Os cemitérios
DA BENFEITA

III

por: Dr.Mário Mathias
publicação: A Comarca de Arganil - nº 6536, de 03/01/1970

Não sei bem ao certo, quando os enterramentos voltaram a fazer-se no "Cemitério da Corga" (1). Mas o facto deste ficar totalmente ocupado com as vítimas da calamitosa "pneumónica" em princípios de Dezembro de 1918, e de, a partir daí, haver a necessidade de dar-lhes sepultura no terreno do antigo "Cemitério do Adro", então convertido em Jardim Público, concitou em toda a gente o desejo de se ampliar o cemitério e de para ele transferir, logo que possível, as ossadas daqueles que fora dele jaziam.

Entretanto, a freguesia ficara muitíssimo empobrecida, de gente e de meios materiais, quer pela mobilização para a guerra de África e da França, dos seus melhores e mais válidos trabalhadores, quer pelas muitas privações e carências, até alimentares, resultantes de quatro anos de luta travada nas várias partes do mundo, das dificuldades levantadas à circulação e comércio de géneros, e ainda das requisições e apreensão de diversos produtos agrícolas que seguiam para as cidades.

A miséria foi tal que no período mais calamitoso da epidemia, uma comissão local telegrafou ao Presidente da República, dr. Sidónio Pais, pedindo-lhe auxílio, e aquele malogrado e saudoso Chefe do Estado, mandou directamente para o povo da Benfeita, arroz, açúcar, outros géneros e remédios, e ainda 350$00 em dinheiro!

Deste modo, como poderia a população agenciar o necessário para a ampliação do cemitério e reunir nele as ossadas dos seus parentes falecidos?

Alguns anos depois, em 1923, toda a gente julgou o problema financeiro da ampliação do "Cemitério da Corga" resolvido, com a inesperada publicação no "Diário do Governo", de 23 de Dezembro daquele ano, pelo Ministério do Trabalho, da portaria nº 3846, assinada pelo Ministro dr. Pedro Góis Pita (2).

E, na verdade, assim parecia suceder graças à generosidade ministerial com que naquela Portaria se atribuia à Benfeita um magnífico subsídio, equivalente, talvez, a oitenta ou mais contos da época actual.

Dizia textualmente a portaria:

«Tendo em vista as dificuldades económicas com que lutam os corpos administrativos que devem proceder à construção e reparação de cemitérios, fontes, canalizações de águas e esgotos:
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Trabalho:
1º - Conceder por conta da verba inscrita para o aludido fim, sob a rubrica "Saúde Pública", no capítulo 17º, artº 35, do Orçamento da despesa, do já referido Ministério, os seguintes subsídios:
... 4.000$00 à Junta da Freguesia da Benfeita, concelho de Arganil, para ampliação e construção de muros de resguardo do cemitério e reparação de fontes.»

Por esta mesma portaria foram subsidiadas mais trinta e três entidades, somando o conjunto dos subsídios concedidos 103 contos.

Surpreendida, por nada haver pedido, a Benfeita rejubilou e preparou-se para ampliar o "Cemitério da Corga", que media então, depois do acrescentamento pago pela família do conselheiro dr. Luís António de Figueiredo, trinta metros de comprido por quinze de largura.

Poucos dias depois, uma revolta iniciada a bordo do contra-torpedeiro "Douro" que fundeado no "Quadro da Marinha de Guerra" bombardeou Lisboa, apesar de prontamente dominada graças à acção decisiva e ao prestígio do Ministro da Guerra, o general António Óscar de Fragoso Carmona (3), provocou a queda do Governo, por os revoltosos terem sido secundados politicamente e apoiados no Parlamento, pelos grupos da Oposição que fizeram aprovar um voto de desconfiança ao Ministério presidido pelo dr. Ginestal Machado.

Para Ministro do Trabalho do novo Governo foi nomeado o dr. Lima Duque, médico e político coimbrão, o qual, logo após a sua posse deu ordem para suspender-se a execução burocrática da portaria nº 3846!

As entidades subsidiadas, e assim ilegalmente prejudicadas, fizeram reiteradas instâncias junto das várias entidades oficiais, Governador Civil, deputados, do próprio Ministro, e até da Presidência da República. Na imprensa surgiram protestos, pois nada justificava a atitude do Ministro Lima Duque, uma vez que a portaria tinha sido publicada, com todos os requisitos legais, no "Diário do Governo", e os subsídios concedidos tinham verba inscrita no respectivo Orçamento (4).

