HISTÓRIAS  DA  NOSSA  TERRA

Os Druídas e as suas práticasUM PEDIDO NEGADO

por: J. LENCASTRE

 

BENFEITA - Diz o nosso poeta Simões Dias que era aqui que os Druidas vinham ter as suas práticas religiosas.

Esta terra é bem uma catedral, pois as suas paredes só as vemos terminar, daqui, lá em cima no azul do céu. Ainda cá nos ficaram os trovadores e os bruxedos dos Druidas.

Pois esta freguesia, que tem aumentado extraordinariamente, foi do concelho de Côja até 1855 e tinha, em 1757, 101 fogos. Foi antigamente da comarca de Viseu. Eram seus donatários os bispos de Coimbra, como condes de Arganil. O reitor de Côja é que apresentava o cura da Benfeita, que tinha 50 escudos de renda. E aqui temos nós o que sei da Benfeita antiga.

Falei da escola e seu professor, no meu artigo anterior. Ainda agora me está a soar aos ouvidos o hino do trabalho do Castilho, que nós garganteávamos no fim da aula, como então se dizia: - "Trabalhai meus irmãos..."

Nós parecíamos uma data de gatos em Janeiro, com o nosso cantochão. Acompanhava, a voz fanhosa do mestre. Os meus condiscípulos desse tempo, devem-se lembrar. Quantos dobraram os umbrais da eternidade?! Vai para esses a nossa saudade, assim como para os vivos. Bons tempos que se foram e não voltam!

 

Era irmão do nosso professor, o Dr. Luiz António de Figueiredo, austero juiz de Direito. Era homem muito sério e muito delicado. Às vezes víamo-lo entrar para casa do mestre, com o respeito que se tributava aos deuses. Contavam-se dele austeridades que nos faziam olhar para a sua pessoa como para um homem extraordinário.

Era juiz na comarca da Covilhã e tinha que julgar um figurão. Como peitar o juiz? Alguém se lembrou de vir ter com a tia Helena, como eu a chamava, para que ela escrevesse ao filho a pedir-lhe pelo tal figurão. A boa mulherzinha, condoída, lá escreveu a recomendar-lhe o caso.

No dia da audiência, ao ler a sentença, disse: "Dava só isto, mas como foram incomodar uma pobre velhinha, que estava sossegada ao canto da lareira, dou mais tanto...". - Calculem a cara dos assistentes!

Casou na Beira Baixa com uma família fidalga e numerosa, deixando dois filhos, ambos formados, e uma filha.

Desapareceu daqui esta família, que dava lustre à terra, não havendo nada que a lembre senão a casa, que é a melhor da terra, mas na posse de estranhos. São assim as coisas do mundo...

Havia no meu tempo, aqui, um doutor, que nem sei o nome, que regia as novenas em Santa Rita, a capela octogonal, tão interessante, que domina parte da terra.

Na lição da tarde, quedávamo-nos no seu vistoso terreirinho, à espera do nosso doutor.

Como a minha saudade me reproduz no coração o cântico:

...Rita Santa de Deus amada...

E nós, e o mulherio, acompanhávamos com mais ritmo a harmonia, que o nosso hino na escola.

J. LENCASTRE
in: C.A. 2523_3 - 17/02/1939

Oiça aqui:
Hino do trabalho, por Tonicha, com poema de António Feliciano de Castilho, poeta do séc. XIX (1800-1875)