JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Resumo biográfico extraído do livro "FIGURAS DE GESSO"
Por: David Correia Sanches de Frias

O Autor

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Compilado e anotado por Vivaldo Quaresma
Site da Benfeita 2011

Filho de António Simões Dias, proprietário, e de Maria do Rosário Gonçalves, doméstica, José Simões Dias nasceu na Benfeita, pequena aldeia beirã do Concelho de Arganil/Coimbra, em 5 de Fevereiro de 1844. Era neto paterno de João Simões e de Maria Quaresma, das Luadas, e materno de Abílio Quaresma e de Maria Gonçalves, da Benfeita.

Com 10 anos de idade, concluiu os seus estudos na escola primária da Benfeita, tendo por mestre o padre António Pedro Nunes Teixeira, seu parente e velho liberal, muito acostumado ao uso da palmatória e aos puxões de orelhas nos seus discípulos, e se ordenou sacerdote depois de enviuvar, após concluir os estudos interrompidos pelo casamento.

Daí, seguiu para Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, onde foi estudar Latim com o mestre-régio João Cabral de Brito, pedagogo ferrenho e ignorantaço, tendo ficado a morar com o seu tio, o reverendo padre Albino Simões Dias Cardoso, pároco desta freguesia.

Regressou temporariamente à Benfeita, de onde saiu aos 13 anos para casa de um parente, em Coimbra, onde a sua vida foi sempre eivada de rara parcimónia[1] e de sucessivas dificuldades.

Cedendo à vontade dos parentes, que o desejavam clérigo, fez os estudos preparatórios e inscreveu-se, em 1858, no Seminário de Coimbra, que terminou aos 17 anos de idade.

Ao atingir a maioridade matriculou-se na Universidade de Coimbra, Faculdade de Teologia, sendo forçado a leccionar dentro e fora de casa por forma a sustentar a sua independência, tendo concluído a sua formatura em Teologia no ano lectivo de 1867-1868. Ao longo dos 5 anos que durou o seu percurso universitário foi distinguido com honras de accessit[2], desde o 1º ano, vários prémios e distinções, tendo sido convidado para lente, cargo que não viria a ocupar.

Simões DiasA 3 de Setembro de 1868, com 24 anos de idade, casou-se em Coimbra, na Igreja da Sé, de madrugada, com a sua muito amada Guilhermina Simões da Conceição, filha da então muito conhecida e celebrada lojista Delfina, estabelecida em Coimbra com botequim, frequentado pela academia e gente grada, sem o conhecimento dos parentes que o queriam padre, tendo ido viver para a cidade de Elvas, aonde foi exercer a actividade de professor das cadeiras de Português, Francês, Latim, Economia Rural e Administração Pública, tendo sido nomeado professor vitalício por decreto de 30 de Novembro de 1868, após concurso público.

Aqui experimentou, pela primeira vez, as suas armas de polemista, batalhando nos ardentes combates que então se travaram contra a "Nação", o "Bem Público" e outras folhas, ditas "reaccionárias", que não lhe perdoavam o desvio para fora dos arraiais teológicos. O seu "campo de batalha" era a "A Democracia", de Elvas, onde colaborava com o reverendo Henrique de Andrade, seu companheiro e devoto admirador e a quem deve uma das mais calorosas biografias.

A sua musa dilecta dos bons tempos de Coimbra sucumbiria, na melhor quadra de sua vida, em 14/04/1869, com 24 anos de idade, flor tão modesta como formosa que se desfolhava em pleno viço, por ironia da sorte, ao desabrochar das flores primaveris, sendo sepultada no cemitério de S.Francisco.

Em Agosto de 1870, transfere a sua residência para Lisboa, onde obtivera por concurso, um modesto emprego na Secretaria da Justiça. Daqui, partiu para Viseu, no ano seguinte, por nomeação do governo, para ir leccionar a cadeira de Oratória Poética e Literatura, no Liceu Nacional de Viseu.

Um ano depois da sua chegada a Viseu, casou-se, pela segunda vez, em 26 de Setembro de 1872, com Maria Henriqueta de Meneses e Albuquerque. Deste enlace proveio uma única filha, Judite de Meneses Simões Dias, que nasceu a 13 de Julho de 1873.

Simões DiasEleito deputado, às cortes, por Mangualde, em 1879, estreou-se como orador parlamentar de excelentes recursos, ao propor que fosse considerado "dia de gala nacional", o dia em que se comemorava o tricentenário da morte de Camões. Três legislaturas mais o tiveram por deputado: por acumulação de votos (12/12/1884 - 07/01/1887); por Pombal (02/04/1887 - 10/06/1889) e por Mértola (19/04/1890 - 02/04/1892).

