JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Texto publicado em: "A DEMOCRACIA", de Elvas,
nº 152, de 6 de Setembro de 1870, e seguintes.

JOSÉ SIMÕES DIAS

por: Henrique d'Andrade

Sciamus quae a Deo donata sunt nobis. S. Paulo-1 Cor. 2-12.
[Entenda o que Deus nos deu]

SUA VIDA

I

Passou a meia-idade e com ela as ideias que lhe eram apanágio. Os brasões mais honrosos que então podiam ilustrar o homem estavam circunscritos ao nascimento e às mostras de valor e heroísmo nos campos de batalha.

Hoje compreende-se que o nascer de pais nobres ou plebeus não passa duma questão simplesmente fortuita, e que, se o homem não for moralmente educado e tiver tendência para o bem, não lhe será escudo o nascimento contra os desvios da honra em que possa precipitar-se.

Graças ao espírito da época, as guerras vão também felizmente cedendo lugar à paz, porque a sociedade hodierna, mais humana que as passadas, compreende igualmente que não é conquistando territórios e assassinando irmãos que se há-de atingir a perfectibilidade social que se deseja e que consiste particularmente na fraternização universal, supremo sonho do Homem que morreu pelo amor dos homens.

Estas ideias cuja pureza e religiosidade todos reconhecem e admitem em teoria, são infelizmente desmentidas pela prática de alguns povos que Deus colocou bem alto para servirem de exemplo aos demais, mas que obcecados pelo orgulho e pela ambição, preferem antes a sorte de demónios caídos à glória de anjos bons, cuja missão salvadora é velar pela segurança das famílias, tranquilidade das nações e bem-estar social.

Referimo-nos à luta gigantesca ora travada entre a França e a Prússia, fratricidas irreconciliáveis a quem a Europa há-de tomar contas pelo pranto das viúvas, pela orfandade dos filhos, pela dispersão das famílias e finalmente por todas as consequências duma guerra, que é um escárnio à civilização e ao progresso. Ainda bem, porém, que todos lamentam esse fratricídio inglório, que, sendo um acidente na vida dos povos, conquanto não tolha o progressivo caminhar do espírito humano, o entorpece e embaraça contudo por algum tempo; ainda bem que as vozes sublimes de Victor Hugo, Thiers e outros, levantadas no seio da própria França, protestam em nome da religião, da democracia e do progresso contra esse vergonhoso escândalo dos tempos modernos, e confirmam que não é conquistando territórios e assassinando irmãos que se há-de atingir a máxima perfectibilidade social.

II

Quanto mais glorioso não é o sacerdócio das letras, a evangelização dos bons princípios, a lição pacífica dos povos, o arroteamento proveitoso na estrada do futuro, do que os trabalhos da espada ceifando em flor mil esperanças num dia, semeando a morte em cada lampejo, rasgando o seio das famílias, deixando regueiros de sangue fumegante por onde passa, substituindo enfim o luto à alegria, a guerra à paz, o inferno ao céu?!...

A espada é o heroísmo da morte; a pena o heroísmo da vida. Aquela há-de passar porque é um acidente; esta viverá porque simboliza o trabalho honesto e Deus ama aos que trabalham honestamente.

Entre estes dois heroísmos, preferimos, portanto, o último, que não acusa um remorso na hora extrema, ao contrário do primeiro que nascido e criado entre fumo e fogo, baixa ao túmulo salpicado de nódoas, circundado de espectros e coberto de maldições pela filosofia cristã e humanitária.

Podíamos citar nomes e precisar datas, e então veríamos se a lira de Homero admitia confronto com a espada de Alexandre, a glória de Augusto com a glória de Virgílio, o ferro dos Napoleões com a prégação do apóstolo dos Miseráveis.

III

Acudiram-nos estas reflexões ao tentarmos a biografia dum rapaz de vinte e seis anos que desde o dia em que soube escrever o seu nome, trabalhou constantemente nas lides pacíficas do progresso com resignação e modéstia inexcedíveis, com fé e esperança inalteráveis na melhor das causas, na causa do cristianismo, cujo código sublime se sintetiza num só verbo — a caridade. E a caridade, mãe dos maus, irmã dos bons como algures cantou um poeta [1], não é somente a esmola que se dá ao pobre, é também a lição que se dá ao rico, a advertência que se faz ao criminoso, a direcção que se presta ao tíbio, a coragem que se infiltra ao tímido, o exemplo que aproveita a todos.

E, Simões Dias, como ao diante se verá à luz dos factos, tem sido um nobre exemplar deste apostolado. Guerra tem ele feito; mas guerra santa, guerra pacífica, destas guerras que deixam atrás de si uma esteira de luz em meio das noites do crime. E quando se entra afoito nesta cruzada, com tão bons auspícios, em tão verdes anos, sem mais estímulos que a própria vontade, claro está a grandeza da dedicação, a intensidade da fé, a coragem heróica de que se acha animado e o muito de esperanças que de si promete.

IV

Não cremos escrever-lhe a biografia, porque ninguém a tem aos 26 anos. Vamos apenas coligir algumas datas para os seus futuros biógrafos, e fazemo-lo agora por duas razões:
1ª, porque profetizando-lhe um futuro brilhantíssimo, supomos que o esplendor de factos posteriores lhe apagaria a glória luminosa que já ressalta dos até aqui volvidos;
2ª, porque a sua passagem das províncias para a capital, a considerámos como marco miliário na sua vida, e bom é recordar nesta conjuntura o que foi, para mais segura profecia do que virá ser.

V

Na Benfeita, pequena aldeia da Beira, nas margens do rio Alva, a oito léguas para o norte de Coimbra, nasceu a 5 de Fevereiro de 1844, José Simões Dias [2].

Foram seus pais, o honrado proprietário António Simões Dias e D. Maria Gonçalves da Conceição, que ainda felizmente existem para bendizerem a Providência pelos dotes elevados com que aprouve enriquecer seu filho.

