O  PADRE  LOUREIRO

 

Padre Loureiro

O Padre Loureiro fazia parte de um conjunto de homens que procuravam remar contra a situação de isolamento das regiões interiores, clamando pela consideração, pelo respeito e pela dignidade destas regiões, face à sua história e cultura.

Durante os 18 anos que conduziu e orientou espiritualmente a nossa comunidade, o Padre Loureiro contou com o apoio de um grupo de amigos de uma dedicação excepcional e que, individualmente considerados, foram também grandes figuras públicas, na região.

Joaquim da Costa Loureiro nasceu no lugar do Canedo, freguesia da Pampilhosa do Botão, concelho da Mealhada, em 4 de Dezembro de 1913. Era filho de Abel da Costa Loureiro e de Joaquina Alves. Foi ordenado Presbítero em 20 de Outubro de 1940 e deu a sua primeira missa na igreja da Pampilhosa, no dia 27 do mesmo mês. Foi professor de Moral no antigo colégio da Mealhada, em 1945.

 

1913 - 1989

 

Foi nomeado para as paróquias da Benfeita e da Cerdeira em 22 de Dezembro de 1957, tendo tomado posse em 12 de Janeiro de 1958. Veio de Anobra (concelho de Condeixa-a-Nova) para substituir o Padre José Rodrigues Redondo, que foi para Pelariga (Pombal). Mais tarde, foi também nomeado para a paróquia da Teixeira, em 23 de Janeiro de 1966. 

Dirigiu o Jornal Paroquial "O Facho", sendo responsável por todas as actividades com ele relacionadas, desde a recolha de informações e redacção, passando pela montagem, até à gestão e administração. Neste jornal soube promover a Vida Cristã, com humanidade e inteligência, através da explicação da Palavra de Deus, aplicando-a a situações concretas da vida quotidiana.

Ao seu espírito religioso e empreendedor, à sua dedicação e boa vontade, se devem os melhoramentos realizados na nossa matriz paroquial, na reconstrução da antiquíssima capela de Nossa Senhora da Assunção, o mais antigo templo da nossa freguesia e certamente a sua igreja primitiva, a par de outros melhoramentos de menor vulto realizados em outras capelas e no Santuário da Senhora das Necessidades, mas igualmente demonstrativos das suas qualidades de sacerdote devotado aos interesses religiosos da freguesia.

Em Agosto de 1962, o Padre Loureiro foi figura de destaque no combate ao grande incêndio que lavrou na nossa freguesia, pela coragem e determinação com que trabalhou incansavelmente para dominar as chamas; uma verdadeira lição de amor ao próximo e solidariedade humana. Os prejuízos foram, no entanto, elevadíssimos para a região em pinheiros de sangria, oliveiras e eucaliptos, colmeias, abrigos e barris de resina.

Em Setembro de 1965, após a inauguração da renovada Igreja de Nossa Senhora das Necessidades, o Padre Loureiro promoveu, entre os seus paroquianos, a realização de uma plantação de árvores no terreiro do Santuário. Esta inédita e simpática ideia teve um óptimo acolhimento, entre os devotos de Nossa Senhora, que transformaram o dia da arborização do Santuário num verdadeiro dia de festa.

Saiu da Benfeita, a seu pedido, em 1976, tendo sido substituído pelo Padre Carlos da Cruz Cardoso.
Regressou à sua terra natal, onde assumiu a titularidade das paróquias de Sepins e Murtede. Faleceu com 75 anos, no Hospital de Universidade de Coimbra, vítima de cancro na pele, em 20/02/1989.

A OBRA DO PADRE LOUREIRO

A obra do Padre Joaquim da Costa Loureiro, foi reconhecida pela comunidade benfeitense, em modesta cerimónia organizada pelo Grupo Sócio Caritativo e realizada na sacristia da Igreja de Santa Cecília, em Novembro de 1986, tendo sido descerrada uma lápide comemorativa.

O Grupo Sócio Caritativo era uma estrutura social que deu origem ao actual Centro Social Paroquial, e que foi criado por iniciativa do Padre António Dinis, com o apoio e dinâmica da Cáritas Diocesana.
Nesta cerimónia o Padre Loureiro esteve presente e foi convidado a consagrar missa com o Padre António Dinis, mostrando, já, sinais evidentes de debilitação física.

