JOSÉ  SIMÕES DIAS

Colocação duma lápide comemorativa na casa onde nasceu o grande poeta

Dr.José Simões DiasO Dr. José Simões Dias, era, incontestavelmente, uma das mais lídimas glórias deste concelho. Possuía qualidades de carácter que o tornavam credor do respeito e da estima de quantos o conheciam. A sua vida de beirão, pura e regrada, servia para modelo a quantos se preocupam com a paz da consciência, mais do que com as louvaminhas duma multidão, nem sempre imparcial e justa. Nunca a sombra duma mancha veio poluir aquele carácter de eleição.

Qualquer que seja o aspecto debaixo do qual o queiramos apreciar, a sua personalidade surge-nos, sempre, aureolada de grandezas imortais.

Era um homem de bem, um carácter austero, um amigo dedicado, um chefe de família extremoso e um verdadeiro crente.

Como literato, ocupa um lugar de destaque nas letras pátrias e deixa o seu nome ligado a obras dum merecimento real e imperecível.

As suas poesias são o espelho da sua alma aflita e simples. Nas Peninsulares, não sabemos que mais admirar, se o engenho que as concebeu, se a sensibilidade e doçura que delas transpira. A sua leitura, duma suavidade encantadora, satisfaz-nos plenamente. Faz vibrar a nossa sensibilidade de meridionais e deixa-nos a certeza de que o seu autor era inquestionavelmente um bom!

Numa época de abastardamento moral e intelectual, como a que atravessamos, surge-nos a sua figura de político, figura lendária, que não recuava perante o ataque de adversários e que se não curvava perante as imposições, fosse de quem fosse. A sua linha de conduta era inflexível e impecável.

Pronunciou discursos de valor e nalguns deles, sobre assuntos pedagógicos, revelou uma profunda erudição e uma rara competência. Era um grande amigo do professorado. A sua voz erguia-se sempre, num arranco de justiça, para causticar o desprezo que os poderes públicos tinham por essa prestimosa classe.

Foi professor de vários liceus, desempenhando-se sempre do seu espinhoso cargo com a isenção própria dum homem verdadeiramente superior.

Era muito considerado pelos homens de ciência do nosso País e tido como autoridade em assuntos de filologia, a cujo estudo se havia dedicado.

A sua crítica, imparcial e justa, tinha por vezes o nervosismo de que não transige com o erro, nem com a mentira, ainda que ela revista uma forma mais ou menos convencional. Os ídolos não resistiam à ironia causticante com que os fustigava.

Era admirador da ciência, onde quer que ela se encontrasse, mas adversário impenitente dessa audição de cordel, que para aí se pavoneia, ante o olhar estático das multidões ignaras.

Eis em rápidos traços o perfil desse homem, que foi, repetimo-lo, uma das mais lídimas glórias deste concelho e da nossa querida Pátria. O seu nome está insculpido, com letras de ouro, na galeria dos homens ilustres, que têm enriquecido a literatura portuguesa.

Placa original em ArganilA Câmara Municipal de Arganil, num impulso de gratidão para com a memória desse filho ilustre e interpretando o sentir unânime dos seus munícipes, resolveu, em sua sessão de 23 de julho de 1906, dar, ao largo mais importante desta vila, o nome de "Praça de Simões Dias". E realmente, nenhum nome tinha mais direito a esta homenagem, do que este, que constitui uma autêntica glória nacional.

Também em sessão camarária de 10 de abril de 1899, foi resolvido adquirir uma lápide para ser colocada na casa onde nasceu o grande literato, na Benfeita, a qual foi, por deliberação da câmara de 7 de novembro do ano findo, entregue à sua ilustre família, a fim de a colocar ali em ocasião que entendesse mais oportuna.

Desempenhou-se a família Simões Dias, da grata e honrosa incumbência, na passada segunda-feira, 20 do corrente. Essa cerimónia foi modesta, devido às circunstâncias especiais em que a família se encontrava. Não estava presente nenhuma autoridade desta vila, por, muito propositadamente, se lhes ter ocultado o dia em que a comovente cerimónia devia ter lugar.

