JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Conto completo extraído do livro "FIGURAS DE GESSO"
Histórias contemporâneas - 4ª Edição (on-line)

Stella Maris[1]

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Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011

I

Corria o mês de Setembro, um Setembro melancólico, em que principiavam a cair as primeiras folhas das árvores. A estação do caminho de ferro, que despejava por dia centenas de pessoas na pitoresca praia de Espinho, regurgitava de curiosos à chegada do comboio. Via-se de longe cobrindo o cais, e derramada pelos arredores, aquela massa escura e movediça de curiosos pasmados, a ver quem vinha.

A tarde caía lenta e húmida, entenebrecida por grossas nuvens, que subiam do mar e se alastravam depois na atmosfera como um crepe.

Além bramia o oceano de encontro à penedia da costa, encastelando vaga sobre vaga e desfazendo-se em toalhas de espuma, que rolavam esfarrapadas ao longo dos cabedelos[2].

Entretanto o comboio aproximava-se lentamente e os passageiros debruçados nas portinholas e assestando os binóculos, divisaram ao longe o que quer que fosse, movendo-se na areia, semelhante a um carreiro de formigas. Era um saimento[3].

Na frente oscilava uma grande cruz alçada, abrindo caminho através da sombra crepuscular, atrás marchavam quatro homens possantes, encurvados, em linha, segurando pelas argolas um caixão coberto de negra colgadura[4], em seguida alguns padres de alvejantes sobrepelizes, entoando os cânticos litúrgicos da morte, e no coice[5] duas longas filas de homens e mulheres soluçantes.

À proporção que o fúnebre cortejo se afastava e o cantochão[6] dos padres, reboando flébil[7], chegava trazido na aragem como um lamento, o último silvo da locomotiva dilacerava os ares, ecoando na amplidão como um grito de dor. Dir-se-ia o derradeiro adeus do progresso enviado através dos espaços ao cadáver que levavam a enterrar.
Mas o comboio tinha parado, finalmente, e Juliano apeava-se de maleta na mão.

Mal humorado por semelhante visão, ia atravessar rapidamente a gare, furando a massa que se abeirava do comboio, quando ouviu pronunciar o seu nome. Voltou-se e deu de cara com um dos seus melhores amigos e companheiro nas escolas.
- Tu por aqui, Luís!- exclamou, correndo para ele, de braços abertos.
- Questão de minutos, parto já.
- Neste comboio?
- Não, no outro que está a chegar, no ascendente.
- Resolução inabalável?
- Fatal. Porque eu não parto, fujo...

E pronunciando as palavras sacudidamente[8], apertava nas suas mãos febris, as mãos frias, de Juliano.

Das bandas do mar ascendia agora uma aragem frigidíssima que gelava e na eminência distante brilhava, através da bruma, a pequenina luz do farol.
Insensivelmente foram andando ao longo da linha ladeada de eucaliptos. O comboio partiu. As portas da estação fechavam-se com estrondo e os dois ficavam à espera do comboio ascendente, no descampado imerso na treva.

