MEMÓRIAS  DE  OUTROS  TEMPOS

António QuaresmaDossier:

Centro de Assistência SocialPainel de azulejos

Autor:

António Simões Quaresma
(1914-2002)

 

1955

Em Abril de 1955 foi fundada, na Benfeita, uma instituição de assistência denominada Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita, cujos estatutos foram entregues no Ministério do Interior em Maio do mesmo ano.

Foram seus sócios fundadores os Srs. Dr. Mário Mathias, Alfredo Nunes dos Santos Oliveira, padre José Rodrigues Redondo, José Nunes dos Santos Oliveira, José Rosário de Oliveira, António Nunes da Costa, José Augusto Martins, Artur Nunes da Costa (sobrinho), José Nunes da Costa, Eduardo Dias, António Alberto Martins, António Nunes Leitão, Joaquim Bernardo, Américo Pereira Gonçalves, José Domingos Nunes, José Pedro Nunes, Joaquim Tavares, Armando Gonçalves Pereira, Marcelo Mendes, Adelino Quaresma Gonçalves, Armando da Costa Coelho, César Gonçalves, António da Cruz, Saúl Correia Gonçalves, António dos Santos Tomé, José Gonçalves Pereira, António Pereira Filipe, José Dias, José Rosa Gomes e Artur Nunes da Costa (tio).

Entre outros objectivos, a nova colectividade beneficente, propôs-se exercer as seguintes modalidades assistenciais: semi-internato para crianças em idade pré-escolar; patronato para crianças em idade escolar e pós-escolar; dispensário policlínico e assistência à família.

Enquanto não foram eleitos os corpos gerentes, o Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita foi dirigido por uma Comissão Instaladora, constituída pelos Srs. Alfredo Nunes dos Santos Oliveira, padre José Rodrigues Redondo, José Rosário de Oliveira, António Nunes da Costa e José Augusto Martins.

Por iniciativa do Dr. Marcello Mathias, ilustre benfeitense e embaixador de Portugal, em Paris, o Sr. Ministro do Interior concedeu ao Centro de Assistência Social um donativo de seis mil escudos.

1956

Em 10 de Janeiro, foi inaugurada a "Sopa Social", por iniciativa do Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita, na presença dos Srs. Alfredo Nunes dos Santos Oliveira, presidente do Centro; António Nunes Leitão, presidente da Direcção da Liga de Melhoramentos da Freguesia da Benfeita; José Nunes da Costa e José Nunes dos Santos Oliveira, tesoureiro e secretário da Junta de Freguesia da Benfeita, respectivamente; padre José Rodrigues Redondo e a professora oficial da Benfeita, D. Alda Peres Custódio, tendo esta proferido algumas palavras alusivas ao acto.
A distribuição da sopa fornecida diariamente, nos primeiros tempos, era feita na loja da casa da Srª D. Lucinda do Rosário Costa, ao Areal e confeccionada pela Srª Belmira Gonçalves, com géneros oferecidos por diversas senhoras da nossa freguesia.
Por sua vez, um grupo de benfeitenses residentes em Lisboa, formando uma comissão, adquiriu dinheiro, géneros alimentícios e utensílios que os enviou ao Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita.
Também, por iniciativa do Sr. Dr. Marcelo Mathias, o Sr. Ministro do Interior, concedeu um donativo de dois mil escudos, ao Centro de Assistência Social.
No final do ano, a "Sopa Social" da Benfeita, recebeu 50$00 do Sr. António Gonçalves Matias, da Relva Velha, acompanhados duma carta em verso, da qual transcrevemos as seguintes quadras:

É poucochinho, bem sei,
Mas é de boa vontade;
É dever de todos nós
Praticar a caridade.

Neste mundo passageiro,
Cheio de falsas ilusões
Só nos podem dar prazer
As nossas boas acções.

