JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Conto completo extraído do livro "FIGURAS DE CERA"
Histórias contemporâneas - Lisboa, Março de 1898

João Ninguém

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Transcrito e anotado por Vivaldo Quaresma
Março 2008

I

Quando morreu o vigário de Santa Cecília [0], na bonita idade dos oitenta e cinco, os sobrinhos, ao liquidar do espólio, foram encontrar num raio da estante um grande maço de papéis entalado entre um velho Larraga [1] e um sebento sermonário [2]. No invólucro lia-se em letras garrafais a seguinte rúbrica: - «Cartas alegres do famoso João Ninguém que Deus tenha em sua santa glória».

Os herdeiros, surpreendidos do achado, não compreendiam nada do que viam. Quem seria esse famoso João Ninguém, cujas cartas alegres tinham vindo parar às mãos do falecido vigário de Santa Cecília? Que valor teriam esses papéis casualmente encontrados no espólio de um obscuro pastor de almas, que nunca fora letrado e cujas relações epistolares se restringiam ao círculo limitado dos seus colegas da vizinhança?

Intrigados com o mistério rasgaram o invólucro e leram os papéis. Eram com efeito cartas assinadas por um tal João Ninguém e dirigidas ao vigário. Muitas passagens pareciam indecifráveis; mas com o auxílio de pessoas idosas que na freguesia tinham conhecido o autor das cartas, foi-lhes fácil reconstruir a figura extraordinária desse personagem quase lendário que, depois de uma ausência de mais de meio século, tivera o capricho de vir acabar os dias na mesma terra que lhe foi berço.

Os velhos de Santa Cecília recordavam-se perfeitamente de João Ninguém. Era um velho excêntrico, ligeiramente corcovado, de rosto severo, mas simpático. Adorava as flores e as crianças e falava com toda a gente, ricos e mendigos.

Tinha nascido ali, baptizara-se na pia de Santa Cecília, saíra a correr terras desde criança; mas quando voltou, velho e cansado, já ninguém o reconhecia.

Parecia ter sido um grande infeliz, a julgar pelas lendas que corriam àcerca da sua aventureira mocidade e pelo isolamento a que nos últimos dias da vida voluntariamentre se condenara, vindo pedir ao obscuro cemitério da sua aldeia os sete palmos de terra que se não negam ao mais desprezível dos homens.

Quando João Ninguém chegara a Santa Cecília, há muitos anos, ainda alguns se lembravam do seu nome, da sua família e da sua história. A despeito das transformações operadas pelo tempo, ainda estava de pé e apontava-se a dedo a casa onde nascera setenta anos antes: - largo pátio à entrada e no topo, ao cimo da estreita escada de pedra, a varanda de pau assente em pilares.

E todavia esse homem singular que fora falado e querido nessas longínquas terras que percorreu, e que talvez sentisse gotejar o coração nos momentos mais ruidosos dos seus triunfos, esse homem bisonho [3] e avergado aos anos, dentro do qual existia positivamente alguém, teimava em se apelidar simplesmente, modestamente, João Ninguém! Desde que chegou a Santa Cecília nunca mais adoptou outro nome.

- Qual João Ninguém, nem meio João Ninguém! Exclamavam os homens bons da terra quando o topavam nos caminhos a discutir com o velho vigário, que era o seu companheiro inseparável; grande doutor é que ele é, capaz de meter num chinelo quantos sábios cobre a rosa do sol. João Ninguém! Um homem que sabe Latim, que deu sota e ás [4] aos governos de Lisboa; que trás o nome falado nos jornais; que sabe ler no missal melhor que um padre; que discorre em coisas de justiça como um letrado, e que em pontos de religião leva o sr. vigário à parede! Qual João Ninguém! Grande doutor é que ele é!

Estes comentários espalhados pelos povos da freguesia e insistentemente repetidos pelos admiradores do famoso personagem, em concordância com o ar sentencioso e grave que revestia a sua maneira de dizer, criaram-lhe rapidamente em toda a redondeza de Santa Cecília a reputação de oráculo. E como toda a sabedoria de Salomão, pelos modos, tinha incarnado nele, em breve a sua casa apareceu invadida de consulentes a pedirem-lhe conselho em todas as questões locais e domésticas. A sua opinião era acolhida como se fora uma sentença passada em julgado. O oráculo de Delfos [5] nunca se gabou de maior autoridade.

Este prestígio de João Ninguém, alimentado dia a dia pela generosidade com que sabia acudir a tempo e horas às requestas [6] dos seus conterrâneos, raiava já pelo fanatismo. Sabia-se pela história que em volta de Santa Cecília, por entre duras brenhas [7] selvagens que bordam os recôncavos ocidentais da Serra da Estrela, viçara em tempos antigos exuberante alfobre de génios mais ou menos autênticos. As águas fugidias e límpidas do formoso Alva que desce da serra por entre apertados fraguedos, ainda não tinham deixado de repetir em múrmuras seguidilhas [8] campesinas os nomes de Brás Garcia, José Anastácio de Figueiredo, Dórias, Cardosos e tantos outros que por serviços e talentos fizeram conhecido no mundo o ninho seu paterno. Mas nenhum desses imortais chegara tão rapidamente ao cimo da montanha gloriosa onde se abre de par em par o templo da memória.

Vinham romeiros de longe, em caravanas piedosas, atravessando montanhas ásperas, à Meca de Santa Cecília, só para conhecerem pessoalmente e render culto ao prodigioso personagem. As crianças ajoelhavam à sua passagem pedindo-lhe a bênção, e os velhos descobriam-se e perfilavam-se quando o avistavam ao longe.

Mas João Ninguém, modesto como era, detestava zumbaias [9] e paganismos [10]. O que queria é que o deixassem viver na sombra, a sós com os seus livros, esquecido do mundo e das suas pompas, deliciando-se do alto da sua janela com a risonha perspectiva das veigas [11] que se estendem dum e doutro lado da ribeira, ou percorrendo com os olhos marejados de pranto, no entardecer da existência, as encostas arrelvadas, os cômoros [12] verdejantes, os altos oiteiros [13] abruptos, por cujas depressões se despenham em lúcidas cascatas amplos lençóis de espuma franjados de pérolas.

Essa era a vida que convinha e mais apetecia; mas vendo-se constantemente amimado por essa boa gente que o seguia, que o saudava, que seria capaz de o levar num andor pela rua fora a par da cândida imagem da padroeira da terra, não havia remédio se não transigir, resignar-se, tomar parte no culto desse intenso bucolismo aldeão.

Para aligeirar os aborrecidos ócios do campo e simultaneamente prestar algum benefício a quem tanto o apreciava, lembrou-se João Ninguém de fundar uma escola de primeiras letras em sua própria casa. Era também essa a primeira necessidade da terra. O antigo mestre régio de Santa Cecília, ao cabo de trinta anos de regime de palmatória, tinha a freguesia analfabeta e embrutecida como a encontrara no dia em que se apresentou a dar a primeira lição.

E como era um carrasco, constantemente armado de férula [14] e junco [15], a pequenada tinha acabado por desertar da escola. João Ninguém tomou parecer com o vigário e no dia seguinte a casa encheu-se-lhe de crianças.

Foi uma aurora que rompeu naquele céu escuro de Santa Cecília. Um ano depois só não sabia ler quem não tinha ido às lições de João Ninguém. A princípio ninguém julgava possível que se pudesse aprender a ler, escrever e contar sem o auxílio dos nefandos [16] castigos corporais, mas bem depressa a experiência se encarregou de desfazer a ilusão. Os rapazes não só aprendiam, mas amavam aquele delicioso velho que não cessava de os atrair e de lhes ganhar o coração, amenizando-lhe o trabalho e premiando-os, como fazia Pestalozzi [17].

- Bem dizíamos nós - exclamavam os homens bons da terra, boquiabertos a ver entrar os pequenos. Qual João Ninguém, nem meio João Ninguém! Doutor e grande doutor é que ele é! Vejam lá se a pequenada de agora se espulga [18] por esses terreiros como dantes, ou se esfarrapa em brigas à porta das tabernas! Isso foi tempo. Agora quem os quiser ver, juntinhos e mansos como borregos, é procurá-los na escola, onde aquele bom homem, lá dentro, se está babando de gosto no meio dos nossos filhos. João Ninguém! Um santo é que ele é!

