LEONARDO  MATHIAS

Busto de Leonardo MathiasLeonardo Gonçalves Mathias, nasceu na Benfeita em 13 de Dezembro de 1872 e faleceu com 78 anos de idade, no dia 30 de Dezembro de 1950, em Lisboa, sendo sepultado, conforme seu expresso desejo, no cemitério da Benfeita, para onde foi trasladado em 30 de Janeiro de 1951.

Era filho de José Gonçalves Mathias e de Ana de Jesus. Foi casado com Maria da Assunção Nunes Mathias, de quem teve 2 filhos, Mário Mathias, em 1899 e Marcello Mathias, em 1903.

Reformado da função pública, em 1926, do Ministério das Finanças, passou a viver com sua esposa, na sua casa do Bairro de Santa Rita, na Benfeita, a maior parte do ano, apenas se ausentando para Lisboa, onde tinha residência na Rua do Diário de Notícias, por motivos de saúde, e apenas nos meses mais rigorosos de Inverno.

Em 28 de Setembro de 1942, a Câmara Municipal de Arganil homenageou Leonardo G. Mathias, ainda em vida, dando o seu nome a uma rua da aldeia.

Busto de João Machado Jr. - Coimbra 1961

 

Campa de Leonardo Mathias e esposaFoi o grande impulsionador da criação da Liga de Melhoramentos da Freguesia da Benfeita, em 1945, tendo sido seu fundador e sócio benemérito desde 1948. Foi eleito presidente da Assembleia Geral desde a data de criação da Liga, cargo que manteve até ao seu falecimento.

O seu caloroso bairrismo e amor às coisas da terra fizeram erguer à sua volta um verdadeiro movimento de respeito, veneração e simpatia. A seu lado teve uma esposa dedicada, inteligente e carinhosa, cuja bondade e compreensão a fizeram merecedora da estima de todos. Seus filhos alcançaram lugares de destaque na cena política nacional, razões pelas quais a ilustre família Mathias teve um lugar cativo no coração dos Benfeitenses.

Sepultura de Leonardo Mathias e esposa, no cemitério da Benfeita

A 4 de Janeiro de 1951, o Jornal "A Comarca de Arganil" publicou a notícia do funeral do Dr.Leonardo Gonçalves Matias, no cemitério do Alto São João, em Lisboa:

Leonardo Gonçalves Matias FALECIMENTOS

Leonardo Gonçalves Matias

LISBOA, 31 - No hospital de Santa Marta, para onde fôra transportado há dias, da sua residência nesta cidade, faleceu ontem à tarde o Sr. Leonardo Gonçalves Matias, respeitado e muito querido componente da colónia da Benfeita e antigo funcionário do Ministério das Finanças.
O saudoso extinto que resistira, até agora, às sucessivas crises da doença que o apoquentava, morre com 78 anos e deixa em todas as pessoas que com ele conviveram as melhores e mais imperecíveis recordações. Era um carácter de eleição, chefe de família exemplar e grande amigo da sua terra.

Deixa viúva a Srª D. Maria de Assunção Nunes Matias, era pai dos Srs. Drs. Marcelo Matias, embaixador de Portugal em Paris e Mário Matias, inspector da Administração Política e Civil, do Ministério do Interior, sogro das Srªs. D. Fedora Zaffiri Matias e D. Maria Manuela Sanches Matias, avô da Srª D. Maria Amélia Matias Parente e cunhado do Sr. Dr. José Elias Gonçalves, Secretário-Geral do Governo Civil de Braga.

Após o falecimento, o corpo do extinto foi conduzido para a igreja dos Anjos, de onde, hoje, às 16 horas, saiu o funeral para jazigo no cemitério do Alto de S. João. E embora o passamento não tivesse sido divulgado, foram em elevado número as pessoas que apresentaram condolências à família enlutada e aguardaram no cemitério a chegada do carro funerário. Entre outras, fixámos as seguintes, que acompanharam o Sr. Dr. Mário Matias, esposa e filha, nesta jornada dolorosa: Virgílio Maia, Dr. Óscar Fragoso e esposa, Comendador António Duarte Martins, Dr. António Luís Gonçalves, Francisco Moreira Vinagre, José Ricardo da Costa, Eduardo Filipe, Dr. José Martins da Fonseca, José Angusto Rosário Dias, Capitão Joaquim Vieira Justo, Capitão Parreiral da Silva, Dr. Ângelo da Fonseca Rosário Dias, Dr. Fernando Maia Vasconcelos Dias, António Joaquim Júnior, António José Bravo, Adelino dos Santos, Luís dos Santos, José Martins Ribeiro, José Luciano Correia Amaral, Octávio Amaral, José Martins Pereira, José Rosário, D. Maria de Assunção Peres, D. Maria do Carmo, Manuel Pedro, César Gonçalves, António Simões Quaresma, Tenente Joaquim Pina, Eng. Ângelo Rosário, Luís Rosário Duarte Carvalho, António dos Santos Tomé, D. Lúcia Duarte Rosário Carvalho, António Rosário Oliveira Dias, Dr. Luís Gonzaga Oliveira, D. Deolinda Costa, António Augusto, Aníbal Filipe, António Gonçalves Pereira, Inspector Escolar Manuel Rego, José Pereira da Fonseca, Angusto Alcoforado, Eugénio Ferreira Soares, José Dinis, Augusto Costa, José M. Pereira, António Ferreira Gomes, João Figueiredo, Sérgio Martins, José Martins da Cruz, Humberto Rosário da Fonseca, Franco Nunes, Joaquim Bernardo, Armindo Pereira, Américo Pereira, Jaime Martins dos Santos, Eduardo Jorge Rodrigues Júnior, etc.

