JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Simões Dias Em 1880, no tempo da Monarquia Constitucional, reinado de D.Luís I, José Simões Dias, deputado do partido do governo, propôs o dia 10 de Junho, data em que ocorreria o 3º centenário da morte de Camões, para dia de gala nacional.

Veja, aqui, os termos em que o fez como autor do projecto que esteve na origem daquele que viria a ser o feriado nacional mais importante do nosso país e que veio a chamar-se: "Dia de Camões" (1933) - "Dia de Camões, de Portugal e da Raça" (1944) - "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas" (1978).

Apesar da sua intensa actividade literária, o Dr. José Simões Dias acabou, igualmente, por se interessar pela vida política do País. Era amigo pessoal do bispo de Viseu, D.António Alves Martins, figura destacada dos meios políticos e líder da esquerda mais radical. Assim, foi eleito em 1879 pelo círculo uninominal de Mangualde, integrando as listas afectas ao Partido Progressista, partido das classes médias formado em 1876 e que viria a extinguir-se em 1910, com a implantação da República.

Beneficiando do facto de ser uma figura conhecida a nível nacional, o seu nome acabou por ser votado em diversos círculos do Continente e até nas Ilhas; mas, desse «mal empregado descaminho de 15 anos!», não guardou boas recordações, acabando por abandonar a política em 1892, embora já se tivesse despedido de São Bento em 10/01/1889, com a apresentação do projecto de lei que previa a reorganização eclesiástica de Elvas.

Durante as várias legislaturas que cumpriu como deputado, enviou para a mesa um elevado número de representações, quase todas relacionadas com questões relativas à educação.

 

Fonte: Assembleia da República

Projecto de Lei nº 89-H

Senhores,

Generaliza-se em todas nações modernas da Europa o patriótico costume das comemorações cívicas, que são como que a apoteose póstuma daqueles vultos históricos que, sobre simbolizarem na ordem científica, artística e industrial, o progresso da época em que viveram, bem mereceram por serviços e trabalhos, a gratidão da terra que os viu nascer.

Essas comemorações poético-festivas, que vão assumindo o carácter de uma forma consciente de solidariedade social, celebram-se na Holanda e na Alemanha, na Inglaterra e na França, na Itália e na Espanha, em honra dos nomes gloriosos de Spinosa, de Hegel, de Lessing, de Dante, de Petrarca, de Miguel Ângelo, de Voltaire e de Cervantes.

A consagração oficial deste sentimento de justiça, com que os povos enaltecem a própria dignidade, e se retemperam na tradição, exalçando e radicando a memória dos homens que representam a síntese da evolução pacífica do progresso, não é um estéril e simples culto que os vivos prestam aos mortos, senão e sobretudo uma sagrada dívida de gratidão que as nações pagam a quem as serviu e honrou.

O nome de Luís de Camões representa na literatura moderna um mundo novo, aberto à actividade humana, bem como o regímen da guerra substituído pelo conflito do trabalho, e pela luta com a natureza nas descobertas e expedições marítimas.

Não faltam anais portugueses de nome que rasteje pelo de Camões em benemerências de poeta, nem de coração que o sobrepuje em prendas de singular dedicação pelas coisas da sua terra; podendo asseverar-se com afoiteza que nunca a tamanho talento andou aliado tamanho patriotismo.

Os Lusíadas acham-se hoje traduzidos em todas as línguas cultas, e o nome do épico português afigura-se e impõe-se a todos os espíritos, como a cristalização gloriosa da vida histórica da nacionalidade portuguesa. Assim o afirma a crítica científica desde Schlegel e Humboldt até nossos dias.

Pois bem, aproxima-se o dia 10 de Junho de 1880, memorável por ser em igual dia de 1580, que Luís de Camões, sucumbindo pela miséria e pelo desalento, cumpria essas dolorosas palavras proferidas na hora extrema dele e da pátria: "Ao menos juntos morremos!"

Anunciam vozes da imprensa, que tanto no país, como fora dele, se preparam numerosos trabalhos para o centenário de Camões; é de presumir que os estabelecimentos científicos e literários do país, que as empresas dos teatros e algumas câmaras municipais colaborem com os esforços da sua fecunda iniciativa no grande festival do poeta soldado; é possível que as salas da biblioteca nacional se convertam por indústria de espíritos levantados, em exposição pública de trabalhos literários sobre Camões, sua vida e obras; é certo que o nome do cantor das nossas antigas glórias será relembrado no dia 10 de Junho de 1880 com aquele sagrado respeito que a história não pode negar ao mais engenhoso espírito português do século XVI.

Urge, portanto, que esta câmara, por ser a legítima representante da vontade popular, não deixe passar aquele dia memorável, sem que em nome da nação coopere, imprimindo ao centenário de Camões o seu profundo carácter nacional.

Convencidos de que um Projecto de Lei, no qual seja proclamado de grande gala o dia 10 de Junho de 1880 e seja autorizado o Governo a auxiliar os trabalhos de iniciativa particular que nitidamente atestem o respeito da nação pelo nome de Camões no dia do seu festival, será um título de glória para o parlamento que o votar, temos a honra de propor à ilustrada consideração da Câmara o seguinte:

 

PROJECTO DE LEI

 

Artº 1º. É considerado de Festa Nacional o dia 10 de Junho de 1880, por se cumprir nele o terceiro centenário de Camões.

Artº 2º. É autorizado o Governo a auxiliar, segundo as forças do tesouro, quaisquer trabalhos de iniciativa particular, tendentes a comemorar aquele dia.

Artº 3º. Fica revogada a legislação em contrário.