Um dia, porém, chegou em que foi proibida aos pequenos a entrada na escola. O professor fora acometido de doença repentina e estava a expirar. O vigário acabava de lhe ministrar o sacramento da extrema-unção. As crianças em debandada, a chorar, espalharam logo a notícia, e no dia seguinte o cadáver, depois de aspergido [19] pela água benta da igreja, ao som lúgubre do latim bárbaro do vigário, descia à sepultura, ao tempo em que os sinos de Santa Cecília e os gritos das mulheres abraçadas aos filhos soltavam no ar alaridos de ensurdecer.

Nenhum morto ilustre baixou à cova mais sinceramente pranteado; e contudo no cemitério onde repousa, ao lado dos seus, ninguém se lembrou, por gratidão, de inscrever um nome, suspender uma coroa ou erigir uma lápide que recorde aos vindouros o humilde lugar onde repousa o mais adorado, e quem sabe? - o mais infeliz dos homens que nasceram em Santa Cecília.


II

Convencidos, finalmente, da importância, ao menos para a história local, das cartas alegres do famoso João Ninguém que Deus tenha em sua santa glória, os herdeiros do velho vigário, que fora um dos amigos mais íntimos do autor, vieram a consentir na publicação dessas confidências íntimas, e fizeram bem. Alguma coisa há que meditar e aprender nas entrelinhas dessa correspondência desataviada e simples que não foi destinada à publicidade, mas onde se expande um coração que sofreu e se retrata uma inteligência que chegou a compreender o seu tempo.

Asseverou um biógrafo de Salomão Gessner [20] que desde Duclos [21] cem vezes se disse e repetiu que a vida dos homens de letras se reproduz nos trabalhos que fazem, como as feições dos pais se reproduzem nas feições dos filhos. É um facto averiguado em milhares de exemplos.

Child-Harold [22] encostado, silencioso e triste, à amurada do navio que o leva longe da pátria, a países desconhecidos, capa flutuante e cabelos revoltos à mercê dos ventos, é sem dúvida nenhuma o próprio Byron [23] na hora da inspiração ardente, arrebatado a mundos misteriosos na poesia da vaga e no sublime da imensidade. O que é o dr. Fausto [24], essa criação extraordinária, toda idealista com o espírito metafísico alemão, se não a própria alma de Goethe [25] pedindo, ao expirar, luz e mais luz?

De Schiller [26] se afirma também que nas suas criações o homem domina o artista. «São as lágrimas de Schiller que tremem nas pálpebras de Tecla [27]; é a voz de Schiller que sai do peito de Joana d'Arc [28]. Os caracteres dos personagens de Schiller são todos feitos à sua imagem e semelhança.»

Se a teoria é verdadeira, como devemos supor, nas cartas alegres do mais sério dos homens será fácil descobrir o carácter moral de quem as escreveu, e reconstruir assim a vida de um obscuro lidador cuja excessiva modéstia o arrastou para o silêncio de um ermo aonde nunca poderiam chegar os arruídos que proclamam os heróis.

João Ninguém seria um converso como S.Paulo e Santo Agostinho; um resignado como Zenão; um paciente como Sócrates; um desiludido como Voltaire; um rebelde como Ario e Lutero? As suas cartas que o digam. É da sua autobiografia que surgirá completa e rútila de cor, a máscara de cera da sua fisionomia típica, da mesma forma que da leitura das obras de Horácio ressalta completa e perfeita, a singular figura do grande lírico de Venusa. E para que a autenticidade desse retrato fosse bem documentada e digna de fé, a reprodução destas memórias foi feita sob o rigor da mais escrupulosa e absoluta fidelidade.

Não há aí palavra nem frase que não tenha sido escrita pela pena de João Ninguém. A crítica devia-lhe pelo menos esse respeito, até que o julgamento da história acordasse para a justiça que lhe é devida.


III

Reverendíssimo vigário

O reumatismo, que é o maior dos inimigos da alma e do corpo, tomou-me pelos joelhos e promete devorar-me implacável. Paciência; já que o maldito não permite que eu cerre os olhos nesta noite velha, de insónias aborridas [29], procurarei indemnizar-me lançando mão da pena. É uma tentação voluptuosa a que não sei resistir.

Prepara-te, pois, para ouvir casos maravilhosos que os teus sagrados ouvidos de confessor jamais suspeitariam.

A pena com que te escrevo, foi comprada em Paris num leilão do século passado, e suponho que pertenceu a Voltaire! Calcula as sugestões diabólicas que terá comunicado ao meu cérebro este formidável instrumento que o tremebundo [30] mestre tantas vezes empunhou contra os hipócritas do seu tempo.

Quando a molho no tinteiro cuido que vou carregar um obus [31], e quando a lanço ao papel imagino ouvir detonações na cabeça.

Será isto, meu vigário, aquilo a que os teólogos teus irmãos em exorcismo chamam possessão demoníaca? Tu o dirás.

Em certos momentos a maldita ringe [32] e corre veloz no papel, aos pinchos [33], aos saltos, aos pulos como a cabrinha de Gretchen [34]; as letras bailam em dança epilética, e todo o meu corpo, como se estivesse em contacto com uma pilha, estrebucha e reclama hissope [35].

Lembro-me então do Lutero [36] que vocês tantas vezes têm caluniado nos sermões. O raivoso frade, como sabes, tinha também um diabo que o fazia suar muito. Multas noctes mihi satis amarulentas et acerbas reddere ille novit [37].

O próprio Jesus, aquele bondoso filho de Maria, tão querido e tão infeliz, também foi levado ao monte para ali ser tentado. Sabes isto melhor do que eu. O bom do S.João Crisóstomo [38], se a lenda não mente, viu amiudadas vezes na solidão do ermo um querubim [39] tão lindo e tão provocante, que, se a divina providência lhe não acode a tempo, o gaiato do Lúcifer [40] teria a estas horas um hóspede a mais na caldeira de Pero Botelho [41] e a igreja um santo a menos no calendário.

Já vês que todos temos o nosso mafarrico [42], todos desde o poeta que fantasia idades, desde o anacoreta [43] que nas grutas da Tebaida [44] escabuja [45] obsidiado [46] por feitiços e visões, até aos velhos do nosso tempo que decoraram Voltaire na mocidade e gemem reumatismo na velhice.

Mas que remédio? O demónio das minhas noites têm caprichos bem singulares. Ou eu queira ou não queira, pousa-me nos dedos, mergulha no tinteiro, volita como um silfo [47], desliza como um patinador, zumbe como um besoiro, e nas suas asas brancas de falena [48] ora me eleva nas harmonias de Beethoven e nas idealidades de Ossian, ora me precipita de chofre nas voragens sombrias do Orco.

Coisa pavorosa! Ainda se ele me aparecesse benigno e meigo como a Sócrates o seu demon [49] e ao Hermas [50] o seu pastor, nas vestes pitorescas de pegureiro [51] siciliano, os meus lábios o bem-diriam; mas não; umas vezes surge adiante de mim arrastando longos crepes [52] como os fantasmas de Cagliostro [53]; outras ruge maldições como a pitonisa do Endor [54] nos dias de Saúl; outras, finalmente, desenrola diante dos meus olhos pávidos [55] o panorama dos dias felizes, a quadra saudosa da mocidade, das ilusões, da beleza, da esperança, do amor, da glória, e tapando-me de repente os olhos, como gentil criança travessa, exclama por entre casquinadas [56] de riso: «Nunca, nunca, nunca mais!» Um horror.

É por isso que eu repito muitas vezes com o velho Catullo [57], nas longas noites em que o meu derviche [58] se diverte à minha custa - «Eu amo e aborreço. Como pode isto ser? Não sei; mas sinto-o, e este sentir me mortifica».

Mas agora reparo que esta carta vai longa e a noite vai alta. Amanhã te direi o resto.

João Ninguém


IV

Vigário amigo

Prometi revelar-te casos maravilhosos, mal suspeitados dos teus castos ouvidos de confessor. Venho cumprir a palavra dada, à conta do nosso velho Amador Arrais [59], que dizia: «Os homens honrados são sempre pela verdade e em toda a parte a honram, defendem e favorecem». Eu vou honrar, defender e favorecer a verdade, em obediência ao preceito do moralista. Tem paciência e atende.