A Liga de Melhoramentos da Freguesia da Benfeita, de que Leonardo Gonçalves Matias era presidente da Assembleia Geral, estava representada pelos directores Srs. Tenente-Coronel Dr. Elisio da Fonseca, António Correia, José Rosa Gomes, António Pereira, António Nunes Leitão, Humberto Rosário da Fonseca e José Dias. O estandarte associativo cobriu a urna e, sobre esta, foi deposta uma palma de flores, oferta dos corpos gerentes da Liga.

No próximo sábado, às 11 horas, será realizada missa por alma do extinto na igreja dos Anjos e em 28 de Janeiro far-se-à a trasladação da urna contendo os restos mortais para o cemitério da Benfeita.

A COMARCA DE ARGANIL, que tinha no saudoso extinto um bom e dedicado amigo, fez-se representar no funeral pelo seu redactor na capital, Luís Ferreira, e reitera as mais sentidas condolências à família enlutada.

A 20/01/1951, A Comarca de Arganil publicava uma extensa lista com o nome de centenas de pessoas que tomaram parte nas cerimónias fúnebres e, a 30 de Janeiro, o mesmo jornal viria a publicar uma reportagem sobre a trasladação e o funeral no cemitério da Benfeita:

FALECIMENTOS

Mais de mil pessoas acompanharam à sua última jazida os restos mortais do estimado benfeitense Leonardo Gonçalves Matias

Repousam já, para sempre, no cemitério da sua aldeia, os restos mortais do nosso saudoso amigo Leonardo Gonçalves Matias que no dia 30 do mês passado faleceu na Capital.
Constituiu o préstito fúnebre da sua trasladação uma impressionante e grandiosa manifestação de pesar, pelo enorme número de pessoas que nele tomaram parte e ainda pela elevada categoria intelectual e moral da maior parte delas.
O que impeliu toda essa gente ao cumprimento deste imperioso dever cívico e social? As belíssimas qualidades morais e de carácter do extinto!
Assim, homenageando esse exemplaríssimo chefe de família que tão dignamente soube cumprir o seu dever, educando pela palavra e principalmente pelo exemplo, os seus filhos dilectos que, em tudo, são absolutamente dignos daqueles de quem vêm - pessoas que todos estimam e apreciam pela sua impecável linha de conduta social, pela sua inteligência e pela boa vontade, de que a todos dão as provas mais evidentes, de serem úteis a quantos os procuram, para os ajudar a solucionar os problemas da sua vida, quando disso necessitam.
O prestigioso benfeitense amou, também, até ao sacrifício, a sua terra natal, promovendo e auxiliando todos aqueles melhoramentos a que ela tinha direito.
A sede da freguesia da Benfeita é hoje uma terra muito progressiva e, para o ser, contribuiu imensamente a sua estrada de acesso que, pelas dificuldades a vencer para a sua construção, e ainda pela sua extensão, exigiu grande soma de esforços da parte de todos os seus habitantes e, principalmente, dos mais entusiastas, entre os quais figurava sempre na primeira linha o querido morto.
Foi, finalmente, o saudoso Leonardo Matias, o cidadão prestante e bondoso que todos os seus conterrâneos multo respeitavam.
Era ele uma pessoa de irradiante e comunicativa simpatia, exprimindo com muita facilidade os seus pensamentos e com a clareza de quem só diz o que é preciso.
Tinha o aspecto grave e sereno das pessoas sérias e honestas. Nunca afrontou o seu semelhante, antes tratando toda a gente com a gentileza que é própria das almas bem formadas.
Foram, pois, todos estes predicados tão apreciáveis que aquela multidão de pessoas de todas as categorias sociais quis homenagear e acompanhar à sua última jazida, no impressionante silêncio de que as almas se encontram possuídas nestes acompanhamentos, em que só a prece sentida se vai doce e suavemente ciciando baixinho, a pedir a Deus o descanso eterno de quem vai a enterrar.
A essa prece colectiva nos associámos também, como era nosso dever de crente sincero, em nosso nome pessoal e ainda no do jornal que o querido morto tanto apreciava, pelo seu esforço na propaganda dos melhoramentos da sua terra natal e na de todos os demais da nossa região. Por tal motivo nos curvamos perante os restos mortais do ilustre extinto que tanto honrou com a sua actuação sincera e honesta e com a sua inteligência, a terra em que nasceu.
Está toda a sua ilustre família de luto pesado pelo falecimento do seu chefe tão querido. Mas deve servir-lhes de lenitivo, tão salutar e tão justo, o convencimento de que todos pranteiam e sentem a sua dor pelo multo que queriam e estimavam o chorado extinto.

