HISTÓRIAS  DA  NOSSA  TERRA

VALVERDE

Que nome é este que tanta gente repete e não se encontra confirmado em lado nenhum?

Algumas pessoas da aldeia contam que, em tempos, a Benfeita se terá chamado Valverde. Esta história fantasiosa é contada por tanta gente que, a sua repetição, até poderá fazer crer que tem algum fundamento.

Conta-se que alguém terá comentado, em tempos, que a capela de Santa Rita era muito “bem feita” e que, a partir daí, e por tal motivo, a nossa aldeia foi perdendo o seu nome original, "Valverde", passando a ser conhecida por "Benfeita", em homenagem à sua formosa capela.
Esta história tem tanto valor como alguém dizer que a Benfeita passou a chamar-se assim, em louvor da tigelada feita nesta região, que era muito "bem feita", ou em honra de alguma formosa donzela, muito "bem feita" de corpo, que por cá andava a quebrar os corações aos homens da terra!

No entanto, um "Vale" é um vale, ou seja: um acidente geográfico cuja área pode variar de poucos a muitos quilómetros quadrados, normalmente cercado por montes, formado pela actividade fluvial e que pode ter a forma de um "V". Logo, a Benfeita, preenchendo estas condições, pode considerar-se situada geograficamente num vale! Vale, esse, que apesenta uma cor predominantemente verde, porque as frescas águas da ribeira conferem uma riqueza única e verdejante às suas terras; portanto, a Benfeita poderia, muito bem, ter-se chamado "Vale Verde", ou "Valverde", na forma gráfica apocopada.

E, Valverde, é um nome de localidade bastante comum em Portugal. Na verdade, existe uma localidade com este nome em 20 concelhos do nosso país. No nosso distrito, Coimbra, não existe nenhuma, embora existam em todos os distritos limítrofes: Aveiro, 1 (Oliveira de Azeméis); Viseu, 3 (Tarouca, Tondela e Lamego); Guarda, 1 (Aguiar da Beira); Castelo Branco, 1 (Fundão) e Leiria, 1 (Leiria).
Da mesma forma, "Vila Verde", é outra denominação frequente no nosso país, e também se pode encontrar em 20 freguesias.

Mas, a referência ao nome Valverde é vaga e imprecisa nas fontes que consultei sobre a Benfeita, e o Dr. Mário Mathias, conhecido e respeitado advogado benfeitense, diz a este propósito:

... A tradição popular nada concreto ou convincente nos ensinava também, pois enquanto uns afirmavam terem ouvido "aos antigos" que a primeira povoação, constituída pelo que hoje se denomina "carreira" e "arrabalde", se chamava "Valverde", em virtude do aspecto que lhe davam as frondosas matas de castanheiros que a rodeavam, cobrindo toda a parte baixa incluindo as terras da Mó, e mudara de nome por causa da bem feita capela octogonal de Santa Rita, outros diziam que antes de quaisquer casas, fôra edificada a capela de Nossa Senhora da Assunção e que os senhores dum castelo que ficava para os lados das Extremas Carreiras, e amiúde a visitavam, a acharam tão bem feita que por esse nome ficaram designando o sítio onde ela estava, e depois, por extensão, as casas que à sua volta se foram construindo ...

Tendo pesquisado profundamente sobre a origem do nome da Benfeita, Mário Mathias comprovou que a Benfeita já assim se chamava no ano de 1196, há 820 anos, no reinado de D.Sancho I, embora a grafia fosse "Bienfecta", tendo passado a escrever-se "Bemfeyta", "Bemfeita" e, finalmente, "Benfeita", por alterações ortográficas sucessivas, sendo a última, a forma oficial desde 1945, e considera fantasistas as razões apresentadas quer para o nome Valverde, quer para a justificação do nome Benfeita estar ligada à forma "bem feita" das capelas de Santa Rita ou de Nossa Senhora da Assunção.

