HISTÓRIAS  DA  NOSSA  TERRA

As alcunhas, na Benfeita!

por: Vivaldo Quaresma

Desde os tempos de antanho que, na Benfeita, era hábito rotular as pessoas, com alcunhas. Era como a designação do clã familiar. A alcunha, uma vez criada e "colada", estendia-se a todos os membros da família: ascendentes, descendentes e colaterais, perdendo, muitas vezes, o seu significado inicial. Todos eram englobados na alcunha, o que constituía, por assim dizer, um autêntico "brasão familiar".

Desde a família com mais posses à mais necessitada, ninguém era poupado na Benfeita; no entanto, os Mathias (com th), por exemplo, foram dos poucos cujo nome familiar foi respeitado, pois ninguém ousava alvitrar outro nome a esta ilustre e poderosa família de advogados, políticos e diplomatas, embora, mesmo assim, ainda houvesse quem os referenciasse pela sua área de residência, uma vez que havia Mathias na zona do "Perna de Pau", no bairro do "Oiteiro" e na aldeia "Relva Velha".
Até mesmo, nos seus textos e crónicas, o Dr. Mário Mathias refere "com toda a naturalidade", e para que não pudesse haver dúvidas ou confusões com outras pessoas, as alcunhas pelas quais as pessoas descritas eram conhecidas, uma vez que os seus nomes se repetiam com muita frequência na aldeia, mas as alcunhas, não! Eram únicas - mas, nem sempre!

Uma das pessoas que mais se distinguiu na nossa terra como "especialista" em atribuir alcunhas aos outros foi António Nunes da Costa, também ele conhecido por "Brotas", falecido em 2001, com 88 anos de idade. Ele era um caso de alcunha dupla, posto que pertencia ao clã dos "Maçarocas", que já era a alcunha do seu irmão José Nunes da Costa.

Mas as alcunhas também podiam surgir no seio familiar com diminutivos ou expressões carinhosas, ou no meio escolar, principalmente se o visado tivesse alguma característica na sua personalidade ou fisionomia que o distinguisse, por ser feio, gago, gordo ou magro demais.

O ritual das alcunhas era quase que imperativo porque, nessa época, havia muita gente na terra e quando se queria referenciar alguém através do seu nome próprio, não era tarefa fácil, pois havia muitos com o mesmo nome e apelido e, por essa razão, tinha de se encontrar uma forma para facilmente se poder identificar uma pessoa. Mas, às vezes, uma alcunha criada de modo informal, nem sempre é um epíteto que se fundamenta no local de nascimento, na profissão ou na qualidade mais notável de uma pessoa. Ela identifica um indivíduo de acordo com uma característica pessoal, física ou moral, destacando-a negativamente, como por exemplo: maneta, perneta, coxo, careca, gorda, mudo, aleijadinho, ceguinho, suão, etc. que, não sendo, regra geral, bem aceite pelo próprio, era por ele tolerada com alguma indiferença.

A maior parte das alcunhas eram cognomes derivados das actividades profissionais de cada um, como, por exemplo: moleiro, sacristão, sapateiro, padeiro, carteiro, barbeiro, ferreiro, coveiro, modista, colhereiro, cauteleiro, cantoneiro, etc. Outras eram derivadas de conceitos comportamentais, como: péssimo, fala-tenrinho, boticas, piriscas, rendas, pica-chouriços, sapacuja, lé-lé, badoco, etc.

Até os habitantes das povoações recebiam denominações especiais, ou gentílicos, como por exemplo: os Balseiros (da Benfeita); Espicha-sapos (da Deflores); Cavaleiros (do Enxudro); Caiados (das Luadas); Negritos (do Monte Frio); Berrumões (do Pai-das-Donas); Ralhadores (dos Pardieiros); Penteadinhos (da Relva Velha); Casaquinhas (do Sardal); Lambazes (da Cerdeira); Magusteiros (da Esculca); Bezerros (de Côja); Ratos (de Avô); Pintassilgos (de Arganil), etc. - Mas, isto, até era uma coisa natural, porque até os lisboetas já eram conhecidos por "alfacinhas" e os portuenses por "tripeiros".

Mas, nem sempre as alcunhas eram pacificamente aceites pelas pessoas visadas. Alguns detestavam-nas e recusavam a associação do seu nome a termos insultuosos e vexatórios; mas, quanto mais protestavam, mais a alcunha se lhes colava, principalmente quando havia discussões ou zaragatas. Algumas alcunhas eram, mesmo, cruéis e de muito mau gosto, como: sobe-e-desce, maria bigode, cabeça-de-porco, caga-telhados, caga-na-bota!