Porém, todas as diligências, pedidos, empenhos e reclamações, foram baldados, porque as tortuosas conveniências e compadrios da política partidarista, deram destino diverso às importâncias consignadas na Portaria assinada pelo Ministro dr. Pedro Pita, beneficiando outra gente e "rapinando" assim, à Benfeita, aqueles preciosos e bem necessários quatro contos!

Portanto, a ampliação do "Cemitério da Corga", bem como a transferência das ossadas dos sepultados provisóriamente junto da igreja, no terreno ajardinado do velho e abandonado "Cemitério do Adro", tiveram de ficar a aguardar mais feliz oportunidade.

Até então, e ainda muitos mais anos depois, os locais onde os benfeitenses sepultavam os seus mortos eram verdadeiros "campos de igualdade". Em vida poderia haver ricos, remediados ou pobres de pedir, lavradores ou jornaleiros, homens, mulheres ou crianças, pessoas de classe ou de humilde condição, letrados ou analfabetos, mas a todos a morte igualava!

Todos, sem excepção, baixavam à sepultura, entre as orações, mais ou menos simples ou magnificentes do Ritual, o carpir magoado das mulheres enlutadas e a comovida e tradicional rogatória "que a terra te seja leve", conforme referiu o jornalista Joaquim Martins de Carvalho, director do jornal "O Conimbricense".

As campas eram todas rasas e iguais, pois, quaisquer sinais exteriores, flores ou mesmo as cruzes de madeira, se alguém lhas punha, desapareciam em breve, tanto num como noutro cemitério. Na igreja, nem essas exteriorizações seriam talvez possíveis.

Di-lo, com referência aos enterramentos feitos nas nossas igrejas, desde os tempos primitivos (5), o Padre-Cura Bento Marques que em 1721 paroquiava a freguesia, ao responder, sob juramento sacerdotal, ao "Questionário" que lhe fora enviado pelo "Ilustríssimo e Reverendíssimo Cabido da cidade de Coimbra, Sede Vacante" acerca da localização, população, situação religiosa, templos, festas e outros factos merecedores de menção, quando informou não haver na paróquia relíquia alguma, nem casa de misericórdia, nem hospital (6), "nem sepulturas assinaladas, nem campas com letreiros".

Que no "cemitério do Adro" não se assinalavam as sepulturas, de forma a poderem indentificar-se, comprova-o a declaração do Conselheiro dr. Luís António de Figueiredo, feita no seu testamento de Janeiro de 1884, ao escrever, pelo seu próprio punho, «não se poder saber hoje onde se acham (os restos mortais) de meu virtuoso Pai», que ali havia sido sepultado (7).

E quanto ao "cemitério da Corga", sabem-no os mais velhos quando, embora sem esquecimento das palavras de Deus a Adão, após o "pecado original", que a Igreja se não cansa de repetir, designadamente na Quarta-feira de Cinzas, «Memento, homo, quia pulvis est et in pulverem reverteris» (Lembra-te, homem, que és pó e em pó te tornarás), começaram ali a distinguir-se e a enfeitar-se umas quantas sepulturas.

MÁRIO MATHIAS


(1) - Não tivemos ainda oportunidade de consultar os livros de registos de óbitos, quer do Registo Civil, quer da Igreja, em que deverá constar o local onde os defuntos iam ser sepultados.

(2) - O Ministro dr. Pedro Pita, ainda hoje felizmente vivo, que era uma das mais destacadas figuras do "Partido Republicano Nacionalista", convidou para seu Secretário na pasta do Trabalho, que lhe fora confiada interinamente, pois no programa ministerial estava prevista a sua extinção, o então funcionário do Instituto de Seguros Sociais Obrigatórios, e estudante de Ciências Económicas e Financeiras, Mário Mathias, que foi quem, sem interferência efectiva de qualquer outra pessoa ou entidade, obteve do Ministro a inclusão da Junta de Freguesia da Benfelta na portaria nº 3846 e a atribuição do subsídio de quatro contos, que nela lhe era concedido.

(3) - O Ministro da Guerra do Governo presidido pelo dr. Ginestal Machado, que não chegou a durar um mês, era efectivamente o ilustre general Carmona, cujo centenário do nascimento ocorre, e se festeja este ano, e foi após o Movimento Nacional do 28 de Maio de 1926, eleito e reeleito sucessivamente Presidente da República, ocupando Chefia do Estado ininterruptamente durante 22 anos.

(4) - No jornal lisboeta "Diário de Notícias" chegou a sair em princípios de Março de 1924, uma local em que se dizia que lavrava grande descontentamento entre a população da freguesia da Benfeita (Arganil) pelo facto de, decorridos mais de dois meses sobre a publicação da portaria nº 3846, o subsídio de 4 contos concedido para obras públicas naquela freguesia, não estar ainda a pagamento, situação bastante estranha porque as referidas verbas estavam inscritas no orçamento respectivo.