II

Bondoso, meigo, insinuante, sonhador, de olhos vivíssimos e castos, Luís, era um desses tipos simpáticos que reúnem à beleza plástica, o prestígio da inteligência. Crianças amoráveis que as mulheres adoram com paixão e os homens aceitam com respeito; organizações especiais construídas de sonhos e de realidades, de aspirações vagas e de alores[9] generosos, igualmente adaptadas ao maior sacrifício humano e ao mais pueril dos caprichos femininos. As suas mãos agora tremiam nas de Juliano, como se estivesse curtindo uma sezão, e a sua voz dolorida, como as das crianças doentes, tinha soluços que pungiam. Juliano não compreendia.
- Vais saber tudo; aquele saimento que viste - explicou Luís num esforço violento - foi o de Stella. Provavelmente não sabes quem foi a formosíssima criatura que teve este nome. Pois fica sabendo que estas seis letras representam para mim um idílio de risos e uma tragédia de lágrimas. Ainda bem que vieste, meu amigo; na hora mais terrível da minha vida, era-me indispensável um homem como tu.
Imagina que vim para esta praia maldita no ano passado, em busca de repouso e de saúde, e que, em vez do repouso e da saúde, venho encontrar agora o desespero e a morte!...
- Continua - disse Juliano intrigado e curioso. Ele continuou:
- Para não apodrecer de tédio, nestes ócios forçados da praia, lia os meus livros, compunha os meus versos, dormia e passeava por esses areais sem fim, pacato, feliz, indiferente, sem comoções, sem temores nem desejos. A vida bucólica da província.
Mas quis a minha má fortuna que, num desses passeios tranquilos, por uma formosa tarde de Agosto, eu topasse à beira mar, no ano passado, os mais adoráveis dezoito anos, encarnados na mais adorável das criaturas - uma dessas encanações ideais, que os grandes artistas desesperam de reproduzir, porque são mais do céu que da terra.
Não sei como nem porquê, os nossos olhos encontraram-se num relance e desde então absortos e cativos nunca mais deixaram de procurar-se, como se precisassem da mesma luz para ver e admirar. Amámo-nos desde aquele dia e com tão entranhada paixão que eu bem percebi, por meu mal, que só a morte poderia anular tão enraizado amor.
Sentindo-me soçobrar num pélago[10] de inesperadas e desconhecidas alucinações, tentei fugir. Tardio e baldado intento. Não se foge ao destino.
Depois vieram as peripécias do estilo - as cartas diárias, os encontros previamente combinados, os passeios à beira-mar, todos os incidentes de uma paixão funesta.
Que estranhas fantasias eu sonhei, meu amigo! Que loucura aquela! Nos livros, no mar imenso, nos prados floridos, nas conchas da praia, na areia beijada eternamente da vaga, em tudo se debuxava[11], refloria e pairava a sua santa imagem de contornos ideais e puríssimos.
À noite, principalmente, é que a visão gloriosa daquele delicado ser, feito de auroras, surgia à minha vista deslumbrada, como a evocação de um anjo radiante na sua auréola, à noite, quando a não via.
Além, ao pôr-do-sol, por cima das águas dormentes, erguia-se vésper[12] cintilante e vivaz como um diamante pálido engastado em lápis-lazúli[13]. Era a guarda avançada das falanges da luz. Eu esperava-a já ansioso e febril, como quem espera a vinda de um portador de boas novas. Que doidice aquela, Santo Deus!
Uma ilusão dos sentidos levava-me então a relacionar o brilho deslumbrante daquele astro, que reluzia vivaz no azul celeste, ainda rubro dos últimos raios solares, com o meigo olhar de Stella, tão límpido e tão casto, e a mim mesmo perguntava, extasiado, porque estranho motivo andava lá tão alto, pairando na imensidade, a imagem de um ser, que da minha alma fizera a sua morada?
Os amantes são supersticiosos. Aquela pequenina esfera de luz atraía-me de um modo singular, erguendo-me às altas regiões, onde ela pairava imóvel, como se quisesse dizer-me que só lá em cima existe a paz e o esquecimento...
E tinha razão; aquele saudoso astro, que tantas vezes devorei com os olhos, que para muitos foi o precursor de melhores dias, talvez o símbolo de bem fadados amores, para mim não representará de ora avante mais que o símbolo da saudade sem esperança. Foi ela a testemunha irónica do mais tremendo desastre que aos filhos de homem jamais foi dado experimentar.

Neste momento o moço poeta, como que envergonhado da própria candura, embebeu no lenço as lágrimas que lhe enchiam os olhos.

Entretanto retinia ao longe a campainha da estação. Vinha perto o comboio ascendente, e pelo silêncio da noite pesada e brumosa ouvia-se distintamente, como um bramido surdo, o soluçar das vagas rolando na praia!
- Desculpa - tornou ele metendo o seu braço no meu e arrastando-me de novo. - Creio que existe na vida de todos os homens um período fatal de alienação e inconsciência, donde saímos para a realidade famintos e rotos, como os náufragos que tudo perderam. O meu naufrágio levou-me tudo, menos a consciência do desastre. Antes a loucura, já que seria impossível o esquecimento.

Com os olhos nela, a seguia por toda a parte, andei um ano, dia a dia, percorrendo a estrada das ilusões e do martírio, buscando-a, como um cego busca a luz, fantasiando quimeras, divinizando os aspectos poéticos de tudo quanto me aviva a sua lembrança, sonâmbulo, inconsciente, alucinado.

E, todavia, eu não queria confundi-la com essas enganadoras miragens que me enlevavam a imaginação ardente. Seria macular as perfeições divinas. Mas recordo-me de que à luz da formosa estrela da tarde, que primeiro cintila no firmamento, com estes lábios incendidos e trémulos de comoção eu lhe jurei por Deus, pelo Oceano, por tudo quanto eu conhecia de grandioso e solene, que só deixaria de amá-la, quando essa estrela desaparecesse para sempre do espaço.

E, todavia, esse bendito fanal[14] que eu tantas vezes invoquei, lá está em cima como dantes; o amor, que lhe jurei a ela, repousa neste coração escalavrado pela dor, tão vivo e tão ardente como nos dias felizes que passaram. Ela, porém, é que fugiu e desapareceu para sempre. Levaram-ma!

Após nova pausa, continuou:
- Se eu não acreditasse na ressurreição dos mortos - crê no que te digo - o meu último dia seria o de hoje. Não se aparta a gente, a olhos enxutos, daquela que resume o nosso presente e o nosso futuro, daquela que faz parte do nosso ser.

E depois que mártir e que santa! Torturaram-na, esmagaram-na, mataram-na! Se eu não passava de um poeta, de um ideólogo, de um plebeu ambicioso, que tinha fome de pão e de pergaminhos! Um tonto, que nem sequer sentia girar nas veias um glóbulo de sangue azul! Pois ela, a neta de cem avós ilustres, a herdeira única de uma geração de fidalgos, podia lá unir os seus destinos históricos aos meus apelidos anónimos?