A trasladação dos restos mortais do querido benfeitense efectuou-se anteontem, saindo de madrugada a urna funerária do cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, onde se achava depositada.
Como estava previsto, verificou-se às 10 horas a chegada à Benfeita do cortejo, constituído por dezenas de automóveis em que viajavam pessoas de família do extinto - entre as quais seu filho Sr. Dr. Mário Matias, inspector da Administração Política e Civil do Ministério do Interior, sua nora Srª D. Maria Manuela da Silva Sanches Matias e sua neta Srª D. Maria Amélia Matias Teixeira Parente - e numerosos amigos de Lisboa, Alcobaça, Coimbra, Braga, Aveiro, S.Martinho da Cortiça, etc. Em Cója, mais automóveis e três camionetas, idas desta vila, se incorporaram no cortejo.
Impossivel tomar nota das pessoas que tomaram parte no funeral, pois o seu número ascendeu a mais de 1.000.
A urna, depois de retirada do carro fúnebre, foi colocada na carreta da Liga de Melhoramentos da Freguesia da Benfeita, após o que o funeral se organizou, indo à frente as Irmandades de Nossa Senhora de Assunção e Santíssimo, da Benfeita, e a de S. Nicolau, dos Pardieiros, e as crianças da Cruzada Eucarística.
Sobre o ataúde foram colocadas várias coroas e ramos de flores naturais e artificiais.
Através das ruas da localidade, o extenso cortejo foi até ao Tanque, onde parou alguns momentos, em religioso silêncio, junto da residência do finado, seguindo depois para a igreja, aí tendo lugar a missa de corpo presente, celebrada pelo Rev. José Rodrigues Redondo, coadjutor da freguesia. O Rev. Nunes Pereira, de Côja, que proferlu algumas palavras de homenagem ao morto, explicava as cerimónias litúrgicas da missa.
Finda esta, reorganizou-se o funeral, cuja extensão ia da igreja até ao cemitério da Corga.
Tomaram parte no préstito as filarmónicas de Arganil e do Barril de Alva, que executaram sentidas marchas fúnebres.
Nos olhos de muitas pessoas viam-se lágrimas, nota bem frisante da falta que vão sentir os benfeltenses com o desaparecimento deste seu dedicado conterrâneo.
Junto do coval onde o saudoso extinto foi sepultado e onde já repousavam os restos mortais dos seus progenitores, assim sendo cumprido o desejo que sempre manifestara em vida, proferiu comoventes palavras de saudade o Sr. António José Bravo, residente em Lisboa, amigo de Leonardo Matias. A Benfeita chora-o - disse - e tem razão para isso, pois com a sua morte perde um benfeitor, que adorou a sua terra, por ela tendo uma paixão idolatrada, um culto fervoroso, depois do que dedicava à família, que estremecia também; e frisa que há muito não assiste a tão grande manifestação de sentimento como aquela, o que mostra que o povo da Benfeita sabe ser grato a quem foi seu amigo, amigo que ele também perdeu.
Falou, depois, o Sr. José Rosa Gomes que, em nome da Liga do Melhoramentos da Freguesia da Benfeita, disse da mágoa que todos sentiam com o desaparecimento do grande benfeitense.
Em breves palavras, que aquela hora dolorosa e de angústia não permitia grandes considerações, o Sr. Dr. José Elias Gonçalves, Secretário-Geral do Governo Civil de Braga e cunhado do extinto, testemunha, em seu nome e no de toda a família, a sua rendida gratidão a todos quantos ali vieram dizer o último adeus a quem foi um dedicado amigo da freguesia em que nasceu. Este dilúvio de afectos e de simpatias - disse, visivelmente impressionado - a que os seus olhos, rasos de lágrimas, assistiam, comoveram-no. Leonardo Matias - vincou - viveu para três cultos que lhe enchiam a vida: a dedicação pela família, a dedicação pelos amigos e a dedicação pela sua terra. Ele era dotado de uma paixão bairrista, um atleta de energia indomável, dominado por quantas aspirações incendiavam os filhos da Benfeita; e, assim, a sua memória ficará intacta em todos os benfeitenses que têm amor à aldeia onde nasceram. Findou pedindo a Deus o descanso eterno da sua alma.
