Os cemitérios
DA BENFEITA

IX

por: Dr.Mário Mathias
publicação: A Comarca de Arganil - nº 6612, de 11/07/1970

A freguesia da Benfeita passou a dispôr, a partir dos princípios da década de 1940, além do amplo "cemitério da Corga", de um novo cemitério paroquial, construído nas proximidades da povoação do Monte Frio, especialmente destinado aos defuntos das aldeias da "Serra".

Os escabrosos caminhos, quase sempre escalavrados, tornados intransitáveis pelas invernias, bem como as enormes distâncias a percorrer até à Benfeita, justificavam inteiramente a sua construção, que a comodidade dos povos e até o decoro dos funerais tornavam igualmente de evidente interesse público.

Por isso, logo que foram vencidas as grandes e iniciais dificuldades e estorvos da abertura da estrada de penetração da Serra, chamada pelo povo "estrada do Formarigo" e se conquistou a boa vontade e o interesse dos "Melhoramentos Rurais", para esta importante rodovia que iria atravessar três concelhos e beneficiaria o Monte Frio, a Relva Velha, a Moura, a Castanheira, o Porto da Balsa, etc., a Comissão de Melhoramentos do Monte Frio incluiu a construção do cemitério a par da edificação de uma escola primária e da abertura de um chafariz, na lista das suas mais prementes aspirações.

Presidia à Comissão de Melhoramentos, e pode dizer-se que ali estava por direito próprio, Francisco Peres. Bairrista dos melhores e mais esforçados, entusiasta por tudo o que contribuísse para o progresso da sua aldeia natal, ou representasse comodidade ou prestígio para a sua população, espírito empreendedor, infatigável, tinha uma viva inteligência que lhe conquistara amizades e até uma habilidade agradável e risonha, despertadora de colaborações e auxílios valiosos, dentro e fora da sua terra, na freguesia, no concelho e mesmo em Coimbra ou Lisboa.

Francisco Peres, pelas suas qualidades e serviços em prol do Monte Frio, ocupava entre os seus conterrâneos primacial posição, mas o espírito empreendedor, a sua boa vontade e a sua dedicação pelo progresso das povoações isoladas, deprimidas e desalentadas da região serrana, granjearam-lhe igualmente muitas amizades e consolador prestígio noutras localidades (1).

Elaborado o projecto para a construção do cemitério e entregue no Ministério das Obras Públicas, logo o processo foi comparticipado pelo Estado que, em Junho de 1939, lhe concedeu um subsídio de 15.634$00. E em verdade as obras do cemitério - apesar do prosseguimento da "estrada do Formarigo" - não se atardaram porque os jornais regionalistas anunciaram (2) que durante as festas regionais e religiosas de 4 de Agosto de 1940, se procederia, no Monte Frio, à inauguração solene de - conforme se pormenorizava - "três melhoramentos da maior importância":

- um edifício escolar
- um cemitério, e
- um chafariz.

A primeira pessoa falecida no Monte Frio enterrada no novo cemitério, foi:
- António Maria, de 78 anos de idade, polícia reformado, casado em segundas núpcias com Maria Rita (da Quelha), sepultado em Dezembro de 1942.

Até ao presente, fizeram-se ali quatro enterramentos, por trasladação, de naturais do Monte Frio, falecidos em Lisboa. Foram eles:
- António Henriques, de 59 anos, filho de Manuel Henriques e Maria de Assunção, casado com Maria dos Anjos e pai de três filhos: Olinda, José e Carlos, todos de maior idade. Residente no Monte Frio, foi internado, por doença, no Hospital Curry Cabral (Rego), em Lisboa, onde faleceu em 25 de Fevereiro de 1964. O seu funeral, precedido de "ofícios de corpo presente", cantados pelos padres Joaquim da Costa Loureiro, pároco da Benfeita, Januário Lourenço dos Santos, arcipreste de Vila Cova do Alva, Adelino Henriques, pároco de Mouronho, Américo Abreu Duarte, de Folgues, e José Vicente, de Coja, teve a presença da irmandade do Santíssimo, da Benfeita, e muito povo.

- Palmira Henriques, filha de António Luís e Maria Henriques, viúva de Augusto Pedro, falecida em 18 de Outubro de 1967.

- Armindo Fernandes, filho de Augusto Fernandes e de Adelaide Fernandes, de 64 anos de idade, casado com Maria do Carmo Fernandes, falecido em 13 de Fevereiro de 1968.

- Manuel Domingos Marques, de 84 anos, filho de António Domingos Marques e Maria de Jesus, viúvo de Maria de Assunção, falecido em 14 de Fevereiro de 1968.

O cemitério do Monte Frio foi construído, junto à "estrada do Formarigo", a menos de um quilómetro da povoação, em terreno oferecido gratuitamente por José Henriques e António Pimenta, ambos já falecidos. Há nele várias sepulturas perpétuas, algumas com lápidas, e um jazigo de capela mandado construir pela família de Francisco Peres, após o trágico e impressionante acidente que o vitimou (3), para recolha dos seus restos mortais. Este jazigo, até ao presente, único na freguesia, foi construído em Abril de 1956, tendo oito metros de comprimento por seis de largura, ficando com quatro prateleiras na capela e mais quatro no subterrâneo.

