Os cemitérios
DA BENFEITA

V

por: Dr.Mário Mathias
publicação: A Comarca de Arganil - nº 6546, de 27/01/1970

Segundo as instruções regulamentares de 1 de Agosto de 1863, ainda em observância até meados do século actual, haveria de se ter em atenção, na construção ou ampliação dos cemitérios, determinadas dimensões e medidas, fiscalizadas pelas autoridades administrativas e sanitárias. Assim, o terreno escolhido, verificadas a natureza, composição, localização, ventos dominantes, situação e outros requisitos reputados indispensáveis ou convenientes, teria de comportar pelo menos um número de sepulturas igual a cinco vezes a média anual dos óbitos da paróquia, contando-se para cada sepultura o espaço mínimo de dois metros quadrados, deixando cada sepultura trinta e três centímetros separada, por todos os lados, das que lhe ficassem mais próximas.

De acordo com essas normas e medidas, o "cemitério da Corga", com o acrescentamento construído em 1931/1932, ficava com capacidade que largamente excedia, em mais de cinquenta por cento, a área previstamente necessária, mesmo considerando a anormalíssima média de sepulturas do quinquénio 1916/1920, que abrange as vítimas da terrível "pneumónica", pois esta não atingia quarenta enterramentos. E muito maior margem de segurança havia realmente porque o número de falecimentos na freguesia raro excedia, como sucede presentemente, três dezenas de pessoas.

Porquê, então, a nova ampliação de quatrocentos metros quadrados, que se lhe fez no verão de 1939?

Referimos, no artigo anterior, a calamitosa falta ou insuficiência da capacidade dos cemitérios verificada à roda de 1930 e da medida de emergência decretada pelo Governo, carecido de fundos próprios disponíveis para lhe dar remédio, onerando, para o efeito, as populações interessadas com um imposto ou derrama a pagar por todos os habitantes das respectivas freguesias.

Tal regime, estabelecido a título excepcional, primeiro durante os anos económicos de 1930/31 e ampliado depois para 1932/33 e 1933/34, não resolveu satisfatóriamente o problema existente, talvez por as populações rurais o considerarem gravoso e antipático, pois poucas o pediram ou aceitaram.

Entretanto, em ordem a possibilitar o progresso rodoviário e melhorar as condições da instrução primária das terras provincianas, no Orçamento Geral do Estado de 1931 apareceu uma dotação nova, subordinada à rubrica "Subsídios para Melhoramentos Rurais", subdividida em "Estradas Municipais e vicinais" e "Escolas Primárias". Em 19 de Setembro de 1932 criou-se a Junta Antónoma de Estradas uma "Repartição de Melhoramentos Rurais", que de tão grande utilidade havia de ser para toda a província.

Abrangendo de entrada reduzido número de obras de interesse local e vantagem colectiva, o seu âmbito foi sucessivamente ampliado, compreendendo não só as estradas municipais e caminhos, mas a construção de fontes, chafarizes, lavadoiros e tanques, ou sua reparação, a captação e distribuição de águas potáveis, a construção de redes de esgotos, etc., e com a aplicação do "fundo de Desemprego", que enormemente reforçou as possibilidades de subsídios, através do "Comissariado do Desemprego", muitas outras obras foram consideradas e dotadas com real proveito para os povos, desejosos de progredir e usufruir os benefícios da civilização.

Ora a Benfeita acolheu com grande satisfação, desde as primeiras horas da legislação dos "Melhoramentos Rurais", as facilidades financeiras e técnicas que o Governo punha assim à sua disposição e imediatamente se lançou no grande empreendimento que era a construção da sua "estrada nova" - baldada aspiração sempre ludibriada pelos políticos de todos os tempos e matizes! E sob a infatigável, esclarecida e contagiante acção e direcção de Leonardo Gonçalves Mathias, seguido e coadjuvado por todo o povo, numa quase milagrosa união, se começou a abertura da estrada no sítio da Portelinha, no histórico dia 11 de Novembro de 1931, e se chegou dez anos depois à entrada da povoação, concluídos quase seis quilómetros de difíceis trabalhos!

A "estrada", possibilitada assim pela magnífica e proveitosa política dos "melhoramentos rurais", foi maravilhosa escola de trabalho e de trabalhadores, lição de verdadeiro e são regionalismo, certeza de triunfo quando os povos se unem para o progresso das suas terras, expressão de pura e produtiva solidariedade social e humana, capaz de remover montanhas, de fazer calar egoísmos e vaidades.