Estudou primeiras letras com o seu parente e professor público, o Padre António Pedro Teixeira, velho simpático tão avergado hoje pelos anos, como pelos trabalhos e sofrimentos em prol da liberdade, durante as fases angustiosas de nossas lutas intestinas [3].

Por instigações deste cavalheiro e conselho de seus pais saiu da Benfeita (1854) para a pátria do clássico Miguel Leitão de Andrade, onde seu tio, o reverendo Sr. Albino Simões Dias, pároco de Pedrógão Grande, vila assente sobre a margem do rio Zêzere, o recebeu e tratou com desvelos de pai, mandando-o estudar latim com o professor régio que ali havia até se preparar para o exame que foi fazer a Coimbra em 1857 [4].

Dotado duma inteligência superiormente precoce e discretamente dirigido, ainda no mesmo ano de 1857 com pasmo e orgulho de seus professores, fez no liceu nacional exame de todos os preparatórios exigidos para a matrícula do curso teológico do seminário. Exames de Português, Francês, Latinidade, Retórica, História, Filosofia e Geometria, todos Simões Dias fez e em todos eles obteve plena aprovação.

Só quem tiver passado pelas lides escolares, poderá apreciar devidamente quantas dificuldades a vencer em tanta diversidade de matérias no curto período de um ano! Venceu-as Simões Dias, porque à alteza do seu talento estava o dever moral que tacitamente havia contraído com seus pais e protectores.

Em Outubro de 1858 começou, pois, o curso teológico do seminário, e tal conta deu de si e tanto se distinguiu de seus condiscípulos, que a muitos doutrinava e fazia lições litografadas, pelo que recebia modesta retribuição.

A partir daqui nunca mais se alimentou de pão ocioso, porque da leccionação particular colhia os meios de subsistência.

Conservando-se a este tempo em casa de outro seu tio (a quem viera recomendado em 1857) o rev.º Sr. Manuel Simões Dias, arcediago da Sé de Coimbra e professor de Latinidade no liceu, como houvesse completos os preparatórios para entrar na universidade, nela se matriculou na faculdade de Teologia, e não só tomou grau merecendo em todos os anos a classificação de Accessit, como também concluída a formatura em 3 de Julho de 1868, foi rogado por seus professores para frequentar o 6.° ano e doutorar-se.

Honra em verdade subida, e que só se usa dispensar a talentos como Simões Dias. Ele, porém, posto que grato a tanta deferência, regeitou esta graça com nobreza sem igual.

Uma cadeira na universidade, um canonicato, o báculo mesmo, um futuro brilhante enfim e benquerenças de família, tudo sacrificou contente no altar de sua convicção política e religiosa; porque este facto deve atribuir-se menos ao muito amor e paixão com que em seus livros havia cantado a mulher a quem chamou esposa, do que à reacção de consciência contra um estado, em que o pensar com liberdade é um crime e exprimir opiniões que se não sentem uma virtude.

Em paga do azedume de sua família a quem nunca deveu mais que o leite e o ser, porque de bem tenra idade trabalhou para sua educação e sustento, continuou dando àquela, uma parte do que mal chega para satisfação de suas necessidades.

É o amor da família elevado ao extremo do sacrifício! Lição e exemplo a futuros filhos.

Fazia ele com a leccionação particular interesses razoáveis, que o punham a coberto de quaisquer necessidades, mas como esta posição fosse indefenida, era mister buscar outra, que assegurando-lhe a subsistência quotidiana, lhe garantisse também o futuro.

Nesta conjunctura se pôs a concurso a cadeira de Português, Francês, Latim, Economia Rural e Administração Pública, criada para a cidade de Elvas, e um dos candidatos foi Simões Dias, cujo exame mereceu a classificação de óptimo.

A 3 de Setembro de 1868 casou em Coimbra com D. Guilhermina Simões da Conceição, e depois de ter passado no Bussaco este dia, único feliz da sua vida, em companhia de alguns amigos, se dirigiu para Elvas, onde aguardou o seu despacho que lhe foi conferido em 30 de Novembro do mesmo ano.

A maneira habilíssima por que regeu a cadeira, durante os dois anos que esteve de posse dela, é inútil dizê-lo, atentas as suas habilitações e prática de ensino. Note-se somente que apenas constou o seu recente despacho, logo o município de Elvas, em uma das suas sessões, tratou de lhe aumentar o ordenado, com o propósito evidente de resolvê-lo a não abandonar a cadeira. Nada mais eloquente e nenhum testemunho de apreço mais honroso.

Chegamos a uma altura em que se nos confrange o coração por termos de recordar um acontecimento funestíssimo, que nos encheu de pesares e a Simões Dias imergiu em luto e dor.

No dia 20 de Março de 1869 adoeceu sua prezadíssima esposa e tão fatalmente, que deu a alma a Deus no mês das flores a 14 de Abril seguinte, depois de receber os socorros espirituais que pediu com a candura infantil de quem não se julgava ainda bastante pura (quando ela o era tanto) para fazer companhia aos anjos, seus irmãos.

Conquanto hóspede em Elvas, o seu passamento foi sentidíssimo, e podemos asseverar que nenhuma boa alma desta cidade o houve por indiferente.

Se era uma jovem de 24 anos, bela, formosa, enriquecida de virtudes, e poucos meses havia que se erguera de junto à ara sagrada, aonde, feliz e ditosa, fora receber a bênção nupcial!...

Jaz no cemitério de S. Francisco, subúrbios de Elvas, onde uma coroa de perpétuas sobre sua sepultura atesta a saudade eterna de seu esposo.

VI

Vamos fechar a notícia da vida de Simões Dias, porque somos chegados aos últimos factos dela.

Em Agosto de 1870 foi despachado amanuense da secretaria do ministério da justiça, tendo precedido concurso, a que se apresentaram catorze candidatos quase todos com o grau de bacharel.

Neste mesmo mês e ano foi agraciado com a comenda da real ordem de Isabel, a Católica. Sabe ele demais que estes títulos:

"Verdadeiro valor não dão à gente"

e que

"Melhor é merecê-los, sem os ter."

Entretanto Simões Dias não podia recusar esta graça sem mostrar-se ingrato aos amigos que lha ofereceram.