A questão do meu futuro parece ter sido um problema difícil de resolver. Ainda me não tinham nascido os dentes todos quando esse grave assunto foi tratado em conselho de família. Compreendes bem que sobre o caso, a minha pessoa não foi ouvida nem achada, o que não quer dizer que por meu lado não trovejasse convicta a voz potente de João das Regras [60]. Este João das Regras era o impagável mestre-régio que tinha tomado em suas mãos o caritativo encargo de atrofiar o meu intelecto e de estender as minhas orelhas. Não o conheceste certamente, e é pena porque havias de simpatizar com o tipo. Era um liberalão convicto, alto e aprumado. Falava como um profeta, e como lia muitos alfarrábios e histórias, fazia gala da sua superioridade erudita em meio da gente simples que embasbacava, de queixo caído, a ouvi-lo discorrer. Pelos princípios liberais tinha sofrido inclemências nas cadeias de Almeida e quando estas coisas mudaram, em 1834, o governo não teve para lhe pagar os serviços mais que os nove mil réis da cadeira. Um grande infeliz. Tinha feito a tolice de se casar; mas logo que enviuvou, meteu-se a padre e principiou a dizer missas a seis vinténs. No trato familiar era uma excelente criatura, mas na escola, em frente dos pequenos, lembrava Herodes. Aferrado aos velhos métodos, fazia consistir todo o elemento educativo na palmatória e no cachação. Um Átila tonsurado [61]. Foi esse homem o árbitro do meu destino futuro, como tinha sido o endireita da minha incipiente vocação para as letras.

Meu pai, fascinado naturalmente pelas pompas da igreja, teria um grande desgosto se eu não chegasse pelo menos a bispo; outros opinavam pela vida agrícola; entretanto, minha mãe, aquela santa criatura, estava por tudo. Os mais do conselho encolhiam os ombros. Nunca vim a saber se a virtuosa senhora quando me trazia em ventre sonhou, como se afirma da mãe de Virgílio [62], com algum ramo de loureiro; o que sei é que aos sete anos a minha pessoa atrevida apanhava borboletas como Júlio Gérard [63] caçava leões, e que por volta dos oito ninguém me desbancava nos segredos da cartilha e da tabuada! O Sr. Mestre assim o testificou em conselho de família, e foi a opinião desse homem grandíloquo e severo a que finalmente decidiu para sempre do meu futuro.

- Deixem-no ir correr mundo como Ashavero! [64] - exclamava o velho liberal com intimativa tribunícia. - Santa Cecília é uma terra de selvagens que não sabe dar apreço ao talento. Ninguém pode prever o futuro, é verdade; mas pelo futuro deste rapazete fico eu. O que importa é iniciá-lo, quanto antes, nos mistérios augustos do Latim, e em Santa Cecília, como é bem notório, não há quem saiba Latim, nem o próprio vigário, que já se não entende com o missal. As primeiras letras, bem a fundo lhas meti na cabeça, ainda que o meu suor me custou; o resto não é comigo. Nada de fixar desde já o destino que lhe peretence; isso depois se verá. Entre general e bispo há muito por onde se escolha. O que importa é pô-lo num mestre de Latim, e para isso o primeiro passo a dar é tirá-lo das saias da mãe, mandá-lo para fora daqui!
- Mas tão pequenino!
- Mais pequeno era o menino Jesus quando saiu de Belém. Pequeno! Um fagulha que corta toda a casta de letra, por mais arrevesada que seja; que destrinça os engaços mais emaranhados dos treslados antigos [65]; que sabe ajudar à missa como um clérigo; que diz de cor páginas inteiras da Magalona e do Carlos Magno! [66] Bem digo eu que Santa Cecília é uma terra de selvagens!

Depois caindo a fundo com citações de nomes desconhecidos, com a consciência de que ninguém ali lhe podia ir à mão, o terrível pedagogo proseguiu, imaginando-se numa academia:

- Pequeno! Pequeno! Pois ficai sabendo que Virgílio aos quinze anos tomou a toga viril; que na mesma idade o grande Espronceda era tribuno dos Numantinos; que o Padre Vieira desde criança se revelou a águia do púlpito; que o famoso Annibal não tinha mais de oito anos quando em Cartago jurou sobre os altares que se vingaria das injúrias de Roma; que Tasso aos oito anos compôs os seus primeiros versos; que Meyerbeer na mesma idade já tocava piano e Grotius fazia odes latinas. Que mais querem?

Calcula tu, bom vigário, a cara com que estaria aquela pobre gente perante a erudição do velho mestre-escola, a desfiar nomes que nunca se tinham pronunciado em Santa Cecília, a dizer coisas estranhas que ninguém compreendia! A situação devia de ser de um cómico irresistível, mas a verdade é que o orador conseguiu o seu fim. Ali se deliberou finalmente o meu exílio. Deus perdôe àquele homem o mal involuntário que me fez a sua erudita perlenga [67].

Quando no dia seguinte me notificaram o caso asseverando-me que dentro de um mês teria de partir, porque tal fôra a resolução tomada em conselho de família, a minha surpresa desafogou-se em lágrimas. Julguei-me desterrado de Santa Cecília para todos os dias da minha vida. Mas a lembrança de que o futuro professor de Latim que me destinavam não seria o mesmo carrasco da escola que brevemente ia deixar, aliviou um pouco a tristura em que me via.

Ai, rico vigário! Como são efémeras as ilusões da gente moça! O que me sucedeu foi isto simplesmente: a fugir da boca do lobo, fui cair nas garras do leão! Quiseram benzer-me e quebraram-me o nariz! Mas esse episódio requer ementa especial. Amanhã to contarei, se para tanto me der folga este endiabrado reumatismo voraz.

João Ninguém


V

Respeitável pastor

Se o exercício do confessionário ainda não esgotou o manancial da tua paciência de padre, concede-me dois minutos de atenção, que eu te prometo não abusar da tua sensibilidade. Um episódio da primeira idade, um desses lances que para sempre se fixam na memória infantil, servirá para encher este quarto de papel e para te reconciliar com o teu querido Morfeu. Vais ver e admirar.

Posto que me tivessem dito e redito que era forçoso sair de Santa Cecília e correr mundo até chegar a ser homem; não obstante as formais solicitações do erudito padre-mestre que insistentemente reclamava a minha partida, pois que nada mais já tinha a ensinar-me; a dor que senti foi tão inarrável e profunda como a surpresa que experimentei quando vieram anunciar-me que no dia seguinte seria o momento fatal. Tu não podes pôr na tua imaginação o efeito desta notícia à queima roupa. Julguei que caía redondo no chão. Se me tivessem ameaçado com a forca, o desgosto não seria mais cruel. Partir no dia seguinte, mas para onde? Nem eu o sabia. Talvez para o fim do mundo; talvez para longes terras inóspitas donde se não volta mais. O desconhecido amedrontava-me e a saudade, essa víbora venenosa, começava a dilacerar-me o coração. Eu nunca tinha saído de Santa Cecília e cuidava que para além daquelas altas serras que a cercam por todos os lados, já não existia mundo. Como era que me arrancavam brutalmente do ninho e atiravam comigo por esse espaço fora, só pelo vão capricho de me verem errar, como pássaro expulso da gaiola, tontamente, por esses ares sem fim?

Mas o pior é que Santa Cecília nunca me tinha parecido tão encantadora como nestes amargurados momentos em que me impunham o suplício de a deixar. Surpreendia-lhe agora belezas em que nunca tinha reparado, descobria-lhe encantos que me tinham passado despercebidos.

Como sabes, a povoação tem o aspecto de um lenço de três pontas. Quantas vezes este pormenor não terá recordado ao teu espírito de crente, como sugeriu ao meu naquelas horas tristes, o mistério da Santíssima Trindade? Tu que foste rapaz como todos e qual eu era nesses dias inolvidáveis, quantas vezes não a terias comparado com uma indolente pretinha a espreguiçar-se, por tardes de calma, deitada na encosta, com os pés a refrescar na corrente múrmura e a cabeça reclinada na verde alfombra [68] que tapeta os olivedos? Quantas vezes, meu fragueiro bucólico de sotaina [69], o teu espírito não ergueria hosanas ao criador, ouvindo comovido o papear amoroso dos pássaros no cerrado arvoredo dos quintais em flor; o murmúrio prolongado dos salgueiros que falam às águas correntes e se abraçam no ar quando a ventania os agita, ou contemplando a magestade desses altos cerros que parecem escorar a abóbada e logo vêm descendo em socalcos, em anfiteatro, até ao fundo do vale, sempre cobertos de verdura, sempre formando degraus, como se nos estivessem avisando de que por eles se sobe ao céu; finalmente, todas essas perspectivas de uma natureza rude e selvagem, mas imponente e grandiosa?