A Benfeita, velha de setecentos anos, sem caminhos fáceis, sem água capazmente captada, sem ruas calcetadas e cobertas com matos, com a igreja e capelas meio arruinadas... Essa Benfeita, esquecida ou desprezada, e só querida e bem amada por quantos nela haviam nascido, ficou enterrada na Portelinha, no dia 11 de Novembro de 1931, sob a terra que as picaretas e pás ali cavaram nesse dia!

Desde que o Estado ajudava quem queria progredir, a Benfeita sentiu que tinha à sua frente, na sua mão, no seu entusiasmo bairrista, na solidariedade e união de todos, a realização de todas as suas aspirações e desejos de progresso e bem-estar!

E com o desdobrar da "estrada-nova" reparou-se a Igreja Matriz, fez a captação, o grande depósito e o chafariz do Tanque, calcetaram-se todas as ruas, calçadas e becos da povoação, alargou-se e pavimentou-se todo o adro em volta da Igreja, etc., etc. ... e ampliou-se o "Cemitério da Corga".

Se o Estado ajudava, porque não deveria a Junta mandar elaborar um processo para alargamento do cemitério paroquial, tornando-o tão amplo que durante muitos anos chegasse e sobrasse?!

Se o Estado ajudava e a Benfeita tinha em Lisboa quem não deixava "adormecer", nas estantes ou gavetas das Repartições, os projectos que lhe diziam respeito, porque não?! (1)

Em Janeiro de 1939, os jornais da capital e depois os de Arganil, anunciaram que o Estado concedera à Junta de Freguesia da Benfeita um subsídio de comparticipação de 17.669$00, para obras de melhoramento e ampliação do "Cemitério da Corga".

E dias depois o "correspondente" da imprensa regional, que datava as suas notícias da Dreia, onde vivia quase entrevado e se assinava "Canário" (2), dizia que a notícia causara grande contentamento.

Em princípios de Março a Junta de Freguesia (3) tinha comprado o terreno preciso e em Junho deu começo aos trabalhos, harmonizando as necessidades de pessoal de modo a não prejudicar o desenvolvimento da "estrada-nova".

Trabalha-se afanosamente e com boa vontade para ver se seria possível concluir o melhoramento antes do dia 15 de Agosto quando, em meados de Julho, precisamente no dia 15, se deu um desastre nas obras, cujas consequências poderiam ter sido bastante mais graves, do que na realidade, felizmente, se verificou.

Foi o caso que andando o José Albano a arrotear e remover terras, com o entusiasmo de quem queria ver luzir o seu serviço, provocou o desabamento dum barreirão que ruiu próximo do local onde trabalhava, deixando-o "alagado" até à cinta.

Feito alarme, os companheiros acudiram logo a tirá-lo da incómoda e perigosa situação, mantendo-se o sinistrado calmo, mais calmo mesmo que os que acorreram a livrá-lo.

Liberto de toda a terra que o rodeava viu-se que, por pouca sorte, tinha a perna esquerda partida. Rapidamente acorreu a tratá-lo, chamado telefonicamente, o dr. José Baptista Ferreira Júnior, médico municipal do partido de Coja, onde residia. Breve o José Albano, bom trabalhador, esforçado e consciencioso, se restabeleceu, ficando bom (4).

Nos primeiros dias de Agosto estavam concluídos os muros novos e ligados aos antigos, faltando apenas as caiações. No fim do mês, o serviço estava terminado, pronto para ser vistoriado pelos engenheiros dos Melhoramentos Rurais, de Coimbra.

No domingo 3 de Agosto de 1941, depois de missa, organizou-se na igreja paroquial, sob a presidência do pároco, padre António Quaresma, uma grandiosa e comovedora procissão, na qual se incorporaram com todas as suas bandeiras, cruzes e guiões, as Irmandades do Santíssimo Sacramento e de Nossa Senhora da Assunção, da Benfeita, com suas opas vermelhas ou brancas de cabeção azul, e a de S. Nicolau e Senhora da Saúde, dos Pardieiros, de opas brancas e cabeção verde, as meninas da Cruzada, com seus distintivos, as crianças das escolas e muito povo, gente de todas as povoações da freguesia para comparticiparem nas cerimónias da trasladação de todas as ossadas daqueles que faleceram durante a epidemia da "pneumónica", em 1918 e 1919, e tiveram de ser sepultados a título anormal e provisório no terreno do antigo "cemitério do adro", então convertido em jardim público.

