Os cemitérios
DA BENFEITA

VII

por: Dr.Mário Mathias
publicação: A Comarca de Arganil - nº 6588, de 12/05/1970

O primeiro enterro vindo de longe, de fora da freguesia, feito no "Cemitério da Corga", foi o de Leonardo Gonçalves Mathias, que a morte surpreendeu, quase inesperadamente, em Lisboa, no dia 30 de Dezembro de 1950, com setenta e oito anos de idade, feitos em 13 daquele mesmo mês.

Acalentara sempre o desejo, somente discretamente manifestado, de ter sepultura na terra em que nascera, enternecidamente amada, e a cujo desenvolvimento, bem-estar e progresso especialmente se consagrara, durante os últimos vinte e cinco ou trinta anos. E estimaria, igualmente, no íntimo do seu coração, ser enterrado onde jaziam os restos mortais de seu pai e de sua mãe, cuja memória não esquecia e devotamente prezava, e também era certo, sem disso fazer alarde ou visíveis exteriorizações, que preferiria dormir o sono eterno no meio dos seus patrícios, homens e mulheres, companheiros e amigos leais, dedicados e infatigáveis, que sem desânimos nem hesitações o haviam acompanhado sempre, nas horas boas corno nas más, vividas na difícil e emocionante luta travada, durante mais de dez ou doze anos para arrancar a "estrada-nova" da Portelinha e trazê-la até à Benfeita, a ficar enterrado longe da "sua" Benfeita, em terra estranha, entre gentes desconhecidas (1).

A trasladação dos restos mortais de Leonardo Gonçalves Mathias para o cemitério da Benfeita, realizou-se precisamente um mês depois do seu falecimento, em auto-fúnebre, acompanhado pela família, por numerosa representação da Liga de Melhoramentos da Freguesia e de outras agremiações regionalistas e muitas pessoas, a que se foram juntando outros amigos e admiradores de Alcobaça, Leiria, Coimbra, gente vinda para ali de Aveiro e do Porto, de S. Martinho da Cortiça, Arganil, Celavisa, Coja, etc.

Na Benfeita, o féretro era aguardado pelas irmandades de Nossa Senhora da Assunção e da Senhora da Saúde, dos Pardieiros, por uma deputação dos Bombeiros Voluntários Argus, de Arganil, pelo presidente e funcionários da Câmara, pelas filarmónicas de Arganil e do Barril de Alva, e por muitíssima gente de todas as terras da freguesia e de outras povoações do concelho.

Organizado o funeral à entrada da terra foi acompanhado por uma multidão de gente através de toda a povoação até à sua casa, que mandara construir e em que morava no Bairro de Santa Rita, para que a urna ali estacionasse durante alguns momentos, após o que seguiu para a igreja para se celebrar missa de corpo presente.

Depois da missa, os membros directivos e sócios da Liga de Melhoramentos, de que o falecido fora sócio fundador e primeiro e único presidente da assembleia geral, quiseram, por especial homenagem, tomar para si a condução do féretro ao cemitério, e assim fizeram, levando sempre a pesada urna em ombros entre as orações do povo e os acordes tristes e dolentes das marchas fúnebres tocadas pelas duas filarmónicas.

À beira da campa falaram os srs. António José Bravo, de Lisboa, dr. José Elias Gonçalves, de Aveiro, e José Rosa Gomes, em nome da Liga de Melhoramentos (2).

Dezoito meses depois, em 11 de Agosto de 1951, realizou-se igualmente a trasladação, vinda de Lisboa, onde falecera na véspera em casa de seu filho, de D. Maria da Assunção Nunes Mathias, que expressara carinhosamente o desejo de ficar sepultada lado a lado de seu marido, Leonardo Gonçalves Mathias, dedicado companheiro de mais de cinquenta anos de feliz vida familiar, no mesmo coval, perpétuo e de tamanho duplo, convenientemente preparado para levar duas urnas a par, como sucedeu.

