HISTÓRIAS  DA  NOSSA  TERRA

Título: A "escravidão" do trabalho rural na Benfeita
Autor: José Macedo
Data: 1976

Quando, em noites de Verão, uma digestão difícil ou inexplicável mal-estar nos rouba o sono, assomamos à janela, deparando-se-nos um mundo diferente - o mundo dos sons.

O ser humano, que todos somos, contacta com o mundo que o rodeia, através dos cincos sentidos de que é dotado - vimos a imensidão dos mares, ouvimos o canto das aves, cheiramos o aroma das flores, saboreamos o paladar dos frutos, tacteamos o aveludado de uma pétala de rosa.

Noite alta, solitariamente à janela, há sentidos que não são estimulados. Refinam-se, então, os sentidos aptos em tal situação - «sentimos», intensamente, os odores do renovo, em maturação acelerada pela canícula diurna, prestes a ser colhido, em perfeita simbiose com o acre da seiva dos pinheiros, «sangrando», da incisão no tronco, para o púcaro que recolhe a resina - ouvimos, como que ampliados, os pequenos ruídos, imperceptíveis durante a faina diurna - o rolar da água nos penedos da ribeira, o cantar da cigarra, o coaxar dos sapos, em «trólaró» constante.

A vida do amanho das terras, do trabalhador rural, é duríssima - sempre o foi. 

Há trinta e alguns anos atrás, a noite era bem diferente na nossa terra.
O trabalho iniciava-se noite alta - pelas três horas da madrugada - e prolongava-se para além do pôr-do-sol.

A Benfeita era despertada pelo chamamento, de porta em porta, dos componentes do «rancho» que iam iniciar o trabalho, pela fresca, no coração da noite, evitando o desgaste maior, que o calor solar imporia, dia nascido.
A graça dos comentários dos «chamadores» juntava-se à contestação, mal humorada e sonolenta, dos despertados do sono retemperador de forças.
O troar, nas calçadas, das cardas das botas dos homens e das brochas das tamancas das mulheres, junto ao falatório dos grupos que se iam formando, rua ou quelho abaixo, até ao ponto de concentração e partida para a jornada, acabavam por despertar os de sono mais pesado.

A partir daí havia vida na Benfeita, na Serra.

O luar cheio, pleno, iluminava como se fosse de dia, toda a aldeia e toda a Serra que a envolve.
Víamos perfeitamente, serra acima, pelo caminho para o Pai das Donas, qual carreiro de formigas, a longa fila de jovens, rapagões e mocetonas, pujantes e alegres - ouvíamos os seus cantares.

Pesando, embora, o desumano do espectáculo a que se assistia - pelo esforço desalmado despendido, era maravilhoso, indiscritível.

A polifonia dos sons que escutávamos era de uma beleza invulgar - melodiosa, ritmada, única.

O caminho para a floresta era longo, cansativo, e os sons iam-se perdendo, enfraquecidos pelas quebradas dos caminhos.
Mas - outros sons nos chegavam - o chiar do rodado dos carros de bois invadia, então, a noite. Eram - o Eduardo Pinheiro, o José Antunes, o «Baralha» - os carreiros, igualmente madrugadores, falando aos animais: Anda lá «castanho»... Anda lá «galante»...
Os «monstros de força», puxando certos, lá galgavam as encostas, levando o carro e o pesado carrego ao destino.

Um vozeirão, na «estrada nova», chamava a nossa atenção, era António Francisco Nunes - o «Péssimo» - despertando os filhos para o trabalho e, instantes volvidos, o ruído do rodado da sua galera, no macadame da estrada, esfumava-se a caminho da «peneda lisa», de Coimbra, do «mundo».

O tremeluzir de uma lanterna alertava-nos, também, para o que se passava na «levada das almotaçarias» - a tia Rosa do «Fartura» ia tapar a água para regar uns «mimos» numa calhada à boiça.

E, de novo, voltávamos a enxergar, descendo do Pai das Donas, pinhal abaixo, o alvejar das pesadas e longas pranchas de madeira, à cabeça das robustas moçoilas.
Acompanhando, pelo serpenteado do caminho, a marcha encosta abaixo, víamos depois claramente o «rancho» descendo da «Fonte das Moscas» para o Areal, e logo em seguida - como estralejar de foguetes - ouviam-se as pancadas fortes da queda das pesadas pranchas, no solo, na «estrada nova», onde grandes camiões as viriam buscar.

Tudo isto, relembramos, se passava na noite, muito antes do toque das «Ave-marias», ao romper do dia.

Não se pense, porém que ao chegar às dez ou onze horas, transportados todos os «carregos» contratados, esta gente ia descansar - por já ganho o dia - não! Encetavam outras tarefas, para o agregado familiar ou «ao dia fora», iam «arrancar» batatas, «apanhar» milho, vindimar, acarretar e pisar os cachos, tratar dos gados e muitas outras tarefas estafantes, arrasantes.

Admitir que ficaram ricos com tanto trabalho - tanto sacrifício - é puro engano. Continuam pobres, como sempre o foram.
Conhecemo-los a todos, precocemente envelhecidos, alquebrados, gastos.
São estes os verdadeiros escravizados do nosso povo - os trabalhadores rurais - merecendo largamente, que se lhes proporcione uma velhice confortável, bem merecida.

Meditemos bem nisto, todos nós.

José Macedo