JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Conto completo extraído do livro "FIGURAS DE GESSO"
Histórias contemporâneas - 4ª Edição (on-line)

O Milagre

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Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011

I

O caso foi este. Nunca mulher alguma adorou tão rendidamente um homem como Dª.Josefina do Coração de Jesus adorava o marido que Deus lhe dera.

Os longes[1] saudosos da infância, que por tantos anos costumam reflorir no coração das pessoas sensíveis; a afeição maternal das duas tias, que a educaram depois que lhe morreu a mãe; os pequenos nadas da vida, que alvorotam[2] o espírito das mulheres novas e produzem à superfície das existências tranquilas as crispações dos lagos feridos da brisa; tudo se dissipara como espirais de fumo no ambiente que ela agora respirava, perante a vivíssima luz de um Sol ardente e glorioso. Esse foco luminoso que de todo a envolvia e cegava era Frederico, o homem feliz e superior, a cujos destinos prendera o seu destino, na hora abençoada em que a Providência lhe apresentou a sua imagem, como um enlevo, e os seus braços, de forte como um amparo.

Seguia-o em sonhos, como a sombra vai atrás do Sol; confundia-o na sua imaginação fantasiosa, com as mais belas criações que povoam a corte celestial e, à falta de padrão suficientemente perfeito para aferir por ele a estatura moral do mais honesto dos maridos, divinizava-o como um fetiche.

Frederico, verdade seja, era efectivamente merecedor do culto que a mulher lhe tributava. Homem de talento e de coragem, fidalgo no porte aprumado e no carácter irrepreensivelmente correcto, impunha-se à admiração e ao respeito pela severidade dos actos; mas, a bondade proverbial da sua alma benfazeja era a nota mais simpática da sua índole.

Durante dez anos de ininterrupta paz doméstica e de convívio matrimonial, o austero advogado nunca tivera para com a sua santa mulher um gesto de enfado, nem uma palavra desabrida que denunciasse propósito de a magoar.

Josefina bem compreendia estas delicadezas de sentimento e consigo as recordava a todas as horas, chegando por vezes a sensibilizar-se até aos extremos de chorar lágrimas de ternura e de reconhecimento.

Porque Frederico era para ela, pobre mulher sem pai nem mãe, um ente superior que reunia aos afectos do esposo apaixonado, as virtudes do protector magnânimo, desses protectores desinteressados e raros que tudo sacrificam pelos entes confiados à sua guarda.

Chefe de família, a sua voz possuía por igual as fortes vibrações metálicas do comando e os cicios[3] meigos do arrulho[4]. Amorável e enérgico, dispunha, como os Amadises medievais[5], das duas prendas necessárias ao homem, que deseja conquistar o respeito e o amor.

Fora do templo doméstico, o Dr.Frederico tinha também a sua reputação solidamente estabelecida. Desempenhando escrupulosamente os ofícios da sua profissão de advogado honesto que nunca defendeu o crime e sempre esteve ao lado dos oprimimos, ouvido com religioso acatamento nos tribunais, nas salas e nas assembleias políticas, Frederico saboreava satisfeito essa legítima superioridade prestigiosa que faz o orgulho das mulheres que nos amam.

Era por tudo isto que Dª.Josefina se deixava enlevar em santos orgulhos, quando recolhida no seu quarto, a sós com a sua consciência e Deus, beijava e rebeijava o retrato do ente querido, e limpando os olhos, turvados pelo mais suave pranto da sua alma, se comparava às tímidas violetas que vivem obscuras na raiz das grandes árvores seculares, nutrindo-se da seiva que elas lhes emprestam, cobrindo-se com as sombras amigas que elas projectam e bebendo os fios do Sol que, por entre as espessas ramarias, descem ao chão ignorado, onde elas arrastam a existência parasitária. Ele, o forte, o glorioso, era a árvore protectora; e ela, a fraca, a obscura, era a violeta protegida.

O seu desejo, quando ele regressava a casa, depois dos trabalhos forenses, coberto de suor e de glória, grave e solene como um conquistador antigo, era arrojar-se de joelhos aos seus pés, enlaçar os seus braços nervosos nas pernas do ídolo que a protegia e dizer-lhe num turbilhão de monossílabos afectuosos alguma frase, que traduzisse a sua loucura por ele, a sua extraordinária dedicação por aquele ente incomparável que a dominava sem querer e, sem que o suspeitasse, a envolvia na púrpura da sua glória.

