
Este primo Gaspar regia orquestras nos teatros, dava lições de piano por casas particulares, compunha marchas para as filarmónicas de aldeia e riscava desenhos para bordados.

Quando nos despedíamos, a formosa Dª.Rosália ofereceu-lhe o braço num movimento gracioso e o bom Tristão, vendo-o desaparecer ao longe, imergindo na treva, muito ufano, muito gárrulo[14], saltitando em bicos de pés, teve esta frase de inveja ou de despeito:
- É muito feliz o maganão[15] do Gaspar!

Mas, principiava a chover, os lajedos reluziam, a luz dos candeeiros na rua agonizava sob a espessa nebrina e um vento frio picava de leste.
De um pulo atravessámos a rua molhada e invadimos o café próximo, a fugir da chuva.
Vieram grogs[16] para aquecer.
Em frente de mim, de cálice em punho, o amigo Tristão estava muito comunicativo e não cessava de fazer o elogio do drama de Dumas.

Achava deliciosa aquela moral humanitária que redimia pelo amor...

Eu bebia calado, como os frades.
- A propósito, sabes que sou noivo? - acrescentou o meu companheiro, desfechando sobre mim à queima roupa.
- Não sabia. E a noiva?
- A filha do major Torres.
- Ah! É galante... E a respeito de?...

Tristão explicou: Rosália não era muito rica, mas que diabo! Dinheiro tinha ele, de sobra. Sempre embirrara com os casamentos de interesse, davam mau resultado. Desde que lhe morrera o pai e a mãe, logo fez tenção de procurar uma esposa, meiga e carinhosa, embora pobre, mulher que pensasse nele, que lhe cuidasse das suas coisas e fizesse a sua felicidade doméstica. Aquela vida de solteirão não tinha jeito nenhum, era trivial e aborrecida...

Vieram mais grogs. Tristão estava cada vez mais expansivo:
« Vi-a pela primeira vez, numa igreja, em Sexta-feira santa. Rezava pelo seu livro de orações, de joelhos, e quando por acaso percebeu que os meus olhos procuravam os seus, o livro tremeu-lhe nas mãos.
Da igreja segui-a pelas ruas sem fim, atraído por tanta beleza; passei-lhe à porta muitas vezes, devorado de saudades; escrevi-lhe longas cartas e respondeu-me; pedi-a em casamento e eis tudo. Hoje sou o seu noivo e daqui a um mês, serei o seu marido. Já vês que tens diante de ti o mais feliz dos mortais... »

Quando ele acabou, veio-me à lembrança, não sei porquê, a figura esquipática[17] do Gaspar.
- Uma pergunta, amigo Tristão - O teu futuro primo Gaspar, vive em casa da tua futura sogra Dª.Maria?
- Porque mo perguntas?
- É porque os primos são como os pombos, sujam as casas, quando não pregam sustos aos noivos.
- E não foi pequeno o que ele me pregou a mim.

E o ingénuo Tristão contou:
« Na esperança de a ver, passava-lhe à porta, de dia e de noite, como te disse. É o costume de todos os namorados. Num desses passeios bucólicos, à meia-noite, logrei a suprema ventura de a ver. Por certo esperava-me. Isto sucedia nos primeiros dias das nossas relações, depois da cena da igreja. A Omphale[18] do meu coração lá estava na alta janela, meio velada pelo transparente, como num altar a madona. Languidamente apoiada no parapeito, cismadora, como as virgens da balada, esperava-me talvez. A Lua batia-lhe em cheio no rosto alvíssimo, dando-lhe um encanto etéreo. O meu olhar devorava-a de longe; mas, não sei porquê, o pudor detinha-me na sombra, como se tivera os pés chumbados no solo.

Neste estado de perturbação passou por diante dos meus olhos, como num cosmorama[19], o quadro luminoso da felicidade do lar. No fundo da alcova nupcial, o tálamo olorante[20] de cortinas entreabertas; no chão as flores virginais da laranjeira; na poltrona, aos pés da cama, o seu vestido de noiva; ao lado os chapins[21] de seda, pequenos como duas conchas; caída no tapete, uma liga de seda; em frente, na parede, a grande moldura dourada do seu retrato e, no meio destas adoráveis banalidades, a sua figura de sílfide[22] vaporosa na alvura das cambraias; irresistível e fatal...

