Os cemitérios
DA BENFEITA

VIII

por: Dr.Mário Mathias
publicação: A Comarca de Arganil - nº 6607, de 30/06/1970

A primeira trasladação realizada para o Cemitério da Corga no ano de 1969, que seria a décima terceira desde 1951, foi a de José Dias, de 73 anos de idade, falecido em 19 de Janeiro, em Coimbra, na Casa de Saúde de Santa Cruz, onde fora internado pouco antes, por motivo de doença.

Filho dum primeiro matrimónio de Urbano Dias, que compraria as casas e várias propriedades dos herdeiros do conselheiro dr. Luís António de Figueiredo, combateu em França durante a Grande Guerra, pois fizera parte do C.E.P., tendo de lá publicado uma ou duas cartas em A Comarca. Deixou viúva Amélia Dias e era cunhado do padre José M. da Cruz Dinis, natural das Torrozelas e prior da igreja e freguesia de Santo António dos Olivais, da cidade de Coimbra.

A segunda chegou igualmente de Coimbra e trouxe-nos os restos mortais de Alberto Luís Gonçalves, falecido naquela cidade, onde residia e era muito conhecido e estimado, em 21 de Novembro de 1969, com 83 anos de idade.

Nascido na Benfeita, numas amplas casas com pátio e forno no bairro de Santa Rita, filho de José Luís Gonçalves e de Maria de Assunção, aqui casou, construiu casa e viveu até que, para facilitar a educação liceal e universitária de seus filhos, transferiu a sua residência para Coimbra. Esta circunstância parece ter aumentado mais ainda a carinho e dedicação que consagrava à terra em que nascera, onde sempre passava as suas férias e vinha várias vezes mais durante o ano, mormente em certas datas festivas.

Cioso e entusiasta pelo progresso e prosperidade da Benfeita, colaborava em todas as iniciativas regionalistas e frequentemente manifestava o desejo de ser sepultado no Cemitério da Corga.

Por isso, com devotado amor filial aqui o veio trazer, com a família (1), o dr. António Luís Gonçalves, num funeral dos mais expressivos e concorridos que aqui tem havido.

Chegado o féretro em auto-fúnebre, celebrou logo o prior Joaquim da Costa Loureiro missa de corpo presente e os responsos do ritual, a que assistiram muitas pessoas de Coimbra, Arganil, Coja, etc., que acompanharam o préstito, as irmandades do Santíssimo e da Senhora da Assunção e muitas centenas de pessoas da freguesia e redondezas.

Após a missa, reorganizou-se o funeral, na forma tradicional, incorporando-se nele toda a gente presente, numa sentida manifestação de pesar, bem como o magnífico reitor da Universidade de Coimbra, prof. dr. Andrade Gouveia, que desde aquela cidade conduzia as chaves da caixão; o ilustre director da Faculdade de Direito, prof. dr. Afonso Rodrigues Queiró; o presidente da Câmara Municipal de Arganil, professor José Dias Coimbra, vereadores e autoridades, etc.

O terceiro enterro, vindo de Lisboa, em 1969, para o Cemitério da Corga, foi o de António Nunes Leitão, falecido na madrugada do dia 5 de Dezembro, na Casa de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, onde fora internado três ou quatro dias antes. Contava oitenta e um anos, feitos em Fevereiro.

Enfileirando entre os mais dedicados amigos da terra-natal, trabalhou sempre com a maior boa vontade e entusiasmo, contribuindo para todos os melhoramentos que nela se fizeram nos últimos quarenta anos, consagrando especial interesse, cuidado e carinho pelas crianças da escola, a quem muitos anos ofereceu e angariou roupas, calçado, impermeáveis para defender da chuva as que vinham de longe, batas escolares, amêndoas, brinquedos, géneros para o Refeitório, etc.

Merece, entretanto, particular referência o belo edifício que mandou construir para instalação do posto médico e refeitório, no rés-do-chão, e residência das professoras, no primeiro andar, no qual despendeu cerca de oitenta contos, ofertando-o ao povo da Benfeita numa interessante cerimónia, solenemente presidida pelo sr. Bispo Auxiliar de Coimbra, D. Manuel de Jesus Pereira, representando o sr. Arcebispo Conde, e pelo dr. Joaquim de Oliveira Lírio, secretário do Governo Civil do distrito, que representava o sr. Governador Civil, eng, Horácio de Moura, e pelo presidente da Câmara Municipal de Arganil, coronel Álvaro da Silva Sanches (2).