 

Sala das Sessões dos senhores deputados, 16 de Fevereiro de 1880

 

José Simões Dias
António Enes
António Cândido Ribeiro da Costa

Fonte: Assembleia da República

Projecto de Lei nº 144

Senhores,

A vossa Comissão de Instrução Superior, tendo ouvido a ilustre Comissão de Fazenda, vem hoje, como lhe cumpre, dar o seu parecer sobre o Projecto de Lei nº 89-H, o qual, pretendendo solenizar o dia 10 de Junho de 1880, por ser o do terceiro centenário de Camões, autoriza o Governo a auxiliar quaisquer demonstrações particulares próprias a engrandecerem aquele dia.

A Comissão, honrando o cantor, que nos tornou conhecidos e respeitados na Europa, entende interpretar os intuitos desta Câmara, e os do país, aprovando o Projecto nº 89-H; e, assim, propõe que, dentro das forças do tesouro, se dispendam os meios necessários, para que atestemos aos povos civilizados o respeito e admiração de todos os portugueses, pela memória daquele, que no maior abatimento e desgraça de Portugal nos legou um livro eterno, suficiente para salvar do esquecimento uma nacionalidade perdida.

Camões não pode ser considerado só como poeta; nem apenas como soldado ou como homem de ciência. Consubstanciando toda a grandeza do génio do homem, afirmou-se na história portuguesa, pelos três elementos fundamentais, que caracterizam uma nacionalidade: a tradição, a linguagem e o território.

A tradição dá a um povo a unidade moral. A Grécia, Jerusalém da inteligência, é ainda um povo, porque se robustece nas tradições helénicas. Na época presente a sua grande e última manifestação política foi precedida da compilação dos cantos populares da Jónia.

Camões afirma a nacionalidade pela tradição; é esta a sua primeira glória. Repassando a sua epopeia das formosas tradições da gente portuguesa, contando a façanha de Geraldo sem Pavor, o milagre de Ourique, o feito de Egas Moniz, o episódio de D.Inês de Castro, o dos doze de Inglaterra, o naufrágio de Sepúlveda e o da ilha dos Amores, etc., dá aos sons clássicos a melodia popular, que respira das nossas crenças e do nosso patriotismo.

A língua está no ânimo de todos; e ninguém a castigou como o autor dos Lusíadas. Deve-se-lhe a profunda alteração, que ela sofreu no século XVI; e ainda hoje é tipo de linguagem o modo por que à frase se dá o sabor quinhentista, livre da forma antiga, e aprimorada com a precisão da sintaxe latina, justo meio que mostra ser Camões o primeiro de todos os escritores portugueses. Ao grande épico se deve a conservação e unidade da nossa língua. Depois da sua morte, o seu poema, lido pelo povo, obrigou-o a falar português, quando as outras classes falavam espanhol, tendo em pouco a língua pátria.

O território é afirmado por Camões, quando o descreve; quando o glorifica, esperando ver Portugal a monarquia do Universo; quando lhe dá força imensa e conhecida, iluminando as nossas façanhas com a glória do seu génio, e quando o defende como soldado nos combates da África e da Índia.

Assim, "tendo numa mão sempre a espada, noutra a pena", canta até à morte a grandeza da pátria, e ainda ao rei, a quem oferece o seu poema:

Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses
possam dizer que são para mandados,
mais que para mandar, os Portugueses.

A Comissão, tomada de respeito perante tão agigantado vulto da nossa história, e por isso do dever, que lhe incumbe, tem a honra de propor à Câmara, de acordo com o Governo, o seguinte:

 

PROJECTO DE LEI

 

Artº 1º. É considerado de festa nacional o dia 10 de Junho de 1880, aniversário da morte de Camões, havendo neste dia feriado em todas as repartições públicas.

Artº 2º. É autorizado o governo a auxiliar, segundo as forças do tesouro, quaisquer trabalhos de iniciativa particular, tendentes a comemorar aquele dia.

Artº 3º. Fica revogada a legislação em contrário.

 

Sala da Comissão, 5 de Abril de 1880

 

Manuel Pereira Dias
Mariano de Carvalho
Fernando A.G. Caldeira
H. de Macedo
João Cândido de Morais
Magalhães Aguiar
Luís Leite Pereira Jardim, Relator

 

A Comissão de Instrução Superior pede à Comissão de Fazenda o seu parecer sobre o projecto junto, relativo ao centenário de Camões.

 

Luís Jardim, Secretário

 

* * *

 

A Comissão de Fazenda não se opõe à aprovação do projecto nº 89-H, quando qualquer auxílio do Governo não exceda a verba orçamental.

 

Sala das Sessões, 4 de Março de 1880

 

Mariano de Carvalho
Francisco Serrão
H. de Macedo
A. Fonseca
F. de Castro Monteiro
António Enes
  Tem voto do Sr.
Pedro Franco

Transcrição documental por Vivaldo Quaresma      

Biblioteca Nacional de ElvasEm 10 de Junho de 1880, dia feriado nacional, celebrado entusiasticamente em todo o país, Simões Dias assiste às comemorações do tricentenário da morte de Luís de Camões (1524-1580), em Elvas, onde, aproveitando esta ocasião, se inaugurava a Biblioteca Nacional de Elvas, localizada em pleno centro histórico, num antigo Colégio Jesuíta, o qual começou a ser construído em meados do séc. XVII, sendo inaugurado com grande cerimonial em 17 de Agosto de 1692.
Esta biblioteca abrigou várias livrarias de extintos conventos e importantes doações particulares, possuindo um vasto espólio de grande valor histórico e literário.

Para assinalar a sua passagem, Simões Dias deixou escrita e assinada pelo seu próprio punho esta elegia ao grande épico português, entre muitas outras, escritas por gente ilustre da época que também se dignou abrilhantar este acto solene com a sua presença.