Os cemitérios
DA BENFEITA

II

por: Dr.Mário Mathias
publicação: A Comarca de Arganil - nº 6528, de 13/12/1969

Transcorrido meio século sobre a sua inauguração, o "cemitério do adro" era insuficiente, porque a população fora entretanto acrescida de uma centena ou mais de habitantes.

Em vista disso, e tendo em conta a impropriedade do terreno e outros inconvenientes que desaconselhavam em absoluto a sua ampliação, foi decidido, com o parecer e o apoio das autoridades sanitárias, construir um novo cemitério, obedecendo aos requisitos e condições previstas e impostas nos regulamentos de Saúde Pública, localizando-o em terreno e sítio mais convenientes.

Logo a gente da Benfeita, bairrista como foi sempre, se dispôs a enfrentar e resolver o problema, demais que este não se podia dizer fácil, dada a zona fortemente montanhosa em que a povoação estava implantada, sem terrenos planos fora das várzeas, rodeada de vertentes alcantiladas e de encostas ladeirentas, só susceptíveis de se nivelarem levantando sucessivos socalcos, sempre estreitos e de áreas reduzidas.

Acrescia ainda a circunstância a considerar do novo cemitério não dever ficar muito distante da Igreja, isto é, da povoação, e da necessidade de haver perto, estrada ou caminhos capazes de permitirem a normal passagem dos préstitos fúnebres, ou de se construirem sem grandes trabalhos e dispêndios. Bem bastava o suplício do transporte até à Benfeita, dos defuntos das povoações da Serra, que atormentava e mortificava toda a gente, pois tinha de fazer-se por ínvios caminhos, às vezes entre matagais e veredas que as chuvas invernosas transformavam em barrocais, tortura que cinquenta anos mais tarde inteiramente justificou, de preferência a outros melhoramentos importantes, a construção de cemitérios no Monte Frio e nos Pardieiros.

Tendo em vista todas estas e outras ponderações, a escolha recaiu num terreno sito na "volta da Corga", de cascalheira miúda, e bem seco, contrastando nitidamente com o solo alagadiço do "cemitério do adro", distante oitenta ou cem passos da estrada carreteira que, pelo Santo e pela Teixogueira, ia da Benfeita para a Esculca e daí para a sede do concelho.

Vistoriado e aprovado o terreno escolhido, o "Cemitério da Corga" ficou pronto em 1894, sendo pároco da freguesia o "Padre Alfredo", como por todos era tratado (1).

Não sabemos como obteve a Junta o dinheiro necessário (2) para a compra do terreno e para as obras. Não encontrámos livro ou documento avulso, ou apontamento que nos elucidasse. Ficou-nos, porém, de antigas conversas, reminiscências de ter ouvido haver influído muito para a construção do cemitério o dr. Albino de Figueiredo, do Pisão de Coja, político muito conhecido e diligente, então deputado pelo Círculo que abrangia a nossa terra (3).

Também não encontrámos ainda referência que nos dissesse quando e como se fez a trasladação das ossadas para o cemitério novo.

À roda de 1907, porém, estava o velho cemitério, com sua portada de almofadas aberta em rótulas, para que bem se pudesse ver para dentro, transformado metade em jardim e metade em horta, para real proveito e regalo do padre António Dinis Tavares, o "Padre Sardinha", que nele mandara mesmo abrir um poço para rega dos seus renovos (4).

E em verdade nunca me esqueci do espanto infantil pela desagradável impressão que me fazia aquele pujante e viçoso feijoal, de que o padre comia, nem da admiração que me causavam os seis, sete ou oito girassóis gigantes que sobressaíam do muro, e cujas enormes corolas amarelas se moviam, misteriosamente, olhando sempre o olhinho do sol, seguindo-o pelo céu, desde o seu nascimento ao ocaso!