E contudo nesse tempo Santa Cecília, que eu imaginava ser a imagem do paraíso, não passava de modesto burgo comparada com o que representa hoje. Terás lido no mantuano [70] os conhecidos versos sibilinos [71]:

Diz-me onde, e serás um grande Apolo,
Não mais que braças três o céu abrange.

Era evidentemente a Santa Cecília que Virgílio se referia. O céu da nossa terra, com efeito, não mede mais de três braças. Sérvio, Cacónio, Vóssio e Pompónio, comentadores do poeta cesáreo, não desderam [72] o nó górdio, porque desconheciam este ponto geográfico da Lusitânia. Seriam oriundos daqui os ciclopes que mais tarde se localizaram no Etna? Vinham aqui os druídas celebrar os seus sacrifícios nocturnos à pálida luz da lua? Foi este o local escolhido por feiticeiros medievais para a celebração das suas missas negras? Questões são estas que deixo à tua perspicácia de arqueólogo e teólogo, já que Estrabão se esqueceu de cortar o nó górdio [73].

Então - lembro-me muito bem porque tudo isto passava de tropel pela minha cabeça, e se fixou indelevelmente na memória naquela horrorosa véspera do apartamento [74] , - então em Santa Cecília jantava-se quando o relógio do sol marcava meio-dia em ponto e ceava-se ao bater das trindades, sem moscas e sem luz, patriarcalmente. À noite, defronte da lareira, onde o toro de cerne [75] crepitava luminoso, as velhas fiavam as suas grandes rocadas de linho e os anciãos ressonavam na modorra do lar, ou repetiam aos novos as palavras ditas e retornadas para afugentar as bruxas que voam por cima de toda a folha.

E os domingos, aqueles domingos de outrora, meu vigário! Depois da missa, nos eirados e terreiros os cantos populares retumbavam por toda a parte com acompanhamento do velho adufe, da viola de arame e da flauta pastoril! Além, uma voz argentina ia repetindo em falsete os estribilhos da velha ramaika, essa antiquíssima toada que vem dos tempos homéricos e se cantava, poucos anos há, nos arrabaldes de Esmirna. Aquém, ribombava o zabumba [76] tangido galhardamente pelo braço possante de um Quasimodo [77] que lograva à força de pulso e massa abafar os trilos do pífano, o carpir da guitarra e o tinir agudo dos ferrinhos. Que domingos aqueles, vigário do meu coração!

E em certas épocas do ano, as desfolhadas, as debulhas, as espigas vermelhas que dão direito a abraços, os ditos picantes dos rapazes, os despiques das raparigas, os contos de bruxas e lobisomens, as xácaras [78] e romances, toda essa poesia virginal que a literatura culta ainda não conseguiu obliterar?

Todas estas coisas acudiam agora ao meu pensamento e acrescentavam a dor de as perder.

Mas como, enfim, estava assente no livro dos fados que o meu sacrifício havia de consumar-se, só me restava uma coisa: resignar-me ao papel de vítima e aguardar o dia seguinte. O que tu não sabes, vigário da minha alma, é o martírio que me estava reservado antes da partida.

Naquele tempo ninguém ousava sair de Santa Cecília para o Brasil ou para soldado, para Lisboa ou para Casco de Rolha, que é a terra mais afastada que se conhece, sem se despedir de todas as pessoas, grandes e pequenas, ricas e pobres, da nossa terra. Era uma peregrinação que representava o dispêndio de muitas horas e de muitas lágrimas. Era esse o costume dos nossos avós e o costume faz lei.

Caía a tarde, uma serena tarde de Setembro, por tal sinal; limpei os olhos por decência e atirei-me à via dolorosa [79] . Comecei no centro da povoação, no sítio da praça onde desembocam três ruas, correspondentes às três pontas do lenço de que te falei. Segui pela vereda íngreme que sobe ao Oiteiro até se perder nos olivais; percorri todos os becos desse bairro, entrei em todas as casas e chorei em todos os seios. Depois desci os socalcos abruptos do lado da ribeira e despenhei-me no arrabalde, a segunda ponta do lenço; rezei à Senhora da Assunção nos degraus da sua capela, circunvaguei pelas quelhas adjacentes até ao Areal, entrei igualmente em todas as casas e chorei encostado a todos os seios, talqualmente como se nunca mais houvéssemos de nos tornar a ver. Por fim, deslizei por baixo de varandas e passadiços, percorri todos os meandros até próximo da Igreja e regressei Rua Fundeira acima, até ao primitivo ponto de partida. Escuso de te dizer que entrei igualmente em todas as casas, chorei em todos os seios, solucei a todas as portas, e ensopei todos os lenços que levava de provisão. Ainda hoje tenho nos ouvidos os soluços e as vozes de lástima que saíam de todas as bocas quando eu entrava, lavado em pranto e quase sufocado, a dizer adeus a toda aquela boa gente, talvez até ao dia do juízo! Viessem então prender-me para soldado ou para grilheta [80], que não seria maior a minha angústia. Meu vigário, aquilo só visto!

A ceia dessa noite, como deves supor, foi de lágrimas. O que eu queria era que me deixassem a sós com a minha incomparável dor. É claro que ninguém pregou olho em casa. A noite, porém, corria a galope, e quando uma voz que saía do eirado, no silêncio profundo da treva, anunciou que na Serra do Açor já tinha desaparecido o Sete-Estrelo [81], pelo que em menos de uma hora romperia a manhã, então subiu por mim acima uma onda de suor frio e pensei que ia morrer. Se me picassem a artéria estava que não deitaria pinga de sangue. Levantei-me maquinalmente ou levantaram-me - não sei dizer bem como foi - beijei em silêncio as mãos dos meus, e como um bêbado que não sabe o que faz nem para onde vai, desci a escada e achei-me no meio da rua ao pé do almocreve e da égua... já aparelhada para me levar.

A aragem fria que soprava dos vales e sacudia sonoramente os sobreirais, cortava na carne como navalha de barba. Para não gelar, deixei-me ir a pé; o almocreve adiante com a égua pela mão. A primeira paragem foi no adro da nossa Igreja.

Quando ali cheguei e pus os olhos na porta do cemitério [82] atufado de papoilas e de hortênsias, encostei-me ao ralo de madeira para não cair fulminado. Era ali, na terra da verdade, que dormiam pessoas que me tinham amado; fôra ali, na pia daquela solitária e modesta casa de Deus que eu recebera as águas santas do baptismo; naquele pequenino adro, tão rumuroso em dias de festa, tinha eu folgado em melhores dias ao som dos pífanos e dos pandeiros em farandolas e descantes que pareciam subir agora do chão para me torturar. Tudo isto avivava pelo contraste a áspera situação em que me via.

Mais abaixo, ao transpor a velha ponte de madeira, julgando-me a cem léguas de distância, olhei para trás, mas nada se via ainda. No vale profundo alastrava-se a mancha escura da sombra espessa, apenas entreluzia a meus pés o vago cintilar do fio de água que trilava monótono nos seixos por entre renques de choupos esguios. Adiante, na volta da Córrega [83], no sítio onde estão penando no seu purgatório de zarcão e alvaiade umas almas ingénuas que suplicam a quem passa a esmola de um padre nosso, começava a aclarar a manhã. O céu azulava-se e no espinhaço dos montes corriam núvens esbranquiçadas. Entretanto os olivais e soutos que povoam as ribas do vale mergulhavam ainda na sombra. Ao chegar ao penedo do Rolão, aquele famoso bloco sob o qual uma linda moira encantada guarda perpetuamente os seus tesouros, tive vontade de me sentar na pedra e perguntar à fada pela sorte que me estava reservada no livro dos destinos; mas eu tinha pressa de galgar a lomba e chegar à volta donde se avista, em todo o seu conjunto, a casaria de Santa Cecília. É, com efeito, das Paredinhas que se descobre lá no fundo das alterosas montanhas que sobem ao céu, o burgo solitário e tranquilo, agora entregue à tua protecção, meu respeitável guardador de ovelhas. Divisava-se perfeitamente a brancura da Igreja, erguendo para o céu a sua pequena torre quadrada, a surgir como sentinela à entrada da povoação, e adiante, estendida na encosta, a casaria irregular, em pinha, com os seus tectos de ardósia. Lá estavam na outra banda, para além da Ribeira da Mata, brilhando no crepúsculo como copos de leite postos ao relento: em baixo, a alvinitente capela octogonal de Santa Rita com o seu alpendre coberto de jasmineiros; mais acima, na crista da montanha, a ermida de S.Bartolomeu, dominando o largo horizonte; e na mesma linha, correndo para a serra, as capelas da Senhora da Guia e das Necessidades com o seu espaçoso terreiro ensombrado de acácias. Foi com os olhos cheios destas visões benditas que eu me despedi desses lugares queridos da infância e me lancei ao caminho, correndo montes e vales, trepando serras e descendo precipícios, durante um dia inteiro e interminável, que foi o mais tormentoso da minha vida.