Se se realizasse em Agosto, como esteve resolvido, associar-se-iam à piedosa homenagem as pessoas mais gradas do concelho e, entre outros oradores, ouvir-se-ia o ilustre Visconde de Sanches de Frias, amigo particular do Dr. Simões Dias e grande admirador da sua obra.

A morte do Sr. António Simões Dias, pai do saudoso poeta, transtornou todos os planos e veio reduzir a cerimónia a uma simples consagração de família.

Não podemos deixar de aplaudir as resoluções da câmara referidas, visto que elas foram o saldo de contas duma dívida que estava em aberto. Os actos de justiça registam-se, mormente quando vão reflectir-se num morto.

Agradecimento

Lápide de homenagem ao poetaOs abaixo assinados vêm por este meio agradecer, muito reconhecidos, as provas de consideração que os seus amigos têm manifestado pelo nome de seu nunca esquecido irmão, pai, sogro e cunhado, o Dr. José Simões Dias, poeta das Peninsulares.

Agradecem principalmente ao grande amigo, o Exmº. Sr. Visconde de Sanches de Frias, a proposta à Exmª. Câmara Municipal da colocação de uma lápide na casa da Benfeita para comemorar o nascimento do dito poeta.

Agradecem também à Exmª. Câmara Municipal o oferecimento da dita lápide, com os seguintes dizeres: - "Nesta casa nasceu em 5 de Fevereiro de 1844 o grande professor e distinto poeta Dr. José Simões Dias".

Participam que a lápide já foi colocada na casa onde nasceu o referido poeta, no lugar da Benfeita, no dia 20 do corrente mês, sem solenidade alguma, em virtude do luto em que têm estado e continuam a estar pela morte de seu querido pai, avó e sogro.

Mais agradecem aos seus bons amigos António Nunes de Carvalho e Eugénio Moreira, muito digno director e proprietário do jornal A Comarca de Arganil, os sinceros desejos que manifestaram para assistir à colocação da aludida lápide.

Albino Simões Dias Cardoso
António Simões Dias
Judith de Menezes Simões Dias
Carlos Simões Dias de Figueiredo
Carolina de Sá Simões Dias

in: A COMARCA DE ARGANIL
23-11-1911

O discurso que ficou por ler

Era desejo ardente da família do falecido poeta Simões Dias que o Sr. Visconde de Sanches de Frias, seu grande amigo, prefaciador e crítico das suas obras, havendo solenidade na inauguração da lápide comemorativa, apensa à casa do seu nascimento no lugar da Benfeita, a qual ele próprio requereu ao município arganilense, pronunciasse algumas palavras, indo assistir ao acto.

Como, por inconvenientes, onde entra luto de família, a inauguração da lápide se realizou despida de qualquer demonstração festiva, o Sr. Visconde não teve ocasião de pronunciar o discurso, que fora escrito, visto que lhe haviam pedido que as suas palavras fossem reduzidas à escrita para que se tornassem conhecidas publicamente, como nova e merecida tributação à memória do sublimado poeta das Peninsulares, que o Sr. Visconde classifica como verdadeiro poeta provençal dos tempos modernos.

Havendo à mão o discurso, destinado a solenidade da Benfeita, gostosamente o publicamos, como homenagem a personalidades que honram o nosso concelho.

Façamos de conta que, em meio de numerosa concorrência, estamos em frente da casa onde nasceu o poeta e que ouvimos o seguinte discurso dos lábios do seu autor:

Senhores:

Há numerosos crentes, ainda entre gente sabida e em todo o universo, cuja fé compreende, e advoga as leis imutáveis do destino.

A boa ou má sorte é determinada aos nascituros pela luz fatídica da estrela, que preside ao aparecimento de qualquer indivíduo da raça humana.