A carta do punho do próprio ministro, carta que acompanhou a credencial, é assaz honrosa, porque pede licença para oferecer a comenda ao escritor que mais há feito conhecer em Portugal a literatura espanhola. Mercês conferidas assim, espontânea e merecidamente não envergonham.

A "Iberia", um dos primeiros jornais de Madrid, noticiando o facto, expressa-se deste modo:

"O regente do reino acaba de fazer mercê duma comenda ordinária de Isabel, a Católica, ao escritor português Dr. José Simões Dias, em quem estimamos haja recaído tal graça, porque poucos como ele se têm ocupado em dar a conhecer no vizinho reino dos poetas e prosadores espanhóis, já a sua biografia, já os seus trabalhos.
"O Sr. Simões Dias, digníssimo professor de instrução secundária em Elvas, é um modelo de actividade, pois em pouco tempo publicou duas edições do "Mundo Interior", colecção de poesias líricas; "Coroa d'Amores", colecção de prosas; "A Hóstia d'Oiro", poema herói-cómico em dez cantos; e a colecção de canções meridionais intitulada — "As Peninsulares".
"Além disso, está imprimindo um livro intitulado "Estudos de literatura espanhola contemporânea", de cujo notável trabalho conhecemos alguns artigos que como amostra tem publicado na "Democracia" de Elvas, e na "Folha" de Coimbra, entre os quais nos lembram os retratos e estudos dos poetas Zorrilla, Ruiz Aguilera e Puente y Brañas, os dos publicistas Lorenzana, Massa, Molina, Rosa Gonzales, Carreras e Martinez, assim como o do respeitável orientalista Sr. Garcia Blanco e o de nosso querido amigo o Sr. Montero Rios, actual ministro da graça e justiça."

É também sócio da associação dos artistas de Coimbra, em cujas sessões solenes tem orado por muitas vezes, sendo escutado com atenção.

Agora seria talvez lugar próprio para nos ocuparmos da suas qualidades particulares e virtudes íntimas, que tão bem conhecemos; receámos, porém, ofendê-lo com a publicidade do que ele deseja oculto, e fazemos-lhe a vontade.

O que aí fica é já de si glorioso e aos 26 anos poucos se poderão lisonjear de tanto.

 

SEUS ESCRITOS

I

Há dez anos que as letras portuguesas se restringiam a um subjectivismo doméstico, espécie de prolongamento dos delírios românticos, favoneados pelas auras arcádicas e mal interpretados exemplos das elegias de Lamartine e íntimos desesperos de Byron.

O poeta cantava para si completamente esquecido da sociedade. Os livros que por então saíam a lume, não representavam o meio em que eram escritos, representavam apenas a poesia individual, exclusiva e puramente subjectiva.

Hegel era um mito. Não se sabia abstrair. Cada um cantava em seu remanso particular os risos e lágrimas, as alegrias e dores de sua vida, sem se dar ao trabalho de estudar a natureza em suas múltiplas manifestações, de escolher os bons modelos, de doutrinar finalmente o povo e escrever para a humanidade. Havia excepções em Portugal, mas raras e impotentes para mudarem o rumo à literatura desvairada.

Apareceu por essa época uma corte de mancebos, cada qual mais galhardo, que escudados pela autoridade e bom exemplo de alguns poetas portugueses contemporâneos, puseram ombros à empresa e prometeram continuá-la. Lá andam ainda todos na brecha, lidando cada um por seu lado, e, se a obra não está completa, honra lhes seja pelo que hão feito e pelo muito que têm trabalhado. Destes citaremos somente dois, notáveis pela profusão e originalidade de seus trabalhos, e pela boa camaradagem literária que os uniu em Coimbra. Aqui quebrantados pelo labor, ralados pelos cuidados domésticos, macerados pelas vigílias da noite, almejando por um futuro que tanto lhes tardava, imberbes ainda, contraíram esse hábito de tristeza que os distingue, momentaneamente alterado por qualquer comoção, que é neles fortuita por excessivamente sentida.

Aqui, sobre as margens virentes do formoso Mondego, à sombra de seus carvalhos e salgueiros, inspirados pela exuberância duma natureza prenhe de vida, escreveram ambos os primeiros versos, sonharam os primeiros sonhos, e acordaram para as realidades da vida. De Coimbra saíram enfim, aventureiros em procura do futuro, cada um para seu polo.

Um abrigou-se no Porto e chama-se Teófilo Braga; outro veio para Elvas, onde se demorou por dois anos, e demandou a capital em 31 de Agosto de 1870, e chama-se José Simões Dias. É deste último que nos propomos particularmente tratar.

II

Educado para a vida eclesiástica, e sendo por isso admitido aos ofícios divinos e obrigado até a prégar uma boa dúzia de sermões, ressentiu-se até aos 20 anos da falta de convivência e liberdade, donde lhe proveio uma certa timidez e acanhamento que ainda hoje lhe são peculiares. Só muito tarde é que veio a saber que a literatura e principalmente a poesia lhe eram simpáticas.

Foi em 1861 que sem auxílio de mestre ou livro que o norteasse, publicou os primeiros versos em um jornal de Coimbra, versos que lhe mereceram os gabos de alguns amigos, já provados na poesia, e o animaram a prosseguir na carreira que auspiciosamente encetara.

Desde então nunca mais abandonou as musas, e nenhum jornal literário ou político se publicou em Coimbra desde essa época de que ele não fosse assíduo colaborador.

Colaborou de 1861 a 1870 nos "Ensaios literários", fundado por Adolfo Coelho e Alfredo Elísio; "Hinos e Flores", "Tira-teimas", "Fósforo" e "Átila", sendo estes três últimos colaborados, entre outros escritores, por Antero do Quental e Teófilo Braga; "Povo", "País", "Estrela da Beira", aonde escreveu por mais de três anos, e "Comércio de Coimbra", redigido pelo comendador Olímpio Nicolau Rui Fernandes. Fundou a "Crisálida" com Teófilo Braga; a "Academia" com o Dr. J. J. Lopes Praça e Emídio Navarro. Em Setembro de 1868 principiou de enriquecer as colunas da "Democracia", de Elvas, e foi constante colaborador da "Folha", de Coimbra, aonde tem escrito os primeiros artigos, primorosos pela erudição, estilo e novidade.