Era alta a noite quando cheguei ao termo da viagem. Dizer-te que dormi nessa noite como um abade é mentir. O meu sono foi um pesadelo tenebroso. Mas não insistamos em coisas tristes; põe o teu barretinho, apaga a luz e dorme também, que bem precisa descansar quem muito andou. Demais, estas coisas não vão a matar; nem Roma se fez num dia. Amanhã te direi o resto. Santas noites, bom vigário.

João Ninguém


VI

Vigário do meu coração

O pequenino selvagem de Santa Cecília, arrancado brutalmente das saias da mãe e atirado ao mundo no generoso intuito de fazerem dele o que se chama um homem, ei-lo definitivamente instalado numa antiga vila romana, que dizem ser fundação de velhos Petrónios, uma vila granítica e alegre, alcondorada nas escarpas do Zêzere, ao pé dos desfiladeiros do Cabril. Era ali que a lanugem intonsa e virginal [84] da minha ignorância de dez anos havia de ser cortada pela tesoura romba [85] de um latinista famoso a quem o governo pagava mensalmente as despesas da operação. A primeira caspa tinha-ma cortado a murro seco o mestre-régio de Santa Cecília, a segunda ia-me ser arrancada com o cabelo e o coiro pelo gadanho brutal de outro mestre-régio, irmão gémeo daquele, em requintes de ferocidade pedagógica. De maneira que a segunda prova a que vinha sujeitar-me, começou desde logo a parecer-me a continuação da primeira. Não me enganei, como vais ver.

Ao entrar pela primeira vez na aula de Latim eu ia decentemente, de chapéu na mão e muitos livros debaixo do braço, mas um tanto desconfiado e macambúzio. O professor tomava lição à classe. Os discípulos, contei-os logo, eram doze, como os de Cristo; eu ia perfazer a dúzia do frade. Mau agoiro! Alguns eram já homens, com barba na cara, para não desmentir o prolóquio: Latim com barba e música com baba [86]. Os outros eram rapazotes espigados e bisonhos. Alinhavam-se todos numa saleta comprida em bancos de pinho encostados à parede. Na frente, onde se alteava um estrado com uma banca avergada de livros, o mestre sentado numa cadeira de coiro e os pés num capacho de esparto, vigiava o rebanho. Fui entrando.

A cara do professor não me agradou, parecia-se sinistramente com a do mestre-escola de Santa Cecília. Era um homem alto, muito magro, esgrouviado, de cabeça redonda e pequena, onde os cabelos corredios rareavam já.

Estava embrulhado num albornoz [87]. Pelos modos o infeliz padecia de moléstia de peito, porque tossia cavernosamente. À sua ordem aproximei-me do estrado; mediu-me de alto a baixo, notando a exiguidade do meu todo; fez-me responder a algumas perguntas, certamente para tomar o pulso ao meu saber; mandou-me ler num grande livro para verificar o modo como eu cortava na letra redonda [88]; ordenou-me que escrevesse o meu nome para avaliar a minha caligrafia, e por fim marcou a dedo na gramática do nosso conhecido Gomes de Moura alguns parágrafos, obra de quatro páginas, e intimou-me a decorá-los para o dia seguinte.

O livro tremia-me nas mãos, e eu fiquei longo tempo de boca aberta diante daquele homem de gelo que não me mandava sentar nem tinha para dar ânimo a uma criança um sorriso de bondade. Ao retirar-me de sua presença, ainda trémulo, como quem se vê livre da boca do lobo, lembrei-me que tinha feito asneira em não ter abalado com o almocreve que nessa manhã regressara com a égua à aldeia de Santa Cecília.

Chegado a casa atirei-me de vontade ao Gomes de Moura e desatei a decorar por ali fora pontos e vírgulas, numa ânsia febril de ciência. A pesada palmatória do padre-mestre de Santa Cecília tinha-me desenvolvido vastamente a memória, e o desejo natural de fazer boa figura perante os meus condiscípulos barbados espicaçava-me nobremente. Enfim a lição estava-me toda na memória. Claro é que nada percebia, mas também não era preciso, como depois vim a saber.

No dia seguinte bolsei de um jacto as quatro páginas sem tomar respiração, sem tropeçar numa palavra, com espanto dos meus novos condiscípulos. O professor sorriu de contente e eu fui sentar-me no meu lugar, radiante como um triunfador.

Não sei como procedi, nem o modo como pude manter os meus créditos de menino prodígio; o que te sei dizer é que seis meses depois a gramática estava toda na cabeça. Podiam abri-la no fim, no meio ou no princípio; eu fechava os olhos e reproduzia-a com uma fidelidade de espantar, e o que é mais, sem hesitações, num rufo, como um papagaio de Angola. Estavam as coisas neste pé quando o professor teve a desastrada ideia de me passar da gramática para a Selecta Primeira [89]. Então é que foram elas! O primeiro trecho começava pela conhecida oração Mundus a Domino constitutus est. Eu lia e relia, tornava a ler e a reler, abria a gramática, folheava o dicionário, arrepelava os cabelos, dava voltas à imaginação, mas decifrar o enigma é que não podia. Parece que no meu entendimento, que todos supunham tão lúcido até aquela altura da minha educação, se tinha dado um eclipse terrível que de repente mergulhava na sombra todas as minhas ideias e até a consciência dos meus actos. Mundos a Domino constitutus est! [90] Que língua era esta que nada se parecia com a que eu falava? Que bárbaro a inventou e para quê uma tal ciência misteriosa e impenetrável? Que significariam aquelas palavras nefandas, cuja interpretação resistia como a esfinge ao esforço da minha inteligência? Positivamente aquela dificuldade era superior às minhas forças. Pela primeira vez tinha de apresentar-me na aula com a lição em branco. O severo professor era capaz de me lançar o fogo. Lembrei-me de fugir, de faltar, mas depois? O temor do castigo aterrava-me. Resolvido por uma inspiração de coragem, sobracei [91] os livros num repelão e pus-me a caminho.

Cheguei tarde nesse dia, os meus queixos batiam um contra o outro sonoramente e as pernas tremiam-me como varas verdes. Sucedeu por desgraça minha que o professor estivesse nesse dia mal humurado; os mais adiantados gaguejavam a lição e os mais novos já estavam de joelhos no meio da sala cumprindo castigos. O professor limpando o suor da testa espaçosa tossia insistentemente, agitando-se na cadeira. Apenas entrei, chamou-me logo para junto de si e mandou-me traduzir. Ora eu sabia tudo, menos traduzir. Confessei lealmentre com as lágrimas nos olhos que tinha feito toda a diligência, que por sinal nem tinha ido à cama naquela noite, mas que não compreendia nada, absolutamente nada. Eu estudei muito, mas...

- Não quero desculpas, o que quero é que traduza. Vamos, Mundus a Domino constitutus est... diga em português, vá... - Mas se eu não sei dizer! - Não sabe? Pois vai saber. E agarrando-me numa das mãos e depois noutra, com a rapidez de um tigre, pespega-me em cada uma delas meia dúzia de valentes palmatoadas que me fazem ver as estrelas e me repuxam o sangue! Ó vigário, ó meu bondoso pastor, que te parece a pouca vergonha? Será possível que tamanho bruto não esteja no outro mundo a pagar com os ossos tamanha selvajaria? Eu creio que sim; nem para outra casta de gente se fez o inferno. Olha que eu levei-as a pé firme; mas quando vi que os outros se riam à sucapa, não só da minha desgraça, mas das piruetas que pelos modos eu esboçava a cada golpe que me retalhava a carne, a minha vergonha ainda foi maior que a própria dor.