Mais se noticiava que a direcção da "Liga de Defesa e Engrandecimento da Freguesia da Benfeita" e a respectiva Junta de Freguesia, iam reunir-se em sessão conjunta e constava que pensavam enviar um telegrama ao Ministro dr. Lima Duque, pedindo-lhe o pagamento urgente do subsídio, pois maior demora tornaria insuficiente a verba concedida para a indispensável efectivação dos melhoramentos públicos previstos.

(5) - A igreja paroquial a que se refere o Padre-Cura Bento Marques, não era precisamente a que conhecemos. Foi uma anterior, mais pequena, mas localizada no mesmo sítio, e sobre a qual, depois de demolida, se fez a actual, com aproveitamento de alguns materiais em estado de servirem, como ficou estipulado no contrato de empreitada, concedida em 1785 ao mestre Manuel Lopes, de Vila Cova de Sub-Avô, como então se chamava, contrato e planta de fachada que foram publicados na integra pelo padre Joaquim da Costa Loureiro, em 1964, em dois números do Boletim Paroquial «O FACHO». Posteriormente esta igreja foi acrescentada com uma capela-mor no tempo do padre António das Neves Pimenta, natural de Coja (1844) custeada por uma derrama paga pelo povo.

(6) - O texto completo da informação prestada pelo padre Bento Marques, datada de 21 de Maio de 1721, que esteve perdida, bem como as demais respeitantes à Diocese de Coimbra durante quase dois séculos, foi publicado em A Comarca de Arganil, no dia 21 de Março de 1939, numa série de artigos intitulados «BENFEITA - Subsídios para uma monografia - VI».

(7) - O pai do conselheiro Luís António de Figueiredo, que aparece referido nos documentos da época com os nomes de Luis António, Luís António Júnior, Luis António Marques e Luis António Marques Correia, faleceu no dia 17 de Dezembro de 1853, sendo enterrado com "solenes exéquias" no dia seguinte no "cemitério do Adro". A circunstância de seu filho não conseguir identificar as ossadas do pai, que queria reunir às de sua mãe e às suas, no jazigo que se propunha construir, são prova evidente de que a sepultura daquele que era um dos mais ricos proprietários da freguesia, pai de um filho que a 15 de Julho desse ano se formara em Direito, em Coimbra, e advogava então em Arganil, em cujo Tribunal desempenhava as funções de "distribuidor" e de "contador", não tinha qualquer diferença que a assinalasse ou distinguisse das demais.

Luis António Marques Correia esteve para ser assassinado após a derrota dos exércitos miguelistas.

A Beira estava então infestada de grupos armados de sicários que perseguiam os antigos defensores ou partidários de D. Miguel, servindo-se dos mais diversos motivos para os perseguir, prender e espoliar, espancando-os ou mesmo assassinando-os, assaltando e queimando as suas casas etc. Na Benfeita, quiseram assaltar e queimar as casas do dr. Joaquim José Dias, e só não o fizerem porque a isso se opôs, tenaz e valentemente, o depois "Padre-Mestre", invocando a sua situação de 4 anos prisioneiro em Almeida e de voluntário das tropas constitucionais; na Cerdeira, espancaram e mataram o professor Dionísio António de Figueiredo; nas Meãs, queimaram a casa do padre Manuel Fernandes Branco; e no Porto da Balsa, a da família do dr. José Acúrcio das Neves, etc. etc.

Ora, quando uma tarde, nessa atormentada época, Luís António Marques vinha tranquilamente de Coja, a cavalo, teve de passar nas terras da Finchosa, a pouca distância de um grupo de "guerrilheiros" que descansavam à sombra dum pinhal. Luis António deu, mesmo de longe, "a salvação" das boas tardes e seguiu o seu caminho, calmamente na aparência, mas certamente com o coração oprimido.

E tinha razão para isso, pois um dos do bando, que se soerguera e o reconheceu como "miguelista", empunhou a carabina, preparando-se para o balear pelas costas, e só não o fez porque um companheiro lhe agarrou e desviou a arma, gritando-lhe: «A esse não, porque se estou vivo lho devo a ele! Foi esse homem que, indo eu quase a morrer de cansaço e doença, no meio da escolta que levava prisioneiros para as cadeias de Almeida, se desmontou, quando comandava a escolta de milicianos, e me pôs a cavalo, e me deixou ir assim durante grande parte do caminho!».

MM