1957

No princípio do ano, o Sr. Ministro do Interior, enviou à "Sopa Social" diversos géneros e agasalhos que o Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita agradeceu em telegrama expedido àquele ilustre membro do Governo.
Em Fevereiro, uma senhora anónima, protectora da "Sopa Social", ofereceu ao Centro de Assistência Social uma panela com capacidade de 42 litros, para nela serem confeccionados os alimentos destinados às pessoas mais necessitadas, que entre crianças e adultos, nessa data, era de cerca de cinquenta beneficiários.
Por intermédio da Cáritas Portuguesa, recebeu o Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita, grande quantidade de manteiga, queijo, feijão, farinhas de trigo e de milho e leite em pó, que foram distribuídas pelas pessoas mais carenciadas da nossa freguesia, oferta da Cáritas Americana.
Para o Centro de Assistência Social, receberam-se em Abril, do Sr. José Gonçalves Matias, das Luadas, 30 quilos de massa; do Sr. Artur da Costa Prata, 20 quilos de arroz; do neto do Sr. Amadeu da Costa Prata, 10 quilos de massa e 10 quilos de arroz e, de um anónimo, 18 pratos de alumínio.
Em Maio, receberam-se 2 alqueires de milho do Sr. José Carlos das Neves.
O Centro de Assistência Social recebeu, em Junho, da Sr.ª D. Assunção Peres, do Monte Frio, 50$00, e do Sr. José Filipe, das Luadas, 60$00.

No final de Outubro, a "Sopa Social" ainda não funcionava, fazendo o correspondente do Jornal de Arganil, na Benfeita, um apelo a todos os benfeitenses, para que enviassem donativos a fim de se prosseguir, nesse novo ano lectivo, com um pouco de conforto aos alunos mais necessitados.
Mas, no final do mês de Novembro, os pequenos já beneficiavam da sopa em abundância, graças à boa compreensão das senhoras da Benfeita, que se apressaram em entregar géneros alimentícios, tendo-se recebido nessa data 100$00, de um anónimo cujas iniciais de seu nome eram L.N.A.

1958

Em Janeiro, o Estado concedeu um subsídio de 5.000$00 ao Centro de Assistência Social e um anónimo, cujas iniciais eram C.N.L. entregou, para o mesmo fim, a quantia de 100$00.

No dia 20 de Dezembro, em cerimónia muito simples, o Sr. Dr. Mário Mathias fez entrega, em nome da Direcção Geral de Assistência, à menina Maria Odete Quaresma Simões, de 21 anos, de um carro triciclo propositadamente construído para atenuar a invalidez dos membros inferiores, e que permite a sua deslocação pelas ruas e estradas, sem necessidade de qualquer auxílio alheio. À simpática e caritativa entrega assistiram os Srs. Alfredo Nunes dos Santos Oliveira, padre Joaquim da Costa Loureiro e António Simões e as Sras. D. Maria Amélia Mathias Parente, D. Maria Edite Ribeiro Saraiva e Zulmira Simões.

O Jornal de Arganil, em 25 de Dezembro, publicava o seguinte apelo:

Aqui Benfeita

Andamos empenhados em dar mais vida ainda ao Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita. Ele foi criado para a freguesia inteira. Por ele se canalizará o auxílio aos necessitados de toda ela.
Os jornais lembraram a extrema penúria do nosso conterrâneo cego José Vicente, da Dreia.
A caridade não conhece fronteiras, é certo, mas seria vergonha que os estranhos tivessem necessidade de lembrar mais uma vez a desgraça dos que vivem à nossa beira.
Talvez te tenha sorrido a vida. Se não conseguiste o que ambicionavas vives ao menos sem vergonha do mundo. O trabalho e sacrifício duro a que te devotaste frutificaram e Deus ajudou-te bem mais do que mereceste.
Não feches o coração ao infortúnio e envia com caridade cristã e compreensão ao Centro de Assistência da Benfeita as migalhas da tua mesa, para que os pobres possam ao menos ter pão, sustento e agasalho capaz.
Manda o teu supérfluo: dinheiro, géneros, víveres, tecidos, calçado, ainda que já usados. O pobre tudo agradece e tudo lhe fica bem.