Dali em diante a versão da Selecta foi o meu pesadelo de todas as noites e o meu suplício de todos os dias. O meu cérebro paralisado não andava nem para trás nem para diante. Era como um relógio parado. A memória andava em divórcio com a inteligência. Decorava ainda como em Santa Cecília mas não sabia discorrer; faltava-me a chave para abrir as portas do raciocínio. O segredo da correspondência das duas línguas ninguém mo tinha revelado, nem era fácil achá-lo porque os professores também raramente o possuíuam. Traduzir era um artifício escabroso e complicado, porque representava uma função independente do estudo teórico da gramática. Como havíamos nós de reproduzir uma língua noutra se ambas elas nos eram igualmente desconhecidas? Esta dificuldade subiu de ponto, meu amigo, quando o carrasco me lançou de chofre no intrincado estilo de Jacinto Freire de Andrade [92] e me quis obrigar a pô-lo na língua de Cícero [93], sem me indicar o processo de fazer tal operação!

Não seria mais caritativo porém-me uma pedra ao pescoço, como se faz aos cães, e atirarem com a minha pessoa ao fundo do mar? Para o manhoso professor o caso era muito simples: como tinha na gaveta, guardada a sete chaves, uma tradução latina da vida de D.João de Castro, o seu trabalho limitava-se a conferir os nossos temas pela tradução que possuia, e dizer bruscamente, sem dar as razões: - Não prestam! Mas para nós que não tínhamos a papa feita, Santo Deus! Que suplício!

O que te sei dizer é que apesar das pias [94] fraudes a que recorri por conselho dos mais velhos, só por milagre não fui dali malhar com os ossos no cemitério ou no hospital dos doidos. Como eu então invejava a sorte dos broncos pastores de Santa Cecília que não sabiam gramática e amaldiçoava o dia em que nasci!

Feliz ou infelizmente, se não há bem que não acabe, também não há mal que sempre dure. Mas o período da provação estava terminado. No fim de três anos de martírio sucessivo, o austero mestre-régio teve a caridade, talvez inconsciente, de me dar por pronto para exame. Por pronto! Ai meu vigário, tão pronto como ele para apanhar trinta raposas [95], no exame, se Minerva não fosse tão torta dos olhos como sua irmã, a Justiça. Enfim, Deus perdõe à sua alma como eu já lhe perdoei, e o que lá vai lá vai.

Adeus vigário. Vai lançando à conta da futura penitência que me destinas na próxima Quaresma, os tormentos que passei no Latim e não esqueças de pedir ao Altíssimo nas tuas orações que nos livre de maus mestres e dos protervos [96] métodos antigos!

João Ninguém


VII

Vigário da minha alma

Para não incorrer na tua excomunhão, passo em silêncio os desesperos que me invadiram e as torturas que padeci nessa falada Lusa-Atenas [97] de outros tempos, durante o último e amargurado período da minha educação oficial. Os mestres orçavam geralmente pelos que tinha encontrado nas primeiras letras e no Latim, os processos os mesmos, e quando me supunha um sábio em todas as matérias percorridas, encontrei-me com o cérebro vazio e a inteligência exausta. O mundo continuava a ser para mim um vasto mar tenebroso e desconhecido. Para o vencer, carecia de lutar, mas faleciam-me todos os meios de resistência. As aulas não tinham posto nas minhas mãos nenhum desses instrumentos poderosos que servem para defender a dignidade pessoal nem para grangear o pão de cada dia. Sentia-me com ânsias para o trabalho útil, mas não sabia trabalhar. Os métodos da disciplina mental e as torturas da memória não tinham feito de mim o que vulgarmente se chama um cretino, mas tinham com certeza produzido um inútil. Discorria como um papagaio, mas não raciocinava melhor que um selvagem por domesticar.

Lembro-me que por esse tempo estavam em moda os necrológios [98] na imprensa. À falta de melhor assunto, atirei-me à elegia [99]. Uma providencial epidemia de tifo veio em meu auxílio; homens e mulheres morriam às dúzias; as crianças caíam como tordos em olival fechado. É escusado dizer-te que desbanquei Jeremias [100]. Eram necrológios sem peso, conta nem medida os que eu fabricava, desinteressadamente, febrilmente, pelo simples e puro gozo de ver o meu nome em letra redonda. Foram as minhas primeiras armas na república das letras do meu país, e olha que não foram raros os louros obtidos, vamos lá com Deus! Dali à imortalidade era só um passo! Que belos tempos esses, meu rico vigário, e que magníficas palmatoadas se não perderam nestas mãos atrevidas!

Contudo os epicédios [101] em prosa tiveram, como te disse, os seus admiradores dentro e fora das famílias enlutadas. Um egresso [102] que me leu, chamou-me um dia em particular e depois de exalçar [103] com entusiasmo as excelências do meu estilo, disse-me, dando grandes palmadas num jornal que tivera a ingenuidade de aceitar a minha prosa: «Que belo pregador daqui se fazia! Um sermão de enterro pregado por este maroto devia ser obra de truz! Porque não queres tu ser bispo, meu rapazola?"

Não te rias, vigário. O egresso era sincero e até parecia trazer nas mangas do hábito uma colecção de mitras [104] para distribuir. Mas como eu lhe respondesse que preferia ser literato, o velho frade, soltando uma gargalhada, desatou em apóstrofes [105]: «Homem, tu não sabes o que dizes! Ser literato é estar habilitado para morrer à fome. Num país analfabeto cultivar letras é o mesmo que ser sapateiro em terra onde toda a gente anda descalça.»

Mas como eu persistisse na minha, o bom do velho serenou um pouco e aconselhou-me paternalmente:

Está bem. Já que resolveste fazer essa tolice, segue a tua vocação - Trahit quemque voluptas sua [106] - Se reconheces que a ciência adquirida nas aulas não dá para mais nada, mete-te na carreira, que para isso chega o que te ensinaram. Mas não te esqueças de uma receita que vou dar-te e que tem de servir-te de muito. É copiada de Cervantes [107] que a deu a muitos rapazes do seu tempo. Diz assim: «Escreve alguma coisa. Quanto às citações e notas que tiveres de fazer à margem, aprende de cor alguns versos latinos e algumas sentenças gerais que a propósito de qualquer bagatela deves semear pelo corpo do discurso. Terás também de citar Homero [108], Virgílio e até os padres da igreja, além dos escritores modernos mais conhecidos. Copia, finalmente, os nomes de todos os antigos, manda-os imprimir em parangona e assim encontrarás quem acredite que os leste e em breve alcançarás a reputação de sábio.»

Hás-de encontrar - acrescentou o frade - grandes contrariedades a vencer pelo caminho, mormente se revelares algum talento. A inveja não pode ver uma camisa lavada a um pobre. Mas não desanimes. É enorme a lista dos lutadores que fizeram carreira à força de talento e de audácia. Olha, rapaz, Bacon [109] e Descartes [110], os autores da maior revolução filosófica operada na ciência, resistiram e venceram. Tertuliano [111] e Hermias [112] arrostaram impávidos com as audácias dos neoplatónicos [113] e venceram. Juvenal [114] e Marcial [115] sustentaram guerra de morte contra as ideias morais do seu tempo e venceram. Homero teve um Zoilo [116]; Dante [117] um Tassoni [118]; Descartes um Huet [119]; Camões um Macedo [120], mas venceram. Coragem, rapaz! Audácia, audácia e sempre audácia é o que é preciso. Esta virtude é tão maravilhosa e fecunda que até dispensa o telento. Pensas que sabia muito o fr.Francisco Santo Agostinho de Macedo [121] quando se atreveu, na Itália, a defender teses de omni scibili [122]? Pensas que o célebre Pico de Mirandola [123] era um poço sem fundo? Nada disso. Audazes é que eles eram.

Embora em ti não reconheças grande talento, nunca admitas nenhum superior ao teu. É por outras palavras o que diz a sabedoria das nações - nunca deixes o teu crédito por mãos alheias. Assim, em frente de um grupo de padres dirás: a Summa [124] de S.Tomás é uma filosofia sem novidade; as Sentenças [125] de Pedro Lombardo são vulgaridades chatas; os Exercícios [126] de Inácio de Loyola são o produto de um espírito dementado pelo fanatismo.