E, muitas vezes, ela podia ser tão cruel que indignava e revoltava as pessoas visadas, podendo determinar o corte de relações pessoais, levar à marginalização do convívio dessa pessoa ou, mesmo, originar comportamentos negativos que podiam terminar em suicídio ou em reacções igualmente violentas, geradoras de desacatos que podiam terminar em sangue e morte.

O CRIME DA BENFEITA

Fez 90 anos que Joaquim Alves, da Cerdeira, também conhecido por Joaquim "Relvas", de alcunha "caga-na-bota", foi preso por ter matado à facada o seu cunhado, Alfredo Bernardo, da Benfeita.

Foi um crime de violência brutal que chocou as pessoas da aldeia e toda a comunidade benfeitense espalhada pelo país, corria o mês de Janeiro, de 1929.

A mania das alcunhas era um hábito recorrente na nossa aldeia e, a bem dizer, em todas as aldeias do nosso país; no entanto, muitas vezes, as pessoas visadas nem sempre gostavam do epíteto e reagiam violentamente, principalmente quando o álcool se lhes misturava com o sangue.

Eis, aqui, uma história dramática, verdadeira, arrepiante, que recolhemos no jornal «A Comarca de Arganil»:


NA BENFEITA

Um rapaz de 26 anos mata, à navalhada, um seu cunhado de 22 anos

O Crime da BenfeitaBenfeita, 27 - Um crime horroroso de assassinato, que manteve toda a noite de sexta para sábado todos os ânimos abalados de comoção, foi levado à prática com requintes de canibalismo, nesta freguesia, por um tal Joaquim das Relvas.

O cadáver da infeliz vítima, que se chamou Alfredo Bernardo, foi hoje autopsiado no Cemitério da Cerdeira, e dali, para onde tinha seguido, foi novamente removido para esta localidade, sendo sepultado pelas 17 horas.

É grande ainda o espanto que se nota em todas as fisionomias. Na próxima correspondência pormenorizarei.

 

Côja, 27 - Acabámos de chegar da Cerdeira onde assistimos à autópsia de Alfredo Bernardo, cobardemente assassinado anteontem na vizinha freguesia da Benfeita. Conseguimos ali ouvir algumas pessoas da Benfeita e eis o que nos contaram:

"Durante o dia de sexta-feira, Joaquim Alves, o "Joaquim Relvas", do lugar da Cerdeira, filho de José Alves, o "José Relvas" e de Mariana da Silva, de 26 anos, casado com Lucinda da Gama Leitão, da Benfeita onde vive, estivera na taberna de Artur Dias & Irmão, a jogar as cartas. À noite a Lucinda mandou-o chamar ao que ele não obedeceu.

Pouco depois foi ela chamá-lo e ele disse-lhe que já ia. Como não aparecesse, a Lucinda voltou a chamá-lo, fazendo-se acompanhar duma filha dos dois, de 2 anos, a quem o "Relvas" pegou ao colo. Demorou-se ainda algum tempo e veio depois ter a casa do Sr. Antonino Gonçalves, onde andava um baile motivado pelo casamento de um cunhado do Relvas e que se realizara na véspera. Ali bebeu alguns copos de vinho e dirigiu-se à casa do sogro para, dizia, o matar. Como ele já estivesse na cama e lhe não falasse, foi para casa, onde barafustou com a mulher, espancando-a barbaramente. Quis o acaso que nesta altura aparecesse o Alfredo Bernardo que ia para casa da namorada e que era em frente da casa do Relvas. Como ouvisse os maus tratos que ele infligia à irmã, disse-lhe que ao outro dia falariam. O Alfredo entrou para casa da namorada, Aida Mendes Correia de Frias, filha de Manuel Simões, com quem devia casar na próxima quinta-feira, não se lembrando decerto mais do cunhado. Talvez passado mais duma hora, aparece o Relvas à porta do Simões chamando com muito bons modos o Alfredo, que lhe disse não o atender. Como ele insistisse em lhe querer falar e sem suspeitar da cilada que o Relvas tinha armado, desceu para o ouvir. Porém, o Relvas, logo que o Alfredo abriu a porta, e ao escuro, vibrou-lhe uma enorme facada no ventre que lhe fez sair todo o intestino delgado e que também furou. Uma vez o Alfredo no chão, deu-lhe mais duas facadas de respeito, uma no fundo do esterno a meio do apêndice xifóideo, e uma outra nas costas que lhe cortou o diafragma, o baço e o pericárdio.