Mas era tão infeliz a boa Josefina que nunca acertava de encontrar palavras no dicionário da sua alma, suficientemente expressivas para lhe comunicar os transportes, as comoções, os arrebatamentos extraordinários e indizíveis que sentia pelo seu homem.

Ele vinha de fora, com os braços abertos para ela e o sorriso nos lábios trémulos, e ela, muda e passiva, abrindo também os braços e correndo para ele, caía-lhe no peito em cruz a chorar sufocada de alegria.

Era assim que viviam, havia dez anos, Frederico e Josefina no mais sereno idílio nunca ensombrado pela névoa de um desgosto.

II

Disse um moralista que as coisas do mundo são como a Lua, que nunca permanece da mesma maneira, antes para cada dia tem sua feição. Tinha razão o filósofo. Uma carta anónima, que, demais a mais, tinha a particularidade rara de contar a verdade, comunicou a Josefina que o seu marido incomparável tomara pelo caminho de todos os incomparáveis, e fora direito como um fuso parar a casa de Margarida. Queria dizer - Frederico resolvera tomar amante.

A vítima amarfanhou o papel nos dedos crispados, mas não acreditou o anónimo. Podia lá ser uma desgraça tamanha! O seu homem não era como os outros. Tal denúncia era uma calúnia com que os inimigos da sua casa e os invejosos da sua felicidade pretendiam feri-la. Quem era Margarida?

Mas a carta apresentava o facto como negócio sabido de toda a gente; indicava o nome e o lugar da traição e até particularizava as horas da entrevista, das dez à meia-noite.

Efectivamente Frederico saía para o Grémio às 8 horas, depois de jantar, e só recolhia agora à meia noite. Seria verdade o que dizia a carta? Oh! Seria o cúmulo da desgraça, e a gente não se conforma facilmente com os males que se receiam.

Mas o espinho da dúvida enterrara-se-lhe no coração como um estigma, e todo o seu corpo tremia como se um grande perigo a ameaçasse.

A sua ideia primeira foi guardar a carta e mostrá-la ao marido quando ele recolhesse a casa. Mas para quê? Se fosse verdade o que lhe diziam, a apresentação da carta seria, um vexame; se fosse falso, que lucrava ela em desgostar o seu homem?

Rasgou nervosamente o papel em tiras miudinhas e arrojou os fragmentos para longe de si.

Mas o espinho da dúvida enterrado no coração, esse, lá ficou a doer e a sangrar, até que factos posteriores vieram provar-lhe que o seu ninho matrimonial, aparentemente afofado de frouxéis[6], estava realmente desfeito. Nos olhos de Frederico outra imagem, que não era a de Josefina, se fixara indelével. Amores novos expulsaram do ninho os antigos; não havia já que duvidar. Não o dizia uma carta anónima, diziam-no todas as pessoas das relações de Josefina. Oh! O coração traído nunca se queixa sem motivo.

Frederico principiou a recolher por altas horas da noite, pé ante pé, como um ladrão; aparentava uma tranquilidade que realmente não tinha; percebia-se que fazia violência sobre si mesmo para ajustar à cara a máscara da alegria; jantava muito à pressa e não receava, como dantes, sair de casa por noites borrascosas, porque os amigos o esperavam no Grémio para as partidas do whist[7] ou do voltarete[8]...

Ao sair abraçava muito a mulher e beijava-a longamente, sofregamente, como quem estava a indemnizá-la ou a fazer-lhe uma restituição. Precauções que comprometem.

Josefina compreendia tudo, mas como fora educada por senhoras tementes a Deus que transplantavam para o matrimónio de hoje a filosofia dos antigos casamentos que se baseavam na dependência e na sujeição da mulher, calava-se resignada, embora reconhecesse que a andavam roubando.

Para ela já não havia que duvidar, o castelo das suas ilusões pacientemente fabricado no decurso de dez anos, tão altamente posto na eminência das coisas felizes, aonde o salpico da lamacenta inveja nunca poderia chegar, desabava deploravelmente, caindo a prumo, desamparado e desfeito, nos fundos abismos de um desengano imprevisto.