De repente sentiu-se ao longe um rumor de passos. Um vulto aproximou-se, cosido com as paredes e falou para cima. Era um rival que vinha disputar a minha felicidade. Quis arremessar-me sobre ele; mas, a prudência conteve-me. A minha noiva tinha-se retirado da janela e, momentos depois, abria-se cautelosamente a porta da rua... Uma nuvem negra passou, então, no azul, escurecendo a face da Lua, e eu compreendi que a minha pobre cabeça ia estalar. Fugi desnorteado.
Ao chegar a casa, peguei da pena e escrevi à pérfida[23] nestes termos, pouco mais ou menos:
- Minha senhora, julguei que poderia amar-me com exclusão dos outros, enganei-me. A cena que ontem presenciei é inqualificável. Quem se permite à desvergonha de aceitar entrevistas; à meia-noite; no fundo de uma escada, não merece os extremos[24] que lhe devotei. Agora já eu não poderia amá-la; mas, depois do que entre nós se tem passado, seria isso o mesmo que perdê-la e perder-me. Pela sua felicidade lhe peço que tenha dó de mim ».

- E tu escreveste isto? - interroguei maravilhado.

- Vais ver a resposta - atalhou o Tristão ingerindo novo grog.
« A tua carta é um insulto que eu não merecia. Unicamente o ciúme tem olhos para ver infâmias nos actos mais inocentes. O rival que tu fantasiaste, era meu primo Gaspar. Compreendes agora? Que motivos tens tu para malsinar[25] com as tuas suspeitas uma pessoa da minha família? »

- Que dizes a isto? - rematou triunfantemente.

Os olhos de Tristão iluminavam-se agora de um brilho estranho, as suas palavras eram sacudidas e bruscas. Nas salas próximas sussurrava o burburinho soturno dos estabelecimentos repletos, o arrastar de cadeiras, o choque das bolas de bilhar, a gargalhada franca e o estalido monótono das beiras[26] escorrendo nos lajedos dos passeios.

Ao levantar-se da mesa, esgotado o último grog, Tristão cambaleava e com os olhos errantes pelo tecto dizia-me alheado num pensamento doce:
- É possível que a Margarida Gautier seja uma quimera. Embora, o que eu sei é que aceitaria de boa mente o generoso papel de Armando Duval.
- Na sala ou no bordel?
- Onde ela quisesse. No inferno que fosse.

III

Um mês depois, Tristão era marido de Rosália.

Dª.Maria e Gaspar acompanharam o casal. Fixada a residência em Lisboa, a vida decorreu-lhes serena e apetecível na mais encantadora das luas-de-mel. Rosália espanejava-se contente e feliz, na sua gaiola dourada e rica, enquanto Dª.Maria, a abelha mestra, cuidava da casa.

Gaspar andava contentíssimo; a vida da capital agradava-lhe, porque as suas aptidões artísticas eram apreciadas e bem retribuídas. Nas horas vagas frequentava a casa de Tristão e trazia sempre uma ária nova para executar no piano. Rosália morria-se pelas árias novas do primo e, se eram a quatro mãos, agradecia-as com lágrimas nos olhos.

Tristão andava também num sino[27] e muitas vezes, ao chá, repetia, para vergonha de Gaspar, a cena picaresca[28] do fundo da escada, exagerando o susto que tivera. O Gaspar não gostava de ouvir a história; mas a Rosália achava infinita graça ao marido e, beijando-o no rosto diante de todos, recompensava-o do susto que lhe causara.

O que mais penalizava a boa da Rosália eram as saídas amiudadas do seu maridinho para as propriedades do Ribatejo. Felizmente ficava o primo a fazer-lhe companhia, o bom Gaspar, que nesses dias abandonava as suas lições para que a prima não ficasse só. Se tivessem um filho, um gracioso bambino, que povoasse de gritos e risos a solidão doméstica, a vida seria mais doce de levar; mas, enfim, estava o Gaspar, e era o que lhes valia.

