JOSÉ  SIMÕES  DIAS

Lacrimæ rerum


I

Eu venho a sós contigo, ó noite escura,
No teu seio chorar minha tristeza,
Até que se abra, enfim, a sepultura!

Dos destinos humanos na incerteza,
Cada noite que passa e cada dia
Só serve de aumentar tanta crueza!

Nem sei mesmo se ao fim desta agonia,
Quando à luz do Senhor se abrir meu peito,
Nele entrará um raio de alegria!

Tal é a triste sina a que ando afeito,
Que não sei se é de vivo se é de morto
Este gelado riso contrafeito!

Quando às vezes me lanço do meu horto
Ao ruidoso alor que o mundo agita,
Que enorme e incomparável desconforto!

Por toda a parte o desespero, a grita
Dos náufragos da vida, e nesses ares
Nenhum farol, nenhuma luz bendita!

Também eu lanço os olhos pelos mares
A ver se vejo o porto desejado
Onde acabem comigo os meus pesares!

Mas qualquer luz que eu veja em céu nublado,
Se me ponho a fixar os olhos nela,
Subitamente em trevas se há mudado!

Como foge dos lábios da donzela
Um ai que se desfaz subitamente,
Assim me foge a mim a esperança bela!

Assim foge o murmúrio da corrente,
Ou em noites de horrível tempestade
A repentina luz do raio ardente!

Coitado de quem vive na orfandade,
Os olhos rasos de água e a sepultura
Sempre aberta a lembrar a Eternidade!

Pobre de quem não tem outra ventura,
A não ser uma lágrima que chore
No teu seio de horror, ó noite escura!

II

Por mais que eu erga as mãos e a Deus implore
Que os olhos ponha em mim e o meu flagício
O termine depressa ou o minore,

Nunca descança este cruel suplício,
Um círculo de ferro que me aperta
Os espinhos sangrentos do cilício!

E eu creio firme em Deus! Na vida incerta
Que seria de nós se ele não fora
O nosso guia, a nossa estrada aberta!

Eu creio em Deus, que o vejo a toda a hora,
Ou comece a cair dos altos montes
A noite ou a romper a linda aurora!

Ou se lastimem a chorar as fontes
No silêncio do vale ou mesmo quando
Se iluminam ao longe os horizontes!

É sempre o meu tormento miserando,
Ou acorde de noite em sobressalto,
Ou me ponha depois a Deus orando!

Quem de amparos se vê no mundo falto,
Que mais tem a fazer no triste mundo
Do que estender seus olhos para o alto?

Quando o rosto de lágrimas inundo,
Então mais creio em ti, porque me deste
O pranto de meus olhos - mar sem fundo!

Meu Deus, se dás alento à flor agreste,
E o aljofre da fresca madrugada
Lhe mandas cada dia, ó pai celeste,

Faz também que esta alma atribulada
Veja através das lágrimas que verto
A rutilante luz de uma alvorada!

Pois se penso que o céu anda mais perto,
E que um olhar amigo me procura,
Mais solitário vejo o meu deserto!

Pobre de quem não tem outra ventura,
A não ser uma lágrima que chore
No teu seio de horror, ó noite escura!


III

A mim de que me serve que se inflore
O prado em seu Abril, se andam errantes
Meus olhos, sem achar onde os demore?

Apagou-se-me a luz que eu tinha dantes,
A luz que no meu peito se acendia
A toda a hora, a todos os instantes!

O que é ser-se infeliz nem eu sabia,
Pois que dentro de mim um Sol andava,
O Sol brilhante da íntima alegria!

Oh! Mesquinho de mim que mal cuidava
Que houvesse de cair tão cedo a estrela
Que da altura do azul me alumiava!

Foi de Deus providente o suspendê-la
No alto céu, qual lâmpada num templo,
E não podia Deus também sustê-la!

Nem eu sei o que julgue se contemplo
De uma luz que se apaga, mal desponta,
O destino fatal, o estranho exemplo!...

A dor traz-me a cabeça quase tonta,
Por mais que faça é sempre em vão que intento
Dar dos meus males acertada conta!

Anuvia-se o olhar e o entendimento
Apaga-se de chofre, como às vezes
Apaga a luz o ímpeto do vento!

Represam as ideias como as fezes
No fundo de uma taça; até o pranto,
Companheiro fiel dos meus revezes,

Me não serve de bálsamo! Entretanto
Quando sinto que a dor me despedaça,
Ao mesmo tempo choro, rio e canto!

Mas este riso é como a luz que passa
Em negra cerração, quando fulgura
Raio furtivo em trémula vidraça!

Pobre de quem não tem outra ventura,
A não ser uma lágrima que chore
No teu seio de horror, ó noite escura!

IV

Se alguma vez o pranto a face irrore,
A desbotada face de quem sofre,
Sem que ninguém a mágoa lhe minore;

Se alguma vez das lágrimas o aljofre,
Como um soro que vem do coração,
Nos olhos rebentar a flux, de chofre,

Ninguém pergunte à muda escuridão
Porque motivo sofrem tantas almas
Que vêm chorar contigo, ó solidão!

Que o mesmo é perguntar às verdes palmas
Porque é que o Sol lhes queima a tenra folha
No estio ardente das ardentes calmas!

Ninguém o sabe! Quando o pranto molha
A trémula pupilla e ao seio aflue,
É porque já não tem aonde se acolha!

Deixai-o ir em paz; se ele reflue
Ao mar donde saíu, no mar se esconda,
Embora em nosso peito o mar estue!

Astros do céu não pergunteis à onda
Que dos meus olhos desce ao fundo oceano,
Os segredos da dor que só Deus sonda!

Deixai que eu me consuma neste engano,
Embora a Deus suplique, a Deus implore
Que ponha fim a tanto desengano!

Pobre de quem não tem quem lhe minore
O amargo padecer - outra ventura,
A não ser uma lágrima que chore
No teu seio de horror, ó noite escura!

J.Simões Dias

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