Em 1863 a par das obrigações escolares e trabalhos da leccionação particular que lhe tomavam o dia e parte da noite, coligiu os versos já publicados, juntou-lhes alguns inéditos e deu a lume a primeira edição do "Mundo interior" que o público aceitou com aplauso e como proémio de futuras composições. E não se enganou em suas esperanças, porque pouco depois, em 1864, publicou o poemeto dramático intitulado — "Sol à sombra", que o nosso amigo e distinto poeta Cândido de Figueiredo esqueceu na sua introdução ao "Tasso", quando diz nova a forma dramática em Portugal. O "Sol à sombra" de Simões Dias é um specimen do género dramático, e tanto que nenhum poeta se despenharia se ali fosse remodelar qualquer composição.

Em 1867 foram estas duas obras reimpressas em um só volume sob o título de — "Mundo interior" (2ª edição) livro que produziu certa sensação por ser um protesto enérgico contra o romantismo em que ainda se escrevia.

De feito o "Mundo interior" não é somente uma colecção de poesias soltas, desligadas, caprichosas, dispostas casualmente; é um programa vastíssimo cuja realização começou de efectuar-se na "Hóstia d'Oiro", continuou-se nas "Peninsulares" e se completará talvez em um novo livro de composições nacionais, patrióticas e sociais, que ainda esperamos de tão fecundo e inspirado poeta. E tanto assim é que as "Peninsulares" parecem o desenvolvimento do "Bandolim de D. Juan", que fez dizer ao Sr. Pinheiro Chagas no "Panorama" que Simões Dias era o primeiro guitarrista peninsular. Os artigos que a imprensa desse tempo sagrou ao "Mundo interior" rodavam todos mais ou menos sobre este pensamento. Já se previa então que o carácter popular do "Mundo interior" era o distintivo proeminente do autor. Foi por isso que Teófilo Braga exclamou ao ler as "Peninsulares": "Amigo Simões Dias, encontraste o teu caminho."

Do "Mundo interior" escreveu com louvor o Sr. Visconde de Castilho uma carta no "Jornal do Comércio", o Sr. Chagas no "Panorama", o Sr. Cândido de Figueiredo em vários jornais, o desditoso mancebo Álvaro do Carvalhal na "Revolução de Setembro", afora inúmeros artigos de redacção que por então se publicaram.

A edição esgotou-se logo, e os primeiros escritores portugueses saudaram em cartas particulares o moço trovista. Não devemos preterir a introdução do livro, poesia que Simões Dias não poderá jamais escrever porque pertence ao número de composições que só uma vez se escrevem, como a propósito de algumas cenas do "Fr. Luís de Sousa" disse o Sr. Rebelo da Silva.

Transcrevamos ao acaso. É o ansiar pela virgem dos seus sonhos:

"Abre-me o céu esplêndido, estrelado,
O céu das criancinhas, quando à noite
Se põem contando os astros. Não me digas,
Ó sibila do amor, ó santa esposa,
Porque estão lá em cima essas esferas
Como um trono de luzes movediças,
Suspensas pela abóbada azulada!
Donde vêm tantos mundos que se agitam
Como seios de virgem, palpitantes,
Na valsa eterna do festim das noites!
Não me apontes com o dedo essa escritura,
Que eu nela não sei ler. O olhar do sábio,
Esse que vá de noite mergulhar-se
No oceano insondável do infinito,
Esse que pense e leia e se afadigue
Em procura da lei, tirana, eterna,
Que as estrelas suspende nas alturas!
O sábio também chora, quando cisma
Na triste escravidão de tantos mundos,
Que nascem, vivem, morrem sempre escravos!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

O coração me dói! Não queiras, filha,
Levantar esse véu que envolve chagas!
Quero céu, quero estrelas, mar e terra;
Mas como outrora os vi, quando criança."

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Em vão me ponho a fantasiar ondinas,
Sombras com que me abrace, e ao fim da tarde
A alongar esta vista, a ver se vejo
Lá pelo espaço a luz da pátria bela;
E sempre o mesmo anseio.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

E todavia o amor bem sei que existe
Nas ânsias do desejo... mas ao cabo
Do desejo, Senhor, que mais se encontra?
O frio duma lousa que enregela...
A solidão, mais nada!... Ó sonhos lindos
Das minhas noites infantis, que vento
Vos levou tão depressa da minha alma?

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . Oh! Anjo, esconde-me
Desse fantasma que põe medo — a dúvida!
Pois a essência dum lírio, mal fenece,
Não sobe para o céu, como na encosta
O fumo do casal? Pois este corpo
Não é como um tributo aceso
Onde a vida crepita; e quando expira,
Como o fumo sequer, não sobe à altura
Também a nossa alma? Pois a lágrima
Não há-de ser pesada na balança
Da justiça eternal? Deus não existe?
Eu quero os sonhos que sonhei no berço,
Ver a face de Deus em cada estrela,
Ver um beijo de mãe em cada boca,
Um sorriso de irmão em cada homem!"

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Um dia junto ao mar, vê se te lembras,
O sol estava a pôr-se, perguntaste-me
Com essa tua voz — suspiro de anjo:
— Já viste, filho, ao declinar da tarde
As listas cor-de-rosa que o sol deixa
Soltas no firmamento; e a nuvem branca
Transparecer, franzir-se como a túnica
Dum velho antiste desfraldada ao vento? —
E eu que te disse então? Vê se me lembro:
"É Deus que a face amostra em toda a parte,
No azul do firmamento e no sacrário,
No baloiçar da messe e do arvoredo,
No sol que além se abaixa, e além desponta:
Cantam-no as solidões e o mar em fúria,
As estrelas do céu e o tenro infante
De joelhos no berço, mudo, estático!
Cantêmo-lo também."