Uma boa e nobre senhora que quis esconder-se no anonimato enviou-nos 170$00, para socorro dos nossos pobres, em especial do ceguinho da Dreia.
O Sr. José Dias, de igual modo se tocou de caridade, fez colecta na capital e deixou-nos os 227$50 desse peditório.
Bem hajam essas boas almas, que tão prontamente sentiram como suas as mágoas dos desafortunados.
Elas sabem bem que Deus perguntará ao homem quando o mundo e as suas coisas para ele já não existam se deu de comer ao faminto, agasalho ao desnudado, carinho ao doente.
Ao estômago do pobre não se lhe pode dizer: espera pelo amanhã de manhã. Precisa todos os dias. E só em obras de caridade vivas terá o homem cumprido a sua nobre missão na terra e aproveitado a sua passagem.

Pelo Centro de Assistência está-se desenvolvendo uma acção benemérita de ajuda ao pobre com a distribuição de 50 refeições diárias. Por quanto tempo isto será possível? Depende da tua compreensão e ajuda. Manda-nos da tua batata, do teu feijão, do teu azeite ou gorduras. Ao comércio, faria falta um saquito de massa de vez em quando? Faltará generosidade?
Tanto mono e coisas inúteis e invendáveis na estante ou balcão a ocupar espaço ou arrumado aos cantos como tropeço e que tanto arranjo fazia ao pobre! Se tens coração, lembra-te de nós. Manda ao Centro ou distribui por tuas mãos. O Centro talvez conheça melhor que tu as mais prementes necessidades.

1959

No dia 1 de Janeiro realizou-se uma cerimónia na Escola do Areal, a que presidiu a Srª Dª Fedora Zaffiri Mathias, esposa do Dr. Marcelo Mathias, para distribuição de enxovais a cerca de 20 crianças em idade escolar e cobertores a diversas pessoas pobres.

Foi também apresentado, neste mês, o relatório da gerência do Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita, referente ao exercício de 1958.
Nesse relatório poderá ler-se: Graças a Deus e devido ao auxílio do Estado, à compreensão e generosidade dos melhores filhos da terra, dum modo especial os Srs. Drs. Marcelo e Mário Mathias e suas famílias, tudo se saldou, não ficando dívidas.
Foram distribuídas, apresentava o relatório, 14.000 refeições, 53 enxovais completos e 29 cobertores aos pobres. 
Só para o cego Vicente, da Dreia, gastou o Centro de Assistência Social, cerca de 700$00 de pão.

Em Abril, distribuiu-se arroz, massa e feijão, resultante de uma subscrição para a qual contribuíram os Srs. António Nunes Leitão e José Gonçalves Mathias, com 100$00 cada; António Gaspar Pimenta e Afonso Baptista, este do Cadafaz, com 20$00 cada, e José Dias, José Martins dos Santos, António do Rosário Oliveira Dias, Joaquim Bernardo, António Martins Pereira, Adelino Quaresma Gonçalves, Hermínio Filipe Dias, Manuel Dias, António Simões Quaresma, Armando Gonçalves Pereira e José Bernardo Leitão, com 10$00 cada.
E, das contas feitas, do almoço de homenagem ao Sr. António Gaspar Pimenta sobraram 24$00 que reverteram a favor desta subscrição que, assim, totalizou a quantia de 374$00.

Em Maio começou-se a estudar a possibilidade de se criar um Posto Médico, na Benfeita.

Para a confecção da "Sopa" muito contribuíram os pais dos alunos, principalmente aqueles que o podiam fazer, que mandavam pelos filhos: azeite, batatas, hortaliça, feijão, etc.

1960

Em Abril, houve conhecimento de que tinha sido assinada uma portaria, pelo Sr. Ministro da Saúde e Assistência, que concedeu ao Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita a importância de 38.250$00, como comparticipação para a compra do material necessário ao apetrechamento de um Posto Médico, na Benfeita.
Este subsídio foi patrocinado pelo Sr. Dr. Marcelo Mathias, então Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Por ter falecido o Sr. Alfredo Nunes dos Santos Oliveira em Abril, foi remodelada, em Maio, a direcção do Centro Social da Freguesia da Benfeita, que ficou assim constituída:
Presidente, Dr. Mário Mathias; Vice-Presidente, padre Joaquim da Costa Loureiro; Secretário, Artur Nunes da Costa (sobrinho) e Tesoureiro, António Nunes da Costa.