Daqui um assombro de contrariedades imprevistas, a resistência implacável dos seus, a represália intransigente, uma série de torturas inqualificáveis e monstruosas, que levaram à sepultura a mais gentil, a mais casta, a mais dedicada das mulheres. Um horror indizível.

Quando há menos de dois meses ela chegou de novo à praia, e de novo os seus brilhantes olhos descansaram nos meus, pensei desde logo que tudo morrera nela, e não me enganei. Stella vinha mortalmente ferida. Foi a ultima vez que a vi. Morreu ontem e enterraram-na hoje!

A sua última carta é de há três dias; sei-a de cor, à força de a reler:
«É hoje o dia do meu aniversário. Vesti-me de luto porque me sinto morrer; mas, como entrevissem um capricho meu em coisa tão insignificante, mascararam-me de galas. Não resisti. Para quê? Os mortos deixam-se amortalhar.»

«Meu Deus! Custa efectivamente morrer na flor dos anos, quando a gente é amada por um homem como tu és. Tenho coragem para o transe final; mas falece-me para deixar-te. Para que hei-de ocultar esta fraqueza? Por ti, que não por mim, invade-me o arrependimento de ter chegado a amar-te tanto. De que nos serviu este amor, esta ilusão fugaz, se tão cedo nos haviam de separar para sempre?»

«És novo e generoso, vive tu ao menos; eu desvio-me do caminho para te não empecer[15] o trânsito. Talvez que para ti se abra o futuro ridente[16] no dia em que ele de todo para mim se fecha.»

«Lembrei-me muita vez da clausura. Entraria afoita, porque entre as quatro paredes de uma cela, sem um raio de Sol a doirar aquelas sombrias abóbadas, viveria para ti unicamente, ou morreria mais depressa. Agora vejo que essa lembrança não passava de uma risonha quimera perfeitamente vã e inteiramente inútil. Morta já eu estou. Vê para que nos serviu tanta confiança no futuro!»

E depois, voltado para Juliano, terrível e hostil:
- Já vês que não parto, fujo!

Ao mesmo tempo acendiam-se as luzes da gare, a campainha da estação dava o último sinal e ao longe, na direcção oposta, prolongava-se, como um grito nos ares, o silvo agudo da locomotiva que chegava.

Momentos depois trocavam-se as últimas palavras da despedida, com o último aperto de mão, e o comboio ascendente que levava o infeliz imergia rápido na escuridão da noite, como num túnel.

III

Juliano levantou então a gola do casaco para as orelhas e recolheu ao hotel fazendo, pelo caminho, considerações filosóficas acerca do amor infeliz de todos os Abelardos que perderam Heloisas[17] e meditando nos inconvenientes das praias para quem não precisa de banhos; mas, como quer que a história de Luís o estivesse preocupando, e não prevendo melhor meio de se desoprimir, resolveu ir aí à Assembleia[18] passar um bocado da noite e conciliar o sono!

A Assembleia estava em festa e à cunha.

Dançava-se despudoradamente; raras senhoras sentadas. No topo do vasto salão sorria, a um canto, a baronesa da Bibaldeira. Juliano foi cumprimentá-la e, como a sabia de má língua, chegou uma cadeira para junto dela.
- Também por cá o Sr.Juliano, o feroz inimigo dos banhos de mar!
- Que remédio, baronesa! Quando as primeiras papoilas principiam de salpicar a fulva[19] superfície das messes[20], e a cigarra de Anacreonte[21] acorda o silêncio calmo dos bosques, quem quiser ver gente tem de vir às praias. É uma tentação a que ninguém resiste.
- Mormente - acudiu a baronesa, com malícia - quando se é novo e solteiro! Mas veja lá, Sr.Juliano, não lhe suceda o mesmo que sucedeu esta tarde ao apaixonado menestrel de Stella, que ficou viúvo antes de casar.

A conversa descaiu então nos tristes amores romanescos do admirador de Byron[22] e Kempis[23], e rematou por estas palavras sentenciosas da zombeteira baronesa:
- Deixe lá, Juliano, os namorados da Idade Média, que se matavam como o Eurico, ou se metiam a frades como o célebre Monge de Cister[24], nunca existiram senão na fantasia dos noveleiros. Hoje, então, o suicídio por amor é inteiramente impossível, desde que os rapazes começam a namorar, ainda de bibe, fazendo da paixão uma droga inofensiva, como a cicuta de Metrídates[25]. Verá, verá, se daqui a um ano o seu amigo vier a Espinho, há-de vê-lo casado e curado, porque os românticos da espécie do seu amigo - para alguma coisa nos há-de servir a experiência da vida - com aquela bossa tão sentimental, não se matam, casam-se. Durma descansado e verá que sei ler no futuro.

Juliano despediu-se, encaminhou-se para o hotel e deitando-se na cama, inteiramente confiado no texto prático da baronesa, dormiu regaladamente!

FIM
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