JOSÉ  SIMÕES  DIAS

GUILHERMINA DA CONCEIÇÃO SIMÕES

Guilhermina foi o primeiro grande amor na vida de Simões Dias. Bela, formosa, inteligente e pura, desde cedo conquistou o coração do poeta, sensível como era à beleza feminina.

Conheceram-se em Coimbra, onde ela nasceu e onde a sua mãe, Dª Delfina de Jesus, tinha um botequim frequentado por estudantes universitários e pessoas importantes. Foi aí que Simões Dias conheceu a mãe e as filhas e a forma recatada como as mantinha educadas com distinção e desvelo.

Guilhermina era uma irresistível inspiração, uma musa encarnada num vulto transbordante de formusura e mocidade, na figura esbelta e sedutora de uma mulher, que era o seu maior estímulo e o ardente amor da sua alma apaixonada e poeticamente sonhadora.

Durante vários anos foi alimentando um amor platónico pelas virtudes da sua adorada musa, a quem dedicou vários poemas, embora os seus parentes desejassem vê-lo seguir a vida eclesiástica.

Durante as férias, a academia ficava quase deserta de estudantes, razão pela qual alguns estabelecimentos de comidas e bebidas encerravam durante esse período. Era o caso da sua amada que ia com toda a família para a Figueira da Foz, onde tinham uma casa e exploravam outro estabelecimento na época balnear.
Nas férias de 1866, Simões Dias, resolveu perder a timidez e ir a banhos para a Figueira, depois dos pais de Guilhermina lhe terem garantido hospedagem para a sua estadia. Durante este curto e inesquecível período de tempo os laços entre os dois foram-se robustecendo; mas, a sua presença foi reclamada pelos seus pais que o queriam, então jovem de 22 anos, na Benfeita, pelo que, repentinamente, o idílio amoroso teve de ser interrompido. Na retirada, Simões Dias dedicou estes versos à sua bem amada Guilhermina:

ADEUS

É forçoso partir e só Deus sabe
Quanta amargura em tão cruel momento!
Nem se imagina como em peito cabe,
Com tanto amor, tamanho sofrimento!

Hei-de contá-lo aos céus de alheia terra,
Hei-de dizê-lo à Lua, quando passe
No viso melancólico da serra,
Ansioso por beijar-te a nívea face.

E, quando à noite o céu todo estrelado
No azul estenda o luminoso manto,
Hei-de lembrar-me de outro céu doirado,
O céu do teu olhar cheio de encanto!

Depois, no rasto que deixar no espaço
Cada estrela cadente, em noite calma,
Hei-de mandar-te num estreito abraço
As saudades sem fim, que me vão n'alma!

Quando eu andar mais triste irei sentar-me
No cume do alto cerro, ao fim do dia,
Só para ver se à força de enganar-me,
Posso enganar a própria fantasia!

Mas que triste consolo! Adeus! Comigo
Vai combatendo a sorte que me cabe!
As saudades que levo não tas digo;
Penas que n'alma vão, só Deus as sabe!

Este, e outros poemas dedicados à sua musa inspiradora, encontram-se publicados no seu livro de ouro "Peninsulares".

No ano seguinte, Simões Dias e Guilhermina da Conceição ficaram noivos e, em 1868, ano em que terminava a sua formatura, quando era ardentemente solicitado pelos seus professores para que se doutorasse e fizesse parte do corpo docente da Universidade, prefere concorrer a uma cadeira de professor na cidade de Elvas para aí poder ir viver em paz e liberdade com o seu casto amor.

Antecipando que iria conseguir obter o posto a que havia concorrido, devido ao brilhantismo com que decorreram as suas provas, apesar do grande número de concorrentes, e desejando ardentemente, ir viver com a sua amada para longe da pressão que lhe era exercida por todos os seus parentes, com reparos e recriminações, casou sem o seu conhecimento e partiu, no mesmo dia, para Elvas, acompanhado por sua esposa, indo viver para uma casa alugada na rua da Feira, nº12, na freguesia de Santa Sé.

Até ao dia em que saiu a sua nomeação oficial de professor, em 30/11/1868, Simões Dias teve de dar aulas particulares para prover sustento para a sua recém formada família.

