JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Esta página mostra algumas notícias sobre o falecimento do poeta tal como foram publicadas na imprensa lisboeta.

[Transcrição de Vivaldo Quaresma]

Fonte: Jornal "O Século"
Data: 4 de Março de 1899 (Pág.2)

Dr. José Simões Dias

Morreu Simões Dias!

O poeta glorioso de «As Peninsulares», - escrínio formosíssimo em que se salientam pérolas inigualáveis - cessou de viver. Ante a mão brutal da morte, deixou de vibrar as cordas de oiro uma das liras portuguesas de mais radiante brilho, de sonorosas notas, de melodias embaladoras.

Morreu Simões Dias! Veio-nos a notícia da sua morte, rudemente desoladora, comover fortemente, produzindo-nos lancinante mágoa, que não podem explicar as nossas palavras - que as palavras são impotentes para traduzir uma dor pungente. Morreu Simões Dias; terminou a sua existência imaculada esse homem de grande alma e de inspiração luminosa.

Coração de oiro, coração de poeta, coração de português... deixou de agitá-lo o sangue vivificador que lhe dava alentos!

As letras portuguesas perdem uma das suas figuras mais belas; a pátria portuguesa - um dos seus mais ilustres filhos!... Simões Dias não foi apenas um grande poeta, foi um cidadão prestante, cuja vida é um exemplo de modéstia e de honradez. Foi um bom - em todo o sentido da palavra; foi sempre um sonhador... e isto diz tudo!

Grande poeta que ele foi! Grande e ignorado poeta que foi Simões Dias! Ou porque tivesse, bem nítida, a consciência do extraordinário valor dos seus trabalhos poéticos, ou porque, em extremo modesto, lhe repugnava o tam-tam da evidenciação que tantos outros buscam «malgré-tout». Simões Dias evitava o reclamo; prazia-se na vida obscura de trabalho - que no trabalho se deleitava o seu espírito, que só do trabalho vivia o querido morto! Era dos nossos poetas um dos menos conhecidos, mas nem por isso deixa de ser um dos maiores poetas portugueses, e as suas «Peninsulares», onde a sua alma está retratada, subsistirão como obra de peregrino engenho de que deve ser ciosa a nossa terra. Ao lado da «Morte de D.João», de Junqueiro; do «Campo de Flores», de João de Deus; dos «Sonetos», de Antero, e do «D.Jaime», de Tomás Ribeiro, as «Peninsulares» têm o seu lugar, muito merecido, muito honroso, legitimamente adquirido.

Sim! A obra do poeta não desce com ele à terra; há-de perpetuar-lhe o nome, e o tempo se encarregará de fazer justiça ao pobre sonhador, ao desventurado homem de letras tão cedo arrebatado...

Como ele próprio o confessava nas suas queridas «Peninsulares» - enlevo dos seus olhos de artista - Simões Dias glorificou nos seus poemas três nobilíssimos sentimentos, trindade radiosa e augusta:
«O Amor», única salvação do indivíduo; «A Pátria», única salvação da família; «A Liberdade», única salvação do povo. Concepção grandiosa a do poeta, e por tal forma levada a cabo que dizer-se pode que ficou constituindo um verdadeiro monumento...

Que grande poeta ele foi!

Os seus versos, muito expontâneos, muito do coração, não têm artifício; são obra de um iluminado, não a de um torturado... A sua poesia nascia-lhe expontânea da alma como corrente cristalina descendo alcantis risonhos. Versos cantantes; adoráveis versos os seus! É tudo tão natural, tão pouco procurado... Uma criança compreende-lhe os versos simples, despretenciosos, adoráveis.

Das suas «Peninsulares», da parte que o saudoso morto baptizou de «Mundo interior», recordemos esta encantadora poesia:

A tua roca

Quando te vejo, à noitinha,
Nessa cadeira sentada,
O xaile posto nos ombros,
Na cinta a roca enfeitada,

Os olhos postos na estriga,
Volvendo o fuso nos dedos,
Os lábios cantando ao fio
Da tua boca os segredos,

Eu digo sempre baixinho
Pondo os olhos na tua roca:
«Se eu pudesse ser estriga
Beijaria aquela boca!»

