ALMINHAS

Alminhas da Ponte Fundeira

Encruzilhada das Almas

Ponte Fundeira

Azulejo ornamental

Azulejo ornamental

Alminhas populares

Situado à entrada da Benfeita, em local que convida ao descanso, à reflexão e à oração, este nicho de pedra e cal foi mandado construir em 1963, por Adelino da Costa e esposa, Emília Santos Nunes, em memória de sua mãe Maria da Ressurreição. Foi completado em 17 e benzido em 18 de Maio pelo Arcipreste de Arganil, Pe. Américo Brás da Costa.

 

ALMINHAS

Alminhas que o povo crente
Semeou no meu país,
São votos que o povo sente
- Orações que o povo diz.

Alminhas a sufragar
As almas de quem morreu,
São luzinhas a apontar
Altos caminhos no céu!

Vasco de Campos / 1985

Alminhas da Corga

Alminhas de S.Bartolomeu

Estes pequenos monumentos religiosos que pedem a oração dos que por eles passam, em favor das almas do Purgatório, são uma das expressões mais originais da arte popular portuguesa e atestam a sua grande religiosidade.

São constituídos por um oratório e um painel ou retábulo, representando as almas que ardem no fogo do Purgatório, encontrando-se na berma das estradas e nas fachadas das casas, espalhados por todo o país, embora em maior número no Norte e no Centro.

As almas que ardem no Purgatório, simbolizado por uma fogueira, rezam para assim pedirem o auxílio dos santos e também das pessoas que por lá passam, que rezem por elas, para poderem ir para o Céu. As divindades representadas eram escolhidas pelos artistas ou por quem as mandava construir.

As almas são normalmente figuradas como bustos humanos de adultos, de ambos os sexos, de todas as categorias, vocações e raças. As crianças que, segundo a crença, eram puras de alma e sobem de imediato ao Paraíso sem passarem pelo Purgatório, não aparecem representadas nas Alminhas.

Em Portugal, as primeiras representações artísticas do Purgatório só aparecem a partir do século XVI. Durante o séc. XVII, os quadros do Purgatório espalham-se mais ou menos por todo o país. No séc. XVIII as pinturas ao ar livre das cenas do Purgatório espalharam-se, em grande número, por muitos caminhos e povoações. Nos séc. XIX e XX as pinturas do Purgatório mantiveram-se, embora quase todos os retábulos tenham sido substituídos por painéis de azulejos.

[Do livro de Manuel João Maia Tojal, "Alminhas"]

Entre as almas do Purgatório há muitas que nunca cometeram um pecado grave na vida normal. Porém, por não terem satisfeito à justiça divina pelos pecados veniais com que a ofenderam, ficam retidas no lugar da purificação até que tenham feito a expiação do último, porque no Céu nada de impuro pode entrar.

A oração pelos defuntos é uma tradição da Igreja e o mês de Novembro é dedicado às Almas do Purgatório. Quem entrou no Purgatório já está salvo, porém, em constante estado de expiação e purificação das máculas que se agregaram à sua alma durante a vida terrena. No entanto, que isto não sirva de consolo ou de motivo para justificar a prática de pequenos pecados.

Não devemos, nunca, deixar de rezar pelos mortos que dependem das nossas orações e intenções, nas celebrações eucarísticas. É muito bela a devoção às almas do Purgatório! Agradável a Deus, proveitosa às pobres almas e utilíssima a nós mesmos. Não fechemos os nossos ouvidos aos gemidos de quem padece no Purgatório. Eles levantam as mãos para nós, suplicando o nosso auxílio. Lá estão pais amorosos, que aos filhos e às esposas dedicaram os seus cuidados, dia e noite. Lá estão muitas mães que ternamente amaram seus filhos e seus maridos. Irmãos, cuja morte muito nos entristeceu. Amigos, que connosco caminharam e tantas alegrias nos proporcionaram. A nós se dirigem suplicantes: "Compadecei-vos de mim, ao menos vós, que sois meus amigos, porque a mão do Senhor me tocou". (Jó 19, 21)

[Do livro de Pe. João Batista Lehmann, "Na luz Perpétua"]

ALMINHAS DA MINHA TERRA

Quem não conhece as alminhas
Dessas estradas da Beira,
Umas pinturas singelas
Num pedaço de madeira?

Almas de nossos parentes,
Almas de nossos avós,
Almas que falam com alma
À alma de todos nós?

Algumas têm por baixo:
Ó vós todos que passais,
Antes que vades além,
Lembrai-vos de vossos pais.

Algumas são malfeitinhas,
(Não soube mais o pintor...)
Que importa a forma do corpo?
Na alma é que está o valor.

Benditas sejam as almas
Da beira do meu caminho!
Enquanto rezo por elas,
Não vou na estrada sozinho.

Algumas têm um alpendre.
São almas hospitaleiras,
Como em geral são as almas
Nas boas terras das Beiras.

Algumas foram roubadas.
(Quem tal acreditaria?)
Ficou a casa por conta.
Padre Nosso e Avé Maria.

Nalgumas almas, coitadas!
Foi-se a pintura que havia.
Que importa? Sempre são almas.
Padre Nosso e Avé Maria.

E há corações de pedra
Cheios de orgulho e ambição
Que passam por estas almas
Sem um ar de compaixão!

Eu gosto de encontrar almas
À beira de estrada nova
- Triste sinal do progresso,
Que nunca passa da cova.

É pobre a casa das almas,
De adornos, que não de graça,
Não pode estar num palácio
Quem pede esmola a quem passa.

As almas que são bem feitas
Prendem a nossa atenção.
«Rezai pelo nosso autor»,
Dizem-nos elas então.

Tirar agora o chapéu
Neste tempo de invernia...
- A chuva não mata a gente.
Padre Nosso e Avé Maria.

Ir com a cabeça ao sol
Tropical, ao meio dia...
- É por pouco, não faz mal.
Padre Nosso e Avé Maria.

Algumas são tão velhinhas!
Santas avós que Deus tem,
Deus vos admita depressa
Na sua morada. Amen.

Ó almas da minha Beira,
É tão triste andar sozinho!
Sede minhas companheiras
À beira do meu caminho.

[Da Terra ao Céu - 1935]


Padre Augusto Nunes Pereira

Distinto artista plástico e poeta de bom merecimento que, durante largos anos, paroquiou a freguesia de Coja.