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Se eu me pusesse a ler as tristes páginas
Da negra história das mulheres vendidas,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Presas pelos cabelos à corrente
Dum destino fatal, irresistível;
Choraria talvez nessas ruínas
Velhos destroços de gentil criança;
Mas esqueceres-me tu, mulher santíssima,
Renegar do teu nome, e os teus altares
Vê-los ruir no chão em vida minha!...
Primeiro a morte gelará meu sangue,
O sol do Oriente brilhará de noite!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Pomba, que lá do céu me estás ouvindo
O frémito da prece que murmuro

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . Ai! Se te lembras,
Ainda lá no céu, de quem suporta,
Acorrentado à cruz, o peso enorme
Da maldição dos homens, filha, ampara-me!
A tua imagem de manhã me acorda,
De noite vem cerrar-me os olhos lânguidos;
O amor vejo-o fugir, se tu me foges,
Radiante erguer-se, se teu rosto avulta...
Mais uma hora de gozo... vem sentar-te
À beira do caminho, e quando eu passe
Levanta-me do pó... irei contigo!"

Basta! Se seguíssemos os voos da inspiração do poeta e déssemos asas à nossa admiração, transcreveríamos a poesia inteira. E porquê? Porque há ali um coração de criança a extravasar de afectos; uma alma enorme a expandir-se em arroubamentos divinos; um lirismo perfeito que jamais harpa-eólia soltou em linguagem portuguesa.

O leitor inteligente que a leia no livro, se puder alcançá-lo; nós folgámos de a ter de memória.

III

O segundo livro de Simões Dias publicado em Coimbra em 1868, intitula-se — "Coroa d'Amores".

"A "Coroa d'Amores", diz um crítico, é uma galeria, em cujos quadros as alamedas viçosas mal encobrem o fundo triste e lúgubre, donde brotaram aquelas eflorescências. É o retrato do autor, do poeta do "Mundo interior". São amores, tristes todos, e todos vestindo galas, como a alma do poeta que no silêncio da noite segreda mágoas ao seu travesseiro, e de dia franze um sorriso falso para desviar o escárnio de quem passa."

Houve alguns críticos, e entre eles o que pré-citámos e o Sr. Chagas, que inculparam o autor por alardear erudição que contrasta com a singeleza de que se revestem os romances da "Coroa d'Amores".

É justo o reparo, mas comum a quase todos os romancistas incipientes. Cremos até que Camilo Castelo Branco se não isentou deste defeito no "Anátema". Que querem?! Não será por ventura natural que um rapaz mostre que sabe alguma coisa, quando sai a público, quase desconhecido e sem mais recomendação que a própria valia?

Se, como cremos, é defeito amontoar erudição num livro que a não demanda, merece contudo desculpa quem o comete se tem por si os poucos anos e virtudes de subido quilate. Neste caso está Simões Dias. A "Coroa d'Amores" orça pelo estilo das "Viagens na minha terra" de Garrett e leva-as de vencida na pureza e correcção da linguagem.

IV

Na tipografia da "Democracia", de Elvas, saiu, em 1869, o terceiro livro de Simões Dias "A Hóstia d'Oiro", tentativa para dar nova direcção ao poema herói-cómico.

É sabido que a literatura portuguesa, assim como se honra de possuir o primeiro poema épico do mundo, não pode ufanar-se igualmente de ter um poema herói-cómico tão seu e nacional como "Os Lusíadas". O "Hissope", de Diniz, modelado pelo "Lutrin" de Boileau, peca por um purismo clássico que enjoa. "Os burros", de J. A. de Macedo, apesar de recomendados em algumas poéticas de escola como specimen do género, são além de imoralíssimos, um parto nojento de paixões odientas e rancores desenfreados. O primeiro, como o segundo, não satisfazem aos preceitos da arte, e muito menos às aspirações da poesia moderna. "Os burros" sacrificam na ara duma linguagem indecente e virulentíssima todos os homens políticos que não comungavam as ideias de Macedo; o "Hissope" ri-se simplesmente de pequenas misérias que hão-de existir, enquanto existirem homens. Não assim a "Hóstia d'Oiro".

A sociedade actual mais séria que as que precederam, preocupada com os destinos das gerações vindouras, despreza bagatelas e fita somente o escopo na utilidade de seus fins e trabalhos. Simões Dias por entre um sorriso forçado, apresenta-se na "Hóstia d'Oiro" como um apóstolo social, digno de figurar ao lado dos que mais o são.

Seja ele, o próprio, que nos diga o que é a "Hóstia d'Oiro"! É uma carta sua que nos dirigiu de Coimbra, e que à parte da benevolência amigável que nela nos dispensa, exprime quanto pudéramos dizer do seu livro.

Meu Andrade,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Li também os periódicos que pelo correio me enviaste, e forçado é confessar-te que deveras me contristou essa luta de palavras, em que por amor da "Hóstia d'Oiro" voluntária e generosamente quiseste envolver-te.

O santonismo representado em Portugal por meia dúzia de sicofantas ignaros, que ainda confundem o Deus dos cristãos com o Molok da impiedade, não tem aquela importância que a democracia dispensa aos próprios inimigos. Lutar com ele é mais fraqueza que valentia. Se topamos um cadáver, bom é que lhe respeitemos as cinzas; bem pode ser que algum espírito bom o animasse. Quando, porém, ele representa os despojos de alguma lazarenta azémola, dessas que ainda andam de pé e já os ossos lhe rangem, e já os músculos lhe caem de podres, então, meu amigo, não há mais remédio que tapar o nariz, desviar os olhos e passar avante...

A acusação que o neocatolicismo (se tal coisa entre nós existe) pretende fazer, não ao meu nome que de pouco vale, mas à ideia santíssima da Religião social que defendi e defenderei sempre, não merece uma penada de tinta. Deus que é misericordioso e jamais desampara os que lidam por sua santa causa, que é a de todos os homens de bem, se encarregará de fulminar tais sacrílegos, que à semelhança de Osa tentam profanar com suas mãos impuras a arca santa do progresso.