Assento de Casamento:

José Simões Dias e Guilhermina da Conceição, 03/09/1868

Aos três dias do mês de Setembro do ano de mil oitocentos e sessenta e oito nesta Igreja Paroquial da Sé Catedral de Coimbra tendo procedido às devidas preparações religiosas compareceram na minha presença os nubentes José Simões Dias e Guilhermina da Conceição munidos com uma Provisão do Excelentíssimo Governador deste Bispado, contendo Dispensa de Proclamas e licença de recebimento deles, e sem impedimento algum Canónico ou Civil para este casamento, sendo ele de idade de vinte e quatro anos, solteiro, natural de Benfeita deste Bispado, filho legítimo de António Simões e de Maria do Rosário Gonçalves, e ela também de vinte e quatro anos de idade, solteira, natural de Coimbra, filha legítima de José Luís Lourenço e de Delfina Rosa de Jesus, ambos os nubentes deste Bispado e paroquianos, ele da freguesia de São Cristóvão, ela desta freguesia da Sé Catedral, tudo conforme declarado na dita licença, os quais referidos José Simões Dias e Guilhermina da Conceição se receberam por marido e mulher, e os uni em matrimónio com a benção do anel nupcial, e em seguida lhes lancei as bençãos matrimoniais, procedendo em todo este acto conforme o rito da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. Foram padrinhos as testemunhas presentes José Galvão Peixoto Lobato, natural da Carapinheira, telegrafista, representando o Exmº Miguel António de Sousa Horta, bacharel formado em Direito e residente em Coimbra e Dona Albertina Augusta Caldeira Galvão, natural de Figueira, representando também a Exmª Dona Maria da Glória Costa Sousa Albuquerque, residente em Coimbra. E para constar lavrei em duplicado este assento que depois de lido e conferido perante os cônjuges e testemunhas, os quais todos sei serem os próprios com todos eles assinei. Era ut supra.

O Pároco: Ignácio de Carvalho Freitas Jr.
José Simões Dias
Guilhermina da Conceição
José Galvão Peixoto Lobato
Albertina Augusta Caldeira Galvão
Francisco António do Rego - testemunha


(Livro Casamentos, 1851-1868, Paróquia de Sé Nova, Página 74)

No ano seguinte, porém, com pouco mais de sete meses de casados, Guilhermina, secumbia na melhor quadra da sua vida, com 24 anos de idade, flor tão modesta como formosa, vítima do vírus da varíola, doença fatal para a qual já havia vacina, na altura, mas que só foi erradicada, em 1980.
Deixamos, aqui, alguns apontamentos colhidos em Elvas, seu local de padecimento e morte, reveladores do muito amor que o poeta lhe dedicava e do muito carinho e amizade dos seus amigos.

Assento de óbito:

SANTA SÉ D'ELVAS - 1869 - Nº 32 - D.Guilhermina

Aos quatorze dias do mês de Abril do ano de mil oitocentos e sessenta e nove, às cinco horas da tarde na casa número doze da rua da Feira desta freguesia da Santa Sé de Elvas, faleceu, tendo recebido os Sacramentos da Santa Madre Igreja um indivíduo do sexo feminino, por nome Dona Guilhermina da Conceição Simões, de idade de vinte e quatro anos, natural de Coimbra, de estado casada com o Doutor José Simões Dias, moradora na casa supradicta, filha legítima de José Luís Lourenço e de Delfina Rosa de Jesus, não fez testamento, nem deixou filhos, foi sepultada no Cemitério público. E para constar lavrei em duplicado este assento, que assino. Era ut supra.

O Cónego Vigº José Maria d'A.Ribeiro

oooOOOooo

Termo de enterramento:

Livro nº 56 - Maiores 1869

Abril-15 | 1º Quarteirão - Nº 95 | Dª Guilhermina da Conceição Simões

Nesta sepultura se acha o cadáver de Dª Guilhermina da Conceição Simões, natural de Coimbra, idade 24 anos, estado Casada, moradora na Rua da Feira, nº 12, Freguesia da Sé. Faleceu de moléstia denominada Varíola grave.

O Guarda Fiscal do Cemitério: José Maria Lopes

Cemitério de S.Francisco, ElvasPEDIDO

Se um dia te lembrares de quem vive
No céu quem já morreu por ti de amores,
Vem desfolhar na minha campa as flores
Que tantas para ti no mundo tive!

Mas se acaso do tempo que passou
Nenhuma vã lembrança te ficar,
Não venhas meu sepúlcro interrogar...
Deixa dormir quem já por ti velou!

