JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Conto completo extraído do livro "FIGURAS DE GESSO"
Histórias contemporâneas - 4ª Edição (on-line)

Chegar a Tempo

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Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011

I

O fidalgo estava deveras impaciente naquele momento. Tudo lhe correra mal durante o dia e agora, que tinha necessidade absoluta de receber a correspondência da noite, o carteiro não chegava!

Com os olhos, ora no relógio da parede, que marca dez horas, ora na porta velada a meio pelo reposteiro de reps[1], o viúvo, com todo o sangue dos trinta anos, alto e loiro, passeia descompassadamente em todas as direções da sala, descrevendo linhas tortuosas e incongruentes, nervoso, de mãos nos bolsos, rígido na sobrecasaca preta de rigoroso luto.

E então, que noite abominável, que interminável noite, passada ali, na ausência de pessoas amigas, no isolamento absoluto da vida, entre as quatro paredes velhas dum casarão tumular, pavoroso como as criptas medievais, povoado de fantasmas e teias de aranha!

O castelo era, com efeito, a imagem lúgubre do isolamento e do tédio. Pendurado como um ninho de milhafres nas ásperas escarpas do monte que se despenha em socalcos até ao abismo, jazia para ali, desde tempos remotos, solitário como sentinela perdida; e agora, na solidão da noite borrascosa, batido pelo vendaval e fustigado pelas chuvas, ululava em meio das matas rumorosas, como um lobo faminto.

E, contudo, fora nesse desmantelado solar de seus avós, povoado de lendas sinistras e de retratos de antigos guerreiros, que um mês antes lhe morrera a mulher, a mimosa flor-de-lis baixada ao túmulo na Primavera da vida.

Que saudade! Nos ecos dos vastos corredores sombrios e intermináveis, gemem ainda, como um cicio flébil[2], os últimos ais dessa encantadora mulher, que fora sua esposa, e nos panos alvadios do arrás[3] desbotado, paira o seu espectro, arrastando a longa mortalha pelas paredes.

Em frente do pai, cujos passos rangem monótonos no pavimento sem tapete, está a linda filha do seu amor, de joelhos sobre a velha poltrona de sola[4], de espaldar cravejado, debruçada sobre a mesa, com os bracitos estendidos: uma criança loira, carnadura de leite e rosa, em cujas veias túmidas[5] pulula a seiva dos cinco anos.

Sobre o cartão cetim, a mão caprichosa da criança lança traços e figuras extravagantes, para a direita e para a esquerda, seguindo com os olhos os movimentos do lápis e os rabiscos sem arte.

A luz opaca do candeeiro de bronze, velada pelo tapa-luz multicor, projetando uma nódoa branca circular sobre os papéis dispersos pela secretária, põe nos cabelos finos e loiros da pequena, fulgurações de espigas de oiro batidas do Sol; o antigo relógio, pregado na parede, soluça ininterruptamente o seu tic-tac monótono e fastiento; e pela janela aberta sobre o jardim, que desce até ao rio, entra em golfadas súbitas o frio húmido da noite e o choro plangente das ramarias sonoras.

Podia lá viver assim! - medita o viúvo, parando de repente a olhar para a filha. - Tudo conspirava contra ele, desde os amigos mais íntimos, que lhe exploraram a generosidade e o abandonaram na decadência, à porta da miséria, até ao próprio Deus implacável, que lhe arrebatara a esposa, sem lhe dar a ele a coragem suficiente para resistir à catástrofe.

Ainda no berço, viu sair de casa a mãe, aquela santa mulher, amortalhada no seu caixão ladeado de tochas; poucos anos depois, ia o pai a juntar-se com ela na mesma cova; e agora a esposa do seu amor, a única paixão ardente da sua vida, a mãe da sua filha!

Era de mais! Outro nas suas circunstâncias teria dado um tiro no ouvido...

E logo os seus passos deslizavam precípites[6], os seus movimentos eram sacudidos e incongruentes como os do epiléptico, e as unhas enterravam-se-lhe sem dor nas palmas recurvadas.

Se era uma expiação o que lhe sucedia, onde estava o crime? Onde estava essa enorme culpa, que andava expiando naquele fadário interminável de desastres desde o património desbaratado para salvar amigos arruinados até à viuvez intempestiva e imerecida?

Enfim - rematava, dolorosamente - agora é que eu chego a compreender a frase do príncipe da Dinamarca[7], abeirando-se do espectro do pai: «A vida não vale mais que um alfinete![8]»

E tornando a parar no meio da sala, com ambas as mãos premindo as fontes da cabeça, como se uma lâmina candente[9] lhe atravessasse o cérebro, bradou fitando a parede donde pendia o retrato da esposa alegre no seu vestuário de noiva: Oh, horrible! Oh, horrible! Most horrible![10]

Então a pequenita estremeceu na velha cadeira de espaldar, largou o lápis, e voltando o busto gracioso e sereno, duma candidez imperturbável, perguntou, estendendo os braços e abrindo os olhitos espantados:
- A mamã? Quando volta a mamã?...

Mas ele não respondeu. Estava mudo, a olhar para ela, como um idiota chumbado ao chão, quando oscilou o reposteiro e um criado lhe entregou a correspondência da noite.

Então o pai aproximou-se da filha, tomou-a nos braços, suspendeu-a à altura do peito, e com as faces iluminadas pelo fulgor juvenil dos olhos dela, esteve assim muito tempo a fitá-la, a beber aquela candura, a sorver aquela imagem bendita, como se quisesse introduzir no seu organismo envenenado e decomposto a vitalidade daquela pureza angelical e suave.

