Os cemitérios
DA BENFEITA

IV

por: Dr.Mário Mathias
publicação: A Comarca de Arganil - nº 6542, de 17/01/1970

A segunda ampliação do "Cemitério da Corga" foi feita durante a permanência na presidência da Junta de Freguesia do professor João Ferreira da Costa, da qual tomou posse em Novembro de 1930 e saiu, substituído por Alfredo Nunes dos Santos Oliveira, em Outubro de 1933 (1).

Por essa ocasião, a inexistência em diversos pontos do pais, de cemitérios, ou a sua insuficiência para comportarem a média normal de inumações prováveis, constituía grave problema atormentador de grande número de corpos administrativos e era a tal ponto urgente e inadiável, que não podendo o Governo desviar verbas próprias para a sua construção ou ampliação, se decretaram providências especiais de emergência, autorizando, com a concordância dos Ministros do Interior e das Finanças, as Câmaras Municipais e as Juntas de Freguesia a lançarem naquele ano económico, e no seguinte, uma derrama ou imposto específico, exclusivamente destinado àquele fim, e a cobrar de cada habitante das áreas beneficiadas, na proporção dos seus rendimentos.

E assim se publicou no "Diário do Governo", de 4 de Janeiro de 1930, o decreto nº 17.831, assinado por todos os Ministros e "para valer como lei", faculdade depois mantida, por novos diplomas, dois ou três anos mais (2).

Não nos foi possível, entretanto, saber ao certo se a ampliação realizada no tempo do professor Ferreira da Costa beneficiou do regime financeiro estatuído naquele decreto, ou como foi custeada, nem tão pouco a data certa em que as obras começaram e ficaram concluídas. Talvez uma leitura das actas da Junta possa fornecer esses esclarecimentos.

Nenhuma dúvida há, porém, de que esta segunda ampliação se fez antes de 1932, porque durante esse ano surgiu grande descontentamento na freguesia, que chegou à imprensa regional, por os caixões e urnas dos defuntos a sepultar no talhão de cima, ou seja no cemitério velho e no seu acrescentamento de 1911, terem de ser dificilmente transportados para ali, subindo-se com eles a pulso, por uma íngreme, estreita e perigosa escadaria de mais de cinco metros de altura, tal o desnível entre os dois pavimentos do cemitério.

Este facto mostra-nos que, com as obras feitas, havia desaparecido o antigo portão de ferro da entrada para o primitivo cemitério, de 1894, e fechada, com uma parede de pedra, a portada onde funcionava.

E não seria difícil concluir o destino dado, mesmo a quem não o soubesse, por ter presenciado a transferência, àquele portão. Bastaria olhar, como ainda hoje se pode fazer, para o portão de ferro que está a fechar o "cemitério novo", e atentar na data de "1900", figurada no alto do enramalhetado, sob a simbólica "cruz" que tudo domina.

Evidencia tal data, sem nenhuma dúvida, que naquela altura se mudou o velho portão de ferro do cemitério inicial, para a porta então única, aberta no acrescentamento.

O desaparecimento da porta primitiva, de directo acesso ao talhão superior, e as gerais reclamações e protestos que gerou, levaram meses depois a própria Junta, da presidência ainda do professor Ferreira da Costa, convencida do erro cometido, fruto provável de inconsiderada medida de nociva poupança, a deliberar reabrir-se a antiga portada para que o cemitério tivesse duas entradas, como se mostrava de comprovada necessidade.

E para o efeito se fez em Fevereiro de 1933 pública arrematação das obras a realizar, adjudicando-se a António Lourenço Trindade, da vila de Coja, por 690$00, a construção do novo portão de ferro, e a João Feiteira, das Corgas, freguesia de Pomares, pela quantia de 398$00, a abertura da portada e o fornecimento das cantarias precisas.

Oito meses decorridos, chegou o portão à Benfeita, e logo se procedeu ao seu assentamento. Ora, como o serralheiro o construiu entre as duas datas referidas, logicamente lhe inscreveu no enramalhetado, que pouco difere do antigo, e fica abaixo da tradicional "cruz", o ano de "1933", ano que, na sua verdade real, induz, ligada àquela parte do cemitério paroquial, numa indicação errónea e despistante.