São estes os fatalistas. O que tem de ser há-de ser. O que o berço dá a tumba o leva.

Digam o que disserem materialistas, não nos desagrada esta teoria verdadeira ou falsa, que faz parte da filosofia estoica, e que temos visto exemplificada por inúmeras vezes, parecendo-nos que uma sorte boa ou má acompanha o indivíduo do berço à cova, e provando-se o dito vulgar de que todos os caminhos vão dar a Roma, isto é, que por estradas diversas se pode chegar ao mesmo ponto.

Divergimos numa pequena parte. A nossa divergência insurge-se apenas contra o acabamento completo sob a lousa tumular.

O que o berço dá a tumba o leva? Não... não é inteiramente assim.

Como do escuro carvão se forma o quartzo, e neste se origina a pedra preciosa, o brilhante; como da simples pederneira ou da fricção de dois bocados de determinada madeira, se produz o fogo, a luz; como da lua opaca dimana e se reflecte o luar resplendente - assim de um nascimento humilde, obscuro, jorram e tem jorrado sempre esplendores de inteligência, seres notáveis em todos os ramos da actividade humana, cujos nomes, no mundo inteiro, se tornam imperecíveis, imortais.

É neste ponto essencialíssimo que o brocardo popular se desmente, ao afirmar que o privilégio do berço termina na sepultura.

Não. O homem fenece, mas a sua obra, se é distinta, proveitosa, rara, vive, perdura, vai além da campa, eterniza-se.

E nós vamos prová-lo.

Há perto de cinquenta anos, dois pobres estudantes, em época de férias, encontraram-se na Benfeita e neste local. Um chamava-se José Simões Dias, viera de Pedrógão, onde cursava o latim, passar o tempo feriado na casa paterna; o outro, tinha por nome David Correia Sanches de Frias, um tanto mais novo e atrasado, estudava também o latim em Arganil, e viera visitar sua madrinha e tia, casada na Benfeita, a qual vivia paredes meias com a moradia do pai de Simões Dias.

A este primeiro encontro, a este curioso início de relações amistosas, que se consolidariam fraternalmente, futuro dentro, aludia vinte anos depois o grande poeta das Peninsulares, no jornal "Distrito de Viseu", em cuja cidade era professor graduado, ao escrever alguns folhetins acerca de um livro de Sanches de Frias, que do seu longo e afanoso desterro acabava de chegar a Portugal.

A propósito dessa obra, intitulada "A Mulher, sua infância, educação e influência social" - de que recentemente se publicou segunda edição melhorada, escrevia Simões Dias, referindo-se à sua pessoa e ao autor do livro:

«No curto caminho, que vai do berço à escola, nos encontrámos, e por ventura sentimos sob o mesmo sol beirão e quase ao calor do mesmo lar, a influência simultânea da mesma seiva poética, que cedo principiou a filtrar em nossos cérebros infantis e inconscientes esses maléficos venenos de imaginação, que atrofiam as forças precisas para os rudes combates da vida.

«Esta comunidade de princípios e depois a lembrança de que esse pequenino poeta lírico, desprotegido e ignorado, deve hoje o que é, e o que tem - confortos domésticos e glórias de escritor - à perseverança do seu labutar, aos esforços da sua vontade, à tenacidade da sua inteligência, nos ásperos trabalhos comerciais e nas pugnas incruentas do jornalismo, acordam em mim, ao cabo de vinte anos, de envolta com um tropel de saudades redivivas, entranhados afectos de veneração por esse indomável combatente, que não fraquejou na luta.

«Lá nesses Brasis, verdadeiro açougue dos colonos portugueses, onde os haveres se ganham à custa da saúde e da vida, onde a percentagem dos que resistem sobre o número dos que morrem é assustadora, aí lhe sobravam ócios, a ele, que era forte e inteligente, para compor versos e escrever artigos jornalísticos, com a mesma pena de que se servia para lançar apontamentos comerciais ou fazer saques sobre Londres.