Em 1882, Simões Dias, ferido nos seus brios e largos serviços, pela ingratidão dos partidários dirigentes, abandona a actividade política. «Mal empregado descaminho de 15 anos!». Que proventos, que honrarias, que posições deu a negregada[3] política a Simões Dias? A política não é a arte de bem governar, como se pensava e dizia na infância da palavra; é o «barracão de feira franca, aonde primeiro chegam os que mais atropelam, gritam e ousam».

Sua esposa resolvera desertar de Viseu, onde a escandalizavam os seus rasgos tribunícios[4] e artigos de polémica, indo refugiar-se no meio dos rosmaninhos floridos da pequena Benfeita.

Transferido de Viseu, em 16 Setembro de 1886, foi colocado como professor no Liceu Central de Lisboa, tendo acumulado com as funções de Chefe de Secretaria. Com os seus modestos recursos consegue edificar, desde os alicerces, em 1891, um despretensioso, mas confortável lar doméstico; porém, em Julho do ano seguinte, o seu casamento sofre danos irreparáveis e viu-se coagido a desfazer o seu lar, alugando-o a estranhos e indo viver com a sua filha para casa alheia. O desquite conjugal, com separação de pessoa e bens viria a ultimar-se por escritura em tabelião, a 29 de Novembro de 1892.

Em 1895, a sua filha Judite, então com 21 anos de idade, deixa a sua companhia indo viver para Coimbra para casar, em Fevereiro, com o primo Carlos Simões Dias de Figueiredo.

Simões Dias manda, então, construir uma casinha, composta de rés-do-chão e primeiro andar, no extremo do amplo e alongado quintal da sua antiga casa, que mantém alugada, longe do convívio mundano, onde trabalha como um recluso, na emenda e revisão da sua obra poética, os Peninsulares, já conhecida e consagrada, continuando a exercer a sua actividade no liceu lisboeta, e aí tendo permanecido até à sua morte.

Faleceu no dia 3 de Março de 1899, com 55 anos de idade, na cidade de Lisboa, tendo-lhe sido diagnosticado como causa da morte um aneurisma da crossa da aorta.

A 4 de Março de 1899, borrascoso sábado de Inverno, pelas 3 horas da tarde, o seu corpo dava entrada no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, onde permaneceu, provisoriamente, no jazigo do amigo Júlio César dos Santos, ficando a aguardar trasladação para o seu jazigo de família.
Ali lhe foram prestadas as últimas e merecidas exéquias, nas mais diversas manifestações de pesar pela sua perda, pelos seus amigos, colegas e discípulos, e por quem lhe quis honrar a memória, apreciava o seu admirável estro e clareza da sua inteligência, e o considerava um espírito superior, um leal e devotado amigo, um guia e um conselheiro experimentado.

A trasladação para o Cemitério da Conchada, em Coimbra, ocorreu cerca de um ano depois, no dia 9 de Abril de 1900. Transportado de comboio, foi ocupar o seu lugar, no dia seguinte, no jazigo 56-80, do talhão 12, pertencente à família do Arcediago[5] José Simões Dias, seu tio.

Em 13 de Outubro de 1999, por iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Arganil, Junta de Freguesia da Benfeita, Liga de Melhoramentos da Freguesia da Benfeita, Editorial Moura Pinto e Comissão do Povo da Benfeita, os seus restos mortais foram trasladados para o Cemitério da Corga, na Benfeita, juntamente com os do seu tio, Padre José Simões Dias, onde foram depositados num mausoléu especialmente mandado construir para os receber.
Este grupo de pessoas deu forma à sua interpretação da última estrofe do poemeto "Morrinha Brasileira - O engajado", de J.Simões Dias, publicado em 1868, na edição nº3, de "A Folha", quando o poeta tinha 24 anos de idade, e que julgaram corresponder ao último desejo do poeta em ser sepultado na sua terra natal.

E quando eu morra... (Mísera vida,
Que eu te não deixe na terra alheia!)
Fiquem ao menos meus tristes ossos
No cemitério da minha aldeia.

Simões Dias

***

De 1861 a 1870 colaborou em diversos periódicos literários de Coimbra, como: "O Tira-Teimas", "Prelúdios Literários", "Fósforo", "Hinos e Flores", "Harpa", "Átila", "Academia", que fundou com Emídio Navarro e Lopes Praça, "Crisálida", em que se associou com Teófilo Braga e Duarte Vasconcelos e, finalmente, na revista "A Folha"[6], dirigida por João Penha[7], seguindo muito de perto o Parnasianismo[8]. Notam-se influências do Ultra-Romantismo e do Realismo, em especial nas suas obras de ficção.