Em 15 de Agosto, funcionou no Largo do Areal, no dia e na noite da festa de Nossa Senhora da Assunção, uma barraca de "comes e bebes", cujo produto da venda reverteu a favor do Centro de Assistência.

No dia 1 de Novembro, foi inaugurado na Benfeita, um magnífico edifício, que serve para a instalação do Centro de Assistência Social da Freguesia, funcionando no rés-do-chão, a "Sopa Social" e o Posto Médico e, o primeiro andar, com esquerdo e direito, serve de habitação para os professores.
Este prédio foi mandado construir, a suas expensas, pelo Sr. António Nunes Leitão, considerado o maior benemérito benfeitense, onde gastou cerca de 100 contos, sendo o terreno necessário, oferecido pelos Srs. Guilherme da Fonseca e José Bernardo Quaresma.
A sessão solene teve lugar no refeitório da "Sopa dos Pobres", presidida pelo Sr. D. Manuel de Jesus Pereira, em representação do Sr. Bispo de Coimbra, tendo a ladeá-lo um representante do Sr. Governador Civil de Coimbra; o presidente da Câmara Municipal de Arganil, Sr. Coronel Dr. Álvaro da Silva Sanches; a presidente da Comissão Municipal de Assistência, Sr.ª D. Arminda Alves Caetano da Silva Sanches e o Sr. professor José Maria Gaspar, que representava a Comissão Distrital da União Nacional.
Falou, em primeiro lugar, o Sr. padre Joaquim da Costa Loureiro, que agradeceu a comparência de todas as autoridades presentes, depois de ter saudado o Sr. Bispo Auxiliar de Coimbra.
O orador elogiou o povo da Benfeita, afirmando nunca ter servido um povo tão compreensivo, generoso, dedicado e com tanta ânsia de progresso.
Seguidamente falou o ilustre benfeitense Sr. Dr. António Luís Gonçalves, que disse:

«Muitos perguntarão porque razão e a que propósito eu me encontro neste lugar. É que as vicissitudes da minha vida têm-me forçado ao afastamento quase total das coisas e das gentes da Benfeita. Levado por aspirações, aqui não realizáveis, de cá parti por volta dos 12 anos e, desde então, apenas durante algumas férias, que o tempo foi encurtando e tornando mais raras, me foi possível contactar directamente com o meio, conviver de perto com as pessoas, apreciar calmamente a beleza da sua paisagem, saborear os encantos da sua vida simples, tranquila e acolhedora.
Durante os 9 anos que presidi aos destinos do concelho, no decorrer dos quais me era aparentemente possível um contacto mais directo, tive que repartir pelas 17 freguesias que o compõem, os esforços, cuidados e afectos que a própria função despertava em mim. E, em Coimbra, onde decorreu a maior parte da minha vida, é pequeno e disperso o núcleo de benfeitenses. Apenas a casa de meus pais, onde se vivem e viveram sempre, com amor e carinho, os problemas da Benfeita e a amizade que me liga à numerosa família que aqui conservo, mantiveram bem vivos e despertos os sentimentos que me ligam à terra onde nasci.
Daí que, ao receber o convite do Centro de Assistência Social para tomar parte nesta festa como pessoa da casa, eu sentisse a sensação do regresso.
Regresso, na verdade, àqueles tempos de menino e moço, de que me falam todos os recantos desta terra querida.
Regresso e encontro a Benfeita totalmente remodelada, progressiva e acolhedora, como não era dantes.
Num relance, recordo muitos dos que mais contribuíram para o seu engrandecimento por quem tanto por ela trabalhou.
Vejo na minha frente a figura veneranda de Leonardo Gonçalves Matias, criador de filhos ilustres, que tanto haviam de honrar e prestigiar este pequeno burgo a dedicar-se de alma e coração à construção da estrada, melhoramento que foi princípio e condição de quanto de bom se iria aqui realizar.
Lembro Alfredo de Oliveira abnegado servidor da causa pública, que durante 26 anos conduziu o pesado fardo da presidência da Junta de Freguesia, dividindo a sua actividade e o seu incansável zelo, por inúmeras realizações, que culminaram com essa grande obra que é o abastecimento de água à povoação.
O padre António Quaresma, humilde e virtuoso sacerdote, a reconstruir a igreja paroquial.
Um Dr. Elísio da Fonseca, grande amigo da sua terra, sempre atento aos seus melhoramentos, contribuindo para eles com esforço e com dinheiro.
Eduardo Oliveira, que tendo partido para longes terras tão novo ainda, nunca esqueceu o berço em que nasceu e, lá da América distante, contribuiu sempre generosamente para os seus melhoramentos.
José Francisco Nunes, o grande agricultor da Califórnia, com doações variadas e o seu contributo avultado e decisivo para a electrificação da terra.
António Correia, o reformador das calçadas, contribuindo com avultadas quantias para quantos melhoramentos foram levados a cabo.
Recordo os homens da Liga de Melhoramentos, entre os quais se contam, além de alguns já citados, José Rosa Gomes, Artur Oliveira, António Gaspar Pimenta e José Bernardo Quaresma, todos irmanados no mesmo generoso desejo de fazer maior a sua e nossa terra.
Por fim o Dr. Mário Mathias, desde muito novo paciente e benemérito investigador da história da Benfeita, o homem que esteve sempre presente a ajudar e a orientar todos aqueles que se dedicaram ao progresso e engrandecimento desta terra, que terminou por aceitar o pesado encargo da presidência da Junta, sacrificando para isso comodidades e interesses próprios.
Pois bem. Dentre todos esses e de outros que, sem desdouro, me abstive de citar, destaca-se como um dos principais benfeitores da nossa aldeia a figura de António Nunes Leitão.
E o lugar de honra que hoje lhe é destinado aqui, constitui merecido prémio por tanto que tem feito por eles.