Tu é que devias seguir o meu exemplo; nem uma palavra de resposta às escurrilidades do truão. Deixa-o lá esbravejar na impotência do seu nada. Gastar colunas e colunas de uma folha séria batalhando por meter na cabeça de um cerdo, que dois e dois são quatro, quando ele teima que são cinco, é o mesmo que demonstrar a existência dos atributos de Deus a quem n'Ele não acredita. Deixa-te de espadeirar sombras. O que o "Bem Público" deseja é que derricem com ele para se glorificar à custa dos outros. Vê lá se o Herculano desceu alguma vez a desviar com o pé as insolências monstruosas, as provocações indecentes daquela folha. Nada! Para o homem começar por aí a gabar-se de que um escritor, como o Herculano, lhe dera a honra de uma discussão! A ele que nunca em sua vida poderá representar entre nós o papel que Veuillot representa na França!

Diz o tal "Bem Público" que a "Hóstia d'Oiro" é um livro que eu quis fazer péssimo, o que não obstou a que me saísse bom! A isto não devias responder. Agora, quanto à imoralidade de que o livro foi acusado, bom era que todos soubessem e repetissem o que S. Paulo dizia a Tito: "para os corações puros tudo é puro". Que diriam os hipócritas zeladores do decoro das famílias se eu lhes escrevesse um livro como esses que citei no post-scriptum da "Hóstia d'Oiro", livros aconselhados para a educação da infância? Não me faltariam acoimas de devasso! Que ideia fariam da arte os homens que fossem ocultar nas pregas dum cobrejão maltez os contornos simétricos, regulares, artísticos do Apolo de Belvedere, ou da Vénus de Cós, só porque as partes em questão ofendiam a moral pública? Eram capazes de aconselhar a carocha e o São Benito para castigo dos grandes talentos que produziram aqueles dois milagres da escultura antiga. Eu não digo que todos nós devamos escrever as liberdades que Ezequiel escreveu num livro didáctico, como a "Bíblia", ou que nesta se incorporasse o epitalâmio siríaco, que Salomão cantou nas suas bodas e que anda no Velho Testamento a par dos sentidíssimos arrependimentos de David; o que digo é que não deve aferir-se uma obra de arte pela craveira de uma obra puramente didática. Ali respeita-se a verdade da natureza e mais perfeita será a obra quanto mais natural ela for; aqui deve de imperar mais a convenção, a fórmula estabelecida, as circunstâncias.

Eles é que não sabem estas coisas e quiseram ver um catecismo onde deviam analisar em poema herói-comico. Poema herói-cómico! Aqui bradam eles dizendo que tal não é, porque não seguiu pari passu os vestígios do "Hissope". Estes defendem o estacionamento da arte, como os clássicos defendiam a imutabilidade dos preceitos horacianos, como os padres do Concílio do Vaticano querem defender a infalibilidade do Papa. Para eles o último verbo é o que se disse ontem; o amanhã não existe. Não se lembrarão eles de que se eu quisesse fazer um poema como o do António Diniz, escusado empenho seria esse, por já termos o que eu quisera dar-lhes? Que merecimento seria o de quem quisesse correr por caminho aberto e aplanado por outro? O que eu tentei foi dirigir por nova rota aquele género; dar-lhe um carácter mais francamente social; aproximá-lo das tendências actuais para o bem geral, chamar a arte para o terreno da discussão fazendo-a resolver problemas que até hoje pertenceram à escola; animá-la do calor da sociologia sem lhe crestar as cândidas asas da imaginação poética, e enfim, obrigá-la a servir de mais alguma coisa do que o simples deleitar. Este foi o meu fim, e louvado Deus, não me faltaram engenhos provados a assegurarem-me de que havia feito bem.

Ora agora para os que não concordarem com a denominação que dei à "Hóstia d'Oiro" não têm mais que subtrair-lha e ficamos de boa avença. Mais diria se me não lembrasse agora de que estou falando a um homem que sabe compreender a arte e em coisa nenhuma dissente das ideias que expendo. Desculpa! De novo te beijo as mãos pelos favores com que me honras no teu jornal; felicito-te pelos triunfos que estás alcançando sobre os inimigos da democracia, e te exoro que lhes perdoes de ora avante, porque eles não sabem o que dizem, nem o que fazem.

Teu colega e amigo
Coimbra, 1870,
J. Simões Dias.

A ideia do livro aí fica desenvolvida magistralmente pelo seu autor. Desçamos nós agora à forma. Trata-se da descrição duma noite tempestuosa:

A noite vai em meio: a chuva grossa
A cântaros despeja-se: medonho
Das torres as ventanas sibilando
Ulula o temporal, e nos telhados
O martelar da saraivada urrando
Semelha de Demónios um tripúdio!
As altas comas da floresta ao longe
De acurvadas rastejam na planície!
É plúmbeo o céu e noite escura a terra,
Caliginoso caos, Babilónia
De lamentos, de gritos... quadro horrendo!

Aqui há propriedade na linguagem, beleza e expressão nas imagens e valentia inexcedível nos versos. Esta descrição vale de per si só um poema inteiro.

Vejamos para diante. Admiremos como o poeta em uma magnífica prosopopeia se encarna no povo e fala pela linguagem dele:

Em todo o tempo o lume faz gasalho
(Nisto concordam velhos portugueses)
Mas quando o frio inverno carrancudo
Nos entra pela fresta e vem sentar-se
Connosco junto ao lar. Oh! Não vos conto
Os feitiços que encerra uma fogueira
A crepitar alegre, como a virgem
Que está cantando e respondendo aos grilos
Que trinam à lareira. Rubicunda,
Aurora rosicler, como enfeitiça
A mostrar-nos a face mais vermelha,
A provocar-nos com seus beijos tépidos,
A fazer-se mais quente se bulimos,
A retirar-se mais, se recuamos
De seu hálito morno! Oh que formosa
De uma fogueira a cor, e o olhar e os raios!
Ao pé de ti que vale a formosura
Do sol abrasador, aristocrático?
Eu quero pôr as mãos trémulas, frias,
Sobre as já mornas lajes da lareira
E pelas veias pressentir manando
A suave quentura, o quente beijo
Que inebria, endoidece, mal se sente!
Eu quero ali, à noite, reclinado
Sobre macias moitas de carqueja
C'os pés numa cortiça, e as mãos nos joelhos
Bem tranquilo escutar a negra historia
De mouras encantadas, e das bruxas
Que vêm roubar de noite o pequenino
Dormente no seu berço, e lá o trazem
De braço em braço por ignotos mares
Até que o dia rompa. Eu não conheço
No mundo outra ventura mais gostosa,
Mais doces mimos, que melhor me saibam!