Vinte anos depois da construção do cemitério do Monte Frio, também a Comissão de Melhoramentos dos Pardieiros pretendeu construir um cemitério junto a esta povoação, para o que requereu o correspondente subsídio do Estado.

E assim foi a freguesia da Benfeita dotada de mais um cemitério paroquial, confirmando-se mais uma vez o dito popular de que não há fome que não dê em fartura ...

O cemitério dos Pardieiros, construído em magnífico local, de bela panorâmica, situado acima da povoação, próximo da estrada vicinal que segue para o Enxudro e Sardal, foi benzido em 6 de Junho de 1960.

As formalidades do Ritual foram celebradas pelo pároco padre Joaquim da Costa Loureiro, por delegação especial de D. Ernesto Sena de Oliveira, venerando arcebispo-bispo de Coimbra, numa imponente cerimónia em que tomou parte a irmandade de S. Nicolau e da Senhora da Saúde e muito povo, sendo o sermão da circunstância, que a todos comoveu, pregado pelo padre Francisco Dias Ladeira, pároco da freguesia de Mouronho, do concelho de Tábua.

A primeira pessoa sepultada no novo cemitério foi:
- Augusto Pereira, filho de José Joaquim Pereira e de Maria Joaquina, viúvo de Maria da Conceição, falecido no dia 12 de Março de 1961, com 81 anos de idade.

Dois pardieirenses, falecidos em Lisboa, quiseram vir também dormir o sono eterno no "seu" cemitério, para onde vieram trasladados os seus restos mortais:
- António Pereira Simões, de 62 anos de idade, filho de Estércio Pereira Simões e de Ana de Jesus, casado com Hortense Nunes Simões, que faleceu em 18 de Janeiro de 1965, e

- Albertino de Jesus Dias, de 59 anos, filho de José Joaquim e de Maria de Assunção Dias, falecido em 9 de Agosto de 1967.

MÁRIO MATHIAS


(1) - Na primeira reunião realizada após a desastrosa morte de Francisco Peres, ocorrida na segunda-feira, 12 de Dezembro de 1955, a Câmara Municipal de Arganil, onde semanas antes o falecido fora empossado no cargo de vereador, aprovou por proposta do seu presidente substituto, sr. Eduardo Jorge (Filho), um voto de profundo pesar pela morte de tão prestante cidadão, de altas virtudes cívicas - como se diz na acta - a cujo nome ficava ligada uma obra de verdadeira renovação da zona do concelho mais ligada à sua terra, pois sem exagero se podia afirmar que sob a sua acção e mercê do auxílio sempre pronto do Governo, toda a vida daquele povo serrano se transformara, emergindo da mais triste situação e mal estar, abrindo-se estradas, construindo-se fontes, edificando-se escolas, criando-se carreiras regulares de camionetas em ligação ao caminho de ferro, etc.

(2) - A Comarca de Arganil, de 25 de Julho de 1940.

(3) - Francisco Peres, cujo dinamismo, espírito empreendedor, força de vontade e interesse se não confinava apenas a melhoramentos públicos, havia instalado junto da sua moradia, estabelecimento e armazéns, que construira na Fonte de Raiz, proximidades do Monte Frio, uma moagem eléctrica, cujo motor, movido por baterias, dava também luz eléctrica para sua casa.

Tal moagem era de grande vantagem para os povos serranos, pois deixavam assim de ter de deslocar-se a longas distâncias em demanda de azenhas onde farinassem o milho e outros cereais de que faziam o seu pão, utilizando as mós da Fonte de Raiz, que laboravam com a assistência de moleiro competente, residindo próximo.

Na segunda-feira, 12 de Dezembro de 1955, acusou a moenda certa deficiência, facilmente reparável com a substituição de uma das baterias de alimentação do motor e Francisco Peres foi ele próprio fazer a substituição da bateria para o moleiro não abandonar o seu serviço. E assim, agasalhado contra o tempo invernoso com uma gabardina, quis a fatalidade que a correia que accionava a moenda prendesse uma ponta da gabardina, repuxando-a com violência e atraindo irresistivelmente contra as engrenagens o desventurado Francisco Peres, esmagando-lhe logo um braço, e causando-lhe outros ferimentos e lesões tais que instantaneamente lhe provocaram a morte, pois o moleiro, que prontamente lhe acudiu, alarmado pela inesperada e brusca paragem da moenda, e logo subiu do piso inferior onde estava junto das mós, não lhe encontrou o mais leve sinal de vida.

A triste notícia logo se divulgou, primeiro no Monte Frio e depois em toda a freguesia e na região, pelo que ao seu funeral, realizado no dia seguinte, acorreu gente das freguesias da Benfeita, Cerdeira, Coja, Pomares, Fajão, Avó, Tábua, Arganil, Oliveira do Hospital, etc., numa multidão, e se incorporaram as irmandades do Santíssimo e da Senhora da Assunção, da Benfeita; de S. Nicolau e da Senhora da Saúde, dos Pardieiros; as crianças das várias escolas das povoações e circunvizinhas, etc.

MM