A navalha devia estar bem afiada e ser de grandes dimensões a avaliar pelo tamanho e profundidade dos golpes dados com todos os requintes de ferocidade. A seguir à sua proeza fugiu, deixando os tamancos no local do crime. As meias, deixou-as junto à igreja da Benfeita, onde passou na sua fuga desordenada para a Cerdeira. Aqui, bateu à porta do regedor José Augusto d'Almeida, a quem pediu para o deixar ficar em sua casa, pois queria divorciar-se da mulher e não queria ir mais à Benfeita. O José Augusto, sem suspeitar da fera que tinha na sua presença, aconselhou-o a ir para casa dos pais e que ao outro dia falariam sobre o caso. Qual não foi o seu espanto quando ali lhe aparecem uns cabos da Benfeita à procura do bandido. Cercaram-lhe então a casa e prenderam-no, fazendo-o conduzir à cadeia de Arganil. Pela atitude do povo da Benfeita, quer-nos parecer que se o selvagem não tivesse fugido, ali receberia a justa compensação do seu trabalho.

Este crime despertou nesta região a maior repulsa, talvez por estarmos habituados a eles se não darem. É o primeiro na comarca de Arganil de há 30 anos para cá; praticado com tanta ferocidade cremos mesmo que nunca haveria. O assassinado, que gozava das maiores simpatias, era filho de Joaquim Bernardo e de Maria da Assunção Leitão, contando só 22 anos de idade. Era muito bom rapaz, pelo que era por todos deveras estimado.

Eis a largos traços o que conseguimos averiguar. Depois de nós falará a Justiça, que não deixará de punir severamente aquela fera indigna de pertencer à raça humana. O cadáver do inditoso Alfredo voltou para a Benfeita seguido de enorme acompanhamento, lamentando todos a sua triste sorte.

- Elvas.

CA 1516_2-29/01/1929

A tragédia da Benfeita

Sr. Director de "A Comarca de Arganil":

- Permita-me V. que eu venha dizer duas palavras sobre a reportagem deste crime, que vem sendo um tanto deficiente, com prejuízo da opinião que a imprensa é destinada a orientar.

O preso foi sempre optimamente comportado. Que haja a primeira pessoa que o acuse de um acto de maldade.

Seus velhos pais, honrados e dignos, deram-lhe a educação da humildade e do trabalho, que sempre o norteou. Apenas lhe notavam, de vez em quando, umas perturbações, que toda a vizinhança atribuía à meningite que o atacou em criança. Essas perturbações acentuavam-se quando bebia vinho.

O crime foi obra de um desespero grande, que o pôs fora de si durante um pedaço de tempo.

Foram, por um lado, os insultos intempestivos da mulher (que motivaram a intervenção de alguns vizinhos, censurando-a) e por outro, o desafio que lhe foi fazer à porta o infeliz morto, seu cunhado, vexando-o não só com ameaças, mas também com a alcunha irritante de "caga na bota". Isto, talvez para se solidarizar com a irmã, talvez para se mostrar corajoso e valente diante da noiva, que mora ali mesmo.

A verdade é que se trata de um crime passional, de um crime de desespero, de um crime de ocasião, e não de um crime frio, premeditado. Basta dizer-se que sempre se deram bem, o preso e o morto, tendo até o preso ido nessa manhã, à Cerdeira, buscar um cesto de ovos para a boda daquele. Talvez que, por isto mesmo, o desafio e o vexame custassem mais ainda a sofrer ao Joaquim Alves. Nenhuma desconsideração nos abala tanto, como uma desfeita vinda de pessoa que julgávamos amiga.

Foram as perturbações da doença e de algum vinho que trazia, juntas com os insultos da mulher e somado tudo aos vexames e ao desafio do cunhado, que puseram o Joaquim Alves fora de si.

Quero que me respondam a esta pergunta: Se não existissem os insultos da mulher e se não existisse o vexame e o desafio do cunhado, o Joaquim Alves teria cometido tal crime?

Não, pois até tinha ido, de manhã, buscar um cesto de ovos para o casamento dele.

A referência que os jornais fazem ao regedor da Cerdeira, também não está conforme aos factos. O Joaquim Alves foi entregar-se voluntariamente ao regedor, contando-lhe a desgraça que acabava de suceder. Confessou o seu crime. Estes os factos.