Se conversares com poetas ou deles escreveres, dirás: Virgílio é um lacrimoso; Homero um sanguinário; Dante um nebuloso; Petrarca [127] um imoral; Gessner [128] um adocicado; Klopstok [129] um decadente; Milton [130] um heterodoxo; Camões um católico pagão; dos outros não vale a pena falar.

Para que o teu nome ressoe é preciso viver num grande centro, e de quando em quando arejar o corpo e o espírito em viagens. Quem viaja é um sábio, embora passe os dias a dormir lá por fora nos hotéis ou sentado a fumar nos bancos dos passeios. Uma viagem ao estrangeiro dá tom e celebridade. É facto que vem de longe. O mantuano, viajou na Grécia para limar a Eneida; Milton foi ao Oriente em busca de materiais para o Paráiso Perdido; Byron andou pela Espanha, Portugal, Itália, Albânia, Turquia e Grécia em cata de inspiração; Camões percorreu o Oriente; Homero andou (se é que existiu) pelas ilhas gregas inspirando-se nas tradições ligadas a Tróia; Alonso de Ercilla [131] trouxe da América os melhores episódios da Araucana. Que mais queres, bom rapaz? Já que o teu destino é esse, vai teu caminho, que é tempo. As aventuras não ficam mal aos novos.

Com o saber que tens, que bem pouco é, ainda podes vir a ser neste belo país de ignorantes como o oráculo de Apolo em Delfos [132]; como o de Júpiter na Líbia [133]; como o de Esculápio no Epidauro [134]; como o de Trofónio na Beócia [135]. Dessa massa é que eles se fazem. Mas receio muito que chegue um dia em que, desprotegido e pobre, lá nos confins da velhice, coroado de louros mas sem vintém no bolso, tu tenhas de bradar como Édipo [136]: - «Agora é que eu cheguei ao cúmulo da desgraça!». Nesse dia tremendo estou que dirás também, voltando os olhos para a senda percorrida: - Porque não havia de eu ser bispo, como tão generosamente me aconselhava o frade?

Apesar da profunda impressão que as palavras do egresso me causaram, a minha resolução manteve-se inabalável. O meu destino estava escrito no livro dos fados e havia de cumprir-se. Infelizmente cumpriu-se em tudo como o frade tinha profetizado. Agora aqui estou, cheio de glória é verdade, mas como S.Sebastião sem calções [137]. E todavia não me queixo, se não... do reumatismo.

E por hoje ponto final. O galo da vizinha cantou três vezes, a flanela arrefeceu nos joelhos e o derviche [138] quer dormir. Deita-me a tua bênção e continua a tua raposeira [139] de justo. O que te peço é que não maldigas este massador que os teus irmãos em fanatismo tantas vezes caluniaram injustamente.

João Ninguém


VIII

Pastor amigo

Apesar da resignação que Deus me deu para sofrer as fraquezas do próximo e as minhas, chegou para mim o momento em que a luta pela existência já não tinha razão de ser. Bem me tinha dito o frade - a literatice [140] em terra sem ledores [141] não é um ofício que se tome a sério; é uma simples habilitação para morrer de fome a qualquer esquina. Grande verdade, meu vigário. Pena é que a maioria dos nossos letrados só venham a cair nela quando os pés começam a resvalar-lhes para a cova. Por minha parte não me lastimo do tempo perdido, nem cuides que venho malferido [142] recolher-me ao hospital de sangue [143]. Cansei no caminho e mais nada.

Tendo soado a hora do descanso, peguei do meu bordão de peregrino e como o filho pródigo [144] deixei-me atrair pelas recordações do lar abandonado. O pior foi que vindo em procura da mocidade só encontrei no seu lugar cinzas e ruínas. Tinha desaparecido tudo quanto me foi caro - amigos da infância, árvores benditas, canteiros floridos, folguedos infantis, visões amorosas, tudo isso que pode reproduzir aos olhos apagados de um velho o panorama da sua juventude.

Não te descrevo as impressões que senti, misto de alegria e dor, quando ao chegar ali abaixo, ao rio Alva, lancei os olhos cansados para estas montanhas queridas e avistei no viso da mais alta, luzindo, à semelhança de um marco geodésico, a ermida solitária e branca da Senhora do Colcurinho [145] que se descobre de vinte léguas em redondo! Era como um farol em praia deserta a indicar-me o porto. O sol baixava nas alturas do Buçaco e descendo rojava ainda a sua poeira luminosa pelas encostas requeimadas. No fundo vale que se estende até Santa Cecília as grandes manchas da sombra dos oiteiros adensavam-se gradualmente à medida que o sol ia desaparecendo na orla distante. Eu seguia ao longo da ribeira, no caminho da meia encosta, reconhecendo os velhos lugares, os ermos casais [146] e os antigos povoados que dos píncaros onde poisam espreitam quem passa na estrada. Em baixo alastrava-se a veiga [147], opulenta de verdura, apertada num cinto de rochas e constantemente fertilizada pela torrente que se despenha de açude em açude. De uma e de outra banda olivedos, soutos [148] e pinheiros, e lá em cima, na confluência dos cerros verdejantes, a paz tranquila de Santa Cecília. Quando avistei a igreja batiam trindades na torre. Tirei o meu chapéu como outrora, parei encostado ao bordão e ergui a Deus a minha prece fervorosa. Nunca rezei com tanta devoção, talvez por nunca me ter encontrado tão perto do céu! Aquela prece pareceu-me uma reconciliação e um bálsamo. Não há nada como a religião para dulcificar as úlceras dos corações dos doentes.

Não te direi, por inútil, que não fui recebido em Santa Cecília com umbela [149] nem repiques [150]. Quem havia de reconhecer debaixo destas cãs e destas rugas as feições do traquina que sessenta anos antes por ali foliara em travessuras que passaram? Os rapazes do meu tempo já quase todos estavam na terra da verdade à espera de mim, e os que vieram depois não tinham obrigação de saber o nome de um desconhecido que chegava de longe sem prévio anúncio à missa conventual. De maneira que eu era positivamente um estrangeiro na própria terra. E tudo por culpa minha. Santa Cecília era ainda a mesma doutro tempo, eu é que era outro.

Lá estava no mesmo lugar a solitária igreja aonde vais todos os dias ao cheiro dos seis vinténs da missa e onde eu comunguei pela primeira vez. Ao pé da igreja o pequeno cemitério florido onde descansam todos os meus e onde me esperam os sete palmos a que me dá direito a minha qualidade de cristão. Além o presbitério arruinado, em cujos beirais as andorinhas do meu tempo faziam o seu ninho e aguçavam o meu apetite. Aqui ao pé da praça a humilde casa de Sócrates [151] onde estou curtindo as minhas saudades e esparrinhando no papel esta tinta destinada a narcotizar a tua paciência. Enfim, tudo está no seu lugar, menos a alegria da mocidade, essa alegria vivaz que me lançava nos mundos do sonho e da glória, esse bom humor que se desentranhava nos mais risonhos necrológios de que há memória.

Apesar de todos os pesares, ainda me não arrependo de ter vindo. Ao menos, ao cabo da tormentosa viagem encontro nestes ermos silenciosos e tranquilos, aonde não chegam as escumalhas dos grandes ódios nem o vozear das grandes cidades, a paz do esquecimento, que é o derradeiro ideal a que podem aspirar os míseros vencidos da vida.

Mas, silêncio João! Cautela, não queira o diabo que tanta tristeza junta te faça suspeitar da sinceridade desta carta ou da sanidade do meu juízo.

Bom vigário, até logo.

