A  PAIXÃO  DE  CRISTO

A DOR DA CRUCIFICAÇÃO

Médico francês reconstitui a agonia de Jesus

Quando li este relato fiz questão de o transcrever pois é impressionante e vale a pena conhecer o parecer de um médico sobre o que poderia ter sido a morte de Jesus. Por favor, leia (ou oiça) a descrição das dores de Jesus, feita pelo médico-cirurgião francês, Dr. Pierre Barbet e, como eu, terá a possibilidade de compreender melhor as dores de Jesus durante a sua Paixão e Morte.

Leitura do texto, por Vivaldo Quaresma (12':27'')

Sou cirurgião e dou aulas de anatomia há algum tempo. Vivi durante treze anos na companhia de cadáveres e durante a minha carreira estudei a fundo anatomia. Posso, portanto, escrever sem presunção a respeito de uma morte, como a de Jesus Cristo. Os evangelistas, narrando a Paixão do Senhor, dizem que Ele foi flagelado, coroado de espinhos e crucificado. Mal podemos imaginar o que contêm estas expressões. Através da Anatomia, podemos conhecer os sofrimentos inauditos com que nos remiu o nosso Divino Salvador.

"Jesus entrou em agonia no Getsemani e o seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra". O único evangelista que relata o facto é um médico chamado Lucas, e fá-lo com a precisão dum clínico. O suar sangue, ou "hematidrose", é um fenómeno raríssimo. Só se produz em condições excepcionais: para provocá-lo é necessário uma grande fraqueza física, acompanhada de um abatimento moral violento causado por uma profunda emoção, por um grande medo. O terror, o susto, a angústia terrível de se sentir carregando todos os pecados dos homens devem ter esmagado Jesus. Tal tensão extrema produz o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas, o sangue mistura-se ao suor e concentra-se sobre a pele, escorrendo, então, por todo o corpo até à terra.

Conhecemos a farsa do processo preparado pelo Sinédrio hebraico, o envio de Jesus a Pilatos e o impasse entre o procurador romano e Herodes. Pilatos cede, e então ordena a flagelação de Jesus, a pretexto de uma tríplice acusação política: ser um agitador social, incitar o povo a não pagar os impostos ao Imperador e ter-se auto-proclamado rei.

A cada golpe Jesus reage num sobressalto de dor

Os soldados despojam Jesus e prendem-no pelos pulsos a uma coluna no pátio. A flagelação é efectuada com múltiplas tiras de couro sobre as quais estão fixadas bolinhas de chumbo e pequenos ossos.

Os carrascos devem ter sido dois, um de cada lado, e de diferente estatura. Golpeiam com chibatadas a pele, já alterada por milhões de microscópicas hemorragias do suor de sangue.

A pele dilacera-se e rompe-se; o sangue espirra. A cada golpe Jesus reage num sobressalto de dor. As forças esvaem-se; um suor frio impregna-lhe a fronte, a cabeça gira e vem uma vertigem de náusea, calafrios correm-lhe ao longo das costas. Se não estivesse preso pelos pulsos, cairia numa poça de sangue.

Depois, o escárnio da coroação, com longos espinhos, mais duros que os de uma acácia, os algozes entrelaçam uma espécie de capacete e aplicam-no sobre a cabeça de Jesus. Os espinhos penetram-lhe o couro cabeludo fazendo-o sangrar (os cirurgiões sabem o quanto sangra o couro cabeludo).

Pilatos, depois de ter mostrado aquele homem dilacerado à multidão feroz, entrega-o para ser crucificado. Colocam sobre os ombros de Jesus o grande braço horizontal da Cruz que deverá pesar uns cinquenta quilos. A estaca vertical já está colocada sobre o Calvário. Jesus caminha com os pés descalços por ruas de terreno irregular, cheias de pedregulhos. Os soldados puxam-no com cordas. O percurso, é de cerca de 600 metros. Jesus, fatigado, arrasta um pé após o outro e, frequentemente, cai sobre os joelhos. Os ombros de Jesus estão cobertos de chagas. Quando Ele cai por terra, a viga escapa-lhe, escorrega, e esfola-lhe o dorso.

Sobre o Calvário tem início a crucificação. Os carrascos despojam o condenado, mas a sua túnica está colada nas chagas e tirá-la produz uma dor atroz. Quem já tirou uma ligadura de gaze de uma grande ferida percebe do que se trata.

O fio de tecido adere à carne viva

Cada fio de tecido adere à carne viva; ao tirarem-lhe a túnica, laceram-se as terminações nervosas postas a descoberto pelas chagas. Os carrascos dão um puxão violento. Há um risco de toda aquela dor provocar uma síncope, mas ainda não é o fim.