MÁRIO MATHIAS


(1) - Alfredo Nunes dos Santos Oliveira, que desde 23 de Outubro de 1933 presidia à Junta de Freguesia da Benfeita, inicialmente constituída por António Nunes da Costa e Venâncio dos Santos, como efectivos, e António Rosa, José de Oliveira Branco e José Gonçalves de Moura, substitutos, foi em Dezembro de 1959, quando havia completado 26 anos do exercício ininterrupto do cargo, entrevistado pelo jornal «A Comarca». A par da indicação bastante pormenorizada dos melhoramentos realizados, com natural e justificada evidência para os trabalhos da "estrada-nova", Alfredo de Oliveira, relaciona muitas das pessoas que mais destacadamente auxiliaram a Junta, individualizando pelos seus nomes apenas os falecidos - para evitar melindres e omissões - dizendo, porém, em certo passo:

«Entretanto, julgo que não devo ocultar que muito do que se tem feito não poderia ter-se realizado, por maior que fosse a nossa boa vontade e o auxílio que as populações nos dessem, se não fôra o poderoso patrocínio que, seguindo o nobre exemplo de seu pai, nos tem sido sempre dado pelos drs. Mário e Marcelo Mathias, que sistematicamente procuram encobrir a sua profícua interferência, obstando às habituais referências e publicidade».

(2) - Durante dez ou doze anos foi "correspondente" dos jornais de Arganil, José Alfredo da Gama, natural e morador na povoação da Dreia, onde nascera em 7 de Agosto de 1884. Quase entrevado, mal podendo sair de casa, era um entusiasta pela abertura da "estrada-nova", cujos trabalhos espreitava interessadamente duma janela da sua casa, quase miradoiro sobre a vertente da lomba por onde a fita da estrada vinha caminhando. Começou a escrever pequenas notícias sobre o andamento das obras e a pedido dos interessados, que para o efeito o procuravam, notícias dos que chegavam, dos que partiam, de nascimentos, de casamentos, etc. Parece que era um homem de fracas letras, que dificilmente escrevia, mas os jornais decifravam e retocavam quanto necessário e hoje, decorridos vinte ou trinta anos, bem pode considerar-se o "Canário" um cronista, humilde, talvez, mas muito útil para saber de muitas coisas que ocorreram, nessas épocas, na freguesia da Benfeita. Será interessante referir ainda que, com o andamento das obras da estrada e o natural desejo de conversar e acompanhar os operários que nela trabalhavam, o José Alfredo Gama forçava-se a andar e mover-se cada dia um pouco mais e chegou a ser olheiro dos serviços.

(3) - As obras eram dirigidas pelo presidente da Junta, Alfredo Nunes dos Santos Oliveira, de harmonia com as plantas e cálculos do projecto aprovado pelo Ministério das Obras Públicas, cujo quadruplicado tinha sido remetido à entidade subsidiada, para sua orientação. E parece que o subsidio do Estado chegou para tudo quanto foi preciso fazer-se... de bem administrado que foi.

(4) - O telefone público da Benfeita, ligando (depois de diversas vicissitudes e oposições que queriam ligá-lo directamento a Folgues) à estação dos C.T.T. de Coja, começou a funcionar precisamente no dia 3 de Abril de 1939.

Foi esse um dia de grande regozijo para a população da freguesia e especialmente para a da Benfeita, que se reuniu em frente da casa de Guilherme da Fonseca, onde a cabina ficara instalada. O povo mandou vir uma filarmónica, queimaram-se foguetes e morteiros, os representantes dos C.T.T. de Coimbra que vieram proceder à inauguração, foram recebidos com vivas e as raparigas da Benfeita lançaram sobre eles, os membros da Junta, regedor e demais circunstantes, multas flores e papelinhos coloridos. A primeira ligação feita foi para Lisboa, para casa do dr. Mário Mathias, onde estava seu pai, sr. Leonardo Gonçalves Mathias, porque o povo queria saudá-lo pela obtenção, tão trabalhosa, do grande e útil melhoramento que assim se inaugurava.

MM