Para as borlas do ataúde, foram organizados os seguintes turnos:
1º. José Luciano Correia Amaral, Virgílio Maia, José Gaspar, Armando Gonçalves Pereira e António Graça;
2º. Capitão José Vieira Justo, José Augusto da Fonseca, Manuel Henriques, José Carlos e Adelino F. Nunes;
3º. Dr. António Luis Gonçalves, Frederico Simões, José do Rosário Gonçalves, Emídio Freire, António Castanheira e Joaquim Bernardo;
4º. José Alves Esteves, Eduardo Filipe, Abel Perdigão, Francisco Moreira Vinagre e Veríssimo Duarte;
5º. Dr. Alfredo de Brito Pereira, Dr. Casimiro Águeda de Azevedo, António Águeda, Albano Pires Dias Nogueira, José Francisco Filipe e José Pedro Vasconcelos;
6º. Dr. Vasco de Campos, Dr. Parente dos Santos, Alfredo Nunes dos Santos Oliveira e Casimiro de Azevedo.
De entre as multas entidades que se fizeram representar, conseguimos tomar nota das seguintes: Câmara Municipal de Arganil, pelo seu presidente, Sr. Dr. António Luis Gonçalves e vereador Sr. Jaime da Costa Matias; a Junta Provincial da Beira Litoral, pelo seu chefe de secretaria Sr. José Alves Esteves; a Casa da Comarca de Arganil, pelo Sr. António Correia; a Liga de Melhoramentos da Freguesia da Benfeita, pelos Srs. José Rosa Gomes, António Correia, António Pereira, José Dias e pela delegação; a Liga de Melhoramentos dos Pardieiros, pela sua delegação; a Misericórdia de Arganil e os Srs. Dr. Eugénio de Lemos, Governador Civil de Coimbra, Conselheiro Dr. Baptista Rodrigues, de Lisboa, Capitão J. Simões Martinho, de Coimbra, Comendador António Duarte Martins, do Estoril, e Francisco Filipe, de Côja, pelo Sr. Dr. António Luís Gonçalves; o Sr. Dr. Lisboa Mendes, Subdelegado de Saúde Concelho, pelo nosso colega José Castanheira Nunes; a Casa Regional de Vinhó, pelo Sr. Joaquim Gregório Filipe; os Srs. Dr. Costa Rodrigues, Secretário-Geral do Governo Civil de Coimbra, Dr. Baltasar de Carvalho Alberto, médico veterinário, Dr. José Alves Pais e Alfredo Costa, pelo Sr. Frederico Simões; o Sr. António Nunes Leitão, pelo Sr. João Jorge; o Sr. Dr. Bernardo Baptista Ferreira, Subdelegado de Saúde de Góis; o Sr. Dr. Alberto Vale, pelo Sr. Eduardo Filipe, etc. etc.
O Município ia também representado pela respectiva bandeira.
A Associação dos Bombeiros Voluntários Argus fez-se representar pelo seu Inspector-Comandante Sr. Frederico Simões e pela corporação, com o seu pronto-socorro e o respectivo estandarte.
Dirigiu o funeral o Sr. José Rosa Gomes, tesoureiro da L. M. F. B.
A Comarca de Arganil fez-se representar pelos seus Director e Editor.

O Sr. Dr. Mário Matias, filho do saudoso finado, recebeu os seguintes telegramas:

LISBOA, 27, às 16:35
Antigo professor da Benfeita, amigo e companheiro de lutas pela estrada do querido morto, associo-me à dor inconsolável que neste momento punge, não só a família enlutada, mas toda a Benfeita, acompanhando-o em pensamento à sua última morada. Igualmente junto as minhas fervorosas preces para que a sua alma seja tão bem recebida no Céu quanto bem soube em vida dar um nobre exemplo de esforço e dedicação pelo bem colectivo, concretizado no da sua terra. Saudoso amigo, companheiro leal e inesquecível de lutas, apesar de só tarde ter sabido do seu passamento, aqui estou também no triste momento, fazendo justiça ao seu carácter, à sua alma de eleição, aos seus ilimitados sentimentos de pai. Paz à sua alma.
João Ferreira da Costa.

QUELIMANE (ÁFRICA ORIENTAL), 26, às 10:24
A V.Exª e sua Exmª família, enviamos sentidos pêsames.
José Pereira, Casimiro Correia, António Dias.


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