Depois levou-a à porta, pô-la no chão brandamente, desviou o reposteiro e, num esforço, que o trémulo da voz atraiçoava:
- Vai, minha filha. Toma o teu chá e brinca. A tua mãe há-de vir logo...

E dizendo, viu partir a criança muito alegre e buliçosa a voar pelo corredor fora, com a presteza duma borboleta, agitando no ar o cartão dos rabiscos.

II

Quando os passos da criança deixaram de ouvir-se ao longe, no fim do corredor, o viúvo sacudiu os braços numa firme resolução de homem forte, correu nervosamente sobre as altas portas de castanho o pesado estofo de reps e caindo sobre a poltrona abandonada pela filha, sentiu ao longo das faces a impressão cálida de duas grossas lágrimas.

Com mão febril travou[11] da correspondência.
É a carta do meu advogado. Quer que lhe indique na volta do correio os termos em que deve propor a concordata na próxima reunião de credores. A boas-horas[12]! Quem levou o mais, que leve o menos.

E deitou a carta para debaixo da mesa.
- Esta é de minha irmã. Coitada! É a única pessoa de família que me deixaram. Os outros já lá vão. «Chego aí amanhã para trazer a pequena» - Ah! Até que enfim está resolvido o problema. Já posso morrer. Bem-hajas, bom Deus!

E levantando-se tragicamente, resoluto como quem sai duma situação difícil e encontra finalmente a vereda que procura, alçou os olhos para o retrato da esposa, e exclamou solene:
- Hamlet, Hamlet! Tu me deste a chave do meu destino! - «Morrer, dormir, talvez sonhar![13]». Aconselham-me coragem. Pois bem, eu saberei provar aos pusilânimes[14] que nas veias dum patrício de raça não circula o sangue dos poltrões. Os covardes acabaram no dia em que se inventaram os revólveres. Tinha um prego atravessado na cabeça, de lado a lado. Minha irmã arrancou-mo e fez bem. Pelos buracos abertos correrá livremente a bala vingadora, porque a minha filha não fica ao desamparo.

Lá fora, nas devesas[15] e rudes escarpas que descem ao despenhadeiro, mugia a borrasca. As cortinas das janelas sacudidas do vento caíam ondulantes das galerias, como lívidos cadáveres suspensos da forca, e o tic-tac monótono do relógio repetia no silêncio álgido[16] as notas metálicas e secas do pêndulo.

Agora, sim. Estava às ordens do destino; podia lutar com ele honradamente, braço a braço, com armas iguais, sem testemunhas.

Sobre a mesa, no estojo de veludo carmesim aberto, reluzia como a tentação, o aço polido do seu revólver inglês.
- Agora?...

Mas quando, já de pé, tocava com os dedos o aço frio do revólver, um raio casual do seu olhar errante resvalou pelos papéis dispersos na secretária e foi prender-se, como um fio de aranha, na tarja negra dum jornal chegado na correspondência daquela noite.

Abriu num repelão e leu na primeira página:
«Ontem, por volta da meia-noite, suicidou-se com um tiro de revólver, o visconde de Trigueiros, o mais gentil fidalgo da nossa sociedade elegante. Do crânio esmigalhado pela bala escorriam fios de sangue sobre o tapete do quarto, onde sucedeu a catástrofe. Os motivos do desastre ainda são ignorados. O visconde estivera no Grémio momentos antes do suicídio e não manifestara sinal algum de alucinação».
- Ah! Então o visconde não estava doido.

Matou-se, porque talvez o roubaram; porque perdeu pessoas que estimava; porque foi roubado por falsos amigos; porque o ameaçaram com a desonra. Exatamente como eu. Ensinaste-me o caminho, bem-hajas, amigo. Também eu sofro, também eu sou vítima, também eu compreendo que a vida não vale o que padecemos por ela.

No problema da vida, a morte é uma conclusão. Nada mais.
E discorrendo, sob o império da sugestão, com o revólver em punho, fitava mais uma vez, como se quisesse encher os olhos na luz daquela imagem, a grande tela da esposa querida, que lhe sorria gloriosa e tranquila, no seu traje de noiva feliz.

Definitivamente deliberado[17], já corria a fechar a porta por dentro, quando por entre as dobras negras do pesado reposteiro assomava radioso e festivo, como a face rosada dum querubim, o rosto da filha, que vinha para ele a sorrir, na cândida despreocupação da inocência.

O pai estacou, fulminado, como um ratoneiro pilhado[18] em flagrante. Tremiam-lhe os beiços, o sangue alvoroçado refluía ao coração e por diante dos seus olhos pávidos[19] trotavam, como fantasmas, legiões de vultos pavorosos.
- Que queres tu de mim, criança? Que vens fazer aqui?

A pequenita não compreendia nada, não sabia que responder. Com os olhos muito abertos e muito espantados, fitava o pai, a tremer e, abraçada às pernas dele, suplicava:
- Quero dormir hoje na cama do papá, até vir a mamã!

III

No cérebro despedaçado daquele desventurado pai, devia ter sucedido nesse instante algum desses fenómenos, que o geral dos homens não compreende, porque, empolgando[20] a filha num ímpeto de leão amoroso, cingiu-a muito, muito, ao peito em frágua[21], atirou pela janela fora o revólver que lhe escaldava a mão, e cobrindo de beijos ardentes aquele pequenino ser, tão frágil e tão poderoso, foi rolar, desarmado e ofegante, sobre a velha cadeira de espaldar, abraçado na filha.

E depois, fitando mais uma vez a tela da esposa querida, tão radiante no seu vestido de noiva:
- Se os outros tivessem uma filha como a nossa, não se matavam, meu anjo!

FIM
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