Terão mimo estes versos? Valentes, sonoros e onomatopaicos são eles tanto, que os Virgílios, português e brasileiro, poetas que nós conhecemos mais pródigos daquelas qualidades, não se dedignariam de firmá-los com seus nomes.

Se fôssemos atrás das belezas da forma, teríamos de transcrever o poema inteiro, porque Simões Dias caminha sempre na mesma altura. Versos brancos que não são para lodos os poetas, em livro de fôlego, não os temos hoje em português senão talvez na "Hóstia d'Oiro".

E não nos tomem este nosso dizer à conta da amizade que consagramos ao poeta, porque é convicção nossa que o juízo que timidamente aventámos, há-de ser confirmado por pessoas cuja opinião seja mais valiosa e autorizada que a nossa.

Finalmente, tem defeitos o livro? Tê-los-á, tem-nos por certo; mas que livro há aí isento deles?

Entretanto a super-abundância das belezas, tanto na forma que é nova e sem rival, como da concepção que é exclusivamente de Simões Dias, compensa bem quaisquer pequenos defeitos que por ventura possa ter.

E se isto não bastasse, seria de sobejo a história do poema que nós podemos escrever, porque assistimos à elaboração de alguns cantos, escritos quando o compositor aguardava impaciente à porta do escritório por mais algum original que viesse completar a caderneta.

V

Saiu igualmente da tipografia da "Democracia", em 1870, o quarto volume de Simões Dias. Intitula-se as "Peninsulares" e pela sua valia e novidade, é crença nossa que poucos homens de letras haverá em Portugal que o não tenham já no lugar mais selecto de suas estantes. O sub-título de "Canções meridionais" que o autor lhe deu, exprime com exacção o cunho do génio do meio-dia.

O poeta ombreia neste seu livro com o decantado Espronceda. Tal é o calor e vida que ressalta de cada uma de suas produções! Também as felicitações quase que têm surpreendido Simões Dias na sua modesta obscuridade. Em Portugal são os Srs. Visconde de Castilho, Mendes Leal, D. António da Costa, Inocêncio da Silva e toda essa plêiade de novéis escritores que o distinguem com seus bons ofícios e não perdem ocasião de testemunhar sua admiração e respeito por tão privilegiado poeta; em Espanha são os Srs. Montero Rios, Angel Fernandez de los Rios, Ruiz Aguilera, Ricardo de Molina, Benigno Martinez, poetas e publicistas de reputação firmada que se lisonjeiam de felicitar um moço de tão boas partes e espíritos.

E razão há para estes extremos.

As "Peninsulares" são um dos livros mais mimosos que conta a literatura portuguesa.

O juízo do livro exprime-o o autor no post-scriptum:

"Num período de transição como este que vamos atravessando, em que os tribunos da ideia nova aproveitam todas as variadas feições da arte para em seus moldes formularem cada qual a divisa da sua bandeira, não viria a propósito coligir em breve compêndio o sentir, o crer e o pensar de um povo que bem pode deixar de ser amanhã o que é hoje?

"Azado nos parece o momento para a solenidade de um inventário. Quem nesta conjunção de dores quisesse formar a síntese psicológica da poesia peninsular, com suas alegrias e dores, esperanças e desalentos, religião e política, faria um grande serviço, não tanto para já, como para a história de amanhã. Foi este o nosso pensamento quando começámos a trabalhar nas "Peninsulares".

"A poesia da península é tão uniforme, são tão irmãos estes dois povos que a cultivam, que julgamos de necessidade deixar voar o pensamento por toda ela e como que reunir no mesmo feixe as mais aromáticas flores, colhidas em seus vergéis literários. A guitarra de Almaviva no braço do Salamanquino, mal poderá soar em Espanha que se não oiça em Portugal. É esta a razão do título.

"Assim como não existe cancioneiro completo, também este livro e outros que neste género se fizeram sairão por força imperfeitos. Se o povo é tão caprichoso nos seus cantares, como em todos os actos da sua vida!

"Outra advertência: Nem sempre afinamos a lira pelas tonadilhas populares, é verdade; mas em compensação aproximamos a estrofe, o quanto possível, da ideia do povo, que de nenhum modo havemos de confundir com a plebe, a criadora anónima de mil chocarrices de que andam prenhes os nossos cancioneiros. De mais, este livro é uma síntese, não é uma análise. Respigamos a flor, não enfeixamos o arbusto."

Por mais que nos esforçassemos, nada diríamos que se aproximasse sequer do que aí fica. Está exposta a ideia que presidiu ao empreendimento das "Peninsulares" e definido o seu pensamento. Agora o leitor corra ansioso a abrir o livro, e extasie-se com a leitura da Introdução, Serenata, Andaluza, Braços Nús, Não te creio, Seguidilhas Espanholas, Voltas, Delírio, Noite de Amor, Noite de Natal, Ilusões, Cristo da Veiga, de todas as poesias enfim que contém o volume e dir-nos-á depois se Simões Dias é ou não realmente um dos poetas mais acentuadamente meridionais, e se Espronceda não tem nele um digno émulo.

VI

Escreveu ainda uma longa introdução sobre o romance no livro do Sr. Silva Sanches — "As fatalidades do amor".

Um juízo crítico para servir de introdução aos "Sons dispersos", livro de versos do Sr. Pinto de Magalhães.

A introdução ao notável livro póstumo de Álvaro de Carvalhal, intitulado "Contos".

Um prólogo às "Cartas a um bispo", de Castelar, traduzidas pelo autor destas linhas.