A Capela de Santa Rita é de construção muito posterior ao ano de 1196. Diz, quem sabe, que as peças arquitectónicas e os materiais utilizados na construção desta capela, remetem-na para os séculos XVII ou XVIII; portanto, no máximo, a capela teria hoje uns 415 anos.
Já em relação à Capela de Nossa Senhora da Assunção existe uma data esculpida na pedra do arco cruzeiro: "1625", que remete a sua construção inicial para o século XVII e ainda outra indicação no Sino, mais recente: "Jesus, Maria, José - 1773".
Conclui-se, portanto, que, quando a Capela de Santa Rita ou a Capela de Nossa Senhora de Assunção foram construídas, já a aldeia se chamava "Bemfeyta" há muito tempo; logo, seria impossível a aldeia ter passado a chamar-se com esse nome, quando já assim era conhecida.

Mário Mathias desmentiu essa lenda fantasiosa, em 1939, retirando-lhe qualquer credibilidade porque nenhuma das capelas aparenta ter tanta idade; mas, certas pessoas, gostam de a repetir para satisfazer a curiosidade de quem pergunta e porque não sabem como justificar a origem do nome da Benfeita. Até prova em contrário ainda não foi encontrada qualquer explicação para o nome da nossa terra. É Benfeita porque... alguém se lembrou de a chamar assim, provavelmente, por ser bonita e airosa, e porque gostavam dela, razões pelas quais não gostamos, nem aceitamos, que lhe troquem o nome!

Não muito distante dos dias de hoje alguém disse, na Benfeita, que as 1620 badaladas do Sino da Paz representam o número de dias que durou a 2ª guerra mundial, pelo simples facto do sino tocar no dia em que essa guerra terminou na Europa e, pelos vistos, nem se deu ao trabalho de fazer contas ou desconhecia os marcos históricos que determinaram o seu início (Setembro de 1939) e fim (Maio de 1945) o que daria 69 meses, ou sejam, 2070 dias; mas, e desde então, esta informação aparece repetida erradamente, com alguma frequência, em diversos jornais! — Uma mentira, ou uma verdade mal ouvida ou mal contada, não se tornará realidade mesmo que contada por muita gente, desde que confrontada com os factos!

Sabe-se que a Capela de Santa Rita foi remodelada antes do final do século XIX pois há registo que nela havia um alpendre coberto de jasmineiros no tempo do poeta Simões Dias, como ele próprio a descreveu no seu conto "João Ninguém", onde a aldeia era chamada "Santa Cecília" e que, em 1959, foi totalmente reconstruída, desde as suas fundações ao telhado, pelo que a sua construção actual tem, nesta data, apenas 57 anos!

Classificá-la como centenária é fantasia que não lhe acrescenta qualquer valor histórico, mas que apenas traduz a presença de um templo religioso neste local; embora o culto de Santa Rita, "advogada das causas impossíveis", só tivesse tido início no Ano Santo de 1900, ano em que foi canonizada como Santa, pelo Papa Leão XIII.

Em bom rigor poderemos dizer que a capela foi totalmente reconstruída em 1959 e que, no mesmo local, existia outra que já ostentava o mesmo nome e forma, que foi demolida por se encontrar totalmente em ruínas, ignorando-se, se também ela, terá sido alvo de uma ou mais reconstruções ao longo dos tempos e se tinha a mesma forma e santo de devoção.

Dizer que o desenho das peças arquitectónicas remetem a sua construção para um determinado século é outra fantasia porque o granito pode ser trabalhado, hoje, utilizando técnicas e desenhos antigos e não consta que tivessem sido feitos testes químicos e laboratoriais às pedras.

O pequeno arco sineiro que existe no telhado da Capela de Santa Rita foi removido da antiga Capela de Nossa Senhora da Assunção, totalmente demolida e reconstruída em 1958, porque alguém decidiu que, por ser arredondado, não combinava com o seu novo estilo arquitectónico, tendo sido substituído por outro de forma ogival. Posteriormente foi colocado em Santa Rita, à falta de melhor destino, como mero acessório decorativo, uma vez que o sino desta capela, muito maior do que a sineta que o arco poderia comportar, já estava instalado no campanário-sul da Torre da Paz.

Vem ainda a propósito referir que Valverde é, também, o nome dum personagem da história "A Filha do Santeiro", escrita por José Simões Dias, no seu livro "Figuras de Gesso".

VIVALDO QUARESMA
Outubro 2016