Reuniu e prefaciou os "Contos", de Álvaro do Carvalhal[9]. Pode dizer-se que, neste período, não houve uma publicação literária, em Coimbra, que não tivesse a sua colaboração, podendo ainda mencionar-se: "O Povo", "País", "Estrela da Beira" e "Comércio de Coimbra".

Especializou-se no estudo da literatura espanhola, em especial no mito de D.Juan, tendo publicado alguns artigos sobre o assunto na revista "Panorama".

Em Lisboa dirigiu o jornal progressista "Correio da Noite" (1887); fundou com Cândido Figueiredo, Visconde de Sanches de Frias[10] e Oliveira Simões, "O Globo" (1888), uma folha diária que durou 3 anos, até 1891; e foi redactor do "Tempo" (1891), com Lobo de Ávila e Oliveira Martins.

Publicou em Coimbra: a colecção lírica "Relicário" ou "Mundo Interior" (1863), primitiva edição das "Peninsulares"; o poemeto "Sol à Sombra" (1864); a segunda edição do "Mundo Interior" (1867), mais tarde integrada nas "Peninsulares"; o livro de contos "Coroa de Amores" (1868) e a 2ª edição do livro "A Instrução Secundária" (1883), discussão da lei orgânica de 14 de Julho de 1880.

Publicou em Elvas: o poema herói-cómico "A Hóstia de Oiro" (1869), saído dos prelos da Democracia; a primeira edição das "Peninsulares" (1870); e a "Espanha Moderna" (1870), uma apreciação do movimento literário, político e artístico do reino vizinho, que lhe confere a comenda de Isabel, a Católica, recebida em sua casa pelas mãos do então ministro Montero Rios, durante a regência de Francisco Serrano.

Publicou em Lisboa: os poemetos "Ruínas" (1871), ainda impressos em Elvas; reimprime o livro "Coroa de Amores", com o título "Contos em Prosa" (1885), numa 2ª edição reformada e melhorada, com a intenção clara de revogar a inexperiência literária da primeira edição; o livro "A Escola Primária, em Portugal" (1888), um exame das condições em que se encontrava o ensino primário português; e um atado de contos chamado "Figuras de Cera" (1888).

Um ano antes da sua morte, em Março de 1898, publica, de novo, "Figuras de Cera", numa colectânea de 7 histórias contemporâneas, onde se incluem: "Morte de César"; "Pecado Original"; "Imortal"; "Alma Enamorada"; "Boémio"; "O Dinheiro do Moleiro" e "João Ninguém".

Publicou em Viseu: o livro "Compêndio de História Pátria" (1872), para uso nas Escolas Primárias; "Compêndio de Poética e Estilo" (1872), mais tarde refundido na "Teoria da Composição Literária"; o livro "Lições de Literatura Portuguesa", em cujas edições posteriores se chamou "História da Literatura Portuguesa" (1875) e atingiu 10 edições, aprovado pelo governo para as aulas de Literatura nos liceus e colégios; a 3ª edição do "Mundo Interior" (1876); traduz e publica "A Flor do Pântano" (1879), romance de Carlos Rúbio; e a 1ª edição do livro "Elementos de Oratória e Versificação Portuguesa", refundida depois na "História da Composição" (1881).

Publica no Porto: o romance contemporâneo "As Mães" (1877); o romance "O Pecado" (1878); traduz e publica "Curso de Filosofia Elementar" (1878), de Jaime Balmès[11]; a 1ª edição do livro "A Instrução Secundária" (1880); traduz e publica a "História da Filosofia" (1881), de Jaime Balmès; e escreve em colaboração e publica o livro "Manual de História e Análise" (1883).

Com o nome "Figuras de Gesso" (1906), o Visconde de Sanches de Frias refunde numa 3ª edição, o livro "Contos em Prosa", juntando-lhe um alargado e minucioso estudo biográfico sobre Simões Dias, bem como uma secção de Necrologia, onde constam recortes da imprensa e o sentimento expresso de colegas e amigos, após a sua morte.

Em Outubro de 1999 é reimpressa a última edição do livro "Peninsulares", na data comemorativa do 1º centenário da morte de J.Simões Dias.

Por ocasião do seu 10º aniversário, o Site da Benfeita publicou o livro "Figuras de Gesso - Histórias contemporâneas", 4ª Edição, em versão electrónica com anotações, para leitura on-line ou download em formato pdf.

2001-2011
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