Jornal "A DEMOCRACIA PACÍFICA"
Nº 112, de 19 de Abril de 1869

Pág.1 - Nota da Redacção
Uma existência preciosa acaba de sumir-se na voragem da morte! Uma vida em flor acaba de ser segada pelos decretos eternos da Providência! A exmª srª D.Guilhermina da Conceição Simões, o anjo que desvelava a existência em tornar menos triste a vida do nosso particular amigo José Simões Dias, acaba de desprender-se do invólucro que a prendia à terra!

Nem carinhos de esposo, nem mimos de mãe, nem desvelos de médicos, nem dedicação de amigos, nem preces de todos conseguiram do Eterno prolongar uma existência de vinte e quatro anos, tão santa de virtudes, quão rica de resignação e fortaleza!

Parte-se-nos a alma ao recordar tão prematuro finamento e treme-nos a pena entre dedos ao traçar estas linhas! Há dores intensas que, quanto mais se abrigam no imo do peito, mais profundamente laceram o coração do que as sofre; há porém, outras que, quanto mais se desafogam, mais se concentram e doem. Não será fácil a explicação deste fenómeno, mas ninguém duvidará da realidade da sua existência. A natureza humana, embora sintetise o sofrimento e a dor, embora condenada à morte, não se familiarizará jamais com o seu destino nem receberá nunca de rosto sereno as leis fatais da providência. E contudo, quem dirá ao grão de areia que resista à corrente impetuosa do oceano sem lmites? Se é imprescriptivel, necessário e fatal o destino do homem, para que opôr-lhe essa repugnância que se transluz em toda a humanidade e que torna a vida duplicadamente penosa e triste? Ai! É porque além da morte, a inteligência humana apenas vislumbra o incógnito, o misterioso, o infinito, que só Deus conhece, penetra e compreende!

Mas não haverá no homem ao perder um ente adorado e santo, alguma coisa que lhe fale doutra vida, onde a virtude tenha seu prémio, o vício seu castigo? Há certamente, e isso que fala ao homem é uma influição celeste, uma fé racional. Deus não poderia nivelar o vício com a virtude no termo da vida, quando, durante ela, concedeu ao homem, apesar da limitação do seu intelecto, uma propensão natural para estimar o bem e aborrecer o mal. Se, pois, há outra vida, se lá existem bons e maus, para onde voaria o espírito, que rompendo o cárcere da matéria, desapareceu a nossos olhos?

Os anjos circundam o trono de Deus e é aí que ele deve de estar respendente de luz, implorando do Eterno caridade para os seus e para todos. Quem praticava esta virtude na terra, não pode esquecê-la no céu. Modifiquemos, pois, a nossa dor; não choremos a partida da esposa do nosso amigo; lamentemos apenas que fosse tão arrebatada que não pudesse continuar a inspirar-nos a virtude com o exercício de suas virtudes.

Pág.3 - Falecimento
Faleceu no dia 14 do corrente, pelas 4 1/2 horas da tarde, a exmª srª D. Guilhermina da Conceição Simões, esposa do nosso estimável amigo José Simões Dias. Depois de vinte dias duma aflitiva e complicada enfermidade, quando já a medicina a julgava livre de perigo, sobreveio-lhe uma pneumonia a que não pôde resistir. Sentimos profundamente este acontecimento e daqui enviamos os nossos sentidos pêsames a sua exmª família.

Pág.3 - Ofícios fúnebres
No dia 15, pelas 4 horas da tarde, dispensaram-se as derradeiras homenagens à exmª srª D.Guilhermina, na Sé Catedral desta cidade. Honraram esta solenidade fúnebre cento e tantas pessoas das classes mais distintas desta cidade, e pegaram depois às argolas do caixão os exmos. srs. drs. Sanches, Costa, Pousão, Ripado, Mata Pacheco, e exmo. sr. Santa Clara, Presidente da Câmara. Acompanharam o cadáver até ao cemitério algumas carruagens, indo na primeira o exmo. sr. juiz de direito, a quem coube fechar o caixão, e nas outras alguns amigos e afeiçoados do sr. dr. Simões Dias.

Pág.3 - Agradecimento
JOSÉ SIMÕES DIAS agradece a todas as pessoas desta cidade, não só o interesse que tomaram pela saúde de sua querida esposa, durante a enfermidade a que sucumbiu, como a todas que lhe despensaram a honra de assistir às derradeiras homenagens que lhe foram prestadas. Igual agradecimento dirige aos srs. drs. Fino e Namorado, especialmente ao primeiro, que fez quanto humanamente se podia fazer, para salvar minha esposa das garras da morte. Tantas provas de amizade e simpatia, tanta dedicação por um homem quase desconhecido nesta terra, são motivos bastante imperativos para não ser ingrato.