Placa na Sacristia da Igreja Matriz

Ao Padre Loureiro, a comunidade benfeitense deve, entre outras, as seguintes iniciativas:

  • Edição do jornal paroquial "O Facho", que durante vários anos foi o elo de ligação de muitos benfeitenses ausentes, à sua terra natal e que ajudou a levar o nome da aldeia às paragens mais remotas.

  • Reconstrução, restauração, conservação e embelezamento dos templos religiosos da freguesia.

  • Desenho e direcção de obra, das alminhas da Ponte Fundeira.

  • Construção das Escadinhas de Sta. Rita, no bairro do Tanque.

  • Projecto e construção do nicho-monumento à Senhora dos Caminhos.

RECORDANDO O PADRE LOUREIRO

Por ocasião da comemoração das suas Bodas de Prata Sacerdotais, todo o povo da freguesia da Benfeita viveu as comemorações com a maior intensidade e se associou a elas com o maior entusiasmo, tendo, o Padre Loureiro, publicado, no jornal «O Facho» a seguinte nota de agradecimento:

 

Fonte: O Facho
Publicação: Ano III - Nº 35
Data: Novembro 1965
Autor: Padre Joaquim da Costa Loureiro

 

 

Obrigado, senhores!

 

  Quem sou e que fiz para merecer tamanha onda de simpatia, de admiração e agradecimento?!

Não tenhamos ilusões. Como homem, sou um nada. A figura humana será sempre um zero na dimensão do mundo.

Dizia com acerto alguém, de glorioso nome, dos começos deste século: «Não creia ninguém no reconhecimento político dos homens nem na gratidão dos povos: Vá, sim, tratando cada um de caminhar fazendo o bem que possa, mas sem se alimentar com aquela ilusão».

Trabalhei? É certo, mas nisso está a condição e nobreza do homem que não quer ser inútil às gerações do seu tempo, pondo em acção os talentos de que Deus o dotou.

Fiel ao dever? Sim, tanto quanto o saber e as forças lho consentiram ou venham a consentir, mas tudo isso nada tem de heróico que valha os atavios de que me enlearam. Cumpri apenas um dever. E se louvores alguém merece, sois vós, povo meu, que, sabendo compreender, soubeste ajudar. Sem vós, que haveria feito este pobre de Cristo? Obrigado, senhores!

A união comum fez nascer a obra e esta é a glória de todos pelos reflexos de eternidade que em si encerra.

Mas, por graça de Deus, sou padre.

Ora o sacerdote é uma configuração ontológica de Cristo e uma participação efectiva do seu Sacerdócio Eterno, e esta não se limita a um mandato exterior, é, antes, uma consagração autêntica, verdadeiro poder, sinal indelével da virtude sacerdotal de Cristo.

E, assim, o sacerdote é, como bem diz um célebre pensador, «aquele homem que não tem família mas que pertence à família de todo o mundo; que se invoca como testemunha, como conselheiro ou como agente em todos os actos mais solenes da vida; sem o qual ninguém pode nascer nem morrer; que toma conta do homem no seio materno e não o larga senão na campa; que benze ou consagra o berço, o laço nupcial, o leito da morte e a tumba; o homem que as criancinhas se afazem a amar, respeitar e temer; aos pés do qual os cristãos vão derramar as suas mais secretas lágrimas; um homem que é por ofício, o consolador de todas as dores da alma e do corpo; o medianeiro forçado da riqueza e da indigência; que vê o pobre e o rico vir alternadamente bater-lhe à porta; o rico para liberalizar a esmola; o pobre para a receber sem rubor; que, não sendo exclusivo de grau algum social, pertence igualmente a todas as classes, às inferiores por sua vida pobre e muitas vezes pela humildade do seu nascimento e às altas classes pela educação, pelo saber e pela nobreza de sentimentos que uma religião toda de amor inspira e manda; um homem, finalmente, que sabe tudo e tem direito de tudo dizer e cuja palavra cai do alto sobre as inteligências e os corações, com a autoridade duma missão divina e com o império duma fé sem réplica».

Ser assim outro Cristo no mundo é, sem dúvida, atrair as atenções do mundo, estar disposto às hossanas dos Domingos de Ramos, como às dores das Sextas-Feiras de Paixão, como é sentir também os triunfos da Ressurreição.

