Os cemitérios
DA BENFEITA

VI

por: Dr.Mário Mathias
publicação: A Comarca de Arganil - nº 6557, de 24/02/1970

No dia 27 de Setembro de 1945, que nesse ano caiu a uma sexta-feira, visitou o Bispo-Conde D. António Antunes a Benfeita, e foi processionalmente ao "cemitério da Corga" acolitado pelos padres António Quaresma, reitor de Arganil Américo Brás da Costa e Júlio Gonçalves Dinis, natural do Pai das Donas.

O imponente e simpático Prelado, que prestes ia fazer setenta anos, visitava pela terceira vez a Benfeita, pela qual mostrara sempre um carinho muito especial, pois já antes, primeiro como Bispo Auxiliar, e depois como coadjutor, a visitara pastoralmente quando ainda não havia a "estrada-nova" e portanto fizera todo o trajecto a pé, desde a Portelinha à Benfeita, ida e volta (1).

Não é de admirar, portanto, que fosse sempre recebido e prezado com vivo entusiasmo e com grandes manifestações de respeito, de carinho e sincera amizade.

O povo considerava-o e estimava-o como verdadeiro amigo e acorreu com unanimidade a recebê-lo com palmas, vivas e muitas flores, acompanhando-o durante todo o tempo que se conservou entre nós e comparticipando emocionadamente e com júbilo em todas as cerimónias ritualistas pertinentes à elevada hierarquia do ilustre Antístite, cujo poder de irradiante singeleza e magnanimidade a todos se impunha e cativava.

Na igreja, a transbordar de fiéis, receberarn das suas mãos o sacramento do "crisma" mais de trezentas pessoas, entre as quais figuravam dois homens de mais de sessenta anos.

Ao cemitério, em ordenado e formoso préstito, onde se incorporaram com suas insígnias e opas respectivas, as irmandades da freguesia, D. António, majestoso nas suas vestes, seguia sob o pálio, com os acólitos, acompanhado por uma multidão de pessoas da Benfeita, de todas as aldeias da freguesia e até das circunvizinhas, os homens abrindo em alas o cortejo, e centenas de mulheres em massa compacta, fechando-o, cantando e rezando hinos e orações!

Nunca a Benfeita, até então, tinha assistido a tão imponente, comovedora e concorrida procissão ao cemitério, para sufrágio e encomendação de quantos ali jaziam sepultados.

Nos últimos cinquenta anos houve apenas quatro coveiros na Benfeita e nenhum deles teve, nunca, qualquer ordenado ou semelhante remuneração paga pela Junta, coisa que a lei permite quando se justifica. Os coveiros têm sido sempre remunerados por cada coval que abrem, segundo uma tabela que vem aumentando no decurso dos anos, paga pela família do falecido, que raramente ajusta ou remunera a limpeza da campa.

O mais antigo de que me lembro chamava-se António Francisco, mas sempre o povo se lhe referia pela alcunha de "Rasteiro" (2), talvez por ser fraca figura, sobre o baixo, embora entroncado e possante. Era casado e teve pelo menos uma filha, das mais desenxovalhadas e bonitas do seu tempo.

Agricultava uma pequena "quinta" à "Penada Lisa" ou "Oiteiro do Moínho", logo abaixo da velha estrada carreteira e fazia-o com tal interesse e cuidado que a trazia num verdadeiro mimo, digna de ver-se.

Era, parece, pessoa animada e alegre, embora de parecença sisuda e carrancuda, porque nas tunas ou "sol-e-dós" que se organizavam para as festas e romarias, em volta da rabeca do Lourenço dos Santos, da viola do António da Fonseca, barbeiro, da guitarra-requinta do António dos Reis, e outros instrumentistas e cantadores, o António Francisco, dito "Rasteiro", bem como nas entrudadas com bombo e caixas de rufo, aparecia sempre a tocar "ferrinhos".

O segundo coveiro, que desempenhou o "ofício" durante cerca de vinte cinco ou trinta anos, foi uma figura exótica de tartamudo, algo atrasado mental, tratado por toda a gente por "Zé Acho", a tal ponto que poucos saberiam que se chamava José Antunes Martins (3).

Apesar das suas insuficiências, e de ter desde sempre uma perna chagada, que nunca foi possível curar-lhe, o "Zé Acho" fazia pequenos trabalhos, especialmente agrícolas, como deitar uma poça, pôr uma horta, guardar os milhos estendidos a secar, levar umas cabras ao pasto, etc. etc.

Quando novo, percorria com uma irmã, aleijada e meia atongada, as romarias e festas, pedindo. E dizia o povo que então enchiam o estômago à sobreposse, preferindo-o à sacola, ao bornal ou ao cesto para qualquer coisa de comida, mesmo que ficassem arrelampados e doentes!

Mais tarde, quando a idade, os reumatismos e outras mazelas lhe tornavam difíceis as longas caminhadas, o "Zé Acho", morta a irmã e sem ninguém junto de si, deixou-se ficar no escuro e fétido tugúrio, onde havia de morrer, quase de repente, numa manhã de Agosto ou Setembro de 1956, e aparecendo nas casas ou quintais de uns e outros, prontificava-se para pequenos serviços, que em regra executava vagarosamente mas bem, acabando-os normalmente às horas das refeições... Mas o antigo "pedinte" das festas e romarias não pedia agora nada a ninguém, mesmo que estalasse de fome! Entretanto, porém, como toda a gente sabia que no seu tugúrio não havia broa, nem nunca se acendia lume, muitos espontâneamente lhe davam de comer, pelo que teve uma velhice sem fome.