«A praça do Pará e outras honravam-lhe a firma, a imprensa acreditava-lhe o nome. Duplo galardão, que a minha vaidade de condiscípulo regista jubilosa e sincera!»

Descontadas as expressões elogiosas, que diziam respeito a Sanches de Frias, neste e noutros trechos da saudação e análise critica de Simões Dias, claro está que a prolongada ausência de 20 anos não quebrara liame nenhum da ligação casual, que irmanara, pode dizer-se, os dois obscuros rapazes de outro tempo, tornados homens de um mesmo querer, de um mesmo sentir, embora trilhando caminhos tão diversos e acidentados.

Também não é difícil ajuizar do alegre enternecimento com que Simões Dias e eu Sanches de Frias nos abraçamos em plena Lisboa, aonde ele fora ver-me e tratar da sua próxima mudança para aquela cidade, e onde, realizada essa mudança, de parceria com o grande filólogo, abalizado escritor e poeta Cândido de Figueiredo, não tardámos a fundar um jornal, em cuja redação, amizade e letras eram por igual seguidas e cultivadas.

Não mencionarei os gabos, que o meu proceder pessoal e literário merecia constantemente a Simões Dias, quando ele se referia ao nosso passado, quando dizia e redizia:

«O Cândido e eu frequentámos estudos completos, concluímos as nossas formaturas; não admira que saibamos alguma coisa; mas tu... a braços com uma vida antagónica da tua compleição poética, metido entre a materialidade das cifras...»

E Simões Dias dava remate ao seu dizer com frases admirativas, sem dúvida filhas do seu querer benévolo e extraordinária bondade.

Os anos passaram, a morte entrou-me na família, infelicitando-me. Simões Dias, a seu turno, sofria desgraça enorme também na sua, não pela morte, mas por outro móvel de adversidade. Algumas vezes chorámos ambos: maior cadeia de afectos nos prendeu.

Por último, Simões Dias, desiludido da política, que lhe tinha sugado os préstimos, desenganado do convívio social, a fugir da maioria dos seus semelhantes, entregava-se única e exclusivamente, ao exercício da sua profissão pedagógica e às letras, a que dedicava especialmente o feriado das quintas-feiras, só e desacompanhado, dedicando-me o outro feriado semanal, o domingo, em que ia ser meu comensal no repasto principal, desabafar comigo as suas tristezas e desanuviar-se salutarmente em colóquios literários, que tanto lhe apraziam, e que eu tanto lhe louvava e agradecia.

Foi numa dessas palestras domingueiras que ele, tencionando rever em edição definitiva as Peninsulares, tão vulgarizadas, tão encarecidas, me fez o honroso convite de as prefaciar, criticando-as.

— É como te digo — concluiu ele. — Não quero que me façam, um dia, o que se tem feito a outros colegas nossos, e que ainda ultimamente se fez ao João de Deus, de quem, em edições de mera especulação mercantil, se foram rebuscar e publicar escritos, que ele condenara, desprezando-os. Trato de fazer uma edição definitiva dos meus versos, para declarar que fora da colecção, denominada Peninsulares, não fica escrito versificado, que eu adopte por meu.
— Fazes muito bem — respondi eu. — Sou do mesmo parecer. Do que discordo apenas é da tua intenção ou desejo de que eu seja o introdutor dessa magnífica galeria, quando tantíssima gente, a principiar em Espanha e a acabar em Portugal, se tem ocupado da tua biografia e obra literária. Permite-me pois que eu não anua ao teu pedido.
— Sim, sim — contraditou Simões Dias, tirando largas fumaças do seu cigarro habitual. — Diz o que quiseres. Eu é que não desisto da minha pretensão.
— Podem até dizer — acrescentei eu — que as nossas relações de amizade me tornam suspeito...
— Nem isso pesa na minha balança — concluiu o meu dileto amigo. — Os que te conhecem a rigidez de carácter sabem muito bem que o teu juízo se não subordinará a opiniões alheias a principiar pela minha. Serás o meu biógrafo e o censor definitivo da minha obra, pois que, por cima de tudo, actua um ardente desejo de que o teu nome perdure ligado ao meu.