E contudo, Josefina, ainda agora amava como dantes o seu Frederico, chegando por vezes a encontrar nos tesouros inverosímeis da sua paradisíaca bondade, motivos para iludir a sua desgraça e subterfúgios para desculpar o ingrato. Se o próprio Sol, o mais brilhante luzeiro do firmamento, tem manchas, quem havia de estranhar que o Sol do seu amor tivesse sido também empanado pela sombra de uma nódoa?
Que, a bem dizer, aquilo que o seu marido estava praticando, não era positivamente uma nódoa, era apenas um rasgão no contrato matrimonial. Ao cabo de tantos anos de fidelidade impecável, um desvario momentâneo desculpava-se. Havia naquele género, casos de mais tremenda responsabilidade, como seria o divórcio e a mancebia no lar doméstico. Quem é que neste mundo de pecadores se pode gloriar de perfeito? Escorrega o pé aos mais firmes e a cabeça melhormente organizada desvaira, quando a tentação a invade.

Oh! A tentação! Se nestes deslumbramentos da loucura humana existe responsabilidade, a culpa é menos dos homens transviados do que das mulheres que os salteiam no caminho. Os homens são como as borboletas; sabem que vão morrer, mas vão para a luz. É Belzebu quem os cega.

Na cândida filosofia da esposa de Frederico, vasto arsenal de ignoradas virtudes, sobejavam raciocínios como este: O marido fugia-lhe para outra mulher? É porque a outra dispunha de seduções irresistíveis? É porque Satanás concedeu a essa mulher feliz, encantos e feitiços que embebedam como filtros.

Não conhecia a sua rival nem se recordava de a ter visto, mas estava certa em como essa mulher seria um modelo de candura e de beleza. O seu marido não era homem que se deixasse cair na lama dos alcouces[9], nos braços de qualquer mundana pertencente à categoria das mulheres vulgares que se vendem baratas, porque se avaliam em pouco. Oh! Desses nada receava, porque tais braços não eram liames[10], capazes de prender um homem como o seu Frederico.

Alguém a informara de que Margarida era uma boémia doutorada em todos os vícios, como todas as fêmeas anónimas suas congéneres, vagabundas e parasitas, que vendem o corpo por uma ceia e mudam de amantes como quem muda de camisa. Mas era invenção de solheiro[11], esta patranha em que não podia crer. O seu marido podia lá ter descido tão baixo! Seria uma degradação imprópria de um homem daquela têmpera e daquela condição social.

Fosse como fosse, o caso é que estava burlada, e era preciso tomar uma resolução, porque o espinho que lhe enterraram no coração sangrava e doía cada vez mais.


III

O seu projecto era simples e prático. Quando o marido estivesse no tribunal, ela entraria em casa de Margarida e, lançando-se-lhe aos pés, suplicante, de mãos postas, lavada em lágrimas, dir-lhe-ia que se compadecesse da sua desgraça; que o matrimónio era uma situação horrível sem a afeição dos maridos; que não podia resistir àquele martírio; que lhe deixasse em paz o seu Frederico; que fugisse, enfim, daquela terra, porque longe da vista longe do coração. Que bem sabia a enormidade do sacrifício que vinha implorar, mas que nunca pessoa alguma chegou à bem-aventurança eterna senão pelo caminho dos grandes sacrifícios.

Josefina tinha decorado, à força de repeti-las, as palavras comoventes que devia pronunciar aos pés da sua rival. Para alguma coisa havia de servir a natural retórica de todas as mulheres. Mas, e se estes meios suasórios[12] não forem suficientes? Nesse caso - deliberava convicta - recorrerei ao último argumento. Deus me perdoará, se peco, mas assim é preciso. As mulheres daquela espécie não resistem às fulgurações do ouro, porque é precisamente a necessidade quem as lança no caminho da desonra.

Se resistir às minhas súplicas, despejar-lhe-ei no regaço mãos cheias de ouro, dinheiro, jóias, tudo quanto ela quiser em troca da minha felicidade. Margarida não há-de resistir a esta prova, porque as mulheres, quando se abaixam à infâmia de roubar os maridos das outras, é porque realmente têm fome.

Chegara finalmente a esta conclusão, que era um repouso tranquilo, depois das enormes lutas em que por muitas noites se debatera o seu espírito atribulado.