Eu nunca te vi fiando
Sem invejar os desvelos
Com que desfias o linho
Os brancos, finos cabelos.

E aquela fita de seda
Que se enleia no fiado?
Eu nunca vejo essa fita
Que me não sinta enleado.

Parece aquilo um abraço
De um amor que é todo nosso,
A trança do teu cabelo
Em volta do meu pescoço.

Eu digo sempre baixinho
Vendo a fita que se enreda:
«Quem me dera ser a estriga
E ela a fitinha de seda!»

Eu por mim não sei que sinto,
Se tristeza, se ventura,
Mal que suspendes a roca
Da tua breve cintura.

Penso que fias nos dedos
Os dias da minha vida.
Ao pé de ti sempre curta,
Ao longe sempre comprida.

Pareces-me um ramalhete
Sentada nessa cadeira,
E a fita da tua roca
A silva de uma roseira.

Meu amor, quando acabares
De espiar a tua estriga,
E ouvires por alta noite
Em voz baixa uma cantiga,

Sou eu que estou a lembrar-me
Dos beijos de tua boca,
E penso que em mim são dados
Os beijos que dás na roca.

Em todas as suas composições há o mesmo perfume campesino, a mesma simplicidade subjugadora. Os seus versos sempre rescendentes de lirismo, impregnados de amor, muito sentidos, muito do coração.

A obra do poeta é uma crítica suavíssima de infinita pureza. Português de lei, a sua obra é bem portuguesa. Como que retrata o lindo céu azul da península; como que encerra as fragrâncias da nossa inigualada terra!

Querido poeta! Desventurado poeta!...

***

José Simões Dias nasceu em 1844, na Benfeita, pequenina aldeia beiroa do concelho de Arganil, filho de António Simões Dias, proprietário, e de D.Maria José Gonçalves.

De 1857 a 1858, concluiu em Coimbra os preparatórios para os cursos superiores. Em 1861, terminava com brilhantismo o curso teológico do seminário, e a 3 de Julho de 1868 a sua formatura na Universidade. A faculdade de teologia convidou-o a doutorar-se para seguir o magistério naquele estabelecimento de instrução. A carreira eclesiástica não sorria, porém, ao novo bacharel, já então festejado cultor das musas, colaborando assiduamente n' "A Folha", e Simões Dias declinou a honra que desejavam conferir-lhe. Formou-se em Direito, então.

Tendo-se consagrado ao ensino particular desde os primeiros anos das lides académicas, Simões Dias concorreur em 1808 num dos cursos criados por lei de Martens Ferrão. A classificação que obteve deu em resultado o seu despacho em 30 de Dezembro do mesmo ano para professor-proprietário da nova cadeira de Português, Francês, Latim, Economia Rural e Administração Pública da cidade de Elvas. Esteve nesta cidade desde a data do seu despacho até Agosto de 1870, em que veio para Lisboa prestar serviço no Ministério da Justiça. Por decreto de Fevereiro de 1878, foi nomeado secretário do Liceu de Viseu, cargo que desempenhou por largos anos.

Ultimamente era professor de Literatura no Liceu de Lisboa.

A política roubou-lhe alguns momentos. Simões Dias foi um dos membros prestimosos do Partido Progressista, que sempre acompanhou com lealdade e desinteresse.

Foi deputado às Cortes nas sessões legislativas de 1880 e 81 por Mangualde; de 1883, 1886 e 1887 por acumulação; de 1888 e 89 por Pombal, e de 1891 e 1892 por Mértola. Se a sua passagem pelo parlamento não deixou um rasto luminoso, não foi das menos notáveis. Fez boa figura sempre - e parece-nos que mais se não pode exigir de um poeta que, conquanto político, nunca viveu da política.

Além de poeta, Simões Dias evidenciou-se como romancista, crítico e jornalista.

Como jornalista, foi director do «Correio da Noite», de onde saiu para fundar «O Globo». Este findo, assumiu a direcção do «Tempo», que deixou para afastar-se da política.