Ó generoso amigo! Alma de eleição, a quem a minha tanto reverenciava, desde o começo da nossa trabalhosa vida, os teus projectos de edição decisiva e da junção dos nossos nomes significavam, vi-o mais tarde, o vago receio do próximo acabamento da tua existência.

Simões Dias, como eu, descrente da crua humanidade, de quem fugia, de há muito, por acerbos desgostos da sua vida, tinha frases reveladoras de uma profunda tristeza.

Um dia, alguns meses antes de deixar para sempre deserta a cadeira das conversas domingueiras, no meu gabinete de estudo, dava-lhe eu parte da opinião de uma espirituosa dama, que divinizava a glória ganha pelos bons escritores. Dizia ela:

«Eu creio e penso em que a única coisa para que vale a pena vir a este mundo de frioleiras e dores é, e será sempre, a produção original de boas letras. Escrever e assinar um livro, que possa e deva ser lido, constitui um privilégio divino, prémio único, repito, para cuja conquista vale a pena ter nascido.»

Simões Dias, conforme rememoro num dos meus livros, "Memórias Literárias", onde se encontra o que de mais completo escrevi sobre a sua vida e morte, Simões Dias sorriu-se ironicamente e, dando à cabeça, comentou num tom amargurado:

— Sim, sim! O juízo dessa boníssima criatura orça pelas atitudes romanescas de todos os que tiveram uma mocidade ilusória, muito sombreada poeticamente dos fumos da glória. Sim, sim! Quem me dera a mim nesses bons tempos! Que levem o diabo todas as grandezas de além-túmulo. Os grandes mártires das letras e das ciências, que padeceram fomes, injustiças dos homens e da sorte, cárceres, naufrágios, perseguições e inclemências de todo o género, que aproveitaram com a tal glória, que lhes floriu na sepultura? Histórias da vida que nada valem, além da morte, meu amigo! Fraqueza da humana patetice.
— Tu acabaste de ler Schopenhauer ou descoroçoas da vida... — disse eu.
— Eu sei lá — tornou Simões Dias — se este enojo, que voto à humanidade, é descoroçoamento ou simples golfar da experiência? Quanto à glória, temos conversado, desde que ela é inútil aos vivos. Pergunta à fome de Camões e de Homero, à estroinice mal-guiada de Bocage, ao cárcere de Tasso e de Garção, ao infortúnio de Bernardim, à penúria e desterro de Filinto, à fogueira inquisitorial de António Silva e à desgraça de tantos homens ilustres - de que lhes serviu, em vida, a tão apregoada glória, que não passa de um sonho de loucos?!
— Homem — disse eu ainda — o prazer do estudo já é refrigério a desgostos…
— Bem sei. Está nisso o único privilégio do escritor mal-aventurado. Os alarves que, lidos ou não lidos, compõem a maioria da humanidade, nove portes em dez, desconhecem a absorção regeneradora, o alheamento deleitoso do estudo, a que já nos temos referido, por vezes, em nossas palestras.

Simões Dias tinha o seu tanto de razão. Pelicanos de estranha espécie, os escritores, que ficam, fustigados pelos baldões da sorte e pela injúria ou indiferença dos seus contemporâneos, muitas vezes, esfacelam-se, desfazem-se de corpo e alma, para recrear ou alimentar o espírito das gerações futuras.

Simões Dias infelizmente podia alistar-se nesse rol. Ao rever das Peninsulares, que iam ser prefaciadas por mim, o seu corpo, vergado por bastos desgostos, definhava-se.

Simões Dias começava a sentir-se bastante doente; a obra concluiu-se; o prefácio crítico e biográfico, que ele ainda ouviu ler, juntou-se à obra, mas a morte derribou o autor, aniquilou-o antes de a ver brochada e pronta a correr mundo.