João Ninguém


IX

Vigário de um anjo

Vou dar-te uma notícia alegre: é esta a última carta que te escrevo. Cuido que está para breve a eterna viagem e sinto-o, não porque me aterrem os pavores da hora final, mas porque se me apegaram ao coração imprevistas afeições com que não contava. E para que suspeites mal de um velho, já impossibilitado para travessuras de alta cavalaria, vou dar-te desde já as razoes do meu dito. Não sei porquê, acharam os nossos patrícios na minha inutilidade, merecimentos de que eu mesmo ando surpreendido. Até me tomam por médico! Chegou hoje uma caravana de doentes a pedir-me receitas e mezinhas! Esculápio [152] nunca se lambeu [153] com tanta clientela. Todos foram servidos. Se tal não fizesse, lançavam-me o fogo à choça. Outros vieram pedir-me conselhos em demandas que trazem nas justiças. Digo no plural, porque bem sabes que há tantas justiças quantos são os juizes [154]. Escuso de acrescentar que todos daqui saíram habilitados a perder a questão e a pagar as custas. Tal houve que me estendeu a mão para lhe ler a sina; fiz de José Bálsamo [155] e li como um livro aberto. Outro quis um remédio para curar uma égua; fiz de alveitar [156] e dei-lhe a mistela. Se a égua morrer, já não é a primeira que me acontece com tais quadrúpedes.

É possível que te não pareça de primeira qualidade o desinteresse com que vou penhorando a gratidão dos que recorrem ao meu préstimo. Reforma, porém, o teu juízo malicioso e não queiras que eu me vingue, suspeitando também da eficácia das tuas missas de seis vinténs. Olha que as minhas receitas nunca mataram ninguém. Curo a sarna com enxofre, as maleitas com quina e a ténia com pevide de abóbora. Pelos conselhos não levo dinheiro e componho as partes [157] de graça. Se roubo como advogado, é só o escrivão e os Pilatos da justiça.

Como te disse no princípio desta carta, sinto-me abalado por dentro e reconheço-me sem calçado para longas viagens. É pena, meu vigário. Tinha-me imposto voluntariamente um encargo honesto, uma alta missão humanitária, e não chego a cumpri-la como desejava. Dei como sabes em mestre-escola desde que cheguei a Santa Cecília; deixei-me arrastar pela ambição de desbastar a selvageria do teu rebanho, que tu com os teus latins e os teus sermões não lograste desembrutecer, e afinal de contas tenho de deixar a obra por acabar. Esta barrela demanda muitos anos e isto [158] está a acabar. Desde que principiei a reflectir nas torturas que me infligiram os velhos mestres-régios de vergonhosa memória, por cujas mãos pesadas foi passando sucessivamente a minha atribulada educação oficial, desde logo compreendi que a mais humanitária das obras de misericórdia não é ensinar os que erram, mas saber ensinar os ignorantes. Saber ensinar, ouviste bem, reverendo? Desde então o meu maior desejo foi o exercício dessa caridade. Santa Cecília bem sabe se, destinando eu os meus últimos dias à realização deste desejo, fiz mais benefícios a seus filhos com o meu abc, do que tu com os teus sermões.

Não te rias da impiedade [159], meu velho. Deus que lê nos corações fará justiça direita a cada qual. Porque eu leio Voltaire [160] e anoto o cura de Meslier [161], já imaginas que estou a arder nas fogueiras com que metes susto às beatas. Olha que tenho o céu mais certo do que tu, e é exactamente por isso que não me afronta o momento terrível que se aproxima. E aproxima-se, sem dúvida, que eu bem sinto o caruncho a roer-me nos ossos e a luz a apagar-se nos olhos; mas não começes já a criar água na boca, às atenças [162] de que te deixo os bens. Se tiveres a caridade de dizer algumas missas por minha alma, já ficas sabendo que perdes o tempo e o feitio, porque vou desta para melhor vida, limpinho como a tua patena [163]. Exactamente como sempre vivi.

E aqui tens tu um homem que bem podia ser um Nababo [164] como tantos inúteis que tu conheces mais eu, e baixa à campa fria sem dez réis para mandar tocar um cego no dia do seu enterro. Hás-de confessar que vim ao mundo com bem pouca sorte. Não te parece, vigário?

Ora pois, dá lá um abraço muito apertado na tua governante e adeus até ao dia de juízo.

João Ninguém


X

Depois da publicação destas cartas, por anuência especial dos herdeiros do vigário defunto, o nome do famoso excêntrico tornou-se popularíssimo em Santa Cecília. Já não eram só os homens bons a quem ele tinha educado os filhos com essa devoção desinteressada que é a mais pura glória dos amigos da infância; eram as crianças agradecidas que recordavam, sorrindo por entre lágrimas, as doces palavras e os salutares conselhos que tinham ouvido da boca desse velho amorável que os libertara das trevas da ignorância e lhes dera a provar o pão espiritual do seu largo saber. Era um coro uníssono de vozes a glorificá-lo depois da morte, bem-dizendo a sua memória e relembrando as suas virtudes.

É certo que no cemitério onde jaz ninguém é capaz de ir apontar com segurança os sete palmos da sua sepultura. No sombrio chão da igualdade ninguém se lembrou de lhe assinalar a cova com uma lápide que recorde o seu nome, com uma cruz, de pau que fosse, a indicar a sua derradeira morada. Entretanto, a fama do seu nome vai crescendo à proporção que os tempos avançam, parecendo que a distância apenas serve para tornar mais sensível a sua falta e mais ruidosa a sua glória.

Santa Cecília paga deste modo a sua dívida; mas exaltando a memória do seu herói, ao mesmo tempo se nobilita [165] com ele.

Se não fora João Ninguém, quem é que no mundo poderia suspeitar da existência desse pequeno burgo silvestre, escondido entre penhascos no fundo de um estreito e escuro vale onde a custo penetra a luz directa do sol nesses pálidos e curtos dias do Inverno em que o frio gela as fontes e a neve se despenha das serras como as avalanches dos Alpes? Se não fora João Ninguém com as suas cartas famosas, hoje lançadas aos quatro ventos, nunca Santa Cecília teria a honra de ler o seu nome em letra redonda; de ouvir reproduzida ao longe a sua história no eco prolongado das gazetas; de se apresentar ao viajante que chega, como pátria autêntica do último cavaleiro andante das cavalarias da terra; de viver, enfim, na posteridade à sombra querida do seu glorioso patrício!

Por esta forma vai de dia em dia crescendo tão rapidamente a lenda piedosa de João Ninguém, o terno amigo dos pequeninos filhos do povo, que não será para estranhar que dentro em pouco a Junta de Paróquia da Freguesia se lembre de requerer a Roma a canonização do inolvidável personagem. Milagres fez ele e grandes, como é fácil de provar. O seu ideal de pobreza e o exercício constante da caridade aproximam-no dos grandes santos da folhinha [166]. Desvalido como era, nunca da sua porta se retirou pobre sem esmola, ou mendigo suplicou pousada que negassem. Que mais é preciso para documentar um processo, pelo menos de beatificação?

Num ponto só andam agora divididas as opiniões em Santa Cecília. Que desgostos íntimos seriam esses a que se refere tantas vezes nas suas cartas o misterioso João Ninguém?

Fantasias de velho rabujento - asseveram uns; desenganos cruéis - opinam outros. Não abandona o mundo para se amortalhar em vida se não aquele que deixou o coração em pedaços pela estrada percorrida - dizem os mais experientes. Quem sabe lá os motivos que o trouxeram, ao cabo de mais de meio século, a procurar nas solidões do ermo, como os velhos anacoretas [167], o repouso de tão cansada velhice? Esses motivos levou-os ele para a cova; deixem dormir quem dorme - aconselham os mais sensatos.

Santa Cecília tem razão. É melhor não ir perturbar o sono eterno do justo com perguntas indiscretas e contentar-se com esse reflexo de glória que o memorável João Ninguém, mesmo da cova, está projectando sobre a terra onde amanheceu para o mundo. A ninguém aproveita já o romance dessa vida impenetrável que teve por último capítulo a derradeira prece do velho vigário soluçada sobre as cinzas do amigo. Que importa aos vivos a história trágica de um morto que levou consigo para debaixo do chão o segredo das suas lágrimas? Naturalmente atravessou a vida com o sorriso nos lábios e a morte no coração, seguindo o rasto de uma esperança que se desfez no vácuo. Talvez. Mas isso que importa aos que ficaram a chorar por ele?

Portanto, que Santa Cecília se limite a glorificar o seu patrício, que é o símbolo da sua própria glória, e que João Ninguém viva na bem-aventurança largos anos sem nós - são os votos mais ardentes que nesta ocasião dirigem ao Altíssimo os admiradores mais sinceros do mais ilustre e enigmático personagem que viu a luz do dia em terras de Santa Cecília.

 

FIM

SIMÕES DIAS
Março de 1898