Mas a esposa de Frederico, mulher tão temente a Deus e absolutamente escrava dos conselhos da religião, não podia levar por diante este plano tão pacientemente arquitectado, sem a prévia aprovação do seu director espiritual, um velhito calvo e mesureiro[13], egresso[14] franciscano de reconhecida virtude, em cujos ouvidos castos tinha por hábito despejar, pelo menos uma vez por semana, o saco das suas venialidades e pecadilhos.


IV

Vinha aclarando a manhã, a igreja estava aberta, e as primeiras badaladas do sino anunciavam a primeira missa. Era só atravessar a rua e entrar. Vestiu-se, portanto à pressa e saiu. O velhito calvo e mesureiro esperava-a, no recanto da igreja, sob o coro, agasalhado na sua capa ao pé do confessionário, imerso na penumbra.
- Bem-vinda, minha filha.

A penitente, ajoelhada na esteira, sobre a qual descansavam também as botas grosseiras do egresso, soluçava a sua angústia. A Virgem ainda sofrera mais, quando lhe pregaram o filho na cruz entre dois ladrões; bem sabia isso, mas a Virgem era a mãe de Deus, e recebia directamente do céu a coragem precisa para o martírio, enquanto ela, frágil mulher desamparada e grande pecadora, não tinha ninguém por si...
- Não diga isso, que é ofender a Deus. Confie nos tesouros da Providência divina que nunca desamparou os aflitos, que invocam o nome de Maria Santíssima. Então, coragem!
Josefina, reanimada pelo bálsamo daquelas santas palavras do ungido do Senhor, expôs a sua desgraça e confessou o seu projecto. As palavras eram vozes estranguladas por soluços aflitivos.

Mas o egresso, que parecia desaparecer no fundo do confessionário, como a volatilização de uma múmia exposta ao ar, obtemperava[15], pausado e grave, estendendo o lenço vermelho sobre os joelhos trémulos do reumatismo, que tal não fizesse. Era uma imprudência penetrar no antro das mulheres perdidas, dessas criaturas abandonadas da graça. Aviltaria a sua dignidade de senhora, sem recuperar as santas alegrias de esposa. E depois, que desgosto para Frederico, quando viesse a ter conhecimento daquele passo!

O escândalo é o maior dos pecados, e foi pelo escândalo que o pecado entrou no mundo. Vexar seu marido, para quê?
- Isso nunca, - atalhava a penitente - antes a morte que envergonhá-lo a ele, que é tão generoso e tão meu amigo, apesar de tudo...
- Pois bem, - prosseguia a voz dormente do egresso - tranquilize-se, Dª.Josefina, que tudo se conseguirá com o auxílio d'Aquela, que viu morrer seu filho na cruz. Quem deu vista aos cegos, fala aos mudos, movimento aos paralíticos e ressuscitou Lázaro, ainda está onde sempre esteve, apesar da impiedade do século, no qual por nossa desgraça vivemos e padecemos. A ovelha desgarrada voltará ao redil, e a luz que resplandeceu aos olhos de Saulo[16], na estrada de Damasco, brilhará em breves dias no caminho de Frederico. Tenha fé, minha filha, no valimento da Mãe de Deus, perante a qual se curvam os serafins, os arcanjos e as potestades[17]. A fé é o caminho da glória. Deus nada mais quer de nós senão um coração contricto e humilhado. Basta de pranto, ponha o pensamento na Mãe dos aflitos, peça-lhe com fervor o seu patrocínio e a porta da felicidade, cerrada pelo vício, será aberta de par em par pela mão da graça divina. Pulsate, et aperietur vobis[18]. Cuido que não será preciso recorrer por ora aos exorcismos, com que a Santa Igreja costuma expulsar do corpo das criaturas o demónio íncubo[19], mas, se tanto for necessário... deixe-o à minha conta, Dª.Josefina. Apegue-se com a Virgem, ofereça-lhe o que for do seu agrado e verá se o milagre se faz ou não.

Josefina ergueu-se então mais aliviada, como quem já vê luzir uma esperança na treva da sua desventura e, atravessando a nave sonoramente lúgubre, com o seu livro de orações na mão, a face afogueada e o olhar caído, foi prostrar-se desfalecida nos degraus do altar da Mãe de Deus.