O funeral chegou à entrada da Benfeita às quatro horas da tarde de domingo, 7 de Dezembro, acompanhado por numerosos automóveis, estando toda a população à sua espera, bem como a irmandade da Senhora da Assunção e as crianças das escolas da Benfeita e dos Pardieiros, e muita gente de outras povoações.

Organizado o enterro, o ataúde foi transportado para a igreja paroquial, sendo celebrada missa de corpo presente, após a qual o funeral seguiu para o cemitério da Corga, onde ficou sepultado.

Desde Janeiro de 1951 a Dezembro de 1969 fizeram-se, portanto, quinze trasladações para o cemitério da Corga, vindo nove da cidade de Lisboa e seis de Coimbra, estas quase todas de pessoas falecidas ali acidentalmente, em casas de saúde ou hospitais. Dois dos falecidos eram da povoação do Sardal, um das Luadas, outro da Deflores, sendo os onze restantes da povoação da Benfeita.

No mesmo espaço de tempo fizeram-se mais sete trasladações para os cemitérios do Monte Frio e dos Pardieiros, cinco para o primeiro e duas para o segundo (3).

Assim foram sepultados do cemitério paroquial do Monte Frio:
- Ana de Jesus Duarte, falecida em Lisboa em 17 de Abril de 1958, de 57 anos de idade, filha de José Marques e Maria da Conceição Henriques, casada com António Francisco;

- António Henriques, falecido em Lisboa, no Hospital Curry Cabral, em 25 de Fevereiro de 1964, de 59 anos de idade, casado com Maria dos Anjos;

- Palmira Henriques, falecida em Lisboa, em 18 de Outubro de 1967, filha de António Luís e Maria Henriques, viúva de Augusto Pedro;

- Armindo Fernandes, falecido em Lisboa, em 3 de Fevereiro de 1968, de 64 anos, casado com Maria do Carmo Fernandes;

- Manuel Domingos Marques, falecido em Lisboa, com 84 anos de idade, em 14 de Fevereiro de 1968, viúvo de Maria da Assunção.

Foram sepultados no cemitério paroquial dos Pardieiros:
- António Pereira Simões, falecido em Lisboa, em 18 de Janeiro de 1965, tendo 62 anos de idade e sendo casado com Hortense Nunes Simões, e

- Albertino de Jesus Dias, de 59 anos, casado com Silvina Duarte, falecido em Lisboa, em 9 de Agosto de 1967.

MÁRIO MATHIAS


(1) - Alberto Luís Gonçalves era casado com D. Maria do Carmo Gonçalves, pai do dr. António Luís Gonçalves, casado com D. Amanda de Albuquerque Rocha Gonçalves, antigo presidente da Câmara Municipal de Arganil, desempenhando actualmente o cargo de secretário da Universidade de Coimbra, e das sr.ªs D. Emília Luísa Gonçalves Machado, casada com o dr. José Fernandes Machado, professor do Ensino Técnico, em Santo Tirso, e D. Maria Luísa de La Sallete Gonçalves Milagre, casada com Germano Augusto Dias Milagre, residente em Lourenço Marques. Tinha 16 netos e 18 bisnetos.

(2) - A cerimónia da solene oferta e inauguração do edifício realizou-se no dia 1 de Novembro de 1960, com a assistência das entidades acima referidas e de muitas outras de que os jornais deram nota, como D. Arminda Alves Caetano da Silva Sanches; padre Januário Lourenço dos Santos; eng. João José da Rocha Viegas Pimentel; professora D. Isaura de Assunção Cardoso; Francisco Filipe, de Coja; tenente José Pires Beato; Dante Simões Loureiro e professor José Maria Gaspar, de Condeixa; padre Américo Brás da Costa, José dos Santos Fernandes, Joaquim Paulo e outros de Arganil; padre César Simões, de Pinheiro de Coja; as professoras da Cerdeira e Benfeita, D. Lúcia da Ressurreição Leitão Jorge e D. Maria Edite Ribeiro Saraiva; dr. António Luis Gonçalves; professora de Arganil, D. Alice Jacob de Carvalho e de muitas outras pessoas, tendo a população de todas as povoações da freguesia que acorreu em massa, apesar do tempo chuvoso.

