Os cemitérios
DA BENFEITA

I

por: Dr.Mário Mathias
publicação: A Comarca de Arganil - nº 6518, de 18/11/1969

«Encara-se, ao que parece, a hipótese da construção de um novo cemitério na Benfeita, em face das dificuldades de manter limpo, de paredes caiadas, etc., o cemitério da Corga.»

Construa-se, ou não, o sugerido cemitério novo, a notícia publicada na imprensa suscita a oportunidade de reunir e publicar algumas nótulas acerca dos locais utilizados nos últimos cento e cinquenta anos, para sepultura dos nossos mortos.

Antes da demolição do regime absolutista e da expulsão do Rei D.Miguel, e como sucedia em todo o país, e normalmente em toda a Europa católica, os enterramentos eram feitos dentro das igrejas. Na Benfeita, os covais ou sepulturas eram abertos no chão sagrado da igreja de Santa Cecília.

Após a lei chamada de "Passos Manuel", que tanta indignação provocou nas gentes tradicionalistas e geraria a revolução popular denominada da "Maria da Fonte", a Benfeita, sempre pacífica e respeitadora de Deus e da Lei construiu, logo em 1835, o seu cemitério, paredes meias com a igreja, à sombra sagrada da "Cruz" e do "Campanário".

Esse cemitério, que se chamaria "do adro" por ocupar a parte norte do terreiro que por três lados confinava com a igreja, estava concluído em Fevereiro do ano de 1836, e deve ter sido construído sob a direcção, ou orientação, do pároco padre João Antunes Leitão que, depois de cinco anos de homízio, por liberal, retomou o seu "múnus" expulsando, por usurpador, o padre José Gregório da Costa, natural da Dreia que, "suspenso" pelo Governo, morreu pouco depois, de tristeza e desgosto.

Quando se abriram os alicerces para a parede que separaria o cemitério da estrada carreteira, aí a oito palmos de fundura, apareceram muitos cacos de loiça fina e um peso de tecedeira, de tear, feito de barro. Mas o que provocaria o espanto de toda a gente, designadamente do então seminarista e depois padre, e mais tarde pároco da Benfeita, Joaquim Florindo Correia, foi o ter surgido, no sítio onde ia ficar a porta principal, "uma fonte de bica" onde ainda corria alguma água encanada, bem como dos lados da bica que era de pedra. Maior surpresa - por ninguém ter memória de tal ser possível - foi a de verem nas pedras que ficavam de um e de outro lado da bica, vestígios de servirem de poiso para cântaros e de, por isso, estarem bastante gastas!

O padre Florindo, para que ninguém pudesse duvidar, com o decorrer do tempo, escreveu, mais tarde, num livro de assentos da paróquia, o que deixámos referido, repetindo «eu mesmo vi a dita fonte e tudo o mais, sete palmos abaixo do solo e da soleira da porta.»

A última pessoa sepultada dentro da Igreja foi um homem do Sardal, de nome José Luís, que faleceu na primeira quinzena de Janeiro de 1836.
O primeiro enterramento no "cemitério do adro" fez-se em Fevereiro do mesmo ano de 1836, sendo igualmente de um homem, cuja identidade tomei nota um dia, quando tive a grata oportunidade de folhear vários livros de "assentos", então ainda em poder do padre António Quaresma, e agora recolhidos no Arquivo Distrital, mas não tenho de momento presente.

Talvez por ter serviço primitivamente de paróquia (1), também se fizeram enterramentos na capela de Nossa Senhora da Assunção, cuja existência deve vir, pelo menos do século XV, mas está comprovada a partir dos primeiros anos - 1605 - do século XVII. Por duas vezes se encontraram ossadas nesta capela. Em 1911, quando demoliram a sacristia e a "casa do despacho" para, no espaço assim devoluto, ser colocado um chafariz, com água "roubada" à magnífica e abundante "fonte do Tanque", situada no paredão nascente da "ponte do Cabo" (2). Depois, no mês de Setembro de 1958, ao abrirem-se os alicerces para a reconstrução total da capela, sob o risco e a direcção do padre Joaquim da Costa Loureiro.

Do "cemitério do adro", fala o poeta Simões Dias, ao contar no seu livro «Figuras de Cera» a sua partida, menino de dez ou onze anos, da Benfeita para Pedrógão Grande, onde continuaria os estudos com o Mestre-Régio João Cabral de Brito. Depois de descrever a sua peregrinação de despedida, de casa em casa, por todas as ruas e becos da povoação, numa via dolorosa de lágrimas, soluços e abraços apertados, o poeta escreveu:

«A primeira paragem foi no adro da nossa igreja. Quando ali cheguei e pus os olhos na porta do cemitério, tufado de papoilas e hortências, encostei-me ao ralo de madeira para não cair fulminado! Era ali, na terra da verdade, que dormiam pessoas que me tinham amado...»

O "cemitério do adro" não tinha, porém, as condições convenientes, para o fim a que era destinado, depois tornadas indispensáveis e obrigatórias pelo Regulamento Sanitário de 1890. Com efeito, o terreno, semelhante ao das várzeas adjacentes, não facilitava a consumpção dos corpos, e nos invernos mais chuvosos, não raro, ao abrir-se um coval, ressumavam dois palmos ou mais de água, forçando o coveiro, ou a família do defunto, a atapetar o fundo da sepultura com um molho de vides ou de mato graúdo, para que o caixão ou esquife pudesse poisar em seco.