Não pretendo dirimentes para o meu constituinte, nem preciso da piedade alheia para encher os olhos de água perante as desgraças.

Sei muito bem quanto pesa, em toda a gente, o luto desta tragédia.

Mas quero que se diga a verdade toda, com dignidade e com consciência, como se estivéssemos aos pés de Deus.

Não roubemos ao desgraçado preso as atenuantes que acompanharam o seu acto desvairado, porque elas são hoje, desprezado de todo o mundo, talvez a sua única riqueza.

De V. , etc.,

- O advogado, José Elias Gonçalves.

CA 1518_2-05/02/1929

"Caga-na-bota" é um remoque, uma expressão jocosa com carga ofensiva e insultuosa que pretende ridicularizar ou vexar alguém.

Desconhece-se a exacta origem desta expressão ou a razão pela qual ela servia de alcunha ao Joaquim Alves; mas, salvo melhor opinião, um indivíduo que promete fazer uma coisa ou algo, a alguém, e depois não cumpre; isto é: "arrepia caminho" ou "mija-se", pode ser considerado um "caga-na-bota". O que não é a mesma coisa que "caga-na-saquinha", "caguinchas" ou "cagarolas", alcunha dos medrosos ou "caga-lérias", dos aldrabões fala-barato. É muito mais agressiva!

A tragédia da Benfeita

Continua a trazer o povo vivamente impressionado, sendo, por isso, ainda o assunto de todas as conversações na freguesia da Benfeita, o crime da noite de 25 para 26 do mês findo, em que perdeu a vida um rapaz de 22 anos, o Alfredo Bernardo, e levou à cadeia o Joaquim Alves (o Joaquim Relvas).

Para deporem no processo, têm sido chamadas ao tribunal desta comarca muitas pessoas daquela freguesia.

A navalha com que o assassino perpetrou o crime, já foi encontrada na ribeira que passa na Benfeita, em frente da casa do Sr. António Francisco Nunes (o Péssimo).

A Lucinda da Gama Leitão, mulher do Joaquim Relvas e irmã do assassinado, tem andado tresloucada, pretendendo suicidar-se, atirando-se para precipícios. Há poucos dias ainda, indo ao cemitério, atirou-se de um muro alto que ali há, ficando bastante maltratada.

CA 1519_1 - 08/02/1929

Ainda a tragédia da Benfeita

Côja, 13 de Fevereiro de 1929.

Sr. Director de «A Comarca da Arganil»:

No seu nº 1518 publicou A Comarca uma carta do ilustre advogado Sr. Dr. Elias Gonçalves, classificando de deficientes as reportagens feitas sobre este nefando crime. E porque nos sentimos visados como repórter muito humilde que a esse crime se referiu, eis o motivo do nosso aranzel de hoje.

S. Ex.ª pretende apresentar-nos o Relvas como um cordeirinho sem mancha, uma inocente vítima decerto da maledicência do povo e dos informadores dos jornais; e não é bem assim.

Estamos de acordo que tenha sido bem comportado, mas só até que a ferocidade dos seus instintos pôde bem pôr-se em cheque. E são assim quase todos os criminosos.

Dizem-nos pessoas da Benfeita que ele, por qualquer coisa que lhe fizessem, premeditava logo a vingança.

Mas isto não vem para o nosso caso. Deixamo-lo à apreciação dos dignos magistrados que hão-de julgá-lo.

Pretende S. Ex.ª convencer a opinião pública (e está bem, é o seu papel de advogado) de que o crime não teve premeditação e derivou apenas do insulto do Alfredo lhe chamar caga na bota.

Se assim era, devia o Relvas ter matado toda a gente, porque ninguém, por assim dizer, o tratava por outro nome. Se foi por isso, porque não veio o Relvas defrontar-se com o cunhado imediatamente? Porque, só passada cerca de uma hora, quando os bons sentimentos do Alfredo tinham já decerto esquecido o incidente, ele veio à porta chamá-lo de bom modo para cobardemente o agredir?

Pelo menos durante este tempo ele teve ocasião de premeditar bem o que ia fazer. Depois, fugiu para a Cerdeira e, diz ainda S. Ex.ª, decerto mal informado, que ali se apresentou ao regedor.

Ora isto não se passou assim. Ele, chegado à Cerdeira, foi ter com o primo José Augusto de Almeida, que por acaso é o regedor, pedindo-lhe para dormir na loja do ofício em cima do banco, visto que tinha tido umas desavenças com a mulher e queria ir divorciar-se. O José Augusto disse-lhe que fosse para casa dos pais, e ao outro dia teriam tempo de pensar no caso.