O sangue começa a escorrer. Jesus é deitado de costas, as suas chagas se incrustam de pó e pedras. Depositam-no sobre o braço horizontal da cruz. Os algozes tomam as medidas e com uma broca, é feito um furo na madeira para facilitar a penetração dos pregos; horrível suplício! Os carrascos pegam, então, nos pregos (longos, ponteagudos e quadrados), e espetam-nos nos pulsos de Jesus, sobre a madeira, com  golpes certeiros de martelo. Jesus deve ter contraído o Seu rosto assustadoramente. No mesmo instante o seu polegar, com um movimento violento posicionou-se opostamente na palma da mão; o nervo mediano foi lesado. Pode-se imaginar aquilo que Jesus deve ter sofrido; uma dor lancinante, agudíssima, que se difundiu pelos dedos, e se espalhou como uma língua de fogo, pelos ombros, atingindo-lhe o cérebro. A dor mais insuportável que um homem pode experimentar, ou seja, aquela produzida pela lesão dos grandes nervos que provoca uma síncope e faz perder a consciência. A Jesus não!

Pelo menos se o nervo tivesse sido cortado! Ao contrário (constata-se experimentalmente com frequência) o nervo foi destruído só em parte: a lesão do tronco nervoso permanece em contacto com o prego quando o corpo é suspenso na cruz, o nervo esticará fortemente como uma corda de violino esticada sobre a cravelha. A cada solavanco, a cada movimento, vibrará despertando dores dilacerantes. Um suplício que durará três horas.

O carrasco e seu ajudante empunham a extremidade da trava; elevam Jesus, colocando-o primeiro sentado e depois em pé; consequentemente fazendo-o tombar para trás, encostando-o à estaca vertical. Depois encaixam o braço horizontal da cruz sobre a estaca vertical. Os ombros da vítima roçam dolorosamente sobre a madeira áspera e as pontas penetrantes da grande coroa de espinhos laceraram-lhe o crânio. A pobre cabeça de Jesus inclinou-se para a frente, uma vez que a coroa o impede de se apoiar na madeira. Cada vez que Cristo levanta a cabeça, recomeçam as picadas agudíssimas.

Pregam-lhe os pés. Ao meio-dia Jesus tem sede. Não o deixaram beber desde a tarde anterior. As suas feições são imprecisas, o seu corpo é uma máscara de sangue. A boca está semi-aberta e o lábio inferior começa a pender. A garganta seca, queima, mas ele não pode engolir.

Tudo aquilo é uma tortura atroz

Tem sede. Um soldado estende-lhe sobre a ponta de uma vara, uma esponja embebida numa bebida ácida, em uso entre os militares. Tudo aquilo é uma tortura atroz. Um estranho fenómeno se produz no corpo de Jesus. Os músculos dos braços enrijecem numa contração que se vai acentuando: os deltóides e os bíceps esticados e levantados, os dedos curvam-se. Como acontece a um ferido atingido por tétano, passando por uma horrível crise que não se pode descrever. A isto que os médicos chamam "tetania", quando os sintomas se generalizam: os músculos do abdómen enrijecem em ondas imóveis, e em seguida os das costelas, os do pescoço e os respiratórios. A respiração faz-se, mas cada vez é mais curta. O ar entra com um sibilo, mas não consegue sair. Jesus já só respira com a extremidade dos pulmões. Tem sede de ar, como um asmático em plena crise; seu rosto pálido, pouco a pouco torna-se vermelho, depois transforma-se num violeta purpúreo e por fim cianóide (azulado).

Jesus atingido pela asfixia, sufoca. Os pulmões cheios de ar não podem esvaziar-se. A fronte está impregnada em suor e os olhos saem fora das órbitas. Dores atrozes devem ter martelado o seu crânio! Mas o que acontece? Lentamente com um esforço sobre-humano, Jesus tomou um ponto de apoio sobre os pregos dos pés. Esforçando-se em pequenos golpes, eleva-se aliviando a tracção dos braços. Os músculos do tórax distendem-se. A respiração torna-se mais ampla e profunda, os pulmões esvaziam-se e o rosto recupera a palidez inicial. Porquê este esforço? Porque Jesus quer falar: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem".

Logo em seguida o corpo começa a afrouxar-se, de novo, e a asfixia recomeça. Foram transmitidas sete frases pronunciadas por Ele, na cruz: cada vez que quer falar, ele tem de elevar-se tendo como apoio os pregos dos pés; inimaginável!

Atraídas pelo seu sangue, enxames de moscas zunem ao redor do seu corpo pousando-lhe no rosto, mas Ele não pode enxotá-las. Pouco depois o céu escurece, o sol esconde-se e, de repente, a temperatura diminui.

Logo serão três da tarde. Jesus luta sempre: de vez em quando eleva-se para respirar. A asfixia gradual está a destroçá-lo. Uma tortura que dura três horas. Todas as suas dores, a sede, as cãibras, a asfixia, o latejar dos nervos medianos, lhe arrancaram um lamento: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?". Jesus exclama: “Tudo está consumado!”. Em seguida num grande brado diz: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". E morre!

Morre no meu lugar e no seu! Não façamos dessa morte, que trouxe nova vida a todos nós, uma morte sem nexo. Está em você, dentro de você, o espírito de Jesus.

Ame-o e glorifique-o todos os dias da sua vida!

Imagem: "Cruz Alta", de Robert Schad, no Santuário de Fátima

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