Isso, sim, é glorioso e foi isto, só isto que vós, crentes fiéis, quiseste glorificar ao findar deste quarto de século ao serviço da grei, na esfera do Grande Rei.

Aquele cálix de simbolismo tão profundo: - a Trindade, o mundo, o calvário que o remiu pelo sangue redentor de Cristo e o seu prolongamento na renovação perene, por este outro sacrifício do pão e do vinho, prefigurado em Melquisedeque - encerra toda esta verdade. Deus vos pague, irmãos. Ele será para mim a eterna lembrança deste povo bom, crente, generoso, heróico e esforçado como nenhum outro, que soube alevantar-se perante Deus e os homens numa grandeza moral difícil de igualar.

Cálice em prata dourada oferecido ao sr.Padre Joaquim da
Costa Loureiro, pela população da freguesia da Benfeita

Obrigado também a vós, cerdeirenses, que nesta onda  de carinho e compreensão não quisestes estar ausentes. Na candura da vossa oferta vinha a delicadeza da vossa alma:

"Nas bodas sacerdotais
Do nosso querido Pastor
Trazemo-lhe uma lembrança
Símbolo do nosso amor».

Obrigado a todos os que de perto e de longe se dignaram, com tanta amizade, testemunhar o seu afecto.

Desculpai que use deste meio para vos agradecer a todos.

Não quero deixar de fazer uma menção muito especial de agradecimento ao meu Bispo, a quem devo tantas provas de simpatia e compreensão que têm sido e são estimulo reconfortante nesta ascensão tão difícil do calvário da vida; ao Sr. Dr. Mário Mathias, alma aberta, e leal, profundamente crente e actual nas andanças benfeitenses; o impulsionador e construtor máximo de todo este surto de progresso, que arrancou a freguesia à apagada vil tristeza dum abandono de séculos e fez dela a aldeia mais progressiva da terra portuguesa, que lhe dá jus a ser considerado, sem favor, o maior benemérito benfeitense. Nele se entronca também esta homenagem ao Pároco da Benfeita, de quem foi autor.

A Sua Exa. se deve ainda a urdidura da feliz campanha que levou a termo glorioso, a reconstrução da Igreja do Santuário.

Bem-haja, Senhor Doutor, e que todos os seus patrícios saibam reconhecer quem tanto por eles tem trabalhado no silêncio actuante do seu gabinete. As grandes vitórias começam por estruturar-se no segredo laboratorial dos gabinetes, antes que sejam decididas nos campos de batalha.

Muito me apraz ainda englobar neste meu reconhecimento o povo da minha terra - Pampilhosa - que, com as suas autoridades concelhias e paroquiais, quais romeiros da saudade, quiseram com a sua presença, e em tão grande número, testemunhar-me afectos tão nobres, apesar duma ausência de convívio já de 18 anos.

E não contentes com isso quiseram ainda glorificar, na minha pessoa, em 24 de Outubro, em romagem igualmente célebre e única no seu género nos anais da sua história, os esplendores do sacerdócio.

A recepção em massa no largo do Freixo, apesar da inclemência do tempo, a Missa Solene em cenário de comoção na união das três comunidades paroquiais em festa - Benfeita, Cerdeira, Pampilhosa; a sessão solene, onde tanto de belo foi dito por tantos mestres; o jantar de confraternização - ecoarão no meu e vosso espírito, por toda a vida como um marcar de posições e baliza de nova e solene arrancada para novos e mais gloriosos rumos da presente e futuras gerações.

Que Deus fecunde a semente lançada à terra e a faça germinar em clarões de fé e de amor.

O Senhor, para quem vão os louvores, vos pague e abençoe.

E, como me dizia o Senhor Arcebispo de Mitilene, meu Prefeito e Professor: «rezemos uns pelos outros».