Foram deitar-se, e qual não foi o espanto do regedor quando de madrugada lhe bateram à porta os rapazes da Benfeita e lhe contaram o que se passara. Dirigiu-se a casa dos tios e ali tentou ainda arrancar a confissão ao assassino, não o conseguindo.

Ainda desta vez negou a proeza, que só confirmou depois do José Augusto lhe ler o ofício do seu colega da Benfeita.

Foi assim que o dissemos na reportagem do crime, é assim que hoje o confirmamos e foi assim que no-lo contaram as pessoas da Benfeita. Se tivemos termos ásperos para com o criminoso, eles foram ditados pela nossa consciência, pois nem contra nem a favor nos movem interesses de qualquer ordem.

Estamos plenamente de acordo que o Sr. Dr. Elias procure todos os meios para defesa do seu constituinte, mas isso pode S. Ex.ª fazê-lo sem tocar na reportagem que, creio, não é obrigada a pensar como pensa S. Ex.ª, ou a liberdade de consciência seria um mito.

Desculpe-nos S. Ex.ª estas considerações que julgámos precisas para que os leitores não ficassem a pensar que colhemos informações levianamente. Estamos sujeitos a errar, mas quando o reconhecermos também seremos o primeiro a rectificar o que fôr de justiça.

E V.Ex.ª, Sr. Director, desculpe a massada do que é, etc.

- Elvas.

CA 1520_3-15/02/1929

O Crime da Benfeita

É julgado no dia 7 de Maio, em tribunal colectivo, o assassino

Foi designado o dia 7 de Maio próximo, pelas 12 horas, para julgamento em processo ordinário de querela, de Joaquim Alves, conhecido também por Joaquim Relvas, casado, da Benfeita, que se acha preso na cadeia desta comarca pelo crime de homicídio voluntário praticado no dia 25 de Janeiro último, na pessoa de Alfredo Bernardo, solteiro, da mesma localidade, crime este que A Comarca noticiou oportunamente.

O defensor do acusado é o Sr. Dr. Marcelo Matias, novel e distinto advogado na capital.

Neste julgamento intervêm os juízes de Arganil, Lousã e Oliveira do Hospital.

CA 1536_1 - 16/04/1929

O epílogo da tragédia da Benfeita

Realiza-se hoje, no tribunal desta comarca, o julgamento do assassino

Vai hoje ter o seu epílogo, no tribunal desta comarca, a tragédia de que foi teatro a pitoresca e laboriosa povoação da Benfeita e em que perdeu a vida Alfredo Bernardo, assassinado por seu cunhado Joaquim Alves, mais conhecido por «Joaquim Relvas», natural da Cerdeira e ali residente.

«fotos»

Já nas colunas do nosso jornal fizemos desenvolvido relato deste crime, mas como dentro de poucas horas lhe vai ser dado um epílogo, evoquemo-lo novamente em rápidas palavras:

Durante o dia 25 de Janeiro findo o «Relvas» passou parte do dia na taberna dos Srs. Artur Dias & Irmão, da Benfeita, jogando às cartas com outros.

À noite, a mulher dele, Lucinda da Gama Leitão, mandou-o chamar, e como ele não fizesse caso, foi ela, levando ao colo uma filha de ambos, de 2 anos.

Apesar disso, o «Relvas» ainda se demorou algum tempo na taberna e, saindo, dirigiu-se a casa do Sr. Antonino Gonçalves, aonde andavam dançando, por motivo do casamento dum seu cunhado, o qual tinha tido lugar na véspera.

Bebeu alguns copos de vinho, dirigindo-se em seguida para casa do sogro, para o matar, segundo dizia, mas como ele já estivesse na cama e lhe não falasse, seguiu para sua casa, onde barafustou com a mulher e a espancou.

Por acaso, nessa ocasião apareceu o Alfredo Bernardo, que ia para casa da namorada, Aida Mendes Correia de Frias, que era em frente da casa do «Relvas», e ouvindo os maus tratos que este infligia à mulher - que era irmã do desventurado Alfredo Bernardo - este dirigiu-se ao «Relvas» e disse-lhe que ao outro dia falariam.

Depois o Alfredo foi para casa da namorada, com quem devia casar na quinta-feira seguinte.

Passada pouco mais de uma hora, chegou à porta da casa da referida Aida de Frias, o «Relvas», que com bons modos chamou o Alfredo, recusando-se este a princípio a atendê-lo. Como, porém, ele insistisse, e não suspeitasse da cilada que lhe tinha armado, veio falar-lhe.