Dissemos, no artigo II, publicado em 13 de Dezembro de 1969, ignorarmos como obtivera a Junta de Freguesia o dinheiro preciso para comprar o terreno do novo cemitério, no sítio da Corga. Poderemos, porém, mencionar agora que todo o terreno foi oferecido, gratuitamente, pelo proprietário António Simões Dias, o mesmo que viria a ofertar o necessário para a ampliação de 1911. Igualmente nos referimos à provável influência ou patrocínio do dr. Albino de Figueiredo, do Pisão de Coja, sem mencionar o nome do Arcediago Padre José Simões Dias, natural das Luadas, procurador e não sei se professor do Seminário Diocesano de Coimbra, onde vivia normalmente, pessoa de grande influência religiosa e política, detentor de enorme fortuna, em parte herdada de seu padrinho e tio, o célebre Padre Manuel Simões Dias, também natural das Luadas, que nos fastos da vida académica coimbrã era referenciado por "Padre Patagónia" (3).

Estão as duas informações, que aliás tínhamos copiado há anos, mas nos desapareceram, na notável obra publicada nos princípios do século por Esteves Fernandes e Guilherme Rodrigues, intitulada «Portugal - Dicionário Histórico, Biográfico, Bibliográfico, Corográfico, Numismático e Artístico», de 1906, volume II, pág. 281.

Haverá a notar ainda a divergência entre o ano em que o cemitério da Corga foi efectivamente construído, e sobre que não há quaisquer dúvidas, e a data inscrita "1900", no portão que durante mais de 30 anos - até ser deslocado para a porta do tabuleiro ou talhão inferior - lhe dava acesso, servindo para a entrada de todos os enterramentos.

A diferença resultou, seguramente, de em 1894 se ter construído uma porta de madeira, semelhante à que fechava o "cemitério do adro" e a que o poeta Simões Dias se referiu no seu livro «Figuras de Cêra», de que falámos. Tal porta seria menos dispendiosa, e além do mais, poderia fazer-se localmente, visto na Benfeita ter havido sempre bons artistas de carpintaria.

Estaria com seis ou sete anos de existência, a porta de madeira. Carecia de grande reparação e haveria dinheiro fácil? Optar-se-ia, por isso, pela construção em ferro, mais bonita e mais duradoira?!

Na verdade, o portão construído no principio do século ainda se mostra perfeito e bonito, setenta anos precisos depois da sua construção, apesar de mudado do seu primeiro lugar.

A partir desta segunda ampliação, em que o "cemitério da Corga" passou a ter uma área de cerca de 600 metros quadrados aproveitáveis, dir-se-ia o problema da capacidade do cemitério paroquial definitivamente resolvido durante duas ou três gerações, até porque não existiam então dificuldades para fazer o cemitério maior ainda, pois havia, confinante, mais terreno livre.

Mas não sucedeu assim, porque, entretanto, menos de sete anos depois, o "cemitério da Corga" voltou a ser ampliado!

Qual a razão? Não chegaria o cemitério, ainda, para o número normal das inumações prováveis?

Na verdade, porém, exceptuados os anos de 1918 e 1919, a média dos covais necessários para o enterramento dos falecidos na freguesia, foi diminuindo de quinquénio para quinquénio, como comprova o pequeno mapa seguinte:

Anos Homens Mulheres Crianças Total
1918 19 42 13 74
1919 10 13 6 29
1920 7 9 3 19
1921-1925 54 44 47 145
1926-1930 41 47 37 125
1931-1935 33 45 26 104
1936 7 9 4 20
1937 7 11 5 23
1938 8 7 8 23

Ora em fins de 1938, reconhecendo a necessidade de alargar o cemitério paroquial da freguesia da Benfeita, o Estado concedeu à Junta de Freguesia, da presidência de Alfredo Nunes dos Santos Oliveira, um subsídio de comparticipação de cerca de dezoito contos (4).

MÁRIO MATHIAS


(1) - A Junta nomeada em Novembro de 1930 era constituida pelo professor João Ferreira da Costa, António José Filipe e Artur Dias como efectivos, António Nunes da Costa, António Rosa e Firmino Francisco Penedo, como suplentes e todos já falecidos. Como o vogal António José Filipe residia normalmente em Lisboa, e não chegou a tomar posse, foi chamado à efectividade o comerciante António Nunes da Costa, muito conceituado e considerado por toda a gente, conhecido pela alcunha de "Maçarocas", que nada tinha de ofensivo ou pejorativo e resultava de ser um dos mais importantes negociantes de lãs da região, o qual assumiu as funções de tesoureiro, que desempenhou, com repetidas reeleições durante mais de vinte anos, até ao seu falecimento.