Seguiu-se, na triste mas indispensável e cristã tarefa de enterrar os mortos da Benfeita, o José de Oliveira, a quem toda a gente tratava por "Zé Moço", alcunha que se lhe pegou de rapaz, o acompanhou sempre durante toda a vida e nem mesmo depois de morto terá perdido.

Foi soldado, com uma dúzia ou duas de rapazes da freguesia, na Grande Guerra de 1914-1918, e era tão robusto que tendo especial predilecção pelo vinho e sendo incapaz de resistir a beber abundantemente, quase a tombar, chegou aos setenta anos, se os não ultrapassou.

Por sua morte, passou a função a seu filho, o António de Oliveira, que sem melindre nem intuito ofensor lhe herdou também o "sobrenome", que em verdade se dirá, a propósito, que bem lhe fica, pois é um belo moço, um rapagão desempenado e perfeito.

Os funerais para o "cemitério da Corga" eram em regra acompanhados pelas irmandades locais, sendo os caixões, mesmo os mais pesados, transportados à mão, pelos "irmãos" mais fortes e valentes, raro precisando de revezar-se, até porque de espaço a espaço o préstito parava e o féretro poisava no solo, enquanto se rezavam as orações da encomendação.

Entretanto, começaram a aparecer nos jornais regionalistas notícias de várias localidades terem adquirido, quase sempre por subscrição pública, carretas funerárias para transporte dos ataúdes. E logo a gente da Benfeita aspirou a possuir esse melhoramento, pelo que se abriu uma subscrição e procurou uma carreta para compra. A direcção da Liga de Melhoramentos, de que faziam parte, salvo erro, como presidente e vice-presidente, os srs. António Correia e José Rosa Gomes, antecipou-se, compraram uma carreta e enviaram-na para a Benfeita em fins de Fevereiro ou princípios de Março de 1949, transportada, desde Lisboa, por graciosa gentileza de Manuel Henriques, do Monte Frio, que a conduziu na sua camioneta.

A carreta foi utilizada pela primeira vez logo em Maio, no funeral de Maria da Ressurreição, esposa de Venâncio dos Santos, que teve um "ataque", ao qual sobreviveu dois ou três dias apenas.

Dir-se-à, todavia, que o povo não gostou, na verdade, da inovação, ou não simpatizou com a carreta (4), pois talvez se possam contar pelos dedos das mãos as vezes que tem sido utilizada.

MÁRIO MATHIAS


(1) - D. António Antunes visitou pela primeira vez a Benfeita em 1921, sendo então titular de Ritima, Auxiliar do Bispo-Conde D. Manuel Luís Coelho da Silva. A segunda, em Fevereiro de 1930, já como Bispo-Coadjutor, com direito de sucessão de D. Manuel, que veio e falecer em 1 de Março de 1936. Em todas estas visitas foi recebido, na Benfeita, pelo pároco padre António Quaresma, natural e morador da Dreia.

D. António Antunes nasceu na freguesia da Barreira, concelho de Leiria, em 16 de Novembro de 1875. Estudou nos Seminários de Leiria e de Coimbra, onde se distinguiu pela sua inteligência, aplicação e qualidades, seguindo, depois de ordenado presbítero em 17 de Julho de 1898, para Roma, a cursar Teologia, doutorando-se no ano de 1903, na Universidade Gregoriana.

Regressando a Portugal foi colocado como professor no Seminário de Coimbra, ascendendo em 1915 a Cónego da Sé Catedral da mesma cidade. Quatro anos depois, em 27 de Dezembro de 1919, foi sagrado Bispo Titular de Ritima, passando a Bispo-Coadjutor de D. Manuel, com direito de sucessão, em 13 de Junho de 1924, assumindo as funções e dignidade de Bispo-Conde em Março de 1936, que desempenhou durante doze anos, pois viria a falecer em 1948. D. António foi, portanto, Bispo na diocese de Coimbra, nas situações apontadas, durante vinte e oito anos.

(2) - O coveiro António Francisco, que constava ter sido atingido, em rapaz, de raspão, por um tiro de velha espingarda de carregar pela boca, atochada de sal, tinha também o epíteto de "cú de lobo", que o povo não raro usava nas suas costas.

(3) - O "Zé Acho" foi várias vezes fotografado, por curiosos, pelo seu exotismo, em que às vezes os fotógrafos colaboravam, para maior extravagância. Uma dessas fotografias apareceu em A Comarca de Arganil, em data que de momento não sabemos precisar. Tinha dois irmãos, a Maria d'Assunção que com ele viveu e percorria as feiras e romarias, pedindo, e teve não se sabe bem de quem, uma filha, que, mais tarde, parece que bem casada, fixou residência em Lisboa, e um rapaz de nome Miguel, por alcunha o "Chibata", que veio rapaz para criado do dr. José de Figueiredo e viveu sempre em Coimbra, não voltando à terra.

(4) - A carreta está presentemente "arrumada" numa das lojas da residência paroquial, quase esquecida e inútil. Os caixões e urnas dos defuntos continuam a ser transportados à mão, mas as pessoas que as conduzem usam agora umas largas e fortes correias, à tiracolo, que prendem ao ataúde, aliviando o seu peso e facilitando a sua condução. Num ou dois enterros, vindos do Sardal, observámos que o caixão chegou dentro de um automóvel ou carrinha, acompanhado a pé durante todo o caminho pela população que tomava parte no enterro, e que este se organizou na forma tradicional, com irmandades, pároco, homens em alas à frente e mulheres em conjunto no fecho, junto à Ponte do Cabo, seguindo através da povoação para a igreja e depois para o cemitério.

MM