Logo que o Alfredo abriu a porta, estando escuro, o «Relvas» vibrou-lhe uma enorme facada no ventre, que lhe fez sair todo o intestino delgado, que também furou.

A vítima caiu por terra, dando-lhe ainda o «Relvas» mais duas facadas, uma no fundo do externo a meio do apêndice xifóideo, e outra nas costas que lhe cortou o diafragma, o baço e o pericárdio.

A cena passara-se cerca das 11 horas da noite, e o pobre Alfredo exalava o último suspiro às 3 da madrugada.

O povo da Benfeita ficou impressionadíssimo com o crime e pode dizer-se que ninguém ali dormiu naquela noite.

A seguir à proeza, o assassino fugiu para a Cerdeira, aonde no dia seguinte foi preso e conduzido para esta vila, recolhendo à cadeia e sendo mais tarde pronunciado sem fiança.

O assassino tem-se conservado na cadeia desta comarca, e como tivesse constado que ele se gabara de que não seria julgado, porque se evadiria, tem sido vigiado de noite por uma patrulha da Guarda Nacional Republicana.

Hoje, pois, no nosso tribunal, o Relvas responderá e será julgado - podendo os leitores de A Comarca de Arganil acompanhar o julgamento por intermédio da reportagem que publicaremos no próximo número.

CA 1542_7 - 07/05/1929

O crime da Benfeita

Foi adiado o julgamento, por motivo de doença do juiz de Oliveira do Hospital

 

Dia 7 - Manhã chuvosa, com frio, que convida a não sair de casa. No entanto, das 9 horas em diante vêem-se chegar dos lados das estradas de Côja e Folques grandes ranchos de homens e mulheres.

Pergunta-se:

- Para onde vai tanta gente?

- Vêm assistir ao julgamento do Joaquim Relvas, da Benfeita, que matou o cunhado, o infeliz Alfredo Bernardo.

E continua a romaria... Às 10 horas e meia, a Praça Simões Dias está cheia de gente de todas as freguesias, pode dizer-se.

No entanto, a porta do tribunal conserva-se fechada.

Pelas 11 horas chega o Sr. Juiz da Lousã, Dr. Antero Henriques Oliveira Cardoso. Dirige-se à Secretaria Judicial. Lá encontra o Sr. Dr. Luís Mendes, meritíssimo juiz desta comarca e o ilustre Delegado do Procurador da República Sr. Dr. António Sequeira Sottomayor.

À porta do tribunal está uma força da Guarda Republicana, sob o comando do cabo Sr. António da Fonseca e Sousa.

Meio-dia menos um quarto, e cada vez mais povo na Praça, à espera que a porta do tribunal se abra.

Faltavam 10 minutos para o meio-dia quando o Sr. Juiz ordena ao oficial Sr. Diamantino Varandas:

- Vá indo para o tribunal, abra a porta e recomende ao comandante da força que só deixe entrar uma pessoa de cada vez, e só as que couberem nas bancadas, sentadas; de pé, não quero ninguém.

Compreende-se esta ordem, porque sabendo o estado de ruína em que está o tribunal, não seria de estranhar que com tal avalanche de gente, se toda entrasse, o sobrado desabasse. Nesta altura recordámos a triste tragédia da escola de Pomares, e por isso aplaudimos a ordem dada.

Entretanto, o meio-dia aproxima-se, mas nada de chegar o juiz de Oliveira do Hospital.

- Vamos indo para o tribunal - diz o Sr. Dr. Juiz Mendes - pois o colega não deve tardar.

Seguem os três magistrados e no gabinete vão esperando. À porta, a guarda, a custo contém a multidão; mas a ordem é de não entrar mais ninguém estranho ao tribunal, porque as bancadas estão já cheias; e essa ordem é cumprida.

No gabinete espera-se. O advogado do réu, que é o Sr. Dr. Armindo Barata, de Aveiro, consulta o processo, toma apontamentos.

Ao ouvir-se uma buzina, sai de todas as bocas esta frase: - Lá vem ele! - Mas é mais uma desilusão.

Alvitra o Sr. Coutinho, escrivão do processo:

- Se V. Ex.ª quer, Sr. Dr. Juiz, manda-se um telegrama.

- Pois faça-o lá, com nota de urgente - responde o Sr. Dr. Juiz.