Fora ali, naquele mesmo sitio, em frente daquela santa imagem que ela ajoelhara havia dez anos para receber das mãos do ministro de Deus as bênçãos nupciais. Que dia o de então, e que dia o de hoje!
A Virgem lá estava no mesmo altar, com os braços ainda abertos para todos, imóvel na sua peanha, erecta no seu trono de luzes e de flores, olhando fixamente para o mesmo ponto vago e incerto, como quem medita nos destinos tenebrosos dos pecadores.

Ela é que já não era a mesma. Então viera ali a transbordar de júbilos, como se entrasse no paraíso e agora vinha batida das tempestades da vida, arrojada como um náufrago e inconsolável como a viúva de Nahim[20]. Então agradecia e agora suplicava. Que dia então e que dia o de hoje! A noite precedente fora horrível. Sozinha no seu quarto, abandonada de todos, devorada de desgostos, padecera martírios de incomparável tortura. Terrores vagos, que não eram remorsos, mas tinham a forma de espectros, vinham para ela ameaçadores e fantásticos. A alcova parecia-lhe uma cripta mortuária; andavam no ar larvas ensanguentadas, e no seu cérebro confuso e aberto a todas as dores passavam relâmpagos que a abrasavam. Que noite, santo Deus!

Frederico estava fora de casa desde o anoitecer. Bem sabia onde estava e era o peso dessa certeza quem a esmagava. Tentara por vezes conciliar o sono e esquecer-se, mas como, se as suas pálpebras ardiam como brasas e o seu corpo tremia como o de um epiléptico?

Depois, lá pela madrugada, quando as primeiras flechas de luz atravessavam a alcova, como fios de oiro ou reflexos de uma lágrima, chegava ele como costumava, pé ante pé, muito cauteloso, deslizando no corredor como um ladrão que passa, muito cosido à parede para não ser pressentido. Horrível!

Mas era então que ela podia sacudir de si o grande peso que a esmagava e só então é que os relâmpagos de fogo deixavam de cruzar na sua cabeça.

Havia cinco meses que durava este martírio, que se repetiam com a fatalidade de um destino que se cumpre, as cenas desta lúgubre tragédia e nem uma queixa, nem uma recriminação ao ingrato!
- Para quê? - dissera o confessor - seria vexá-lo, seria feri-lo nos seus melindres de homem e nos seus segredos de amante. Seria provocar um escândalo, e pelo escândalo entrou o pecado no mundo...


V

Entretanto aproximava-se do altar rutilante e majestoso dentro da sua dalmática[21] bordada a ouro e seda o velhito calvo e mesureiro, segurando o cálice com ambas as mãos na altura do peito, beiços colados e espremidos, olhar humilde posto no chão, arrastando os passos miudinhos e trôpegos no lajedo sonoro do templo.

As mulheres, espalhadas pelo templo, murmurando orações e comunicando à nave o sussurro das colmeias, desviavam-se para o deixar passar, aconchegando as saias, curvadas, a bater nos peitos.
Ele subia lento os degraus do altar, como quem sobe a corte celestial, onde há luzes que nunca se apagam e flores que nunca murcham, e Dª.Josefina do Coração de Jesus com os olhos fitos naquele santo velhinho tão venerando e tão chegado a Deus, sentia que lhe gorgolhava nas veias a transfusão misteriosa de um bálsamo desconhecido.

A confissão fizera-lhe bem e toda a substância do seu ser parecia resolver-se agora numa ternura inefável que a desoprimia.

Durante o sacrifício, os olhos de Josefina nem um momento se apartaram da santa Mãe de Deus, resplandecente no seu trono de luzes. Fascinada por aquela imobilidade por aqueles olhos celestes, de um azul profundo como os abismos, estática e muda, como se estivesse pairando na zona intangível e misteriosa, onde vivem as almas crentes já saciadas e tranquilas, a esposa de Frederico sentia-se fora da vida normal e transitária, percorrendo mundos infinitos de ventura e de prazer nunca sentidos em vida sua.

Era uma ascensão gloriosa e inesperada o que lhe sucedia. Entrava no céu, sem ter padecido os transes da agonia. A Virgem pegara-lhe pela mão, envolvera-a no manto azul recamado de estrelas, e ela fora subindo, subindo, leve como um floco, transparente como o ar, incoercível, vaga, translúcida, a despegar-se da matéria de que era feita, a resolver-se na essência subtil dos espíritos de um modo tão doce que estava acordada, e parecia dormir, de uma forma tão suave e graciosa que vogava entre o céu e a terra, tocando com asas de querubim, ora no trono deslumbrante do Altíssimo, sem se queimar, ora na face do orbe[22], sem macular a virginal candura do seu corpo.