O terceiro funeral vindo de Lisboa, para o "Cemitério da Corga", foi o de João de Figueiredo, falecido em 28 de Outubro de 1954. Reconhecido pelo antigo professor João Anastácio de Figueiredo como seu filho e de Amélia da Conceição, sua criada, foi bastante expoliado, no dizer do povo, na herança que lhe devia caber. Tinha em Lisboa um negócio de roupas e calçado, novo e usado, frequentando por vezes a "Feira da Ladra" com uma barraca. Era entusiasta pela terra em que nascera e onde arranjou casa própria, interessando-se por todos os melhoramentos e outros factos que lhe respeitassem. Por isso, sua esposa, Etelvina da Conceição, e sua filha Silvina, quiseram levar os seus restos mortais para a terra natal a que tanto queria.

Segue-se na ordem cronológica a trasladação vinda, porém, de Coimbra, de José Dias Quaresma, filho de Maria Amabília Quaresma e de António Dias Gonçalves, há muito falecido, casado com Fernanda Dias da Gama, de quem tinha um filho, de nome António, hoje com sua mãe na cidade de Lourenço Marques. O falecido, que exercia na Benfeita o ofício de alfaiate, sofreu bastante tempo de uma doença, algo incerta, que várias vezes forçou o seu internamento, para tratamento, nos Hospitais da Universidade de Coimbra, onde afinal veio a morrer com 42 anos de idade, em 21 de Julho de 1958.

A quinta trasladação veio também dos Hospitais da Universidade de Coimbra, onde, na madrugada de 28 de Abril de 1960, Alfredo Nunes dos Santos Oliveira tinha sido levado e internado de urgência em consequência de grave intoxicação, ao que parece proveniente de algum soro ou coalhada de leite, comido à ceia.

Alfredo de Oliveira, que tinha 64 anos, e há mais de 26 anos desempenhava ininterruptamente o cargo de presidente da Junta de Freguesia e fora poucos dias antes (3) festivamente homenageado com música e foguetes por toda a população, a propósito da inauguração das tabuletas que, por deliberação da Câmara Municipal, davam o seu nome à rua em que morava, falecera cerca das duas horas da tarde daquele mesmo dia 28 de Abril.

O seu funeral realizou-se no sábado, 29, acompanhado de muita gente vinda de Lisboa, Alcobaça, Porto e outras terras, que acorreu a Coimbra. Na Benfeita, cerca de mil e quinhentas pessoas esperavam enlutadas o préstito, incorporando-se no enterro que percorreu significativamente a "avenida", cuja construção dirigira, com competência e entusiasmo, seguindo depois pela rua do seu nome até à capela de Nossa Senhora da Assunção, onde oito sacerdotes cantaram solenes ofícios.

Trasladada de Lisboa, nesse mesmo ano de 1960, a 11 de Dezembro, foi sepultada no "Cemitério da Corga" D. Florentina dos Santos Costa, viúva de Augusto Casimiro da Costa, que nascera nos Pardieiros.

Nascida na Benfeita, filha de Lourenço dos Santos e de Maria Delfina, ou Maria Rita, como também lhe chamavam, era bisneta, por parte de sua mãe, do dr. Albino António Xavier, tendo uma filha única, de nome Olívia dos Santos Costa que, conhecedora dos desejos de sua mãe, trouxe os seus restos mortais para a sua terra natal (4), onde menos de seis anos depois se lhe viria juntar.

Quatro pessoas quiseram a seguir, entre 1961 e 1965, ser sepultadas nos cemitérios da freguesia, mas destas só duas foram enterradas na "Corga", sendo as outras trasladadas para os cemitérios do Monte Frio e dos Pardieiros (5).

Ficaram sepultados no "Cemitério da Corga":
Maria Gonçalves, nascida na povoação das Luadas, filha de Guilherme Gonçalves e de Maria da Assunção, solteira, de 53 anos de idade, falecida em Coimbra e Manuel Francisco, nascido no Sardal, filho de José Francisco e de Cecília Nunes, com 80 anos de idade, casado com Maria da Conceição, falecido em Lisboa, no dia 9 de Março de 1965.