Não é este um homem nascido em berço de oiro ou por tal forma bafejado pela fortuna, que tivesse surgido rico, como que por encanto. Não.
Tendo saído da Benfeita, pobre de bens, mas rico de vontade e persistência, começou a sua vida em luta e a lutar, conseguiu, ao cabo de muitos anos de trabalho, amealhar o primeiro fermento que, através duma administração discreta, sóbria e inteligente, havia de proporcionar-lhe o desafogo de que hoje desfruta.
Dotado de coração bondoso, não foi preciso que as suas disponibilidades atingissem o supérfluo, para que a sua generosidade se manifestasse a plena luz.
Desde muito cedo as crianças das escolas foram objecto da sua atenção e datam do tempo em que a vida para si era ainda uma incógnita e o dinheiro lhe podia vir a fazer falta, as primeiras ofertas de bibes e guloseimas.
Se são de agradecer e de louvar os dispêndios mais avultados com que têm beneficiado as escolas e a mocidade escolar, ao longo de muitos anos de prosperidade e abastança pessoal, são particularmente dignas de registo aquelas dádivas, de uma economia débil e incerta ainda.
Nelas se revela a plena luz o espírito do homem bom que, assoberbado com os problemas da sua vida, encontra ainda tempo para pensar nas dores do seu semelhante e para tudo fazer no sentido de os minorar de algum modo.
Grande amigo da sua terra, manifestou sempre o maior interesse pelos seus melhoramentos e se o vemos muitas vezes a colaborar no esforço colectivo dos seus conterrâneos, presidindo, com o maior zelo e sem se poupar a sacrifícios, à Liga de Melhoramentos, ou contribuindo generosa e largamente para as grandes realizações, como a estrada, a electrificação e o abastecimento de água, encontramo-lo umas vezes a tomar, ele próprio, a iniciativa, fazendo a expensas suas e sob o seu olhar vigilante, alguns melhoramentos reputados de grande interesse público.
Falam-nos dessa desinteressada actividade o arranjo do Largo do Areal, com os seus bancos e muros de resguardo, tão necessários às crianças que ali usam brincar, a restauração do velho edifício escolar, com a construção de dois gabinetes, o arranjo da Ponte Fundeira, etc.
Por fim, melhor direi, por agora, nem a construção à sua custa, do magnifico edifício hoje inaugurado que, além de resolver o instante problema da residência dos professores, dará abrigo às crianças, aos pobres e aos doentes.
Nele despendeu o Sr. Leitão a avultada soma de 100 contos.
Quem procede desta maneira, mostra ter, não apenas um coração que sente, mas uma cabeça que sabe pensar.
Vivemos numa época que é lugar comum chamar-se, de feroz egoísmo, mas a expressão não traduz toda a gravidade do mal dos tempos presentes.
O que está em causa não é apenas o homem, nas relações do dia a dia, mas o próprio cristianismo, tocado no mais fundo das suas raízes.
Na verdade, assiste-se ao crescimento dum autêntico farisaísmo, que atinge paradoxalmente muitas almas ditas de eleição.
Ora, nestes tempos de verdadeira confusão de valores, em que a caridade perde tanto o seu superior sentido, faz bem meditar no exemplo deste homem simples, que trabalhou, lutou e venceu; que ama, compreende e perdoa; que podia rodear-se do maior conforto, mas renuncia às comodidades que a vida lhe oferece, para se devotar ao auxílio daqueles que de tudo carecem; que estima, acompanha e assiste aos seus amigos, mas não esquece também os que o não são e sem alardes, sem ostentações, na modéstia do seu viver tantas vezes torturado, vai fazendo todo o bem que pode, sem nada pedir em recompensa.
Que Deus o proteja, o ampare e cubra de graças, tantas quantas ele, nos limitados recursos da sua natureza humana, procura conceder ao seu semelhante.
António Nunes Leitão foi, sem dúvida, o maior benemérito da Benfeita, tanto em dinheiro como em trabalho e nem sempre acarinhado como merecia.»