Terminámos o catálogo das obras de Simões Dias publicadas até hoje. Actualmente tem no prelo os "Estudos sobre a literatura espanhola contemporânea", livro valiosíssimo que resume em si o que não encontrámos em nossas avultadas bibliotecas. Auguramos-lhe um êxito brilhante, porque ao talento e erudição do autor, junta-se a ignorância quase absoluta em que estamos, os portugueses, respectivamente à literatura espanhola.

Simões Dias não é daqueles que descansem à sombra dos primeiros louros; tem vida e génio; trabalha para satisfazer uma necessidade do seu espírito e há-de produzir quanto queira e intentar. A ninguém se antolhou nunca futuro mais lisonjeiro.

Aditamento à biografia

Já depois de impressa a parte biográfica, soubemos por alguns jornais espanhóis que uma nova graça, tão espontânea e honrosa como a Comenda, havia sido conferida a Simões Dias. Em uma das últimas sessões da Real Associação do Fomento y de las Artes, de Madrid, mereceu o poeta das "Peninsulares" ser nomeado por aclamação unânime seu sócio honorário. Note-se que esta sociedade conta mais de vinte anos de existência, e é escrupulosíssima na eleição de seus membros, que hão-de distinguir-se forçosamente em qualquer ramo do conhecimento humano.

Elvas - Setembro, 1870

HENRIQUE D'ANDRADE

[1] - Sr. Tomás Ribeiro — "Festa e caridade". Voltar

[2] - Benfeita — Situada entre a antiga vila de Côja, pátria da distinta actriz D. Emília das Neves, e entre a vila de Avô, pátria de Brás Garcia Mascarenhas, clássico autor do poema épico de 20 cantos — "Viriato Trágico".
Se algum leitor pretender melhor conhecê-la, leia na "Coroa d'Amores", o romance intitulado — "Sphinx", de que o Sr. Chagas se ocupou especialmente em um folhetim do "Diário Popular", que aí encontrará mais ampla notícia.
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[3] - Padre António Pedro Teixeira — Posto que não conheçamos pessoalmente S. S.ª é-nos todavia sobremaneira grato dedicar-lhe algumas linhas, porque sabemos quanto contribuiu para que Simões Dias não afogasse no mister da nossa enfezada agricultura, o génio potente que aí se está desentranhando em obras. Aceite S. S.ª esta manifestação de nossos sentimentos, como consequência dum culto que também em nossa humilde obscuridade nos prezámos de votar a quem primeiro guiou nossos tímidos passos na espinhosa carreira das letras.
O reverendo Sr. Padre Teixeira nasceu na Benfeita por fins do século passado. Estudou preparatórios e algumas disciplinas eclesiásticas no seminário de Coimbra, chegando a receber tonsura e ordens menores. Em 1828 foi inculpado por crimes políticos, e, conseguintemente, perseguido, sua família insultada e seus bens confiscados. Como tantos outros, recorreu ao homizio e aí se conservou até 6 de Maio de 1829, dia em que entrou nas cadeias de Arganil, enganado pelas autoridades desse tempo com a sedutora promessa de regressar para sua família. Em 1 de Agosto do mesmo ano foi remetido escoltado para a praça de Almeida e recluso na Avançada de Santo António. Ao despontar a aurora do dia 18 de Abril de 1834 chegou aos ouvidos dos prisioneiros ali encarcerados a notícia da fuga do governador da praça e da saída de alguma tropa. Em breve, auxiliados pela gente de fora, conseguiram arrombar as prisões e respirar livremente o ar que por tanto tempo lhes haviam negado. A 4 de Junho de 1834, depois de dissolvido o batalhão fixo, que fazia a guarnição da praça, e de que o Sr. Padre Teixeira era soldado, regressou à sua terra natal, e, aí, despido de ódios e rancores, se entregou aos cuidados domésticos no seio de sua família. Apesar de tantos reveses que quase o reduziram à miséria, nunca exigiu indemnizações, nem ao menos solicitou um emprego, a que lhe davam incontestável direito seus serviços e estudos. Só em 1840 depois de muitas provações e dificuldades, se lembrou de concorrer a exame para uma cadeira de instrução primária criada na Benfeita. Fez o primeiro exame em Fevereiro de 1841 e o segundo em Fevereiro de 1843, obtendo então a propriedade. O interesse e carinho com que regeu a cadeira, aí estão a pregoá-lo centenas de discípulos agradecidos, alguns dos quais ocupam posições eminentes, o que não sucederia talvez se não foram seus conselhos e desvelos.
Interrompida a carreira eclesiástica, em consequência de tantas vicissitudes políticas havia contraído casamento com uma senhora, cuja perda lhe fez volver de novo os olhos para o altar. Celebrou sua primeira missa em 1854, tendo 59 anos de idade. Em 1864 cansado da vista e dos anos, obteve a sua aposentação no professorado, e hoje arrastando dificilmente a vida lá existe ainda na Benfeita no seio de sua família a quem sempre generosamente beneficiou, com a tranquilidade duma consciência limpa de crimes e remorsos.
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[4] - Pedragan [Pedrógão] — Situado en la confluencia de los dos pequeños rios Cecere [Zêzere] y Pera, es uno dos lugares mas deliciosos que se pueden hallar; su terreno es muy fertil, y tiene cerca de 200 fuentes; en otros tiempos ha sido el recreo, y diversion de los Reyes de Portugal, cuando residieron en Colimaria [Coimbra]; el lugar está dividido en dos partes [Pedrógão Grande e Pedrógão Pequeno] por el rio Cecere, que pasa por una buena puente [Ponte Filipina do Cabril]. (Methodo Geographico por Mr. François, traducido en lengua española por el Lic. D. Juan Manuel Giron).
Pera, a que o geógrafo chama rio, não passa de uma pequena ribeira apenas notável pela fertilidade de seus campos e modernamente por algumas excelentes fábricas de lanifícios.
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Veja também:
Simões Dias - Sua vida e obra

Transcrito por:
Vivaldo Quaresma, 30-08-2017