O nono enterro feito, por trasladação, no "Cemitério da Corga", realizou-se no dia 13 de Junho de 1966, vindo de Lisboa, onde falecera na véspera, D. Olívia dos Santos Costa, solteira, natural da Benfeita, de 72 anos, filha de Augusto Casimiro da Costa e de D. Florentina dos Santos Costa, que desejava ser sepultada junto de sua mãe, por si trasladada para o "Cemitério da Corga", em Dezembro de 1960.

Seguiu-se-lhe em 19 de Março de 1967, Américo de Jesus Fernandes, sacristão da igreja paroquial, vítima de uma queda desastrosa do carreiro de acesso à povoação da Deflores, onde residia, que provocou a sua urgente condução para os Hospitais da Universidade de Coimbra e a sua morte pouco tempo depois, pelo que veio trasladado para o "Cemitério da Corga".

De Coimbra, onde faleceu em 18 de Abril de 1967, veio uma criança de 7 anos de idade, filho de Eduardo Marques Rosa e de Gracinda do Nascimento Simões, de nome António Nascimento Rosa.

O décimo segundo enterro, vindo de Lisboa para o "Cemitério da Corga", foi o de Idalina da Ressurreição Pereira, falecida em 6 de Junho de 1968, com 42 anos natural do Sardal, filha de José Francisco da Costa e de Maria da Ressurreição, casada com António Pinto.

No ano findo, isto é, em 1969, mais três trasladações se fizeram, todas de pessoas nascidas na povoação da Benfeita, totalizando-se assim quinze, desde 1951. Foram os enterros vindos de Coimbra de José Dias e de Alberto Luís Gonçalves e de António Nunes Leitão, trazido de Lisboa. Deles falaremos, em pormenor, para não tornarmos muito excessivo este artigo, num dos próximos números.

MÁRIO MATHIAS


(1) - Algumas das vicissitudes referentes à construção da "estrada-nova" da Portelinha à Benfeita, foram referidas em artigos e cartas publicadas na imprensa regional.

(2) - A Comarca de 4 de Janeiro de 1951 dá larga notícia do falecimento e a de 2 de Fevereiro faz uma desenvolvida reportagem da trasladação e do enterro na Benfeita.

(3) - A Comarca de Arganil publicou no seu número de 17 de Dezembro de 1959 uma dilatada e circunstanciada "entrevista" intitulada «A notável obra realizada na progressiva freguesia da Benfeita, analisada pelo presidente da respectiva Junta de Freguesia, sr. Alfredo Nunes dos Santos Oliveira, que há 26 anos vem desempenhando aquele cargo com a maior dedicação», artigo que foi ilustrado com um retrato do entrevistado.

Como A Comarca noticiou, a freguesia escolheu o domingo de Pascoela, de Março de 1960, para homenagear Alfredo Nunes dos Santos Oliveira, pela sua dedicação e progresso promovido ou patrocinado a toda a freguesia, aproveitando a ocasião para a inauguração das tabuletas que davam o seu nome à rua em que tinha a sua casa. Como se vê da notícia publicada foi uma festa multo imponente e concorrida. Menos de uma semana depois novamente A Comarca se referia a Alfredo de Oliveira, mas para noticiar, doridamente, o seu inesperado falecimento, as manifestações de pesar a que deu origem, o concorridíssimo e grandioso funeral, etc. etc.

(4) - Mãe e filha viveram sempre juntas numa amizade permanente e perfeita que só a morte havia de quebrar. Seis anos depois nem a morte as separou, poderá dizer-se, porque os seus restos mortais estão quase juntos no "Cemitério da Corga".

(5) - Foram António Henriques, do Monte Frio, falecido em Lisboa, em 25 de Fevereiro de 1964 e António Pereira Simões, dos Pardieiros, também falecido em Lisboa, em 18 de Janeiro de 1965. Serão referidos quando se tratar dos respectivos cemitérios.

MM