No dia 26 de Setembro de 1909, estando a Junta de Paróquia reunida em sessão ordinária, sob a presidência do pároco padre António Dinis Tavares, e com a presença de todos os seus vogais - Manuel do Rosário Dias, António Nunes dos Santos Oliveira, António Nunes da Costa e João Quaresma da Costa - apresentou-se o sr. dr. Luís António de Pignatelli Figueiredo, filho primogénito do conselheiro dr. Luís António de Figueiredo, falecido a 9 de Janeiro desse mesmo ano, em Tortozendo, que depois de autorizado a falar disse ser o cemitério paroquial de acanhadas dimensões, e por isso insuficiente para as necessidades da freguesia, mormente desejando erigir nele um mausoléu para sua família, pelo que em seu nome, no de sua mãe e irmãos, se oferecia para custear todas as despesas com a ampliação do mesmo cemitério, pedindo apenas, como retribuição, o terreno necessário para o mausoléu (5).

Pediu seguidamente para falar o sr. António Simões Dias, que disse ser o proprietário dos terrenos confinantes com o cemitério, para onde este teria de ser alargado, e por isso se prontificava a dar à Junta a parte precisa para o melhoramento, desde que lhe fosse, em troca, autorizada a construção de um jazigo, que desejava fazer, para si e sua família (6).

O presidente da Junta, traduzindo - disse - os seus sentimentos de muita gratidão, e os dos membros da Junta, e o muito respeito de todos pela atitude do sr. dr. Luís de Figueiredo, que assim contribuía, com sua família, para um melhoramento público que custaria muitos centos de mil réis, propôs que fosse exarado um voto de louvor, como efectivamente consta da acta, redigida e lavrada pelo secretário, o professor António Rodrigues da Silva (7) e assinada por todos os presentes.

Poucos dias depois, as obras da primeira ampliação do "Cemitério da Corga" começaram, custeadas pela importância entregue na ocasião pelo representante da família do velho Conselheiro, Juiz do Supremo Tribunal de Justiça.

Entretanto foi proclamada a República e a viúva e filhos do dr. Luis António de Figueiredo fizeram partilhas e entraram na posse dos seus quinhões na herança, ficando todas as casas e propriedades da Benfeita, ao filho José, formado também em Direito, boémio e jogador insaciável.

Esgotado o dinheiro inicialmente entregue, as obras do cemitério pararam, e as cartas solicitando a remessa do necessário para as completar, ficavam sem resposta. Até que, em 5 de Fevereiro de 1911, a Comissão Paroquial Republicana, que revolucianimiamente substituíra a antiga Junta de Paróquia, oficialmente se dirigiu ao sr. dr. Luís António Pignatelli de Figueiredo, para a casa da família em Monforte da Beira, chamando-lhe energicamente a atenção para os prejuízos que resultavam para "o bem público" das obras do cemitério estarem paradas por sua culpa... E a ampliação do cemitério completou-se, pouco tempo depois desta velada ameaça! (8)

Do "mausoléu", porém, cujo prometido e anunciado projecto não tinha aparecido ainda, nunca mais ninguém falou! E a urna funerária, que foi acolitada por uma dúzia de sacerdotes, filarmónica e muito povo, para o cemitério de Tortozendo, continuou, e cremos que permanece, no jazigo da "Família Amaral"!

Temido e acatado em vida, de nada serviu ao velho Conselheiro ter tomado a precaução de deixar bem expresso no seu testamento (9), o bom desejo de ser sepultado no cemitério da aldeia onde nascera e jazia sua mãe:

«Tenciono comprar no cemitério da Benfeita, minha terra natal, o terreno necessário para depósito dos restos mortais de minha saudosa mãe, à qual principalmente devo a minha formatura, e para depósito também dos meus e dos de minha família, sentindo não se poder saber onde se acham os de meu virtuoso pai, que tantos exemplos me deixou de rectidão e de uma consciência imaculada, para terem igual destino.
Se eu conseguir este projecto, quero que o meu cadáver seja para ali transportado, donde quer que eu faleça.»