O oficial Travassos sai à pressa a levar o telegrama. Tudo espera, todos dizem coisas, e de Oliveira do Hospital não vem resposta. Vão todos estando já aborrecidos com a demora, e começa a alvitrar-se o adiamento.

Mas o Sr. Dr. Marcelo Matias, que estava presente e no julgamento se fizera substituir pelo seu colega referido, Sr. Dr. Barata, talvez para evitar a vinda cá outro dia, deste seu amigo, conta coisas, e pede mais uma meia-hora de espera.

O Sr. Juiz da Lousã, responde:

- Vá lá, espere-se então mais meia-hora.

Mas esta decorre e depois outra meia, até que às 15 horas chega um telegrama dizendo que o Sr. Dr. José de Campos Pais do Amaral, conservador e juiz substituto em exercício, em Oliveira, não podia vir por motivo de doença.

Pouco antes passara na Praça o Sr. Dr. Júlio Pereira de Melo, juiz proprietário de Oliveira, que regressava a reassumir as suas funções, mas que não podia intervir por nesse dia terminar a sua licença.

Teve, pois, que ser adiada a audiência para dia a fixar, visto que tal só pode fazer-se de forma que não coincida com dias em que os dois magistrados, da Lousã e Oliveira, já tenham serviço designado nas suas comarcas.

Em virtude disso aquela gente começou a debandar para as suas terras, lamentando-se por ter vindo de tão longe e não ter assistido ao julgamento. E a completar a pouca sorte daquela gente, daí por pouco tempo caía uma forte chuvada.

CA 1543_2 - 10/05/1929

O autor do crime da Benfeita foi
condenado a pena maior

Pouco antes do meio-dia de anteontem começou a chegar gente a esta vila que vinha assistir ao julgamento. Entram em vários estabelecimentos. Falam, conversam sobre o crime. Vão-se chegando para a porta do tribunal a fim de serem os primeiros a entrar, não desejando ninguém ficar na rua.

Ao meio-dia é aberta a porta e o povinho entra, ávido de apanhar um bom lugar, entrada que é regulada pela força da Guarda Republicana. As bancadas encheram-se rapidamente, pouca gente ficando na rua, porque veio muito menos de metade da que cá esteve no dia 7, em que o julgamento foi adiado como noticiámos.

Aquela gente, na ânsia de ver o epílogo desta tragédia e lembrando-se muitos dos serviços que nas suas terras deixaram por fazer, espera impaciente. Pouco depois da 1 hora da tarde, constitui-se o tribunal.

A constituição do tribunal

O tribunal, que funciona com júri colectivo, tem a seguinte constituição:

Presidente - Sr. Dr. Juiz Luís Mendes, desta comarca.
Vogais - Srs. Drs. Antero Rodrigues d'Araújo Cardoso, da Lousã, e Júlio Pereira de Melo, de Oliveira do Hospital.
Delegado do Ministério Público - o Sr. Dr. António Fernando Sequeira Sottomayor.
Defende o réu - o Sr. Dr. Armindo Barata, de Aveiro.
Escrivão - o Sr. Pereira Coutinho.

Está aberta a audiência!

Pela 1 hora e meia da tarde, o Sr. Juiz presidente ordena ao oficial Diamantino Varandas que declare aberta a audiência. O réu dá entrada na sala. Toda a gente o encara e repara na maneira como se apresenta, com ares de quem não mede as responsabilidades que sobre si pesam.

O Sr. Dr. Armindo Barata, defensor do réu, apresenta a contestação frisando as atenuantes e prisão preventiva.

O Sr. Juiz presidente manda que o escrivão leia as peças do processo, o que ele cumpre. São mandadas recolher as testemunhas.

O réu, como já temos noticiado, é julgado pelo crime de homicídio voluntário, com premeditação, na pessoa do seu cunhado, Alfredo Bernardo, de 22 anos, na noite de 25 de Janeiro último, na Benfeita.

Interrogatório do réu

De pé, responde chamar-se: Joaquim Alves, casado, com Lucinda da Gama Leitão, de 26 anos, natural da Cerdeira.

Seguem-se outras perguntas da praxe a que ele responde confessando o crime de que é acusado.

Falam as testemunhas

São ouvidas 9 testemunhas de acusação: Manuel Simões Dias, casado, de 40 anos, da Benfeita; Laura do Sacramento ou Laura do Rosário Simões, casada, de 43 anos, da Benfeita; Aida Simões, solteira, de 17 anos; Artur Dias, casado, da Benfeita; Manuel Marques Mendes, casado, de Pomares, residente na Benfeita; Augusto da Silva, Augusto Gonçalves e António Maria, casados, da Cerdeira; e José Augusto d'Almeida, regedor, da mesma localidade da Cerdeira.