Somente acordou quando lhe lançaram ao pescoço a toalha branca da comunhão. O sacerdote levantava nesse momento o cálice de ouro com ambas as mãos alongadas para o céu e murmurava palavras ininteligíveis e misteriosas, num sussurro místico.

Foi neste momento augusto e solene, entre a elevação do cálice e da hóstia, quando à voz do sacerdote, o Rei dos reis e o Senhor dos senhores desce à terra a humanar-se nas sagradas espécies, que Dª.Josefina, num relance mental que envolvia toda a tragédia da sua existência, fez o voto aconselhado pelo director espiritual da sua consciência:
«Virgem santíssima, restituí a paz à minha alma e o sossego ao meu lar, e fazei de conta que é vosso tudo quanto possuo. Juro trazer-vos, em paga de tanto benefício, todas as minhas jóias, todas, desde o anel nupcial, presente de meu marido, até ao rico e sumptuoso colar de brilhantes, prenda querida de minha mãe. Tudo é vosso, mas restituí-me a felicidade, que perdi.»
Depois caiu num recolhimento profundo, as pálpebras cerradas, busto pendente e as mãos cruzadas no peito, como se ali acabasse a vida.
Que tempo estivera assim, não poderia dizê-lo; mas recordava-se de que recebera a comunhão das mãos piedosas do egresso, e de que nesse mesmo momento a Virgem descera do seu altar e a levara nos braços para muito longe dali, para essas regiões desconhecidas, onde floresce perpetuamente a esperança.

Acordada agora, urgia recolher a casa. Que diria Frederico? Realmente demorara-se mais do que desejava. Lançou um derradeiro olhar à Virgem, e saiu precipitadamente.

Quando entrou em casa, o marido esperava-a já, passeando impacientemente; de um extremo a outro da sala de jantar; e - circunstância digna de reparo - não foi para ela de braços abertos, como costumava.

E pela primeira vez, ao cabo de dez anos de felicíssimo idílio matrimonial, o marido de Josefina teve um gesto de enfado para sua mulher.


VI

A noite precedente também fora horrorosa para Frederico. Prevenido no Grémio de que a certa hora da noite Margarida recebia a visita de um estranho, quis verificar por si a veracidade da informação. Indagou e certificou-se. Mas, como era prudente, não quis fazer escândalo e deixou o seu lugar ao outro. O facto, porém, divulgou-se logo e durante toda a noite não se falou de outra coisa no Grémio.

Fora burlado miseravelmente por aquela rameira, e nem sequer podia queixar-se a ninguém, porque o ridículo é a única situação que um homem de sangue quente não tolera. Preferiu calar a sua vergonha, e resignar-se. Mas era castigo demais. Ao sair de casa de Margarida, a sua cabeça ardia devorada pela febre, e os beiços tremiam-lhe convulsionados pela raiva.
Por onde andou toda a noite, depois daquela cena? Que ruas percorrera até à madrugada? Não o sabia. Errou como um bêbedo pelos campos, esbarrou em todas as esquinas, encostou-se aos muros como os vagabundos, mordeu charutos sem conta, e quando se estendeu no leito, exausto e febril, era manhã clara.

Que situação e que vergonha!

Nesse dia não foi ao tribunal, mandou parte de doente. O juiz, o delegado, os escrivães, os colegas, os clientes, os oficiais de diligências, o auditório, todos compreenderiam aquela participação de doença. A vergonha também é doença. Frederico estava realmente incomodado.

Como se desfazia num momento a ilusão do seu prestígio! - meditava, cruzando em todas as direções a sala de jantar - Podia morrer num duelo, cuspido por um cavalo, esmagado debaixo de um túnel, afogado no mar, queimado num incêndio, varado por tiro, todas as mortes empreendia e todos os desastres achava lógicos, menos aquele. Ainda bem que Josefina ignorava tudo. Boníssima criatura! - rematava comovido.
- Estás doente, Frederico? - interrogou Josefina.
- Talvez - foi a sua resposta, sentando-se à mesa sem vontade de almoçar. Mas, desde aquele dia, as noitadas do Grémio acabaram para ele. Já não havia remissas[23] a levantar de madrugada, nem partidas de whist que o chamassem. As noites estavam ásperas e nada havia mais reparador do que um belo sono de algumas horas, ao cabo de um longo dia de trabalhos forenses. Tinha tanto que fazer no seu escritório que nem lhe sobejavam ócios para um curto passeio.