Durante o outono de 1918, quando a mortífera epidemia, a que se chamou "pneumónica", depois de flagelar meio mundo, onde matou mais gente do que a Guerra que durava havia quatro anos, assolou Portugal, a Benfeita, e todas as povoações da freguesia, pagaram-lhe pesado tributo, pois estiveram doentes dois terços da população, e morreram cinquenta ou mais pessoas (10).

Em princípio de Dezembro o "cemitério da Corga" estava repleto, não comportando qualquer enterramento mais!

E como o enterramento das vítimas da "pneumónica" tinha de fazer-se sem demoras, logo a seguir à morte, por ordem das autoridades administrativas e sanitárias, começaram a ser enterradas em covais abertos no terrado do velho "cemitério do adro", então transformado e utilizado apenas como jardim.

MÁRIO MATHIAS


(1) - O padre Alfredo Nunes Oliveira, nasceu em Vila Cova de Sub-Avô, no dia 23 de Julho de 1869, tomou ordens em Novembro de 1889, e foi colocado na Benfeita em 6 de Março de 1890, de onde foi transferido para a sua terra natal em 21 de Outubro de 1900. Em 14 de Julho de 1948 veio à Benfeita para comparticipar nas cerimónias das "Bodas d'Oiro" de Leonardo Gonçalves Mathias e esposa, D. Maria da Assunção Nunes Mathias, celebrando missa solene na Igreja de Santa Cecília, onde cinquenta anos antes abençoara e celebrara missa matrimonial do casal festejado. Pouco tempo depois faleceu em Vila Cova.

(2) - Conforme as diversas leis administrativas da Monarquia, as Juntas de paróquia, que em certos períodos se chamavam de Freguesia, dispunham de bens e rendimentos próprios, como foros, baldios, serviço braçal, etc., podiam lançar derramas, concordando a maioria dos paroquianos, para certas despesas e melhoramentos, e recebiam subsídios e donativos do Estado, Câmaras Municipais e outras entidades, e de pessoas particulares.

(3) - O dr. Albino Abranches Freire de Figueiredo, nascido no Pisão de Coja, onde tinha o seu solar, e residia frequentemente, formou-se em Direito e iniciou a sua carreira pública e política servindo como Administrador do concelho e depois presidente da Camara de Arganil. Pelo círculo de Arganil foi repetidas vezes eleito deputado, e seguindo a politica do Conselheiro João Franco, foi nomeado Governador Civil de Portalegre, durante o seu Governo. Após o regicídio que vitimou o Rei D. Carlos e o Príncipe Real D. Luís Filipe, abandonou por completo a política. Foi Sub-Director do Supremo Tribunal de Justiça, cargo de que se reformou. Faleceu com 85 anos em Lisboa, em 10 de Março de 1942. Deixou quatro filhos: D. Maria do Resgate, dr. Augusto Albino e Bernardo de Figueiredo. Em reunão de 27 de Abril de 1943 a Camara Municipal de Arganil deliberou dar o nome de Albino de Figueiredo à rua que vai de Praça à escola primária, na vila de Coja.

(4) - O padre António Dinis Tavares, a quem o vulgo, na ausência chamava "Padre Sardinha", foi colocado na Benfeita nos princípios de 1901. Tinha um temperamento irritável, bilioso, bastante autoritário e algo intrometido, tornando-se pouco simpático, mormente em contraste com o seu antecessor, padre Alfredo. Foi ele quem reduziu o espaço livre do adro, construindo de um e outro lado da igreja, duas capelas ligadas à nave e sem qualquer ligação ou abertura para o exterior, para nelas instalar os dois altares laterais, que até então estavam integrados ou embutidos na espessura da grossa parede, como agora sucede, pois logo após a saída da paróquia do padre Tavares se manifestou o interesse público em se suprimirem aquelas duas excrescências, impertinentes e desnecessárias, o que efectivamente sucedeu alguns anos depois.