Simões Dias recebe um grande número de gestos de simpatia e afecto dos seus amigos mais próximos, expressando as condolências pela morte da sua amada e jovem esposa.

A J.Simões Dias,
NO TRANSE DERRADEIRO DE SUA PREZADÍSSIMA ESPOSA

Caríssimo amigo

Uma notícia fatal, inesperada, veio, nestes últimos dias, transtornar o curso ordinário de minha existência, arrancar-me lágrimas, e provocar-me saudades.

Tua mulher, a quem eu professava um afecto sincero, acudiu à vocação de Deus, que a destinguira sempre, e tu, pobre moço de 25 primaveras, aí estás chorando, viúvo como a rola, na soledade e na dor!

O mesmo anjo, que te afinara a lira de oiro para cantares, estalou-te as cordas, e emudeceu. D.Guilhermina da Conceição foi meteoro rápido que te alumiou, um momento, na esteira da glória e desapareceu: visão angélica que te doirou os horizontes da vida e fugiu: sonho encantado do teu amor, que te inspirou cantos formosos, te instigou a glória, te despertou o sentimento da arte, e desvaneceu-se!

Inteligência elevada, semblante formoso, graças de espírito, pureza de alma, sentimentos de acrisolado amor, tudo fugiu! Parte baixou ao sepúlcro para ser corroído pelos vermes do torrão; parte, porém, subiu aos céus, por que ocupasse o primeiro lugar.

Não se desvaneceu, contudo, a idolatria e as memórias desse infeliz amor. Em ti é perdurável, nela imortal, segundo Goëthe: está-te contemplando dos céus, sorridente de pureza, e abraçar-te-á um dia e vivereis eternamente.

Sobre a égide de seu carinho imenso, sob a tutela de seu amor desenvolveu-se o teu génio e robusteceu-se o teu espírito: e agora o génio desvaira, porque a dor é acerba; o espírito enfraquece porque a mágoa é superior? Não deve ser; porque os homens do teu talento olham com grandeza de ânimo a adversidade, e resignam-se ante os decretos da Providência que experimenta a paciência de seus servos.

Embora não tenhas para o futuro onde repousar a fronte queimada pelos sonhos de ambição que se não realizaram; há, todavia, no quadrante da cruz, mansão para aflitos, oásis no deserto de tuas esperanças decaídas, urna para as cinzas de tuas ilusões provadas.

Aquele amor pronto à abnegação e ao sacrifício, deve encontrar em ti um sentimento que, mesmo no transvio de tua dor, facilmente adivinharás.

Desculpa as palavras com que vou importunar a tua dor; mas crê que são filhas da muita amizade, que o meu coração te professa: aquinhoo de teus pesares e ofereço-te as minhas lágrimas sentidas para os minorares. Recolhe-as, que são sinceras como o sentimento que as gera.

Recebe um apertadíssimo abraço do
Teu íntimo e verdadeiro amigo

L.A.Gomes Freire
(in: Democracia Pacífica, nº113, de 6 de Maio de 1869)

Transido de dor na sua infausta viuvez, Simões Dias, resolveu sair de Elvas tendo deliberado transferir a sua residência para Lisboa, onde obtivera, por concurso, um modesto emprego na Secretaria de Estado da Justiça. Ainda se manteve em Elvas até Agosto de 1870, mas é de Lisboa que se despede dos seus amigos através do jornal "A Democracia":

Despedida e agradecimento:

J.Simões Dias, residente em Lisboa, não podendo voltar a Elvas, como tencionava, a despedir-se dos seus amigos e agradecer-lhes as muitíssimas atenções com que o honraram por espaço de dois anos, serve-se deste meio para significar a todos o seu reconhecimento e o desejo que tem de lhes ser útil em Lisboa, assegurando-lhes que em qualquer situação particular ou pública de sua vida saberá mostrar-lhes a sua eterna gratidão.

Lisboa, 4 de Setembro de 1870

J.Simões Dias

Os restos mortais de Guilhermina da Conceição continuam sepultados na cidade de Elvas. Simões Dias casou, em segundas núpcias, em Viseu, em 26/09/1872, com Maria Henriqueta de Albuquerque Lemos e Meneses, ele com 28 anos de idade, ela com 22, tendo nascido deste enlace uma filha, Judith de Meneses Simões Dias, em 13/07/1873.

Vivaldo Quaresma

Veja também:
Simões Dias - Sua vida e obra