Foram lidos os depoimentos das testemunhas Artur Rosário Dias d'Oliveira, Aires da Costa Prata e Adelino Nunes da Costa, que foram inquiridas por deprecada.

Foi uma prova esmagadora a produzida pela acusação, pois com mais ou menos variantes todas referiam o mesmo facto, isto é, de ter havido premeditação na prática do crime.

São 15:25 e o Sr. Juiz presidente declara interrompida a audiência por 5 minutos, findos os quais é reaberta, começando a ser inquiridas as testemunhas de defesa.

Testemunhas de defesa

Foram inquiridas sete testemunhas de defesa: Júlio da Costa, viúvo, da Cerdeira; Serafim Gabriel, da Cerdeira; Maria Augusta Rita, casada, de 36 anos, da Cerdeira; Cristiano Domingos, casado, e Carlos Castanheira, solteiro, da Cerdeira; António Bernardo Quaresma, casado, da Benfeita; Guilherme da Fonseca, casado, da Benfeita.

Faltaram as testemunhas de defesa, Maria Pilar que não foi intimada e Luís Figueira que apresentou atestado.

O crime foi tão repugnante, tão estranhável nas freguesias da Benfeita e Cerdeira, que até as próprias testemunhas de defesa, pela veracidade dos factos, se transformaram em acusação. Apenas o bom comportamento anterior abonaram. É que o crime foi praticado em tais circunstâncias que indignou toda a gente.

Terminou a inquirição das testemunhas às 16:25 e o Sr. Juiz presidente dá a palavra ao digno agente do Ministério Público.

Os debates

O ilustre magistrado, depois de apresentar os seus cumprimentos aos meritíssimos juízes, expõe com clareza as condições em que o crime foi praticado, lê as conclusões dos peritos e termina por dizer que o réu não pode deixar de ser condenado como pediu na querela.

É dada em seguida a palavra ao advogado do réu, o Sr. Dr. Armindo Barata, que é a primeira vez que vem a este tribunal, e começa por saudar os doutos juízes e magistrado do Ministério Público. Refere-se à povoação da Benfeita, que conhece, não por lá ter ido, mas porque sendo companheiro em Coimbra, quando estudante, do Sr. Dr. Marcelo Matias, um filho daquela freguesia, em várias ocasiões tiveram ocasião de falar dela.

Faz o elogio desse filho da Benfeita que honra a sua terra, o qual pelo seu talento há-de marcar no foro. Entrando na defesa do réu, procurou atenuar-lhe a pena; mas a defesa era ingrata, ante a prova esmagadora produzida.

O Sr. Dr. Barata fala com clareza, tendo sido escutado com muita atenção por todo o auditório. Eram 17 horas quando terminou o seu discurso, sendo interrompida a audiência para ser lavrada a sentença.

Sentença

Passados quarenta e cinco minutos, é reaberta a audiência, sendo lido o acórdão que condena o réu na pena de 9 anos de prisão maior celular seguidos de 12 anos de degredo, ou em alternativa de 26 anos e meio de degredo em possessão africana de 1ª classe, e em 2.000$00 de imposto de justiça.

CA 1547_2 - 24/05/1929

Para a Penitenciária de Coimbra
seguiu o autor do crime da Benfeita

Acompanhado dos oficiais de diligências deste juízo, Srs. Joaquim Nunes Rodrigues Branco e António da Fonseca Travassos, seguiu ontem para Coimbra, a fim de dar entrada na Penitenciária, Joaquim Alves (ou Joaquim Relvas), da Benfeita, que, como noticiámos, foi condenado nesta comarca em pena maior por ter assassinado seu cunhado Alfredo Bernardo.

CA 1556_2 - 25/06/1929

O autor do crime da Benfeita

Regressaram já de Coimbra os oficiais de diligências que foram àquela cidade acompanhar o preso Joaquim Alves (ou Joaquim Relvas), da Benfeita. Este deu entrada na cadeia de Santa Cruz.

CA 1557_8 - 28/06/1929

O Joaquim Alves não gostava da alcunha que lhe tinham posto e que o deixava fora de si, até porque era conhecido por "Relvas", razão pela qual o Alfredo Bernardo, irmão da sua mulher, nunca a deveria ter pronunciado.

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31/12/2019