Do mesmo modo a utilização do cemitério velho para horta, para proveito culinário do pároco - que muitos consideravam sacrílega ou imoral - desagradou à generalidade da população. Por isso foi com quase geral satisfação que se soube do seu pedido de transferência e colocação na Giesteira, próximo de Soure, e se viu abalar para lá em 1909. E felizmente assim sucedeu, pois se o padre Tavares estivesse na Benfeita aquando da proclamação da República, dificilmente se teria evitado que alguns dos muitos com quem se malquistara e perseguira, o enxovalhassem. Morreu ali por 1911 ou 1912.

(5) - O cemitério tinha então 15 metros de comprimento por 15 metros de largura, portanto uma área de 220 metros quadrados, pouco mais ou menos.

(6) - O ofertante do terreno, natural das Luadas, mas morador na Benfeita, onde casara com Maria do Rosário Gonçalves, falecida com 76 anos no dia 17 de Janeiro de 1903, de seu nome completo António Simões Dias, mas alcunhado "Ciranda", não sabemos se por ser um "apaixonado" da dança popular do mesmo nome, se por trabalhar continuamente, "cirandando" sem parança, pelas suas muitas propriedades.

António Simões Dias, que havia de falecer logo em 1 de Janeiro de 1910, com 95 anos de idade, fora pai de três filhos, que alcançaram boa posição na vida portuguesa. O mais velho, o dr. José Simões Dias, nascido na Benfeita em 5 de Fevereiro de 1844 e falecido em Lisboa em 3 de Março de 1899, com 55 anos, poeta, escritor, professor e pedagogo, jornalista e político; o segundo Albino Simões Dias Cardoso, nascido também na Benfeita em 11 de Agosto de 1850, e falecido, quase de repente, na Cerdeira, em 30 de Dezembro de 1922, fora ordenado padre em 1872, dizendo a sua "missa nova" na igreja de S. João do Almadina, de Coimbra, em 23 de Dezembro de 1872, e depois de Capelão em Pedrógão, e parece que em Vila Facaia, veio a ser nomeado professor de instrução primária e pároco colocado na Cerdeira de Coja. O mais novo, António Simões Dias, seguiu a carreira militar, percorreu várias províncias ultramarinas, e veio a falecer, reformado no posto de major, em Setembro de 1942, em Coimbra, com 90 anos. Tanto o dr. Simões Dias como o major Simões Dias, deixaram descendência.

(7) - O professor António Rodrigues da Silva, deixou excelente memória de si, como homem, professor e chefe de família; foi provido provisoriamente na escola da Benfeita em 8 de Outubro de 1895, passando a vitalício, com geral satisfação da população, em 1898. Infelizmente, vagando a escola de Coja, o "professor Silva" pediu a sua transferência para lá e deixou a escola da Benfeita no fim do ano lectivo de 1903-1904.

(8) - A Comissão Paroquial Republicana, nomeada após a Revolução do 5 de Outubro de 1910, para substituir a Junta da Paróquia, era constituída, como presidente, por Guilherme da Fonseca, e por José Dias Gonçalves e José Dias Madeira, este dos Pardieiros, como vogais.

(9) - O testamento feito pelo próprio punho do Conselheiro dr. Luis António de Figueiredo, em 23 de Janeiro de 1884, na cidade de Castelo Branco, foi publicado na íntegra em o jornal A Comarca de Arganil, nº 3125 de 2-3-1945, no nº XLVI de uma série de artigos intitulados «BENFEITA - Subsídios para uma monografia», que inseriu também um magnífico retrato do dr. Luis António.

(10) - A Comarca de Arganil nº 3705 de 1 de Janeiro de 1951, publicou larga crónica intitulada «O OUTONO de 1918» na Benfeita, em que se referem factos e episódios respeitantes à "pneumónica".

MM