JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Esta página, escrita pelo Visconde de Sanches de Frias, depois do falecimento de José Simões Dias, encontra-se inserta no seu livro "Peninsulares".

[Transcrição de Vivaldo Quaresma]

PÁGINA SOLTA

Eu ando como um sonâmbulo
Pelas estradas, a medo,
Sempre a pensar no motivo,
Por que envelheci tão cedo.
... [in: Moço e Velho]

Vivi, se vida foi, sem Primavera
A sós com Deus e a lira;
Amor, foi como se eu nunca o tivera;
Todo o prazer, mentira.
... [in: Sábado]

Simões Dias

Ao traçar, há breves dias, o desadornado peristilo da sublimada galeria das Peninsulares, mal diríamos nós que cimentávamos os alicerces de uma cripta, e, à guisa oficial de certos documentos, teríamos que registar a abertura e o encerramento do precioso livro, abertura festiva, encerramento necrológico.

Tristíssima e custosa missão a nossa, quando as artérias nos vibram descompassadas em constante crepitação articular; quando sabemos sentir, mas não podemos descrever!

A morte de Simões Dias figura-se-nos a visão diabólica de um sonho infernal.

Embora alquebrado por lances vários e antigos de acerbo desgosto, e muito enojado do trato social,
de que sistematicamente se escondia, o douto sabedor não denunciava nos estragos aparentes do seu forte organismo um termo próximo de vida.

Verdade era que o seu luminoso espírito, aos nossos olhos de amigo, há tempos a esta parte, perdera uma determinada parcela da sua fulgurante irradiação, acorrentado à nervosidade de um labor extraordinário e desacostumado, que o preocupava constantemente.

Longe porém estávamos nós e muita gente de que esse estado prenunciasse decisiva e próxima fatalidade.

Entretanto uma dilatação da aorta, provocada por má disposição orgânica, produzia, insidiosamente, havia muito, efeitos deletérios, e lançava o infortunado nas torturas incuráveis de uma agonia lenta e cruciante, que ia entregar a uma irremediável viuvez a musa inspiradora do grande trovador.

Na rua Estefânia n. 2-A, às 11 horas de 3 de Março corrente, dia borrascoso, em que a natureza parecia insurgir-se contra o mau destino de quem tão profundamente lhe conhecera a feição popular - Simões Dias, aos 55 anos, turvado de ideias, pois que Deus concedera a mercê de lhe não deixar conhecer o seu estado, exalava o último alento, graças ao mesmo Deus, cercado de confortos e lágrimas.

As lágrimas do afecto formam a âmbula sagrada, onde, à despedida da terra, se devem envolver os corações de oiro, como o dele.

Simões Dias morreu, como tantos homens ilustres, despremiado da política, que muito lhe deve; esquecido de ingratos, que lhe sugaram o préstimo; privado de distinções civicas e académicas, porque as não solicitou; mas baixou ao túmulo, querido dos bons colegas, admiradores e amigos selectos, e seguido de um clamor de bênçãos, que as almas juvenis dos seus discípulos, em roda do modesto catafalco, no caminho da morada fúnebre e junto da sepultura, lhe converteram em flores de olorosa gratidão.

A noite do lutuoso acontecimento foi para eles uma noite de vela, piedosa e enternecedora, ao pé do precioso cadáver do mestre, que eles cobriram inteiramente de violetas, as flores que melhor diziam com a simplicidade característica do meigo trovador das Peninsulares.

À juventude encantadora daquele peregrino espírito, correspondeu perfeitamente a manifestação comovedora da mocidade escolar.

A não ser isso, que muito é, Simões Dias acabaria a vida sem uma distinção do seu país, pois que a única mercê honorífica, que possuia, deveu-a a uma nação estranha!

Pobre amigo! Desditoso companheiro do nosso modesto gabinete de estudo, nas palestras domingueiras, nas horas de lazêr! Que vácuo enorme sentimos agora, ao parecer-nos que ouvimos os lamentos soluçantes da tua musa predilecta!!

- Filha de Apolo! - tartamudeava Simões Dias em meio do seu tormentoso delírio - Filha de Apolo! É tão bonita! Ó formosa filha de Apolo!

Era a sombra voejante da musa peninsular, sem dúvida, que ele via adejar-lhe em torno, nas escuridades do seu cérebro revolto.

Por esse extraordinário e fatídico motivo, devem a mocidade escolar e todos que o amaram, mandar-lhe inscrever o seguinte epitáfio:

Aqui jaz o coração diamantino do poeta inconfundível das "Peninsulares" cuja musa dilecta, divindade cândida e robusta dos campos beirões e da trova provençal, como formosa e verdadeira filha de Apolo, ungiu os lábios do grande trovador na hora derradeira, quando ele despia o invólucro torturante da vida para ascender às alturas rutilantes de uma gloriosa eternidade.

Se Portugal tivesse, por honra sua, um panteão digno de tal nome, esse letreiro seria ali gravado, em lâmina de oiro, defronte dos de Garrett e Castilho, que ainda esperam por tão simples e justa homenagem do seu degenerado país, cujo amolecimento de costumes substituiu a virilidade heróica e espartana de outros tempos.

Esquecidas ou não as cinzas do poeta genial, a sua obra florejante viverá nas letras pátrias, que serão talvez um dia (quem sabe?) o único monumento perdurável, a memória única da nacionalidade portuguesa.

Lisboa, 7 de Março de 1899

SANCHES DE FRIAS