As letras portuguesas choravam sentidamente o poeta das Peninsulares, o exímio trovador da poesia provençal dos nossos dias, o burilador inconfundível de versos acariciados pela musa popular; a família deplorava o perdimento do seu maior e mais luzido ornamento; a imprensa celebrizava-lhe o nome; e eu, com a alma a sangrar intensa mágoa, depois de dirigir o saimento fúnebre, escrevia-lhe o epitáfio no encerramento da edição definitiva das Peninsulares; e mais tarde requeria à Câmara Municipal de Arganil que o seu glorioso nome fosse dado à rua principal dessa vila, e que no local do seu nascimento se colocasse uma lápide comemorativa.

Passaremos em claro os episódios que se deram, por este motivo, ainda devidos à maldade humana, que é muitíssimas vezes, superior à das feras.

Desdenhando embora, como Simões Dias, da glória que não aproveita aos vivos, acho porém que a dele vive, e perdurará futuro dentro; e creio ter provado, como em começo prometi, que, por caminhos diferentes, se pode atingir o mesmo alvo.

No simples arrazoado comemorativo, que acabo de expôr, está sobejamente demonstrado que os dois obscuros rapazes, que neste lugar se encontraram casualmente haverá perto do 50 anos, sentiram, no dizer do nosso herói, sob o mesmo sol beirão e quase ao calor do mesmo lar, a influência simultânea da mesma seiva poética que celebrizou um deles, e que, através de uma profunda amizade, só acabaria no túmulo.

Provado cabalmente fica também que nem sempre o que o berço dá a tumba o leva.

Não... mil vezes não.

A obscuridade, que cercou o berço de José Simões Dias, desfez-se inteiramente ao resplandecer de uma rara inteligência, que formou o catedrático distinto, que robusteceu o profundo escritor didático, e que inspirou ardentemente o cantor sublime das Peninsulares.

Não, Simões Dias, tu não morreste! O teu companheiro, o teu obscuro camarada, de perto e de longe, veio hoje, como que em peregrinação religiosa, ao local onde o encontraste, passados tantíssimos anos, sempre saudoso, sempre admirador do teu talento, veio sentida e propositadamente clamar bem alto que tu não morreste. A Glória não é uma ficção. Di-lo, atesta-o o afamado teu saber, simboliza-o a grandeza da tua obra, proclama-o a extensão do teu nome; gritam-no eloquentemente a tua família, os teus amigos, os teus admiradores, toda a gente estudiosa e a multidão, que está junto de mim, e que veio, também como em piedosa romaria, inaugurar a lápide, onde se insculpiu o teu nome, no local do teu nascimento, testemunho, que significará, entre presentes e vindouros, um rigoroso estímulo para quem quiser seguir-te o exemplo.

Não, meu caro poeta. Tu vives ainda. A glória existe.

É falso que o que dá o nascimento termina na sepultura.

Para longe o credo inteiro dos fatalistas!

Enquanto durarem letras portuguesas, o peregrino poeta das Peninsulares não deixará de existir, reinando no cérebro dos intelectuais, nos corações sensíveis, nas almas que se deliciam com as trovas inebriantes do cancioneiro popular.

A glória ergueu-te ao seu pináculo. A glória não é ficção! Vives ainda e viverás sempre!

Realiza-se, meu poeta, o que tu próprio videntemente profetizaste nas Peninsulares, numa evocação de sonho ou inspiração, quando escreveste:

«Há-de morrer o sol, finar-se a lua,
O vento emudecer, secar o Oceano,
Sumir-se o globo e evaporar-se a vida,
E tu, arcanjo, realidade ou sonho,
Meu ser transportarás a novos mundos,
Roubando assim minha existência ao nada.»

Sim, vidente! Foste profeta de ti próprio. Vives ainda e viverás sempre!

in: A COMARCA DE ARGANIL
30/11/1911