As entidades oficiais que chegaram à Benfeita pelas 11 horas, eram aguardadas à entrada da povoação, em frente da igreja matriz, pelo pároco e autoridades locais, irmandades, Filarmónica «Pátria Nova», de Coja, crianças e professoras das escolas da Benfeita, Pardieiros e Monte Frio, direcções da Liga de Melhoramentos e das Comissões de Melhoramentos da Relva Velha, Sardal, Dreía e muitas outras pessoas.

À entrada do edifício mandado construir por António Nunes Leitão, que não estava presente por o seu estado de saúde não lho permitir e que o sr. Bispo Auxiliar abençoou, o coronel Silva Sanches, a convite do representante do Chefe do distrito, içou lentamente e ao som de ovações e salvas de palmas, a bandeira nacional, enquanto a filarmónica executava «A Portuguesa» e se ouvia o estralejar de muitos foguetes e morteiros.

Na sessão solene, falou em primeiro lugar o pároco da freguesia, padre Joaquim da Costa Loureiro que concluiu lendo uma mensagem do presidente da Junta de Freguesia (internado numa casa de saúde de Lisboa por virtude de grave operação cirúrgica), na qual se pedia ao sr. presidente da Câmara Municipal que em reunião e com todas as formalidades legais, deferisse a solicitação que em nome de todos os benfeitenses lhe formulava, de que se desse a uma rua ou largo da Benfeita o nome do homenageado, pois bem o merecia pelo seu interesse regionalista e benemerência que já havia feito.

Falaram ainda durante a sessão o dr. António Luis Gonçalves, o coronel Álvaro da Silva Sanches, presidente da Câmara, a professora da escola da Cerdeira, D. Lúcia Nunes Leitão Jorge, sobrinha e representante do benemérito, o representante do ilustre Governador Civil, dr. Joaquim Lírio e, por fim, o sr. D. Manuel de Jesus Pereira, hoje bispo de Bragança.

A mensagem do dr. Mário Matias da qual constava a proposta da Junta de Freguesia para ser dado a uma rua ou largo o nome de "António Nunes Leitão" foi publicada, também na íntegra, no opúsculo «Benfeita».

Durante mais de meio século o homenageado tivera como companheira dedicada D. Susana Amália de Sá, natural de Alfândega da Fé, a qual igualmente consagrava à Benfeita, que quase considerava sua terra, uma viva amizade, granjeando a estima de toda a gente, que muito lamentou o seu falecimento, ocorrido em Lisboa, com 88 anos de idade, em 15 de Março de 1964.

A gente da Benfeita teve sempre em mente, considerando o bairrismo do falecido, que este não tendo herdeiros forçados, fizesse doação à Junta da Freguesia, pelo menos em testamento, da casa em que passava as suas férias, situada no centro na povoação e confinante com a capela de Nossa Senhora da Assunção, para ser demolida e o seu terrado encorporado no largo público que a rodeia, melhoramento que o templo e a povoação bem mereciam, "sonho" com que se contou, na esquadria adoptada, quando o pároco Joaquim da Costa Loureiro procedeu à reconstrução total daquela pequena igreja. Igualmente era crença quase geral, bastante enraizada, de que o falecido, embora rodeando-a das necessárias garantias e cuidados, não deixaria de fazer valioso legado à escola da Benfeita (em que também aprendeu) para assegurar, para depois da sua morte, os benefícios que tradicionalmente dava às crianças de roupas, batas, impermeáveis para as defender das intempéries quando moravam longe, calçado, amêndoas, brinquedos, géneros alimentícios para o refeitório, etc.

(3) - O cemitério do Monte Frio, foi construído em 1939/1940 e o dos Pardieiros em 1960, ambos subsidiados pelo Estado, como referiremos.

MM