Ultimamente, era um dos colaboradores da «Educação Nacional», do Porto, em que deixa grande número de artigos sobre pedagogia.

Obras de J.Simões Dias

Curso de literatura portuguesa:
I - «Teoria da Composição Literária», 6ª edição; II - «História da Literatura Portuguesa», 8ª ed.

Ensaios de crítica e história:
I - «A Escola Primária em Portugal»; II - «A Instrução Secundária» (Lei de 1880) 2ª ed; III - «A Pedagogia Oficial» 2ª ed.; IV - «A Espanha Moderna».

Colecção de obras poéticas:
As Peninsulares, compreendendo:
I - «O Mundo Interior», 4ª ed.; II - «Poemas Líricos», 3ª ed.; III - «A Hóstia de Oiro», 2ª ed.; IV - «O Livro das Canções», 2ª ed.; V - «O Livro das Ruínas», 2ª ed.

Colecção de histórias contemporâneas:
I - «Contos em prosa», 2ª ed.; II - «As Mães», romance; III - «O Pecado», romance; IV - «Figuras de Cera» (no prelo).

Colecção de traduções e imitações:
I - «Curso de Filosofia Elementar» (Balmes); II - «História da Filosofia» (Balmes); III - «A Flor do Pântano» (Carlos Rubio).


O Dr. Simões Dias sucumbiu a uma dilatação da aorta. Há oito dias que Simões Dias tinha abandonado a sua cadeira no liceu, recolhendo ao leito. Desgraçadamente, a doença não cedeu aos recursos da ciência.

O funeral do Dr. Simões Dias realiza-se hoje às 2 horas da tarde, como adiante publicamos. O funeral sai da rua Estefânea, 2-A, para o cemitério dos Prazeres.


São convidados os alunos do Liceu de Santos a comparecer hoje, 4 de Março, pelas 2 horas da tarde, à porta do cemitério dos Prazeres, a fim de prestarem homenagem aos restos mortais do que foi seu professor, exmº sr. Dr. José Simões Dias.

Fonte: Jornal "Diário de Notícias"
Data: 4 de Março de 1899 (Pág.1)

Falecimentos

Dr. Simões Dias

Faleceu ontem este ilustre professor, poeta e jornalista, com 55 anos de idade. Era professor do Liceu de Lisboa e chefe da sua secretaria. Fora em tempo principal redactor do Correio da Noite e também escreveu no Tempo.

A sua mais completa e exacta biografia acompanha a edição definitiva das suas obras poéticas, que ele ainda organizou e reviu, e que vão ser publicadas por estes dias, com o nome de Peninsulares, de que já se haviam feito quatro edições, mas que saem agora completamente refundidas e largamente ampliadas.

Este minucioso e interessante estudo biográfico é escrito pelo sr. Visconde de Sanches de Frias, amigo íntimo e compatrício do notável e finado poeta.

Foi deputado por Viseu, Tondela e Arganil e relator da reforma da instrução secundária de 1880.

Tem livros de contos e de crítica, vários volumes de poesia, etc.

Sucumbiu a uma hipertrofia do coração.

Damos os pêsames à sua inconsolável família.

Aviso

São convidados os alunos do Liceu de Santos, a comparecer hoje, 4 de Março, pelas 2 horas da tarde, à porta do cemitério dos Prazeres, a fim de prestarem homenagem aos restos mortais do que foi seu professor o sr. Dr. José Simões Dias.

Fonte: Jornal "Diário de Notícias"
Data: 4 de Março de 1899 (Pág.4)

 

Doutor
Simões Dias

António Simões Dias, Maria do Rosário Gonçalves, Judith de Menezes Simões Dias, e seu marido Carlos Simões Dias de Figueiredo, António Simões Dias e sua mulher Carolina de Sá Simões Dias, padre Albino Simões Dias Cardoso e o arcediago José Simões Dias, participam às pessoas de suas relações e às do falecido que o funeral do seu querido filho, pai, sogro, irmão e primo se realizará hoje, 4 do corrente, às 2 horas da tarde saindo o préstito fúnebre da rua Estephania, 2-A para o cemitério dos Prazeres, não havendo convites especiais.