O professor Ferreira da Costa era natural de Nandufe, concelho de Tondela, distrito de Viseu, casado com a professora D. Alice Dias Alves, simultaneamente colocada na escola feminina da Benfeita, onde se manteve até ao final do ano lectivo de 1935. Ferreira da Costa começou a reger a escola do Areal, em Outubro de 1928, sendo transferido para Lisboa, em Abril de 1934, e ocupando mais tarde o lugar de director da Escola da Rua das Amoreiras. Era um excelente professor, enérgico e competente, muito insinuante. Trabalhador infatigável, desempenhou, além do cargo de presidente da Junta, o de Juíz de Paz e de Ajudante do Registo Civil, e parece que, durante certo tempo, o de vereador da Câmara Municipal de Arganil, da presidência do capitão António Pedro Fernandes.

(2) - Além do decreto nº 17.831, foram publicados, prorrogando aquela faculdade, os decretos-leis nº 20.063, de 13 de Julho de 1931 e nº 21.528, de 27 de Julho de 1932. Depois dessa data a questão da construção, ampliação e outras obras a fazer nos cemitérios públicos, passou a beneficiar da legislação que instituiu os subsídios do Estado para obras de "Melhoramentos Rurais".

(3) - João Simões e Maria das Dores, lavradores importantes da povoação das Luadas, tiveram vários descendentes, entre eles quatro do sexo masculino, que foram baptizados com os nomes de Albino, Manuel, José e António. Os dois primeiros foram ordenados Padres, tendo o Albino paroquiado largos anos a freguesia de Pedrógão Grande, onde faleceu era 13 de Maio de 1874, e o segundo a quem a mocidade estudantil de Coimbra alcunhou de "Padre Patagónia", e usava o nome completo de Manuel Simões Dias Cardoso, foi Arcediago, professor de latim do Seminário Episcopal e do Liceu da mesma cidade, tendo reputação de grande orador sagrado. Em 1874 publicou um livro didáctico intitulado «Lugares Selectos dos Escritores Latinos», com a tradução interlinear, para uso das Escolas. Nasceu nas Luadas em 7 de Janeiro de 1807, e veio a falecer no Porto, onde se encontrava em serviço de exames. Tinha uma notável fortuna, fazendo doação de grande parte dela, a seu sobrinho, e afilhado, Padre José Simões Dias.

Os dois filhos de João Simões e D. Maria das Dores, que não se ordenaram, constituíram família na nossa freguesia, o António, casando na Benfeita, onde passou a viver com D. Maria do Rosário Gonçalves, pais do dr. José Simões Dias, poeta, professor, político e escritor, Padre Albino Simões Dias Cardoso, que foi professor primário e pároco em várias freguesias e largos anos na Cerdeira, onde faleceu, e de António Simões Dias que seguiu a carreira militar, esteve em várias províncias ultramarinas, e faleceu major reformado com noventa anos, em Coimbra, em Setembro de 1942, casado com D. Ernestina Simões Dias, deixando descendentes. O José, casado com D. Maria das Dores, nascida na Drela, filha de José Correia e de D. Maria do Rosário, irmã dos padres António Soares Correia e de Joaquim Florindo Correia, que foram párocos da Benfeita, de D. Maria da Nazaré, que casou nos Pardieiros com José Nunes Quaresma, de José e Dioníslo Correia, que morreram velhos e solteiros na Dreia nos primeiros anos deste século. Deste casal nasceu nas Luadas um filho varão, em 14 de Julho de 1849, que se ordenou e foi o arcediago José de Simões Dias, o qual morreu em Berlim (Alemanha) em Outubro de 1903, onde se foi operar à garganta. O seu féretro veio para Portugal, sendo sepultado no cemitério da Conchada, em Coimbra.

(4) - Elementos estatísticos coligidos, com outros, pelo prior Joaquim da Costa Loureiro.

MM