P. Loureiro

 

QUADROS VIVOS DA FIGURA SINGULAR DO PADRE LOUREIRO

De acordo com o testemunho de José Bernardo Quaresma, que o conheceu de perto e bem, o Padre Loureiro era um homem muito culto, calmo no falar e nunca se exaltava, sendo estimado por toda a gente.
«Quando chegou à Benfeita trazia, na sua "bagagem", uma bancada de carpinteiro e uma enorme quantidade de ferramentas manuais.
Era um homem muito activo e sabia tudo sobre agricultura. Tinha um aviário e era um exímio apicultor, fazendo ele próprio, em madeira, as suas inúmeras colmeias. Viveu sempre na residência paroquial e poucas vezes se ausentou da Benfeita, vivendo a sua paroquialidade a tempo integral, tendo a sua porta sempre aberta para quem o quisesse ver, receber um conselho ou uma palavra amiga. Era um padre muito popular e participava em todas as ocasiões festivas, nunca recusando um convite.
Empenhou-se activamente na reconstrução das Capelas de Nossa Senhora d'Assunção, Senhora da Guia e Senhora das Necessidades, e nos melhoramentos introduzidos na Igreja Matriz e nas Capelas de Santa Rita e Senhor dos Passos. Ele próprio projectava as obras e os melhoramentos, orientando e coordenando os trabalhos e participando activamente como trabalhador experiente e incansável.»

Depoimento de António Quaresma Martinho:

«Embora tivesse estado ausente da Benfeita, durante o período em que o Padre Loureiro aqui paroquiou e, por conseguinte, não ter testemunhado directamente a sua acção pastoral nesta freguesia, posso, no entanto, fazer eco da expressão do sentir deste povo que o respeitava e muito admirava. A lembrança do Padre Loureiro ainda provoca, hoje, uma agradável recordação às pessoas que com ele conviveram e que dele nunca mais se esquecerão.»

Depoimento de Artur Nunes da Costa:

«O Padre Loureiro era um homem digno e um prior exemplar. Era, também, um óptimo mestre, possuidor de vastos e variados conhecimentos. Era um profundo conhecedor de agricultura e partilhava os seus conhecimentos com toda a gente. E os seus conhecimentos não eram só teóricos: ele próprio cultivava a terra, sendo frequente vê-lo de enxada na mão e com as roupas todas sujas de terra. Também gostava de caçar e tinha um aviário com frangos e galinhas. Criava coelhos e abelhas, tendo muitas colmeias espalhadas pela serra. O seu interesse por estas coisas constituíram um enorme incentivo para as pessoas da terra que, assim, se sentiam muito apoiadas, e identificadas, no padre. E, isto, teve um efeito psicológico muito positivo nas pessoas cá na terra, o que facilitou muito a sua vida como pároco.»

Depoimento de António Alberto Martins (Mina):

«Acompanhei muito de perto a acção do Padre Loureiro, na Benfeita, e posso garantir, sem qualquer sombra de dúvida, que o Padre Loureiro granjeou a estima e a simpatia de toda a gente desta terra, tendo deixado uma forte recordação e uma enorme saudade. O seu envolvimento pessoal na reconstrução das capelas arruinadas, o seu exemplo de dedicação e trabalho, o seu desempenho sacerdotal e a sua inteira disponibilidade para ajudar, orientar e conciliar o seu "rebanho", fizeram dele um "pastor" muito respeitado e querido.»

Depoimento de Revº Padre Dr.António Dinis:

«O Padre Loureiro foi, acima de tudo, um sacerdote que muito dignificou a sua função de padre, de apóstolo de Cristo e de membro do Presbitério da Diocese de Coimbra.
Trabalhou muito na área da Catequese e da Liturgia, sobretudo no Grupo Coral, e soube manter vivas as estruturas paroquiais, dando especial atenção ao arranjo e restauro das igrejas e capelas.
Deixou uma boa memória nas populações da Benfeita, da Cerdeira e da Teixeira como pároco e como amigo.
Era, por assim dizer, um padre lavrador que trabalhava a terra e criava animais e comprava e vendia gasóleo; pois que, como a maioria dos padres daquela época, ele próprio, tinha de organizar a sua subsistência, de alguma forma. Eram os condicionalismos próprios da vida de pároco de aldeia.»

TERÁ O PADRE CAÍDO NO ESQUECIMENTO?

A obra do Padre Loureiro é apenas do conhecimento da camada etária mais idosa da Benfeita, de quem se sente grande estima e simpatia. Uma das sugestões que nos foi apresentada foi a divulgação da sua obra nas escolas da região, de modo a sensibilizar os jovens para os valores culturais da Freguesia da Benfeita.
É nosso dever e preocupação apelar a todos os benfeitenses, principalmente àqueles que tiverem mais influência (política, económica e social), pela necessidade de glorificar a memória do Padre Loureiro.

 

Vivaldo Quaresma