Mas Rosália, apesar de tudo, não era inteiramente feliz. Começavam a invadi-la sonolências esquisitas, nevralgias, espasmos e tédios sem fim.

A sua casa era confortável e fora mobilada sob a sua direcção artística; gentil e nova, vestia das primeiras casas; cortejavam-na as pessoas mais qualificadas da alta sociedade de Lisboa; tinha assinatura nos teatros; mas não era feliz. E não era feliz porquê? Não o sabia dizer. Tinha noites de um mal-estar horrível e dias de cruel hipocondria[29]. Uma preguiça invencível a tomava, prostrando-a, como se lhe tivessem batido.

Às vezes, nas melancólicas tardes de Inverno, sentava-se à janela a olhar para a rua, para o céu, para os mudos prédios fronteiros, como idiota, sem compreender o que via.

Tinha-lhe morrido a mãe e o governo da casa andava por mão de criados. Quando se lembrava de outros tempos... vinha-lhe ao coração uma grande vontade de chorar.

Evidentemente aquela opulência mortificava-a. Muito mais feliz era ela quando solteira, possuía apenas o magro montepio[30] que lhe deixara o pai e resumia os seus cuidados na leitura dos romances de Dumas. Se não fora o primo, aquele belo rapaz artista que tão perfeitamente a compreendia, já teria alijado[31] o fardo da existência.

O Tristão não era mais feliz. Engolido pela voragem das despesas crescentes, o património paterno minguava a olhos vistos. Para a instalação da casa, vendera algumas propriedades e depois empenhara-se no Banco hipotecário. Mas nada o incomodava tanto como o frequente mau humor da mulher, sempre nervosa, sempre aborrecida. Que teria ela? Já não o amava? Talvez! E esta dúvida dilacerava-o.

IV

Como não tivesse visto o morgado do Ribatejo, desde certo tempo, resolvi procurá-lo em sua casa.

O guarda-portão estava no átrio, imponente no seu comprido uniforme cor de castanha, largo boné agaloado[32] e grandes suíças ruivas.
- O Sr.Tristão está em casa?

O homem das suíças abanou a cabeça melancolicamente e contou-me tudo:
No primeiro andar daquele prédio sucedera uma grande desgraça. A senhora, pelos modos, tinha um primo e o marido surpreendera-o num desses encontros delicados... Houve ralhos, choros e gritos lá em cima, que parecia o fim do mundo. Era meia-noite, foi quando o Sr.Tristão recolhia do teatro. Depois acomodou-se tudo e pela manhã, a senhora e o tal Gaspar, saíram num carro fechado não sei para onde; os criados foram despedidos e o morgado, depois de fechar tudo, saiu também e não voltou mais.

- Quando sucedeu isso?
- Haverá vinte dias - respondeu o homem, de boné respeitoso na mão.

Fiquei informado. O vaso de cristal partiu-se como eu supunha, sem que lograsse soldá-lo a pingos de amor, a teoria humanitária do autor da Dama das Camélias.

Positivamente, o famoso Tristão iludia-se quando imaginava que nas veias lhe corria o sangue dos Armandos.

*

Agora o meu amigo dos belos tempos findos explora o escândalo e os restos do património paterno, percorrendo as ruas de Lisboa e metendo o nariz nas lojas de modas, nas cervejarias ruidosas e nos camarins das actrizes baratas, sempre a andar, sempre a rir numa despreocupação feliz.

Quanto ao vaso de cristal, sou informado, por alguns rapazes experientes, que fora atirado pouco depois às águas turvas do bordel pelo primo, rei de Thule[33], e que, sendo mais tarde arrastado no lixo para as sarjetas da baixa, viera parar às mãos de alguns marujos avinhados, os quais experimentando-o de novo, reconheceram que o tal vaso tocava[34] muito a quebrado.

FIM
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