No final do ano, por despacho do Sr. Ministro da Saúde e através da Direcção Geral de Assistência, foram subsidiadas várias instituições particulares, entre as quais o Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita, ao qual foram concedidos 8 contos.

1961

Com a construção e doação do edifício ao Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita, ficou "em parte" resolvido o problema de assistência às crianças em idade escolar, aos pobres e aos doentes da freguesia. Digo "em parte", porque o edifício por si só, não resolve totalmente este magno problema, pois apenas ficou resolvido a parte das instalações.
Agora há que pensar na sua manutenção, até que apareça um benemérito que doe ao Centro de Assistência um rendimento com que se possa acorrer às mais prementes necessidades.
A Liga e a Comissão de Melhoramentos da Freguesia da Benfeita, tiveram a feliz iniciativa de levar a efeito uma festa de confraternização regionalista, que se realizou em Lisboa, na Casa da Comarca de Arganil, Rua da Fé, 23-1º, no dia 28 de Janeiro, a favor do Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita.
Para o efeito foram nomeadas várias comissões, sendo a de Lisboa constituída pelos presidentes das direcções das duas colectividades, a quem coube a elaboração do respectivo programa, passagem de bilhetes e a tarefa de andar de porta em porta, solicitando dos conterrâneos residentes na capital e arredores e tudo, o mais necessário a um bom resultado lucrativo.
Por sua vez, dentro de cada povoação que compõem a freguesia da Benfeita, as comissões nomeadas, angariavam diversos objectos e géneros que foram largamente disputados.
Para que fique para a posteridade, registaremos aqui os nomes das pessoas que formavam as comissões nessas localidades:
Benfeita - António Bernardo Quaresma, António Nunes da Costa, José Nunes dos Santos Oliveira, D. Maria Edite Ribeiro Saraiva, professora da Benfeita; meninas Maria do Céu Oliveira, Ilda Prata Bernardo, Celeste Martins Feiteira e Maria das Dores Simões.
Deflores - Américo de Jesus e Muguete Lourenço.
Dreia - Alfredo da Gama, José Augusto Moreira, Lucília das Neves e Maria do Rosário.
Enxudro - António José, João Nunes, Marcelo Nunes da Costa, Edite Fernandes e Alda da Conceição Duarte.
Luadas - José Gonçalves Matias, José Pereira, António Dias da Costa Júnior, Elísio Dias Pereira, Alice Gonçalves Antunes, Marcelina do Rosário Gonçalves e Carmina de Jesus Gonçalves.
Monte Frio - Manuel Custódio, Manuel Henriques, Mário Simões, D. Gracinda Neves Mota, professora local, Suzete e Elisabete Henriques Nunes, Eulália Custódio, Carminda Henriques, Délia e Maria Fernanda Simões.
Pai das Donas - Manuel Custódio, José Nunes e Basílio Figueira.
Pardieiros - Aurélio Fernandes, Filipe Maria Gomes, Américo Duarte, Sr.ª professora Maria de Fátima Pereira dos Santos, Maria de Jesus Fernandes e Aldina Fernandes.
Relva Velha - Adelino Nunes, Silvério Filipe, António Castanheira, Maria Filomena, Ermelinda de Jesus Nunes e Germana Matias.
Sardal - Leonardo da Costa, José Simões, José Pedro, Arlete Simões Pimenta e Adélia da Ressurreição Gonçalves.
A esta festa de confraternização, a favor do Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita, veio grande representação de habitantes da nossa freguesia, que a Lisboa se deslocaram propositadamente, em excursão, e se fizeram acompanhar das respectivas ofertas, angariadas pelas comissões locais.
O leilão destas e de outras ofertas, foi feito pelo dinâmico Maico dos Santos, de Ceiroquinho, que procurou tirar sempre o maior rendimento.
O lucro desta festa foi entregue totalmente à Direcção do Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita.

No dia 22 de Outubro, o Sr. engenheiro Horácio de Moura, ilustre Governador Civil do distrito de Coimbra, de visita à Benfeita, percorreu interessadamente o edifício do Centro de Assistência Social, informando-se da acção desenvolvida pelo Refeitório dos Pobres e pelo Posto Médico, tendo prometido o seu patrocínio junto do Ministério da Saúde e Assistência, para reforço do pequeno subsídio que nos era concedido, e ainda para a conveniente aquisição de um aparelho de radiografia ou de radioscopia, de que muito beneficiariam todos os habitantes da nossa freguesia, como ainda os habitantes das freguesias vizinhas, que desejassem ser observados através desses aparelhos.

1963

No dia 20 de Setembro, realizou-se no Posto Médico do Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita, o radiorrastreio aos habitantes da freguesia tendo comparecido 212 pessoas de ambos os sexos, dos 12 aos 80 anos de idade.

No dia 22 de Dezembro, embora já funcionasse mas com pouca eficiência, foi inaugurado o Posto Médico da Benfeita, instalado no edifício do Centro de Assistência, com uma consulta médica semanal.
Essa consulta dada aos Domingos, pelas 10 horas, era feita gratuitamente, pelo médico municipal de Coja, Sr. Dr. José Baptista Ferreira Júnior e a enfermagem ficou a cargo do Sr. José Augusto Martins.

1964

Durante o mês de Janeiro procedeu-se às eleições e tomada de posse dos corpos gerentes do Centro de Assistência Social da Freguesia da Benfeita, tendo ficado assim constituído:

Assembleia Geral
Presidente - Ilídio Martins dos Reis
Secretários - José Bernardo Quaresma e José da Costa Prata.
Direcção

Presidente - Padre Joaquim da Costa Loureiro
Vice-Presidente - Dr. Mário Mathias
Tesoureiro - António Nunes da Costa
Secretário - José Carlos das Neves
Vogais - José Simões Feiteira e Manuel Simões
Substitutos
José Augusto Martins, José Nunes dos Santos Oliveira, José Martins dos Santos e António Alberto Martins.