Josefina olhava maravilhada para aquela súbita metamorfose. Parecia-lhe inverosímil que tão rapidamente se tivesse operado o milagre. Mas não havia que duvidar. A Mãe de Deus acudira-lhe. A felicidade ausente, a felicidade antiga, regressava a casa como o filho pródigo da parábola. A imagem da outra fugira do pensamento de Frederico e a sua voltava a ocupar o seu antigo lugar no coração do incomparável esposo que Deus lhe dera. Tudo acabara lá fora, tudo; quem poderia duvidá-lo?

A princípio, a fisionomia do advogado era melancólica e ríspida. Mal humorado e sóbrio de palavra tinha estremecimentos súbitos e hostis. Felizmente essa fase durou pouco e a antiga jovialidade assomou próspera e auspiciosa, como nos primeiros dias de uma convalescença.

Até a lembrança da cómica aventura em casa de Margarida ia desaparecendo com o perpassar dos dias quando Josefina, em maré de expansão, enlaçando-se-lhe um dia ao pescoço, consoante o costume antigo, exclamou radiante de ventura:
- Agora é que eu sou a mulher mais feliz do mundo.


Frederico estremeceu, mas fingiu não compreender. Ela saberia? - Mas se o soube e nada me disse, então é porque minha mulher é a mais cândida e a mais santa das mulheres.

E dando-lhe na testa o mais afectuoso dos beijos, um desses longos beijos ciciados que produzem eco demorado nos mais recônditos escaninhos da alma, pegou do chapéu e saiu alegre como dantes, trincando a ponta do charuto.


VII

Apenas ele transpôs a porta, Josefina entrou no quarto precipitadamente, abriu uma das gavetas do toucador marchetado, tirou de dentro um pequeno cofre de sândalo encrustado de oiro, lançou aos ombros a capa de veludo e seda, compôs o véu defronte do espelho e saiu pressurosa.

A porta de igreja estava aberta e por detrás do guarda-vento passeava, de um para outro lado, arrastando o passo miudinho e trôpego, o velhito mesureiro e calvo, sumido no amplo capote grosso de camelão[24].

O Sol, atravessando os vidros coloridos das altas janelas laterais, inundava agora de luz, os altares, as naves, as galerias e o coro, como se o templo de Deus se houvera iluminado, de repente e de propósito, para a celebração de algumas núpcias celestes.

Josefina, ao chegar, beijou comovida as mãos de egresso que a levantavam do chão, onde ela ajoelhara, e caminhou para o altar da Virgem, que lá estava no seu trono rutilante, com os seus bonitos olhos de vidro despedindo chamas de amor divino, de braços eternamente abertos, donde pendia o rico rosário de padre-nossos de rubis, excelsa no seu manto de seda azul celeste que ondulava salpicado de estrelas.
- Então, milha filha, não lhe dizia eu que à Mãe de Deus nada é impossível?

Josefina, ao lado do egresso que a envolvia de alto a baixo num olhar curioso, depositava sobre a pedra da ara o cofre de sândalo e entregava ao confessor uma pequenina chave de oiro.

O padre abriu lentamente o cofre para autenticar, em presença da interessada, os valores recebidos, e com os seus magros dedos de avaro, semelhando garras, ia extraindo as diferentes jóias, uma a uma, com volúpia.
- Mas isto, minha filha, é uma riqueza!

Josefina, enlevada na santa imagem que fizera o milagre da sua felicidade, não ouvia.
- E ele? - tornou o egresso, sondando discretamente.
- Nada sabe e nada lhe direi. Seria vexá-lo inutilmente. Se ele é tão generoso e tão bom!
- Amém! - murmurou a voz débil e sussurrante do confessor.

Minutos depois o frade despedia-se de Josefina à porta da igreja e, regressando apressadamente à sacristia com o precioso cofre apertado entre as mãos, murmurava irónico e atónito:
- Sou padre à quarenta e cinco anos, mas é esta a primeira vez que vejo pagar um milagre pelo seu justo valor...

FIM
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