Quando foi o grande temporal, aterrador em chuva e granizo, do dia 8 de Setembro de 1868, durante o qual caiu uma tromba de água nas vertentes da Picota e do Formarigo, mas não se fez sentir no Sardal, cuja população entretanto se aterrou com a negridão do céu e a medonha coriscada, nem da Dreia para baixo, a ribeira da mata "encheu" de tal maneira que levou todas as pontes existentes, até a do Pisão de Coja que era de pedra.

Essa "cheia" espraiou-se pelas várzeas e alagou o cemitério, cobrindo-o com mais de dois palmos de águas barrentas que só não entraram na igreja paroquial porque os lodos e imundices que se acumularam de encontro à soleira da "porta fundeira" a bloquearam e entupiram.

Zeloso da categoria dos clérigos que viessem a ser sepultados na Benfeita, o pároco Joaquim Florindo Correia (3) reservou-lhes no cemitério um espaço especial, que mandou assinalar com uma sebe rectangular de buxos, devidamente aparados.

O nosso ilustre patrício dr. José Simões Dias, poeta muito apreciado, erudito pedagogo e professor, escritor e jornalista de mérito, político várias vezes levado ao parlamento, parece ter tido sempre pela sua terra uma ternura especial. Ou por aqui ter nascido e vivido os melhores tempos da sua infância, ou por ter cá seus pais. O certo é que nunca a esqueceu, e embora pouco tenha feito pelo seu progresso e desenvolvimento, dela fala em quase todos os seus livros, referindo a beleza dos seus campos, dos salgueirais que bordam a sua ribeira, dos vergéis e montanhas que a cercam. Parece mesmo que queria ser sepultado no nosso cemitério...

Pelo menos é o que claramente se deduz dos versos que escreveu e publicou:

«E quando eu morra... (Mísera vida
Que eu te não deixe em terra alheia!)
Fiquem ao menos meus tristes ossos
No cemitério da minha aldeia.»

Todavia, se assim o desejou, não quiseram os fados que tal viesse a suceder, porquanto, havendo falecido em Lisboa, com 55 anos, em 3 de Março de 1899, foi inumado no cemitério do Alto de São João, no jazigo do seu íntimo e dedicado amigo Visconde Sanches de Frias, de Pombeiro da Beira, onde, julgamos, se encontra ainda. (ver nota abaixo)

Curioso que outra pessoa importante, nascida na Benfeita, e na magistratura judicial atingiu as mais altas posições, o conselheiro dr. Luís António de Figueiredo, apesar do seu expresso desejo, bem vincado no seu testamento, de vir dormir o "sono eterno" no cemitério da terra natal - então já o cemitério da Corga - tendo falecido, quase de surpresa, em Tortozendo, foi inumado num jazigo de pessoa estranha à sua família, de onde nunca o trouxeram, apesar de, para isso, se ter ampliado o pequeno cemitério existente, como relataremos.

MÁRIO MATHIAS


(1) - Esta é a crença mais comum. Atendendo, porém, a ter tido sempre a sua sede naquela capela a Irmandade de Nossa Senhora da Assunção, que durante muitíssimos anos teve "capelão" próprio, para dizer missa e confessar os "irmãos" e suas famílias, não me surpreenderia a hipótese da capela ter servido de cemitério privativo daquela confraria, que ainda hoje permanece, depois de diversas vicissitudes e reformas.

(2) - Com a implantação da República, surgiu na Benfeita, como em muitas outras povoações, a ânsia de melhoramentos e progresso. Na Benfeita quis-se fazer, na parte central da povoação, um "largo", e logo "republicanos" de fresquíssima data sugeriram a demolição da capela de Nossa Senhora da Assunção, para assim arranjarem o desejado largo. Apesar da forte influência de alguns moradores, que veriam as suas casas "desafrontadas", a generalidade do povo, coadjuvado pelo padre António Quaresma, recém-chegado à paróquia, levantou a maior oposição, e na verdade a capela manteve-se no seu lugar, embora lhe tivessem amputado a sacristia e a "casa do despacho", para no espaço livre colocarem uma fonte e uma pia ou bebedoiro, com a água vinda da "fonte do Tanque", que assim desapareceu.

A inauguração fez-se com discursatas e foguetório, mas como no prolongamento da canalização se usaram canos mais estreitos que os antecedentes, o "melhoramento" foi efémero, porque o chafariz nunca funcionou capazmente e breve houve que cortar a água para uma bica colocada ao fundo das escadinhas que vão de junto do Lagar para o Oiteiro.

(3) - Irmão do padre António Soares Correia, que paroquiou a Benfeita desde Abril de 1855 a Abril de 1864, o padre Joaquim Florindo Correia, ou "padre Florindo", como por todos era chamado, foi despachado para a Benfeita em Abril de 1864 e aqui exerceu o seu "múnus" até à morte, ocorrida no dia 6 de Dezembro de 1889, com mais de setenta anos de idade.

Nota:

Neste parágrafo, existem algumas incorrecções sobre factos conhecidos, que vale a pena corrigir para informação dos nossos leitores:

1) O corpo de Simões Dias esteve inumado provisoriamente durante um ano a aguardar transferência para Coimbra, no jazigo particular de Júlio César dos Santos, no Cemitério dos Prazeres. (Jazigo 2245, rua D)

2) Os restos mortais de Simões Dias foram trasladados para o seu jazigo de família no Cemitério da Conchada, em Coimbra, em 10/04/1900. (Jazigo 56/58, talhão 12)

3) À data em que Mário Mathias escreveu este texto, em 1969, os factos atrás mencionados já eram do conhecimento público.

Para mais informações, leia: "Morrinha brasileira", reflexões sobre um poema esquecido.

MM